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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Cristiano Ronaldo está de volta e Portugal também.
"I'm back, I'm back." Só pra não se esquecerem. Este é o Cristiano. Só pra não se esquecerem. E é a melhor resposta que pode dar às críticas? Sempre, 23 anos assim.
Cristiano Ronaldo explica porque é que no fim do jogo contra o Uzbequistão, se virou para as câmeras e disse em inglês: "I'm back", estou de volta.
Foi uma semana difícil, uma semana escura. Parecia que eu já tava retirado do futebol, mas aguentei-me, como aguento sempre, porque acredito mais no trabalho do que noutra coisa. Foi difícil, tenho que confessar.
Difícil, talvez, mas o ídolo de grande parte do estádio em Houston, nos Estados Unidos, voltou mesmo e com uma exibição de encher o olho, quebrou mais uns quantos recordes. É o primeiro jogador da história a marcar em seis edições do Campeonato do Mundo e também ultrapassou Eusébio como o melhor marcador de Portugal em Mundiais. Ele diz que é bonito bater recordes, mas mais importante que isso é a equipa e a conquista dos objetivos. E é ou não é isto que se espera de um capitão? Eu vou falar hoje com o enviado do Observador ao Mundial, o Miguel Cordeiro. Ele teve o privilégio de assistir a tudo isto no estádio em Houston. Ele vai contar-nos como foi a festa e vai contar-nos coisas que não vimos na televisão, porque ele esteve com uma missão: passar 90 minutos a olhar para Cristiano Ronaldo. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 24 de junho. Olá, Miguel.
Olá, Pedro.
Olha, eu estou aqui a falar contigo, não nego, com grande sentimento de inveja. É bom que isto fique já claro, deixarmos as coisas já aqui transparentes, porque tu tiveste o privilégio de assistir a um jogo de futebol incrível. Este em que Portugal fez uma goleada ao Uzbequistão. Como é que foi viver esse jogo por dentro? Eu sei que estavas a trabalhar, naturalmente, e, portanto, não estavas a viver como um adepto, mas como é que foi viver esse jogo por dentro? E já agora, como é que foi a reação dos adeptos de Portugal, e eram muitos nesse estádio, com este jogo?
Sim, Pedro, de facto, foi incrível. Como profissional, mas também como português e adepto da Seleção Nacional, foi, de facto, uma tarde incrível, porque o que pudemos assistir foi uma exibição notável da seleção portuguesa, uma exibição incrível de Cristiano Ronaldo, quase perfeita, e um estádio em êxtase com tudo o que estava a acontecer, com os gols de Cristiano Ronaldo, com a exibição de Portugal, com tudo o que aconteceu durante aqueles 90 minutos frente ao Uzbequistão, em que Portugal se afirmou com aquilo tudo que prometeu ainda antes do Mundial, de ser candidato, não favorito, mas candidato. E agora sim, depois desta exibição, já se pode dizer isso. É natural que se possa também dizer que Portugal jogou apenas contra o Uzbequistão, mas o que vimos no relevado deixa muito bons indicadores para aquilo que vem a seguir.
Sobretudo aquilo que dizia Roberto Martínez, que a equipa aprendeu com os erros e houve aqui, notaste isso, mudanças face àquilo que foi o desempenho da equipa no jogo com a República Democrática do Congo.
Sim, existiram mudanças concretas. Portanto, mudanças no 11, a entrada de Rúben Dias, a saída de Tomás Araújo, a entrada de Félix e a saída de Bernardo Silva. Isso notou-se logo na equipa que jogou e depois notou-se também na exibição. Ora, para começar, Portugal rematou muito mais do que tinha feito frente ao Congo, em que tem aquele único remate. Desta vez não foi assim, só em gols foram cinco e Portugal consegue uma série de remates, consegue uma avalanche ofensiva frente a esta equipa do Uzbequistão. Ao todo, foram nove remates à baliza, 17 remates que Portugal fez neste encontro e, portanto, só estes números mostram a mudança de atitude, a mudança de vontade e a mudança do paradigma ofensivo português. Portanto, Portugal partiu pro ataque logo desde o primeiro minuto, carregou com pressão, avançou para a baliza adversária e voltou a marcar, curiosamente, no mesmo minuto que tinha marcado frente ao Congo. Ao minuto seis, que já sabemos, é o número mágico de Roberto Martínez, tem falado desta numerologia, o número seis mágico que acompanha a seleção, hoje voltou a funcionar e foi nesse minuto que Cristiano Ronaldo marcou o primeiro. Ao contrário do que aconteceu com o Congo, Portugal não tirou o pé do acelerador, continuou com vontade, marcou depois mais quatro gols até aos 90 e mostrou neste jogo, ao contrário do que tinha mostrado com o Congo, muito rigor tático, principalmente nas bolas paradas. Foi uma das armas desta seleção nacional frente ao Uzbequistão. E isso viu-se durante o jogo em vários momentos e Portugal até consegue dois gols surgirem de bola parada, com o mais importante ou o mais mediático, o que chama mais a atenção, esse ao minuto 17, de Nuno Mendes, quando Cristiano Ronaldo estava ao lado do defesa lateral, ele prepara-se para rematar, ele encara o adversário e acaba por ser Nuno Mendes a rematar. A partir daí, foi sempre uma avalanche, mas de facto notou-se essa diferença, essa raiva dos jogadores. Roberto Martínez tinha dito na conferência de imprensa que o grupo estava mais unido e que tinha melhorado muito com as críticas e com o que aconteceu frente ao Congo, e isso notou-se.
