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Esta é a história do dia da Rádio Observador: é possível travar a varíola dos macacos?
"For all of these reasons, I have decided that the global monkeypox outbreak represents a public health emergency of international concern."
Emergência global de saúde pública. Tedros Ghebreyesus é o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde e anuncia o elevar do estado de alerta em relação à varíola dos macacos. A doença espalhou-se a mais de 70 países e de uma forma rápida. Os peritos reconhecem que não sabem tudo.
"We have an outbreak that has spread around the world rapidly through new modes of transmission, about which we understand too little and which meets the criteria in the International Health Regulations."
Portugal está muito perto dos 600 casos de uma doença que era desconhecida da maioria há três meses. As declarações iniciais apontavam para poucos casos. A tentativa era sempre de desdramatizar. Agora, a OMS vem pedir a todos os estados membros mais atenção para tentar travar a progressão da varíola dos macacos. Será possível? E como? Hoje vou conversar com a jornalista do Observador, Vera Novais. A Vera é especialista em ciência. Bem-vinda, Vera.
Olá, Ricardo.
Estamos a falar de uma doença grave?
Neste momento, ainda não. Aquilo que se conhecia da doença da varíola dos macacos até o momento era de uma erupção cutânea, que podia dar comichão, podia provocar alguma dor no local, e estas eram as manifestações. A preocupação surge agora porque já há alguns casos mais graves, em que as pessoas podem mesmo ter de ser hospitalizadas com dores fortes. Há casos de internamentos nas unidades de cuidados intensivos e há já o registo de cinco mortes.
Mas isso em todo o mundo.
Isto em todo o mundo. Há mais de 16 mil casos, neste momento, registados em todo o mundo e até ao momento cinco mortes registadas por causa da varíola dos macacos.
E como se transmite?
Transmite-se pelo contacto direto, pele a pele, sobretudo, o que também potencia os contactos sexuais para haver mais contacto de pele a pele, embora também já sejam reportados alguns casos de contacto intermédio ou indireto. Contacto com os lençóis que estejam contaminados ou contacto com superfícies nas unidades de saúde que estejam contaminadas e também possa ser por aí que alguns profissionais de saúde possam, eventualmente, estar a ser contaminados com o vírus.
Já aqui tratámos deste tema no episódio que publicámos a 25 de maio. E importa neste ponto lembrar algo que é muito importante neste caso. Há, obviamente, uma incidência da doença em homens que fazem sexo com homens, mas esta doença pode afetar todas as pessoas, independentemente da orientação sexual.
Correto. Aliás, nos países onde ela é originária, na África Ocidental, todas as idades, de todos os estratos sociais podiam ter a doença, podiam apresentar casos da doença. Neste momento, nesses países, a maioria são mulheres e crianças a apresentar casos, neste surto que agora está a nível mundial. Agora, noutros países, o que tem acontecido é que tem aparecido mais nos homens e nos homens que têm sexo com outros homens. Ainda não é considerada uma doença sexualmente transmissível. Há aqui uma incidência neste caso, mas pode haver fatores que o condicionem. Por exemplo, estes grupos procurarem mais os cuidados de saúde do que outros, porque, na generalidade, se tiveres uma erupção cutânea que não te dê dores, também não vais a correr procurar o médico. E estes grupos já normalmente vão mais vezes aos cuidados de saúde, às unidades de saúde.
"For the moment, this is an outbreak that's concentrated among men who have sex with men, especially those with multiple sexual partners. That means that this is an outbreak that can be stopped with the right strategies in the right groups."
Tedros Ghebreyesus, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, que estamos aqui a ouvir, diz que é possível travar a disseminação. Como?
Teoricamente, sim, e um pouco da mesma maneira que fizemos com a Covid-19. Detectar os casos, fazer um bom diagnóstico, fazer o seguimento dos contactos de risco e tentar prevenir que essas pessoas desenvolvam a infeção, que pode ser agora também com a ideia de ter as vacinas para esses casos, e colocar as pessoas em isolamento. Mas neste caso, o isolamento é de 21 dias, o que cria já aqui uma certa dificuldade.
São mais sete do que aqueles iniciais da Covid, não é?
