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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como Pérola sobreviveu, com as duas netas, ao ataque do Hamas.

Meu nome é Pérola Gaz. Estou vivendo agora no Kibbutz Hatzerim, aqui perto de Beersheba, mas o meu kibbutz onde eu vivia era Kibbutz Beeri. E agora já estou próxima dos 70 anos.

Pérola Gaz estava sozinha com as duas netas em casa, na noite de 6 de outubro de 2023. As duas meninas quiseram ficar a dormir com a avó. Uma tinha seis anos e a outra, 10. O avô, Luiz Mário, estava em Madrid com outro dos netos. Sábado era dia de ir ao Santiago Bernabéu ver o Real Madrid x Osasuna. Pouco depois das 6h30 da manhã de dia 7 de outubro, o Hamas lançou uma ofensiva em larga escala a partir da Faixa de Gaza e começava aí um pesadelo pra esta família. Pérola e o marido, Luiz Mário, vieram do Brasil nos anos 80.

E tem uma neta que fez um pão especial pra vocês, que a gente come sempre na sexta-feira.

Receberam-nos na casa provisória em Hatzerim, a cerca de 45 minutos do local onde viviam, no Kibbutz de Beeri. Estão agora numa casa pré-fabricada, num aldeamento gigante. Na mesa, havia iguarias israelitas, mas também pão de queijo. As meninas fizeram a salada e o pão, e até havia uma garrafa de vinho tinto da Judeia. Este é um episódio especial da História do Dia gravado em Israel. E esta é a história de Pérola e do terror que sentiu a 7 de outubro de 2023, durante 20 horas, trancada num quarto. Fica um aviso: há descrições de cenas de violência e este episódio não deve ser ouvido por crianças ou pessoas sensíveis. O que aconteceu naquela manhã de 7 de outubro consigo e com as suas netas?

Parecia um dilúvio. Nunca vi isso na minha vida. Uma coisa monstruosa. Uma história muito pesada e triste, que era um evento que ninguém estava entendendo o que estava acontecendo naquela manhã do 7 de outubro. Um kibbutz inteiro, que nós somos mil e tantas pessoas que vivem lá. Nesta manhã de sábado, por volta de umas 6h30, ouvimos que tinha a sirene, uma coisa normal, que acontece normalmente já há 20 e tantos anos. Achávamos que era uma sirene, como sempre, e eu falei pra minhas netas que estavam dormindo na minha casa: "Olha, vocês fiquem aqui no quarto de segurança, que eu vou só pegar água pra nós, um biscoitinho". Liguei a televisão pra elas e falei: "Daqui a pouco vai passar isso tudo e vamos continuar nossa vida como sempre". Mas, em seguida, começou todo o transtorno, toda aquela coisa terrível, anunciando no aplicativo do telefone, no nosso kibbutz, que existiam terroristas dentro do kibbutz. Mas, na verdade, nós todos sempre estávamos preparados que algum dia poderia acontecer de ter terrorista dentro do kibbutz. Mas na nossa cabeça passava: "Ok, terrorista, quantos pode ter? Dois, três, quatro?" Nós temos um grupo de segurança de soldados do nosso kibbutz, que estão sempre de plantão em momentos que possam ocorrer coisas. E era um grupo de 12 ou 15 rapazes, todos com as suas famílias, abandonaram as suas famílias neste momento. Cada um deixou famílias com filhos dentro de casa, pequenos, deixaram as mulheres sozinhas e eles foram pra lutar. E quando eles chegaram e viram o que estava acontecendo, pelo caminho já foram morrendo e começaram a ver a quantidade, de onde saíam tantos terroristas, por tudo que é lado.

E o exército?

