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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Espanha vai de novo a eleições
Comparezco, como saben, ante ustedes para trasladarles que he aceptado el encargo del jefe del Estado, de Su Majestad el Rey, como candidato a ser investido presidente del Gobierno ante las Cortes Generales, ante el Congreso de los Diputados.
A partir do Palácio da Moncloa, em Madrid, Pedro Sánchez anuncia que recebeu do rei Felipe VI a luz verde para tentar reunir apoio parlamentar para um novo governo. As tentativas de Núñez Feijóo, líder do PP, o partido mais votado a 23 de julho, falhou a investidura no Parlamento. Agora é a hora dos socialistas, mas qual será o preço a pagar? Vou conversar com o jornalista de internacional do Observador, José Carlos Duarte. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Zé Carlos.
Olá, Ricardo.
Antes de irmos ao agora e eventualmente ao amanhã, recorda-nos como chegámos aqui. As demissões, as eleições, qual foi o processo até chegarmos aqui?
Este processo tem, curiosamente, outras eleições por detrás. Em maio, os espanhóis foram às urnas e houve eleições regionais em que o Partido Socialista obteve uma pesada derrota, enquanto o Partido Popular foi o grande vencedor. Já havia eleições legislativas marcadas para dezembro de 2023 e face ao resultado negativo, Pedro Sánchez decidiu antecipar as eleições para julho. Alguns analistas dizendo para evitar ainda um crescimento maior do Partido Popular. E uma maneira de estancar o crescimento do PP e tentar ganhar um timing que não seria possível se as eleições fossem só em dezembro.
E perante tudo isso, os espanhóis foram às urnas em 23 de julho. O PP venceu as eleições, foi convidado a formar governo, mas falhou.
Exato. Feijóo venceu as eleições, teve mais votos, o Partido Popular elegeu mais deputados para o Congresso, mas mesmo assim não foi suficiente para formar governo. O Partido Popular fez uma aliança com o partido Vox e também conseguiu o apoio parlamentar da Coligação Canária e da União do Povo Navarro, que são dois partidos que elegeram apenas dois deputados. Ora, estes quatro partidos juntos conseguiram apenas 172 deputados, que é insuficiente para atingir uma maioria absoluta, que no Congresso de Deputados Espanhóis é de 176. Portanto, ficaram a uma unha negra de conseguirem formar governo, mas o que é facto é que não conseguiram.
Tudo isso leva ao ponto em que estamos. E em que ponto é que estamos, Zé Carlos Duarte?
Sim, depois da investidura falhada de Alberto Núñez Feijóo, o rei Felipe VI voltou a ouvir os partidos, tal como fez em setembro para a primeira investidura do líder do PP, e desta vez, como o primeiro partido mais votado não conseguiu formar governo, passou a responsabilidade para o segundo mais votado, que foi o PSOE, o Partido Socialista Operário Espanhol, e encarregou Pedro Sánchez de agora tentar formar um governo que o líder socialista descreve como progressista.
Este es el objetivo del Partido Socialista para intentar reeditar un gobierno de coalición progresista durante los próximos cuatro años. Y para ello vamos a iniciar, como les he dicho antes, la ronda de contactos con el resto de formaciones políticas, a excepción de la ultraderecha.
E agora Sánchez vai falar com todos?
Sim, Sánchez anunciou que falaria com todos os partidos, à exceção do Vox. De resto, até com o Partido Popular se vai encontrar e esta quarta-feira vai já reunir-se com a número dois do seu governo, Yolanda Díaz, a líder do Sumar, e vão tentar chegar a um acordo para um governo de quatro anos.
E há alguma data limite para esta fase?
Sim, segundo o calendário eleitoral espanhol, a data de 27 de novembro é muito importante. Se não for possível formar um governo até esse dia, terão de ser convocadas novas eleições. Quer Sánchez falhe numa possível investidura, quer não consiga de antemão chegar a essa investidura.
Portanto, a investidura ou a tentativa tem de ocorrer antes de 27 de novembro.
