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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Israel, a vida num país com duas guerras.

"Eu estou aqui com a minha esposa, Sara, no Kibbutz Nir Oz, diante dos restos da destruição e do massacre."

Benjamin Netanyahu esteve na semana passada, pela primeira vez, no Kibbutz de Nir Oz. Esteve acompanhado da mulher, Sara, para ver a destruição causada pelo massacre de 7 de outubro de 2023. Este kibbutz fica cerca de um quilômetro e meio em linha reta da Faixa de Gaza. Nesta declaração, não se ouvem, no entanto, os protestos dos familiares dos reféns que todos os dias exigem o regresso dos seus. O primeiro-ministro israelita vai estar esta segunda-feira em Washington com Donald Trump. Os israelitas enfrentaram em poucos meses duas frentes abertas de guerra, com consequências internas. E como se vive em Israel por estes dias? E por que continuam as autoridades israelitas a vedar o acesso a jornalistas à Faixa de Gaza, de onde chegam diariamente relatos de atrocidades? É sobre tudo isto que vou conversar com os enviados especiais do Observador a Israel, Cátia Bruno, editora de internacional, e João Porfírio, editor de fotografia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, segunda-feira, 7 de julho. Bem-vinda, Cátia.

Olá, Ricardo.

Estão em Israel há vários dias. A comunicação também não está fácil, o que esta história do dia vai ser gravada com recurso ao velho telefone. É o suficiente para conseguir ouvir-vos. Não foi nada fácil chegar a Israel.

É verdade, não foi. Porque embora quando nós tínhamos partido o espaço aéreo já estivesse reaberto, na verdade, a prioridade dos voos era para cidadãos israelitas e depois disso para pessoas que já tivessem bilhetes comprados e, portanto, não conseguíamos chegar rapidamente a Israel. Portanto, a solução que encontrámos foi a de voar para Chipre e a partir daí apanhar um barco que tinha sido fretado pelo governo israelita para levar os cidadãos israelitas de volta ao país e que estava aberto ao público desde que comprássemos bilhetes e foi assim que conseguimos chegar a Haifa de barco.

E Cátia, já que falamos de dificuldades de circulação, os jornalistas não conseguem entrar na Faixa de Gaza. Qual é a justificação oficial para vos impedir de entrar no enclave palestiniano?

É a segurança. Basicamente, Israel já antes da guerra controla os postos fronteiriços que existem na Faixa de Gaza e neste momento o único que está aberto é o do sul, em Rafah, que faz fronteira com o Egito, e apenas para a entrada de ajuda humanitária, que nem sequer tem decorrido de forma regular. E, portanto, se nem a ajuda humanitária entra de forma regular, os jornalistas então muito menos. Temos que pensar que a Faixa de Gaza é um território densamente povoado, que está a ser bombardeado constantemente e, portanto, não há aquilo que é enfocado pelas Forças de Defesa de Israel, é que não há forma de garantir a segurança a jornalistas e civis, por isso não podem entrar.

Ou seja, Cátia, é muito difícil ter um olhar mais independente sobre aquilo que está a passar.

Sim, porque, na verdade, não conseguimos falar com as pessoas que estejam em Gaza, nem conseguimos ver. Nós conseguimos aproximar-nos e ver à distância o que é possível ver no norte de Gaza e, de facto, é visível a destruição, é audível e visível os bombardeamentos, mas não é possível falar com as pessoas que estão em Gaza. No fundo, é essa a grande diferença da cobertura que se pode fazer jornalística em Israel e na Faixa de Gaza.

E vocês presenciaram isso, portanto, estiveram em locais em que conseguiam ver.

Sim, estivemos numa zona muito perto do norte do enclave. Nós estávamos a menos de 5 km das casas, estávamos a menos de 1 km da cerca que faz a fronteira e conseguíamos ouvir perfeitamente os projéteis a serem disparados de um lado e depois a aterrarem nos prédios do outro e a formar-se uma nuvem de fumo. E isto ocorria com uma regularidade enorme. De 10 em 10 minutos, pelo menos, havia um bombardeamento e foi durante o dia. Nós sabemos que muitas vezes os bombardeamentos à noite são ainda mais intensos. Portanto, isto é o que é possível ver de Gaza para quem não vive em Gaza. E isto aplica-se a toda a gente, a não ser aos relatos israelitas, obviamente, que entram para fazer missões no território.

E Cátia, bem presente na memória estão os ataques de 7 de outubro de 2023. Em que medida é que alteraram a forma como os israelitas olham para os palestinianos e para os árabes? Houve uma mudança na forma como estas comunidades se relacionam?