O exército não tinha ainda nem conhecimento das coisas que estavam acontecendo, ou quando tiveram momentos que já estavam tendo conhecimento, não chegavam, ou quando chegavam também na porta, já tinha um grupo enorme de soldados, tudo do lado de fora do kibbutz, e ainda não podiam entrar que não tinham recebido ordem pelo comandante mais alto deles ou pelo governo, e não entravam. E os nossos soldados, seguranças do kibbutz, diziam: "Entrem, entrem que tá morrendo muita gente aqui, entrem!" E eles não podiam entrar. Isso levou muitas horas, mas muitas horas, até que o exército pôde começar a agir. Já era bem tarde do dia, eu acho que na parte da tarde, mas ao mesmo tempo, nós todos dentro das casas, imediatamente começou a ter falta de luz. Estávamos no quarto de segurança sem luz. Todos nós recebendo já recados, um monte de informações aí pelo telefone, o celular, porque já estavam passando pelas televisões em todas as casas, em todo o país, o que estava acontecendo. Na verdade, nós não estávamos vendo. E todo Israel já estava vendo tudo isso. Ele estando em Madrid, e como ele Tinha também o aplicativo do kibutz no telefone dele. Meu marido estava acompanhando todas as mensagens de tudo que estava acontecendo. Então ele sabia de muitas coisas que eu não estava sabendo. E eu ouvia, e ele ouvia também, que estavam dizendo que na casa de um vizinho tem gente que está pegando fogo às casas. E eu estava sabendo de uns super amigos nossos também, que a casa está pegando fogo. E eu só disse para as minhas meninas no momento que aconteceu: "A partir de agora, vocês não podem mais falar, porque nossas casas estão todas cercadas de terroristas". E por volta da minha casa, o tempo todo, nós ouvíamos os gritos de todos os terroristas e eles atiravam o tempo todo para todos os lados. Os meus vizinhos, que eram como se fossem a minha família, a nossa família mesmo, filhas maravilhosas, que nós éramos para essas moças, como se fôssemos os avós delas também, e eles têm um filho, que foi o único que sobreviveu. Esses nossos vizinhos foram assassinados. Até hoje, eu não consigo ficar triste, nem sofrer por eles. Eu, o tempo todo, tento botar isso de lado, que eu não quero aceitar que eles morreram. Muito difícil pra mim essa parte.

E as meninas?

Eu sei que as horas pareciam que não passavam. E as minhas netas, eu procurei cuidar delas, não como avó. A minha profissão era professora de jardim de infância há muitos anos e eu tentei cuidar delas como se fosse professora. Então eu cuidei delas, que não tínhamos mais maneira de respirar direito, porque faltando luz, não tinha ar dentro do quarto de segurança. Eu abanava elas com um livrinho que eu achei numa gaveta, no armário. Eu dava pra elas um pouquinho de água pra cada uma. A menina de 10 anos estava desidratada, ela transpirava muito e eu senti que ela estava totalmente desidratada depois de um período. Eu não tinha muita coisa pra fazer.

Quanto tempo estiveram lá? Que idade tinham as meninas?

20 horas ficamos dentro desse quarto e eu só tinha dois biscoitinhos pra cada uma durante o dia todo, água. Eu tinha suco de laranja, que eu pensei nisso porque eu tenho problema de açúcar. Eu resolvi que eu ia trazer o suco de laranja e esse eu deixei mais pra mim, pra eu não ter nenhuma queda do açúcar e delas ficarem sozinhas.

E que idade tinham as meninas?

A mais velha tinha 10 anos, agora já está com 11 e a pequena tinha seis, agora está com sete.

E como é que manteve a porta trancada?

A minha porta do meu quarto de segurança não estava trancada. Eu só botei um sofá perto da porta. Eu sabia que isso não iria ajudar em nada, que se eles tivessem que entrar, eles empurram o sofá e podem entrar. Eles tentaram abrir a janela do meu quarto de segurança uma vez. Essa foi a hora que eu imaginei: "Uau, acabou aqui pra gente. Com certeza agora a gente vai morrer". Mas eles desistiram e não fizeram nada. Eu sei, sim, que uma coisa desde o início eu fiz. Eu falei: "A única coisa que eu posso parar, pensar, é um direito que eu tenho de estar em contato com Deus, fazer as minhas preces, as minhas rezas e pedir que ele fique com a gente", que eu acredito muito em Deus, ele sempre esteve comigo, sempre estará comigo. Eu acredito que ele que nos ajudou, porque numa situação como essa, nunca ninguém pode imaginar quem vai ficar vivo e quem vai morrer.

Já voltamos a esta conversa com Pérola Gaz, que nos recebeu em casa, em Hatzerim, Israel. Na segunda parte, a angústia de Luiz Mário em Madri, que chegou a pensar em apanhar um táxi pra Israel, e como se lida com este trauma. Continuamos sentados à mesa, na casa de Pérola e de Luiz Mário, em Hatzerim, Israel. 15 meses depois, tudo continua muito fresco na memória de Pérola Gaz. E quando é que percebeu que podia sair? O que aconteceu?