E uma das curiosidades é que este desempenho de Portugal acontece também ao mesmo tempo que vemos Cristiano Ronaldo com desempenho muitíssimo superior àquele que foi o do jogo com a República Democrática do Congo. Tu estiveste com os olhos postos, naturalmente, em Cristiano Ronaldo. Conta-me o que tu viste, onde é que te percebeste que o jogador estava novamente a mostrar a sua melhor forma?
Foi logo no aquecimento. De fato, tu estavas a falar do desafio que o Observador se propôs. Nós partimos para este jogo com o desafio de não tirar os olhos de Cristiano Ronaldo. Fizemos um artigo em que é basicamente a exibição de Ronaldo à lupa, desde o momento em que subiu ao relvado para o aquecimento, até o momento em que deixou o relvado depois da flash interview, em que recebeu o prêmio de melhor em campo. E foi no aquecimento que apanhamos um dos momentos mais curiosos, porque Ronaldo tem muitas rotinas no momento do aquecimento, faz sempre o mesmo quando entra no relvado, vai a cada uma das linhas laterais cumprimentar os adeptos, dá uns toques na bola, ensaia uns dribles, remata muito à baliza, pede aos jogadores para o ajudarem também a preparar as receções. Mas foi nesse momento em que estava no aquecimento, que nos ecrãs gigantes, que são mesmo gigantescos neste estádio de Houston, começam a aparecer as estatísticas do mundial, estatísticas individuais. E não só apareceu nas imagens, como foi dito pela speaker do estádio, os nomes dos jogadores que estavam na liderança de vários rankings. E Lionel Messi estava na liderança de quase todos os rankings ofensivos. Estava em primeiro nos gols, sim, e Ronaldo viu isso, mas também estava nas primeiras posições na criatividade, nos remates, nos ataques. E nós conseguimos perceber que quando isso acontece, quando são descritos todos esses rankings, Cristiano Ronaldo está no centro do relvado e olha para esses ecrãs. Olha para os ecrãs, concentra-se naquilo que está a ver, ouve os números e os nomes a partir das colunas deste estádio, e percebemos claramente que aquilo foi o gatilho, a faísca que faltava para a exibição que iria ter Cristiano Ronaldo. Quando percebe todos aqueles números e vê aqueles nomes naqueles ecrãs e não encontra o nome dele, porque não fez nada na primeira exibição de Portugal para que pudesse ter lá o nome, percebeu que seria nesta tarde de terça-feira, neste jogo com o Uzbequistão, que iria ter que dar ao pedal para aparecer também entre aqueles nomes.
E portanto, se já tinha havido um trabalho nos dias antes, ele próprio, depois na conferência de imprensa, falou da semana difícil, da semana negra, porque as críticas que eram feitas, ele também as ouviu e também as sentiu. E portanto, se esse trabalho já tinha produzido frutos, tu achas que esse momento em que Cristiano Ronaldo está no centro do relvado a olhar para o ecrã e ouvir o nome de Messi repetidas vezes e as conquistas que ele já fez nos jogos que teve neste mundial, foram o gatilho para depois termos o desempenho que Ronaldo teve?
Sim, acho que aconteceu isso mesmo, mesmo que Ronaldo diga que Messi não está na cabeça dele. É claro que está e não tem problema nenhum em estar, porque as grandes rivalidades fazem-se disto mesmo. Para chegar ao topo, é preciso fazer comparações e haver comparações com outros, porque senão não existe topo. Se nós não sabemos quem vem a seguir ou quem está ao lado, também não sabemos onde é que é o topo. E portanto, Cristiano Ronaldo sabe disso, e aconteceu nesse momento. E de fato, deu a resposta em campo que precisava dar. Deu a resposta com dois gols, com uma ótima exibição, com vontade, com raiva, atacar todas as bolas que podia até o minuto final, porque, de fato, foi até o minuto final que Cristiano Ronaldo procurou o hat-trick. O último lance de ataque de Portugal é uma bola de Nuno Mendes para Cristiano Ronaldo, em que o capitão da seleção portuguesa não chega por muito pouco.
Houve também esse trabalho conjunto de tentar que no final, nos minutos finais, Cristiano Ronaldo pudesse conquistar ali mais um resultado, no caso, um hat-trick no mesmo jogo.