Parece-me que houve, porque há muita mágoa ligada a 7 de outubro. Até mesmo entre as pessoas que acham que a guerra em Gaza devia acabar, porque não está a ter resultados, porque os reféns continuam lá. Mesmo essas pessoas têm um sentimento de profunda dor pelo que aconteceu a 7 de outubro. E, portanto, isso levou a uma radicalização de posições. Eu diria que em algumas pessoas há um sentimento até de vingança, há outras que não, mas que acham que o Hamas se radicalizou de tal maneira que agora a única opção que têm é responder assim. E, portanto, as coisas estão muito mais tensas do que estavam há anos, há três anos, e é compreensível do lado da Faixa de Gaza Em relação à Cisjordânia, por exemplo, é diferente, porque é uma região que está controlada pela autoridade palestiniana, não pelo Hamas. A segurança é feita ali a meio entre a autoridade palestiniana e o exército de Israel. Nós estivemos numa aldeia da Cisjordânia e a situação está muito tensa com os colonatos que vivem nos colonatos israelitas que estão na Cisjordânia e que são ilegais à luz do direito internacional e que às vezes resultam em confrontos, em invasões, em queimar coisas, em tentar atacar pessoas. E a tensão neste momento está a se alastrar até a relação dos colonos com os soldados israelitas, porque já tivemos várias situações ao longo dos últimos dias em que colonos atacaram soldados das IDF. E isto está a gerar muito debate aqui em Israel e mostra muito o nível de tensão que a sociedade vive neste momento.

Obrigado, Cátia.

Obrigada, Ricardo.

E já regressamos à conversa. Vamos agora falar com João Porfírio, um dos dois enviados especiais do Observador a Israel, o João Porfírio e a Cátia Bruno. Afinal, como será viver num país com duas frentes de guerra? Estamos de regresso à conversa. Chamamos agora o João Porfírio, o editor de fotografia do Observador. Ele e a Cátia Bruno são os enviados especiais do Observador a Israel. João Porfírio, bem-vindo.

Olá, Ricardo.

Como é que estes 12 dias de guerra com o Irão mudaram a vida dos israelitas?

É uma verdade que os israelitas já estão habituados a estes momentos de tensão no seu território, mas um que é facto é que esta guerra dos 12 dias com o Irão veio relembrar logo os dias seguintes ao 7 de outubro. Isto por quê? Porque novamente as pessoas tiveram que recorrer aos abrigos para se protegerem dos ataques aéreos. Contam-nos que o barulho dos mísseis a cair em território israelita, as sirenes constantemente a tocar, obviamente que lhes fez relembrar aquilo que acontecia logo depois de 7 de outubro com os rockets que vinham da Faixa de Gaza atirados pelo Hamas. E isso fez com que, obviamente, infelizmente, resultassem feridos e até bastantes mortos e muitas casas destruídas bem no centro de Tel Aviv.

Vocês estiveram numa dessas casas?

Sim, exato. Isso foi um dos focos da nossa reportagem, era acompanhar uma família que estivesse a entrar pela primeira vez na sua casa depois desta ter sido destruída. E conseguimos encontrar uma família de uma avó, uma filha e os dois netos que estavam a entrar na casa pela primeira vez depois da casa ter sido completamente destruída. Uma casa que agora é um monte de entulho, uma casa onde esta mulher de 83 anos, a Rachel, viveu durante mais de 50. Portanto, conseguimos imaginar uma casa cheia de memórias, cheia de quadros na parede, fotografias dos seus familiares e que neste momento é, como dizia, um monte de entulho aquela casa.

E nesses momentos, isso está descrito na vossa reportagem, nas tuas fotografias, as pessoas agarram-se a quê? São as fotografias?

Agarram-se, sobretudo, às memórias e neste exemplo concreto que vos falo, as memórias são escassas, porque, como disse, grande parte da casa e do recheio da casa foi completamente destruído. Esta mulher passava grande parte do seu tempo a fazer esculturas e todas essas esculturas, toda a sua coleção de esculturas foi completamente destruída, todo o seu quarto, as molduras, as fotografias. Tanto que a dada altura a mulher sozinha no seu quarto, no quarto onde viveu 50 anos, está a remexer entre roupas, sacode as roupas do pó das paredes que ficaram totalmente destruídas e encontra uma fotografia do pai. E, portanto, era um bocadinho isto que todas aquelas horas que nós estivemos com esta família, foi o facto de a pouco e pouco, tirando uma pedra aqui, tirando uma pedra ali, iam encontrando essas pequenas memórias.

João, isso é o resultado prático da resposta dada pelo Irão depois do ataque israelita contra o Irão, aquela guerra de projéteis e mísseis a que assistimos. Como é que as pessoas comuns, os israelitas, como essa família, veem a ofensiva lançada por Israel contra o Irão?

Existem aqui duas partes completamente diferentes de duas guerras que, na verdade, aconteceram em simultâneo. Começando por essa primeira que me perguntas, a guerra com o Irão, grande parte, senão mesmo a esmagadora maioria dos israelitas concordam com a ofensiva que Netanyahu lançou sobre o país que é o Irão. Uma vez que concordam todos que o Irão não pode ser uma potência com armas nucleares.