Olha, eu estava acompanhando todo o aplicativo do kibutz e eu estava ouvindo que na casa desse, um já morreu, outra casa, dois morreram, outra casa pegou fogo. Você ouve todos os tiros. Meus vizinhos não estavam mais me respondendo. Você começa a imaginar que a coisa é grande demais. Você não sabe quanto, mas é grande. As minhas meninas ficaram comigo o tempo todo sentadas no chão, num cantinho, embaixo da janela, e dali a gente não saía pra nada. Todas as necessidades delas também, tudo é feito dentro desse quarto, como tivesse que ser. E elas não podiam falar e nem eu falar. O telefone não parava das pessoas toda hora escreverem, todo mundo do Brasil, todo mundo de Israel. E eu respondia pra todo mundo, que eu vi que todo mundo estava preocupado. Eu com ele o tempo todo. E eu e ele, numa hora, nós nos despedimos. Nós falamos um com o outro: "Acabou aqui, alguém tem que ficar vivo. Nesse caso é você que tem que ficar vivo, que eu não sei o que vai ser eu com as meninas". E ele de lá, desesperado, sem poder fazer nada. Ele também dizia: "Não posso ficar sem você". Eu falei: "Não tem jeito".

Ele é o Luiz, o marido que está sentado ao lado de Pérola. Estão juntos há mais de 50 anos.

Mas hoje em dia quando eu paro pra pensar nisso, eu penso e digo, eu tenho várias perguntas que eu faço, e eu estou com meu tratamento psicológico já há muito tempo.

Quais são as perguntas que faz?

As perguntas que eu me faço: como que nós fomos escolhidos pra continuar na vida? Como? Com 102 pessoas que foram assassinadas dentro do nosso kibutz, como que eu fiquei? Como que as minhas netas sobraram? Me passava também lá: como é que eu vou pra casa? Será que eu saio disso? E será que minhas netas vão sair disso? E se elas não saírem, como é que vai ser? O que eu vou dizer pros pais delas? Que as minhas netas ficaram comigo, porque ele não estava comigo. E eu levei a minha família toda pra comer num restaurante uma noite antes. E falei pra toda a minha família: "Vamos nós também passear, que eles foram passear, o avô com o neto. Vamos nós também pra um restaurante pra passear". E viemos todos e no final eu falei pros meus netos: "Quem quer dormir com a vovó essa noite que o vovô não está?" Na mesma hora, duas levantaram. "Eu quero dormir com a vovó." E se acontecesse com elas alguma coisa? Na minha cabeça, fui eu que convidei elas pra virem pra dormir comigo nessa noite.

Segundo Pérola, o exército diz que gritou por ela, mas elas não responderam. Tanto a avó como as netas não têm memória disso e referem que não responderiam. Não sabiam que estava do outro lado da parede ou da porta.

