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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Os casos de corrupção na Ucrânia podem prejudicar a ajuda militar? No habitual discurso noturno, na segunda-feira, Volodymyr Zelenskyy anunciava pelo Telegram que assinou um decreto que proíbe os elementos do governo de sair do país. Zelenskyy explica que só podem passar a fronteira no âmbito de missões oficiais. Quinze responsáveis políticos de topo, e pode não ficar por aqui, foram demitidos ou demitiram-se em poucas horas na Ucrânia. Em causa estão casos de corrupção. Suspeitas graves numa altura em que Kiev clama por mais armamento pesado para fazer face a uma provável nova ofensiva russa. O presidente Zelenskyy quer dar uma imagem de tolerância zero e promete atuar em conformidade. Por exemplo, depois de se ter descoberto que o vice-procurador-geral da República foi passear de férias num Mercedes emprestado por um oligarca até ao sul de Espanha, Zelenskyy resolveu trancar as fronteiras. Que casos são estes? E de que forma podem ameaçar a ajuda militar e o apoio financeiro? Vou conversar com a jornalista Cátia Bruno, especialista internacional e que há muito acompanha a evolução da guerra e esteve como nossa enviada especial em Lviv nos primeiros dias do conflito. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia.
Olá, Ricardo.
De quantos casos é que estamos aqui a falar?
Estamos a falar de 15 demissões ao todo, mas não é claro que todas estejam relacionadas com suspeitas de corrupção. As que temos a certeza que estão relacionadas com suspeitas de corrupção são quatro em casos de membros do governo e dois casos relativos a governadores.
E que casos são afinal estes? De que casos é que estamos a falar?
São casos de tipos muito diferentes. Um deles podemos dizer que tem a ver com batatas, e não só.
Não é inédito.
Não é, já tivemos algo parecido por cá. Trata-se de suspeitas de erros de corrupção relacionados com concursos de fornecimento de rações aos soldados que estão na linha da frente, e isto foi denunciado na comunicação social ucraniana, em que haveria concursos onde o Estado estava a pagar muito mais por alimentos como batatas, mas também outro tipo, como ovos, como pão, etc, preços muito superiores aos do mercado. E agora temos o vice-ministro da Defesa a ser afastado na sequência deste caso. Também temos um outro caso, esse ainda mais gritante, que tem a ver com desvio direto de 400 mil dólares que tinham sido dados para ajuda humanitária, nomeadamente para serem gastos em geradores, por causa dos ataques às infraestruturas de energia.
Porque na Ucrânia há muito frio e o frio está a ser usado como arma, não é?
Exatamente. E, portanto, havia aqui um pacote de ajuda humanitária que, pelos vistos, um dos vice-ministros estaria a usar parte para si e não para aquilo que era suposto, que era comprar geradores. Mas temos outros casos, como o do vice-procurador, que foi afastado depois de ter sido apanhado a ir passar o Ano Novo a Espanha e ainda por cima sair do país num carro que pertencia a um oligarca.
Na tal Mercedes que falámos no arranque deste episódio, que de resto levou Zelenskyy a fechar as fronteiras. E há outros exemplos?
Depois temos os casos dos governadores e que mais uma vez têm a ver com desvios de fundos ou para ajuda humanitária ou para reconstrução. Foi assim o caso do governador de Zaporíjia, terá desviado dinheiro para a ajuda humanitária e o governador de Dnipropetrovsk terá desviado fundos que serviam para reconstruir estradas, que tinham sido atingidas durante a guerra, fazendo um esquema elaborado que envolvia a compra de material a uma empresa que pertencia a uma senhora que, pelos vistos, é sua própria namorada.
E estes casos, pelo que estás a explicar, não estão ligados, são independentes ou não?
São independentes. Embora tenham aqui muitos esta questão de estarem ligados à guerra através ou desvios de fundos de ajuda humanitária ou questões de fornecimento de material militar, são independentes. Mas tudo isto tem ramificações muito mais profundas. O caso do vice-procurador, por exemplo, pode ter um impacto maior a longo prazo, porque este procurador é muito polémico. Já trazia com ele suspeitas de avançar com investigações que agradavam ao poder político e, portanto, de investigação de antigos adversários de cada atual presidente e também de fazer o contrário. Ele terá travado uma investigação a um senhor chamado Tatarov, que é precisamente um dos conselheiros de Zelenskyy, sobre quem também pendem algumas suspeitas de corrupção, e há já quem diga nos média ucranianos que ele poderá ser o próximo a cair.
E são agora conhecidos 15 casos. Foram todos descobertos agora?