Eram 14. Exato. Agora imagina, depois de dois anos em que ficámos isolados ou porque estávamos doentes ou porque estávamos todos em confinamento, ainda pedir às pessoas que fiquem 21 dias em isolamento, com tudo o que isso acarreta. Não conseguem ir às compras, não conseguem tratar de outras questões de saúde ou pessoais, não vão trabalhar se não conseguirem estar em teletrabalho. Há uma série de questões aqui que se levantam. E há também dificuldade no diagnóstico, porque as pessoas podem não se aperceber que é um caso de varíola dos macacos. Tu tens uma erupção cutânea. Ela é muito característica, mas nós não a reconhecemos. Embora seja muito característica, se os médicos nunca a viram, terão dificuldade em reconhecê-la. E as pessoas também. E então não vão procurar os cuidados de saúde se não tiverem uma situação grave.
E para já, estes novos casos concentram-se sobretudo na América do Norte e na Europa.
Concentram-se mais nessas zonas e a preocupação Por enquanto, há mais casos registados. Dos mais de 16 mil casos, a maior parte estão registados na região da Organização Mundial da Saúde da Europa e das Américas. O que não quer dizer que em África não existam muitos casos também, mas o registo pode não estar a ser bem feito. Os sistemas de saúde têm sempre aquelas dificuldades. Nesses países, há mais casos registados, há uma incidência grande. Portugal é um desses países que tem uma grande incidência dos casos. Eu estava agora a ver uma referência da Organização Mundial de Saúde que apontava para 1.4, que nós nos ouvíamos tantas vezes a falar na Covid-19. Quer dizer que 10 pessoas que estejam infetadas podem originar 14 novas infeções, portanto, isto vai sempre aumentando. Espanha a mesma coisa, Reino Unido, há uma série de países que estão nesta situação.
Vera Novaes, falavas que a melhor ferramenta seria isolar estas pessoas, isolar estes doentes. Há alguma indicação de que venham a ser proibidas, por exemplo, as viagens, como foram na Covid-19, para tentar estancar a doença?
Neste momento, não. A declaração da emergência de saúde pública de preocupação internacional serve exatamente para tentar gerir estas coisas, dar a melhor resposta possível em termos de saúde pública, com o mínimo impacto nas viagens e no comércio a nível internacional. Portanto, o que se vai tentar fazer é conter os surtos nos vários países, sem que isto afete depois as negociações, o comércio e as viagens das pessoas. Claro que isto pode mudar, assim como mudou durante a pandemia de Covid-19, mas neste momento ainda não é expectável que isso aconteça.
Pegando nisso que estavas a dizer, afinal, que decisão é esta? O que é que isto significa, esta decisão que foi tomada pela OMS?
"I have made a set of recommendations for four groups of countries."
Esta decisão da OMS é pouco consensual, por enquanto. Houve uma reunião em junho, em que o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde pediu para avaliar o surto e como se estava a disseminar nos vários países. O comitê de emergência achou que não havia informação que permitisse considerar uma emergência global. Voltou a reunir agora na quinta-feira passada e o comitê voltou a ficar dividido. Não chegou a um consenso para dizer que devia ser uma emergência global.
Não é uma decisão consensual.
Não é uma decisão consensual, mas este comitê de emergência é um comitê de aconselhamento. Portanto, eles deram opinião, uns achavam que sim, outros achavam que não, e quem toma a decisão final é o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, que decidiu por considerar a emergência de saúde pública de preocupação internacional.
E isso quer dizer, na prática, o quê?
O quê? Para já, que vai haver uma concertação internacional para que a resposta seja melhor coordenada entre todas as partes. A ideia é que se invista mais dinheiro na investigação, no diagnóstico, nos testes, no desenvolvimento de vacinas e tratamentos. Esta é a motivação principal.
Mas a nível de ações concretas, de medidas concretas, não há nada? Há um elevar do alerta, da atenção, é isso?
Na prática, isto não muda muito. É como se dissesse: "Isto é um problema, realmente, e nós reconhecemos que é um problema". Como esta definição da emergência global está ao abrigo dos regulamentos sanitários internacionais subscritos por 196 países, quer dizer que esses países estão vinculados a cumprir as recomendações que forem definidas para o combate, para a resposta a este surto. Portanto, é mais isso, é haver um compromisso maior e uma cooperação maior entre os países.
E Vera, isto pode ser uma espécie de degrau, não sei se lhe podemos chamar assim, no caminho de uma escadaria que conduz ao declarar de pandemia ou não?