Exato. A partir dessa data, novas eleições.
Já voltamos à conversa com José Carlos Duarte, jornalista internacional do Observador. Vamos ainda tentar perceber o que é uma solução Frankenstein e em que medida o monstro criado por Mary Shelley faz parte desta história espanhola. Regressamos à conversa com José Carlos Duarte, jornalista internacional do Observador. José Carlos, qual foi a reação do vencedor e derrotado ao mesmo tempo, líder do PP, a esta nova fase do processo?
Alberto Núñez Feijóo já falou, falou logo após ter se reunido com o rei Filipe.
No les vamos a fallar. Vamos a poner todos nuestros recursos a disposición de la igualdad de los ciudadanos.
E começou por realçar que compreendia a decisão do monarca e que iria respeitar, mesmo que, e acabou por confirmar-se, investisse Pedro Sánchez. No entanto, o líder do Partido Popular deixou várias críticas e diz que se Pedro Sánchez conseguir ser líder do governo, será baseado num governo de mentiras. Esta é a designação que ele usa.
Y nos espera mentiras. Me temo que muchas
Que muchas mentiras.
Isto porque o argumento de Feijóo é que as negociações que Pedro Sánchez está a encetar agora, ele não as tinha incluído no seu programa eleitoral. Daí estar a mentir, estar a enganar os seus eleitores.
¿Por qué las oscuras negociaciones? ¿Porque se va a hablar más de sillones y de cargos que de los problemas de los ciudadanos?
Para além disso, Alberto Núñez Feijóo realçou e sublinhou que este governo tem vários partidos de forças diferentes, de ideologias diferentes, que defendem vários princípios que até podem ser contraditórios entre si. Ele fala mesmo numa amálgama de partidos de esquerda, de extrema-esquerda, e salientou ainda que estas próximas semanas serão como um teatro em que todos os partidos que tentarão fazer parte desta coligação alargada farão exigências, voltarão atrás. Portanto, ele também deixou críticas aquilo que ele disse que será um teatro da cena política espanhola.
Teatralización de exigências, teatralizaciones de enfados, de tensiones, de falsas rupturas y de acuerdos finales. E isto são palavras duras de Feijóo, que agora é o líder da oposição, pelo menos nesta fase. Vamos ver como é que tudo isto vai correr. Isto porque, tal como explicavas, José Carlos, Sánchez vai ter de procurar apoios entre nacionalistas bascos e catalães, por exemplo, não é?
Sim, neste momento Sánchez acredita que pode conquistar 179 deputados, ou seja, mais três do que os suficientes para atingir a maioria absoluta, mas mesmo assim é uma margem muito limitada. E, portanto, ele terá mesmo de fazer aqui conversações e negociações com vários partidos. E estão incluídos quer os nacionalistas bascos, quer os nacionalistas catalães.
De que pese a que logicamente as conversaciones tienen que ser discretas, los acuerdos serán transparentes y conocidos.
Quanto aos bascos, há dois partidos, que é o EiBildo e o Partido Nacionalista Basco. Este segundo é mais moderado, mas o primeiro envolveu-se numa grande polêmica nas eleições regionais de junho, tendo colocado nas suas listas eleitorais condenados por crimes de sangue relacionados com a ETA.
Herdeiros da ETA.
Exato. E foi uma polêmica que obrigou o próprio EiBildo a recuar e dizer que se aquelas pessoas fossem eleitas, seriam substituídas pelos seus suplentes.
Y amnistía no habrá investidura. Mentirán los que han dicho que el referéndum y la amnistía son líneas rojas que nunca atravesarán. E también, quizás, mentirán todos e intentarán escenificar um acordo em que todos han cedido algo para ocultar lo que provavelmente ya esté cerrado. E os catalães?