Agora, não respondemos. Os soldados vieram, mas nós ouvimos os passos, que está se aproximando alguém da nossa porta. Essa foi a segunda vez que também me subiu. Eu falei também: "Agora acabou a nossa vida outra vez". Aí era o exército que entrou. Três soldados entraram dentro do quarto, na porta, segurando um cachorro. Dois deles seguravam o cachorro. E eles ali na porta, e eu gritava igual uma louca. Eu gritava: "Vocês realmente são soldados, vocês realmente são do exército? É de verdade, eu posso acreditar?" E eles ficavam tentando me acalmar pra eu poder acreditar que eles são soldados. Eles iam em hebraico, eles falavam: "Nós somos os soldados, viemos te salvar". Aí eu vi também o cachorro. Eu falei: "Bom, só pode ser eles", porque uma coisa me lembrava na cabeça também que era lógico. Cachorro não viria com terroristas, que terroristas morrem de medo desses cachorros. Eles entraram e o cachorro ficou bem perto assim da gente. As minhas duas meninas, a grande do lado direito, a pequena do lado esquerdo, eu no meio e o cachorro veio logo direto em cima da menina, do lado direito, a Neomia, a grande, e avançou. Ele agarrou a perna dela, mordeu ela toda na perna, mordeu ela na barriga toda. E mordeu ela no braço, mas ele puxava o braço dela, que queria arrancar o braço dela. Eu fiquei louca da minha vida, esse foi o pior momento da minha vida, que eu falei: "Nós estamos vivas, só falta eu levar uma menina sem braço pra casa?" Falei: "Não tem lógica". Eu simplesmente avancei em cima do cachorro, porque eu dizia pro cara: "Solta, tira esse cachorro daqui". E ele dizia pra mim: "A senhora tem que ficar calma, porque senão o cachorro vai ficar mais agressivo ainda". Eu digo: "Está bem, eu vou ficar calma e você tira esse cachorro daqui". Eu subi em cima do cachorro e tentava abrir a boca do cachorro. Esses cachorros não abrem a boca. A segunda vez que eu peguei, ele abriu assim um pouquinho de nada, dei o maior grito com o cara: "Agora tira ele daqui!" Aí é que ele tirou, mas aí o cachorro também me mordeu nos dedos e a menina também saiu toda mordida. E pra sair, saí sem óculos, só de pijama. E telefone já não estava funcionando mais há muito tempo, porque tinha acabado de todo mundo o telefone, já, a bateria. Levaram a pequenininha no colo, porque ela não tinha sapato pra botar e tinha muitos vidros na casa. Eu saí da minha casa, não olhei pra trás. Eu não queria saber o estado da minha casa. Falei: "A casa é a coisa que menos me importa. O importante é que nós saímos daqui vivas e seguimos em frente". Aí eu pedi que falasse com meu filho pra avisar que nós estamos vivas, que ninguém sabia aonde nós estamos. Meu filho e minha nora, eu soube depois que eles já tinham se abraçado e chorado e pensavam que eu já estava em Gaza com as minhas netas ou que a gente já morreu. E nos levaram depois pra Netivot, a outra cidade próxima do kibutz. E lá é que eu me encontrei com a minha família. Esse foi o momento louco da minha vida. Não acreditei. Que minha família estava toda viva. A gente tem o que contar, mas pelo menos estamos todos juntos.

Luiz Mário, que estava em Madrid com o neto, junta-se agora à conversa.

É, você já tinha falado pra mim pra não deixar de fazer nada com ele, mesmo estando dentro do abrigo. Disse: "Você vai continuar levando com ele", porque o que ela queria fazer? Ela queria que eu não contasse nada pro meu neto do que estava acontecendo. Mas com a tecnologia do WhatsApp, é besteira, que ele dizia pra mim: "Vô", o Carmelo é um amigo dele. "O Carmelo foi assassinado". Falei: "Como é que você sabe?" "No grupo da escola já estão falando". Quer dizer, ele sabia mais rápido do que eu, do que tinha acontecido. Depois disse pra mim que a mãe do Carmelo morreu. Soube pela uma amiga que mora na Holanda, que foi da escola dele. Quer dizer, não tem como você esconder de um cara de 15 anos o que está acontecendo. A única coisa que eu falei pra ele, falei: "Olha, pelo que eu estou vendo, sobraram eu, você e teu pai que não está no kibutz. É o que sobrou. Nós três vamos ter que refazer a vida só nós três", porque na minha cabeça não tinha sobrado ninguém. Eu tentei ligar pro jornal de Israel pelo meu telefone. Então disseram no telefone que no refeitório de Beeri são 50 reféns. Eu falei pra ele: "Olha, se tua avó não está em casa". Disseram pra mim: "Olha, nós estivemos na tua rua e elas não estão em casa". Alguém me disse isso, não me lembro quem. Eu falei: "Bom, então elas estão reféns no refeitório". Depois apareceu escrito na televisão que os reféns foram liberados. Falei: "Olha, se os reféns foram liberados, ela estava no refeitório. Então ela foi liberada, estou tranquilo". Depois eu fiquei sabendo que não tinha refém nenhum, não tinha refeitório, não tinha nada. Era um outro lugar que teve um problema numa casa, na casa da Pessi, que chamavam de refeitório. E eu estava também completamente perdido, não sabia, que eu ficava em contato só com meu filho ou com a minha filha. Com minha filha também, ela dizia: "Não se preocupa que o exército está chegando. Não se preocupa". Às sete horas da manhã ela me falou isso, às oito da manhã, às nove, às 10, às 11. Falei: "Vai chegar quando?" Eu não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo com ela, porque com todo mundo que eu falava: "Nós já estivemos lá na tua rua, não tem ninguém em casa". Que eu imaginei que ela tinha sido levada pra Gaza com as meninas, porque se ela não está em casa, ninguém sabe onde está. Só depois das meia-noite, que meu filho escreveu pra mim. Você só saiu às duas da manhã.