Não, a maioria já tinha sido noticiada pelos média ucranianos nos últimos meses. Embora no início da guerra tenha havido aqui uma espécie de moratória, os média ucranianos não denunciavam grande parte destes casos porque consideravam que isso prejudicava a imagem do país numa altura de guerra. Ao longo dos últimos meses, essa espécie de contrato social começou a cair e começou a haver uma certa intolerância à corrupção, ainda para mais quando estamos a falar de desvio de fundos relacionados com a própria guerra e, portanto, os jornalistas começaram a denunciar vários casos. O único que é relativamente recente é este que envolve o exército, do fornecimento de alimentação aos soldados. Esse foi noticiado no final de dezembro e teve agora o seu resultado final, que é o afastamento do vice-ministro e que poderá ter arrastado depois os outros membros do governo.
E há um outro exemplo também, neste caso muito próximo de Zelensky, a história de um senhor que usou um belo carro norte-americano para uso próprio. Que história é essa, Cátia?
Estamos a falar de Kyrylo Tymoshenko. Ele era vice-chefe de gabinete do próprio Zelensky.
E conhecemo-lo bem porque esse senhor fazia várias vezes aqueles briefings que nós acompanhamos enquanto jornalistas, muitas vezes sobre o andamento da guerra.
Exato, é exatamente esse o senhor. Como aqui, por exemplo, a 10 de janeiro, pudemos ouvi-lo a dar conta do número de localidades que tinham sido evacuadas no início do ano. Tymoshenko, para além de fazer estes briefings, tinha obviamente responsabilidades importantes no governo, era vice-chefe de gabinete do próprio presidente, mas é agora afastado, embora ele não tenha assumido diretamente que era por causa de um carro, esse é o grande escândalo que os média ucranianos andavam a noticiar sobre ele. Tymoshenko andaria a deslocar-se com um SUV americano da Chevrolet, que tinha sido oferecido pela própria General Motors à Ucrânia, uma série de carros que tinham sido oferecidos diretamente ao governo ucraniano pela empresa, mas que tinham um objetivo muito concreto, que era o de ajudar a transportar ucranianos que precisassem de sair do país, portanto, refugiados a saírem do país, e também a transportar ajuda humanitária para entrar no país. Parece que em vez disso, um destes carros estava a ser usado para transportar Tymoshenko para onde quer que ele precisasse.
Já voltamos à conversa com a jornalista Cátia Bruno. Vamos tentar perceber que influência podem estes casos ter na ajuda que está a ser dada à Ucrânia.
"As armas e os barões assinalados"
E o resto é História, com João Miguel Tavares e Rui Ramos, às quartas-feiras depois do Jornal do Meio-Dia e sempre em podcast.
Estamos de regresso à conversa com a jornalista Cátia Bruno, que acompanha a guerra na Ucrânia desde o início. Cátia, antes da guerra, e eu penso não fugir muito à verdade quando disser isto, a Ucrânia era uma espécie de paraíso para a corrupção. Ocupava o lugar 122 em 180 na lista da transparência internacional. Ora, Zelensky, quando venceu as eleições, também venceu porque ergueu a bandeira anticorrupção. Ele disse que iria limpar o país da corrupção. Em março de 2020, no Parlamento, Zelensky dizia que este era o primeiro governo, e citamos, em que não há corrupção no topo.
E até dizia que não roubar não é suficiente, ou seja, era preciso ir ainda mais longe no combate à corrupção. Mas o que é facto é que até o início da guerra, esta vontade de limpar o país não estava a ter grandes consequências, ou estava?
Não, embora Zelensky tenha feito algumas mudanças nas equipas, sobretudo ligadas à Procuradoria-Geral, que foram bem recebidas, porque parecia estar a trazer para o Estado pessoas que tinham um passado limpo. Ele próprio não tem nenhuma suspeita de corrupção sobre si, o mesmo não pode ser dito de outros presidentes antes dele. A verdade é que desde que ocupou o cargo de presidente, Zelensky foi se rodeando de pessoas que essas sim, tinham algumas suspeitas. Em primeiro lugar, a própria equipa que ele escolheu inicialmente, embora não estejamos a falar de corrupção no sentido de desvio de fundos, era composta por pessoas muito próximas dele, eram todas ou antigos colegas, ou sócios, ou amigos, e portanto, já havia aqui uma suspeita de algum nepotismo que não batia certo com esta ideia de querer ir mais longe do que apenas não roubar. Depois, ao longo da sua presidência, ele teve casos, por exemplo, de substituir o chefe de gabinete pelo homem que está agora nesse caso, que é Andriy Yermak. Yermak também tem suspeitas de corrupção sobre ele, de ter recebido subornos. E depois o próprio Zelensky e os seus sócios do passado, nomeadamente dois homens em concreto, que são conhecidos como os irmãos Shefir, têm algumas contas em offshores, que foram anunciadas pelos Panama Papers, em que o próprio Zelensky estará envolvido. Portanto, embora não haja nada que aponte diretamente para ele ter cometido algum tipo de crime, esta ideia de um governo completamente limpo não se concretizou.