Sobre os catalães, também há aqui dois partidos, que é a Esquerda Republicana Catalã e os Juntos por Catalunha, que é o partido do Carlos Puigdemont. E são dois partidos que ideologicamente até estão distantes. A Esquerda Republicana Catalã, como o próprio nome indica, é mais inclinada para a esquerda, os Juntos, um independentismo até mais direita. E exigem estes dois partidos uma anistia para os organizadores do referendo de 2017 e também um referendo para a autodeterminação da Catalunha. São exigências que Pedro Sánchez está a tentar gerir e uma que é a anistia, ele até tem aceitado e tem tolerado e até se fala mesmo que poderá avançar, enquanto o referendo é uma autêntica linha vermelha para os socialistas.
Porque isso pode pôr em causa a união do Estado espanhol, não é?
Sim, pode pôr em causa a unidade do Estado espanhol, desrespeita a Constituição, daí que seja uma opção que os socialistas rejeitam por completo.
Lo que quieren los catalanes e catalanas es pasar página de esa situación y provocar um reencontro entre los catalanes e catalanas e entre as instituições catalanas e o conjunto da sociedade espanhola.
No entanto, o que é facto é que o Parlamento da Catalunha aprovou na semana passada uma resolução em que expõe claramente que terá de haver negociações para um referendo se Pedro Sánchez quiser os apoios dos partidos catalães.
E é por isso tudo que em Espanha não se fala de geringonça, mas fala-se de um monstro que no fundo é construído por várias partes, e aqui falamos do monstro criado pela britânica Mary Shelley, o monstro Frankenstein. É por isso?
Sim, porque será um governo formado por forças muito distintas entre si, umas mais de centro, outras mais de esquerda, uns partidos independentistas que apenas visam a concretização de políticas regionais, outros mais federais. Portanto, vai ser aqui uma combinação de partidos muito distintos e que, na minha opinião, deverão trazer algumas dificuldades para Pedro Sánchez gerir todo este processo.
E qual vai ser o preço a pagar por tudo isso, Zé Carlos?
Pode haver aqui um preço a pagar para o PSI, principalmente porque algumas figuras emblemáticas, como o ex-primeiro-ministro Felipe González, já se vieram atirar a esta opção de Sánchez de conceder a anistia E também dar alguma esperança aos catalães de que poderá haver um referendo. A ala mais moderada dos socialistas não olha com bons olhos para algumas abstências. Aliás, o Partido Popular tentou, na primeira investidura de Feijóo, conquistar alguns socialistas para votarem ou pelo menos para se absterem da sua investidura, mas não conseguiu. Mas efetivamente pode criar alguns problemas dentro do Partido Socialista. Por outro, na Catalunha pode ter um impacto nas próximas eleições regionais e esta investidura de Pedro Sánchez pode já ser uma corrida entre a Esquerda Republicana e os Juntos pela Catalunha de angariarem votos numa futura eleições regionais, no sentido em que quem impor uma linha mais dura é capaz de ganhar mais votos.
E se chegarmos a 27 de novembro sem uma solução, novas eleições.
A mim gostaria que fosse o quanto antes. É dizer a verdade.
Sim, novas eleições e que até já estão marcadas.
Ah, já estão marcadas?
Sim, para dia 14 de janeiro de 2024, tendo em conta o calendário da investidura, ficou definido que seria a 14 de janeiro mais uma ronda de eleições gerais espanholas.
Portanto, o ano pode arrancar com campanha eleitoral em Espanha, apanhando o Dia de Reis, que é quando se trocam presentes em Espanha.
Por acaso não, porque a campanha eleitoral, a acontecerem novas eleições, terá de começar a 8 de janeiro, portanto, dois dias depois do Dia de Reis.
Obrigado, José Carlos.
Obrigado.
José Carlos Duarte é jornalista da secção de internacional do Observador. Os sons que ouvimos foram retirados da conta do X de Pedro Sánchez e Núñez Feijóo. Esta foi a história do dia e aproveito para mandar um abraço aos muitos ouvintes que temos em Espanha, de resto, em todo o mundo, em lugares tão exóticos como o Cazaquistão ou a Nicarágua. Um abraço para todos. A sonoplastia é da Beatriz Martel Garcia, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até sexta.