Não necessariamente. Não é por ser declarada uma emergência de saúde pública de preocupação internacional que isso vai levar à declaração da pandemia. Até porque para se declarar uma pandemia, é preciso que se reúnam outras condições que este surto, neste momento, ainda não reúne. Portanto, ainda não será o caso. Ainda estamos num ponto, ainda que na teoria, com algumas dificuldades pela meio, estamos num ponto em que se considera que o surto pode ser contido. Quando estávamos na situação da Covid-19, a dimensão do problema era muito maior. Não tínhamos vacinas, a prevenção existia, mas era difícil. Aqui existem algumas formas de controlar.
É por isso que a varíola dos macacos é mais comparável, se é que podemos dizê-lo desta forma, com outras epidemias, como o VIH ou o Ebola, e menos com a Covid-19? Até porque a forma de transmissão é diferente, não é?
A forma de transmissão é muito diferente, mas também se pensares, por exemplo, no VIH, o vírus da imunodeficiência humana, também tem outra forma, é sexualmente transmissível ou por transfusões de sangue. A maior semelhança entre a varíola dos macacos e a disseminação do VIH tem mais a ver com a forma como começou. No VIH. Também começou da mesma maneira, com casos a surgirem fora dos locais de origem, porque o vírus também tem origem nos macacos. Começaram a surgir casos noutros pontos, entre homens que tinham sexo com outros homens. A dificuldade depois, a estigmatização, que é um problema. A falta de meios de diagnóstico e de tratamento, também com mulheres e crianças a serem afetadas nos países de origem. Portanto, o início do surto de VIH tem semelhanças e o alerta é que podemos ter aprendido alguma coisa com esse caso para agora fazermos melhor.
Exatamente, é o que todos esperamos, até porque aprendemos e muito com esse caso. E em relação às vacinas, há vacina contra a varíola. Aliás, terá sido a primeira doença a ter uma vacina. Essa é uma história que envolve a Catarina, a Grande, e não vamos contá-la aqui, mas vale a pena ir à procura dessa história. Há uma vacina específica contra esta varíola dos macacos ou estamos a falar da vacina da varíola?
Estamos a falar da vacina da varíola, por enquanto. Existe ou existiu, já não existe, está erradicada a varíola humana, foi erradicada oficialmente em 1980, por causa dessa vacina que estavas a falar. E a vacina é feita de outra varíola, que não é letal, porque a varíola humana era letal. Há outra varíola, existem várias, nos camelos, nas vacas.
Já percebemos.
E então, existe outra varíola que também afeta humanos, mas que é mais leve, provoca uma doença ligeira. A vacina é feita a partir disso. E como há semelhanças entre os vários vírus da varíola, o que se está a fazer é tentar usar essa vacina que já existe, já está aprovada, mas que era para a varíola humana, estão a tentar usá-la também na varíola dos macacos. Há investigação a ser feita especificamente para o vírus da varíola dos macacos, mas essas ainda não estão a ser comercializadas.
E nós tínhamos uma reserva das antigas, das velhas, agora vêm novas?
Essas vacinas agora são usadas em situações muito esporádicas, casos que apareçam de varíola, e isso é já extremamente raro. Eu até fiquei surpreendida por saber que ainda existem vacinas contra a varíola quando a doença está erradicada. Ainda bem que existem. O primeiro lote de vacinas que nós recebemos vieram dos Estados Unidos, porque a farmacêutica só comercializava nos Estados Unidos. Então, ao abrigo de uma encomenda especial, de uma autorização especial de uso de emergência, a Europa, os vários países da Europa receberam um lote de vacinas. Agora ficámos a saber que a mesma farmacêutica que está a vender nos Estados Unidos também vai comercializar na Europa e que a Agência Europeia do Medicamento autorizou que essa vacina específica para a varíola humana fosse usada nos casos de varíola ou na prevenção das pessoas que tiveram contato com casos de varíola dos macacos, para evitar que tenham a infecção.
Portanto, cá em Portugal vamos ter acesso a essas vacinas.
Vamos ter acesso. À partida, será só para contactos de risco. Pessoas que tenham tido contato com pessoas infectadas, idealmente dentro dos primeiros quatro dias após a infecção, e se não tiverem sintomas.
Obrigado, Vera.
De nada, foi um prazer.
Vera Novais é jornalista do Observador e é especialista em temas de ciência. Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.