É uma ameaça demasiado séria.

Exatamente. O medo dos israelitas era exatamente esse. E, portanto, concordam com esta ofensiva do governo Netanyahu.

E também temos que olhar para o que está a passar em Gaza e para as informações terríveis que vamos tendo e que nos chegam de Gaza. E a Cátia Bruno há pouco explicou também como a informação nos chega e está a chegar aqui a Portugal, por exemplo. Mas como é que a população israelita também olha para o que está a passar na Faixa de Gaza?

Outra coisa completamente diferente. Falávamos há poucos minutos de duas guerras a acontecerem em simultâneo no mesmo país. Recordemos que Israel é um país muito pequeno. Uma potência militar gigantesca, mas um país em termos de território muitíssimo pequeno. E aqui é um contraste, não diria total, mas um contraste bem mais vincado. Aqui as pessoas em relação à Faixa de Gaza e aos momentos de tensão muito graves que têm acontecido nos últimos dias e nas últimas semanas na Cisjordânia, mas em especial na Faixa de Gaza, as opiniões já se dividem bastante entre os israelitas. Obviamente que estão contra o grupo terrorista e que neste momento controla politicamente e militarmente a Faixa de Gaza, que é o Hamas. Obviamente que todos concordam que esse grupo tem que ser destruído, mas mais do que isso, a maior parte das pessoas pede que esta guerra com o Hamas e na Faixa de Gaza termine, mas sobretudo ainda, que todos os reféns sejam entregues às suas casas e às suas famílias. E com isso, grande parte das pessoas, com essa premissa de que os reféns têm que vir para suas casas, pedem que a guerra termine o mais rapidamente possível, porque para estas pessoas, e grande parte também destas pessoas tem a convicção de que isto é verdade, não é possível que os reféns regressem às suas casas se a guerra com o Hamas continuar da forma que hoje vemos que esta guerra decorre.

João, corrige-me se isto não é assim, mas tu e a Cátia, estando aí, têm obviamente uma visão privilegiada sobre tudo isto. Para os israelitas, mal as sirenes se calam, há uma tentativa de voltar à vida normal. As praias, as esplanadas enchem-se rapidamente. Esta é pelo menos a imagem que temos.

Não, sem dúvida. Não tenhamos dúvidas absolutamente sobre essa afirmação, que é 100% correta.

É viver o mais possível num curto espaço de tempo.

Exatamente. Posso vos dar o exemplo meu e da Cátia. Tocou uma sirene num determinado dia, desde que chegámos a Israel, e as pessoas estavam a fazer a sua vida normal, estavam na praia, estavam nas esplanadas, estavam nos cafés, nos bares. A sirene toca, todas as pessoas têm uma aplicação no seu telemóvel, que é a aplicação recomendada pelo governo, e todas estas pessoas recebem ao mesmo tempo uma notificação que é bastante audível, mesmo que o telemóvel esteja no silêncio, mesmo que a vibração não esteja ativada no nosso telemóvel, esta aplicação supera isso tudo e começa a tocar violentamente, um som muito audível, e as pessoas automaticamente levantam-se. É uma coisa automática que está enraizada nos israelitas. Levantam-se, procuram o abrigo mais perto e vão para dentro do abrigo. Há regras para isso, as pessoas estão sempre atentas aos seus telemóveis e a esta aplicação. É provavelmente a segunda guerra que está a usar este tipo de mecanismos. Lembro-me, por exemplo, da guerra da Ucrânia, que nós também cobrimos de uma maneira bastante intensa. E a guerra da Ucrânia também tinha estes mecanismos de avisar as pessoas que havia ataques sérios através de uma aplicação. E o que é facto é que as pessoas assim que recebem uma segunda notificação a dizer que está tudo seguro, podem sair dos abrigos, as esplanadas voltam-se a encher, os campos de voleibol, que é um desporto muito praticado em Israel, voltam-se a encher de jogadores nas praias de Tel Aviv. Portanto, a vida normal volta a acontecer sem que haja grande drama com isso.

Obrigado, João.

Obrigado, Ricardo.

João Porfírio é editor de fotografia e Cátia Bruno, editora de internacional, são os enviados especiais do Observador a Israel. Ficam ainda algumas notas importantes para esta semana que agora começa. Na terça-feira, José Sócrates deverá falar na segunda sessão do julgamento da Operação Marquês, no Campus da Justiça, em Lisboa. Também nesta terça-feira, deverá ser conhecida a decisão do Tribunal de Aveiro sobre o chamado caso da grávida da Murtosa. E ainda pelos tribunais, na sexta-feira, há mais uma sessão do julgamento do caso que opõe os Anjos a Joana Marques, deverá ser a vez da humorista ser ouvida pela juíza. Antes, na quinta, arranca o NOS Alive em Lisboa. Esta foi a História do Dia, a sonoplastia do João Tição, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã e boa semana.