Até porque a Ucrânia era um país também de oligarcas, dominado por oligarcas. E esta luta contra a corrupção é essencial para conquistar a simpatia, chamemos assim, das instituições internacionais, como por exemplo, a União Europeia.
Sim, mais até do que a simpatia, é essencial para a Ucrânia atingir os seus objetivos políticos, porque a própria adesão da Ucrânia à União Europeia, cujos primeiros passos já foram dados desde que a guerra começou, só pode ser concluída se houver esforços anticorrupção muito claros. Há uma série de compromissos que a Ucrânia tem de assumir no combate à corrupção para que esse processo possa avançar. E portanto, esta série de demissões que assistimos agora nos últimos dias são a Ucrânia a tentar dar esse passo e provar à União Europeia que está apta a fazer parte do clube.
E que consequência podem, afinal, estes casos, Cátia Bruno, ter junto da opinião pública internacional? Porque a opinião pública internacional também é muito importante, como vimos agora, por exemplo, no caso da Alemanha.
Sim, a verdade é que Zelensky e a equipa toda que o rodeia têm sido muito capaz a gerir as relações públicas da Ucrânia e a conseguir criar uma imagem de um país que tem uma luta que é vista como justa pela maior parte da comunidade internacional. Ora, se essa imagem ficar manchada por sucessivos casos de corrupção, pode haver uma mudança de percepção na opinião pública que diga: "Por que devemos apoiar um país que não sabemos para onde estão a ir esses fundos, que se calhar não estão a ser usados para O armamento cumprir a função que devia cumprir, que seria defender-se dos ataques, pode estar a ser usado para alguém fazer dinheiro de forma menos lícita.
Exatamente porque estes casos de corrupção, falavas há pouco de batatas, geradores, da utilização menos própria de carros que foram oferecidos para ajudar pessoas e não quem neles viaja. Estes casos também podem levar a situações de desvio de armamento, de corrupção ao nível de compra e venda de armas?
Esse tem sido um grande receio desde o início da guerra e até há pouco tempo nunca houve provas muito claras de que isso estivesse a acontecer, mas houve aqui e ali um ou outro borburinho. O The Times, por exemplo, jornal britânico, em maio tinha um artigo em que falava com um comandante militar ucraniano que dizia que na sua unidade desaparecia armamento e que ele suspeitava que esse armamento estava a ser desviado para depois ser vendido no mercado negro. E, portanto, embora não haja nenhuma conclusão definitiva, a verdade é que esse receio existe.
Isto leva-nos à grande pergunta deste episódio, Cátia. Estes casos de corrupção podem pôr em causa a ajuda militar à Ucrânia?
O risco existe. Basta pensarmos que, por exemplo, quando Zelensky foi aos Estados Unidos, houve um senador republicano, Josh Hawley, que recusou estar presente para assistir ao discurso de Zelensky no Congresso, porque disse: "Eu não quero fazer parte de uma operação de charme de alguém que nos vem pedir dinheiro, mas que nunca é transparente sobre como é que gasta esse dinheiro". Portanto, já há alguns republicanos nos Estados Unidos que mostram algum desconforto e estas notícias certamente não ajudarão. Também na Europa, embora tenhamos visto até agora os governos europeus a continuarem a comprometer-se com o envio de ajuda militar, há sempre o risco de, se mais casos surgirem, começar a haver reticências, sobretudo por pressão da opinião pública. Precisamente por isso é que me parece que Zelensky está a fazer estas demissões. Para mostrar que está a controlar a situação.
Sem contemplações.
Sem contemplações, que está a afastar todos os que mostrem a mínima suspeita. Aliás, na maior parte destes casos não estamos a falar de sentenças, estamos só a falar de suspeitas. E, portanto, Zelensky quer provar que afasta qualquer um que se ponha nesse lugar. Veremos, de facto, se é assim ou não ao longo dos próximos tempos.
Até porque sabe que sem a ajuda internacional será impossível travar a Rússia.
Claro, sem armamento, a Ucrânia não conseguirá travar a ofensiva russa.
Obrigado, Cátia.
Obrigada eu, Ricardo.
Cátia Bruno é jornalista do Observador, é especialista internacional. Acompanha a evolução da guerra desde o início e esteve como nossa enviada especial em Lviv nos primeiros dias do conflito. Esta foi a história do dia. Ouvimos sons retirados do canal 24, da Ucrânia, e do canal do YouTube da presidência ucraniana. Este episódio contou ainda com a colaboração do jornalista Mário Silva da Costa, a sonoplastia da Beatriz Martelo Garcia e a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.