Só saí duas horas da manhã. 10 pras duas da manhã.

À meia-noite ele já estava em Netivot e ele disse: "Olha, ainda não sei nada, que eu souber de alguma coisa, aí eu te ligo". Eu fiquei a noite inteira sem dormir. Depois ele mandou um retrato, foi ele que mandou. Um retrato dela já em Netivot. Aí que eu fiquei tranquilo.

Como é que nos descreve o que o senhor sentiu durante todas essas horas, estando em Madrid, tão longe?

Olha, eu sempre disse que eu estava numa situação surrealista. Imagina, eu dizendo pra ela: "Eu quero voltar pra Israel", ela dizia: "Não, você vai pegar o teu neto e vai continuar a fazer o que vocês tinham combinado. Você tem que ser forte e fazer". Eu peguei ele dentro do metrô, no telefone, viajando pro estádio do Real Madrid, nessa situação. Entrei no estádio com ele, não assisti o jogo. Não assisti, porque eu fiquei sentado, todo mundo em pé cantando e gritando, e eu sentado chorando e procurando no telefone com quem falar. E eu continuei no telefone o tempo todo. Depois saí do estádio, fui pro hotel e o tempo todo no telefone, porque quando o telefone dela acabou a bateria, eu recebi um telefone de um amigo meu, que mora no bairro, perguntando pra mim: "Você sabe alguma coisa da Pérola?" Eu falei: "Não sei nada". Ele falou: "Eu vou verificar pra você". Ótimo. Ele simplesmente pegou a iniciativa de fazer isso pra procurar as pessoas. E eu estou esperando no telefone, fiquei telefonando pra ele, perdi o contato com ele, não sabia de nada. Conversei com meu filho, depois meu filho disse pra mim: "Não telefona mais pra ninguém, só comigo. Eu vou administrar toda a situação".

Posso perguntar a eles o que disseram um ao outro quando percebeu que sua mulher já estava viva, qual foi as primeiras coisas que conversaram os dois?

Primeiro lugar, a gente não se encontrou muito rápido, porque ele não conseguiu passagem pra vir rápido.

Pra trocar o meu voo. Meu voo era pro dia 10.

Ele só chegou dia 11.

11 de manhã.

Só dia 11 ele chegou. Quando ele chegou.

Você lembra o que a gente se falou quando eu cheguei, não?

O que eu lembro mais é que a gente precisava realmente ficar muito abraçados. Isso eu me lembro muito. Você logo queria falar, que você gosta de falar. A gente sabe disso.

Mas então vou dizer, você perguntou: "Trouxe o meu perfume?" Não é? É pra abaixar o tom. Não, a gente só ficou abraçado.

Boa ideia, por que eu não pedi o perfume dessa vez?

Não, mas você não tem o que falar.

É meio difícil, eu acho, de encontrar palavras nesse momento, mas que precisava estar juntos, isso sim.

Este casal esteve cerca de um ano a viver num hotel, no Mar Morto, tal como outros muitos milhares de deslocados. O ataque foi há 15 meses. Pérola só regressou ao seu kibutz, Be'eri, há dois. A casa está a ser reconstruída e, para já, há a intenção de regressar. As crianças continuam perturbadas com o trauma que sofreram. A menina que foi mordida está a fazer terapia com cães e já esteve com o animal que a atacou. Disse ao avô que o cão lhe pediu desculpa. Pérola e Luiz adoram Portugal. Pérola dispensa bacalhau. Já Luiz adora. E de vinho português nem se fala. Em breve será possível vê-los, seguramente, de mãos dadas em Santa Cruz ou numa outra praia da região Oeste. Sempre juntos. Mas a festa dos 70 anos de Pérola, essa vai ser no Japão. Uma viagem há muito adiada e desta vez vão mesmo. Esta foi a História do Dia, um episódio especial gravado em Israel, para onde viajamos a convite da Embaixada Israelita em Lisboa. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.