Sim, isso notou-se também, porque Portugal chegou ao quarto nos primeiros minutos da segunda parte. Depois o jogo acabou por adormecer um pouco, apesar de Portugal continuar a ter situações ofensivas. Depois entra Leão, que marca o quinto, numa bola em que até podia ter ido parar a Ronaldo. E depois o que vemos é, nas situações ofensivas, os jogadores portugueses à procura de Cristiano, porque podia ter chegado ao hat-trick. Sim, teve oportunidades para isso. Não chegou, mas não há problema nenhum também. Dois gols e uma ótima exibição, a lutar até o fim, a trabalhar também na defesa. Quando Portugal precisava defender, principalmente nas bolas paradas, Ronaldo assumiu um papel importante e com os seus 41 anos mostrou a vitalidade que tem e mostrou que é capaz de continuar na ribalta, apesar de todas as críticas.
Apesar de todas as críticas. Foi o melhor jogador em campo, o Cristiano Ronaldo, mas houve outro jogador, e não foi só esse, mas, por exemplo, Nuno Mendes, já falámos dele aqui, também teve um desempenho notável e não foi o único.
Sim, não foi o único. De fato, hoje, ao contrário do que aconteceu com o Congo, mais uma vez, muitos jogadores tiveram boas exibições. Primeiro, muitos tinham tido más exibições. Agora, Nuno Mendes é um dos destaques, claro. Marca aquele gol de livre, faz uma ótima exibição, trabalho defensivo também exemplar. Bruno Fernandes, o segundo gol de Cristiano Ronaldo é uma jogada brilhante de Bruno Fernandes. Avançar no terreno, perceber a demarcação de Cristiano Ronaldo, tirar o passe no momento certo. O passe foi perfeito, deu tempo para Cristiano Ronaldo fazer tudo, olhar para a bola, olhar para o guarda-redes, encarar-se como queria, rematar para onde queria e fazer o gol. Portanto, há aqui jogadores com ótimas exibições. Rúben Dias também exemplar na defesa e no ataque. Muitas ocasiões criadas por diferentes jogadores. E Félix, temos de dizer, entrou muito bem na equipa e ajudou a agitar os ataques portugueses.
Agora, Miguel Pode-se dizer que, com este resultado, Portugal libertou alguma da pressão que tinha, nomeadamente um escrutínio muito grande que tinha sobre a seleção e a exibição que a seleção teria capacidade para fazer. Conseguiu este resultado, de certa forma, respondeu a todas essas críticas. Agora tu olhas para isto como uma seleção que, até porque tu já disseste isso um pouquinho no início, entrou nos eixos e portanto está pronta para todos os desafios e para responder àquilo que era o favoritismo inicial que era atribuído a Portugal.
Vamos ter de perceber o que acontece nos próximos jogos, de facto, porque todos nós já vimos esta seleção fazer coisas muito boas e coisas um pouco mais, como aconteceu, por exemplo, com o Congo. Ora, o ano passado Portugal conquistou a Liga das Nações a ganhar à Alemanha e à Espanha, e começa o mundial a empatar com o Congo. Nós até confrontámos Roberto Martínez com isso na conferência de imprensa e ele disse que é natural acontecer, mas que sempre que acontece esse deslize, Portugal sabe dar uma resposta e consegue manter uma resposta e até puxou do currículo para dizer que é sob o seu comando, Martínez, que Portugal tem as melhores estatísticas, os melhores resultados, o maior número de gols e o maior número de vitórias e conquistas. Portanto, eu creio que é isso que podemos esperar, Portugal entrar nos eixos. Acho que podemos esperar isso. Agora, só o jogo com a Colômbia que nos vai dar essa resposta. É importante também para fechar as contas deste grupo e perceber em que posição seguem as equipas para a próxima fase. Parece praticamente garantido que Portugal segue em frente. Resta saber agora em que posição.
Vamos esperar e vamos desejar que essa consistência se mantenha, esta consistência do que vimos neste jogo com o Uzbequistão. Miguel, obrigado e bom trabalho por aí.
Obrigado.
Eu conversei com o jornalista do Observador, Miguel Cordeiro, que esteve a assistir no estádio de Houston ao jogo Portugal-Uzbequistão, uma partida que nos fez passar da desilusão à euforia em menos de nada. E esta é a sina de Portugal. Agora, como dizia o Miguel, falta ver o que acontece nos próximos jogos, desde logo com a Colômbia, teoricamente o adversário mais difícil do grupo, aquele que está mais perto do nível de Portugal. Há aqui um pormenor importante. À hora em que gravámos esta conversa, a Colômbia ainda não tinha jogado com a República Democrática do Congo e esse resultado, que já está fechado à hora em que estiver a ouvir este episódio, é importante para as ambições e para os desafios de Portugal. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.