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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Podemos mesmo livrar-nos do gás russo?

"Russia is waging a cruel and ruthless war, not only against Ukraine's brave troops, but also against its civilian population. It is important to sustain utmost pressure on Putin and the Russian government at this crucial point".

Ursula von der Leyen anunciava assim o quinto pacote de sanções à Rússia na semana passada, sublinhando a necessidade de aplicar pressão máxima ao governo de Putin neste momento crucial. A presidente da Comissão Europeia anunciou um embargo à importação de carvão, falou na hipótese de sanções adicionais às importaões de petróleo, mas não fez qualquer referência ao gás russo, do qual dependem vários países europeus.

A clear stand against Putin's war of choice.

A União Europeia promete uma posição firme contra a guerra de Putin na Ucrânia.

A clear stand against the massacre of civilians.

Contra o massacre de civis.

And a clear stand against the violation of the-

E contra as violações fundamentais dos princípios da ordem mundial. Mas há um laço que não pode cortar de vez. A Europa está numa corrida contra o tempo. O gás natural liquefeito pode ser a alternativa ao que vem da Rússia por gasodutos, mas implica grandes desafios logísticos e um sério dilema: é mais caro e mais poluente. Quais são os reais custos de nos livrarmos do gás russo? E podemos pagá-los? Hoje vou conversar com a grande repórter do Observador, Ana Suspiro. Olá, Ana.

Olá, Catarina.

Qual é a dimensão da dependência europeia do gás russo?

Há vários números para responder essa pergunta. O número que nós costumamos usar é cerca de 35% a 40%, em termos médios, ou seja, é quanto a Europa como um todo vai comprar ou comprou no ano passado de gás russo. Mas depois quando tu olhas para cada país, há diferenças muito grandes. A Alemanha, por exemplo, depende cerca de 40% a 50% do gás russo. Se tu fores mais pra norte, chegas a dependências da ordem dos 90% e até 100% nalguns países, por exemplo, do Báltico. Quando tu vens pro sul da Europa ou te afastas mais pro Ocidente, menor é a dependência. E chegamos, por exemplo, ao caso português, onde o ano passado nós compramos 10%, mas, na verdade, não precisávamos daquele gás, portanto, nossa dependência é zero%.

Há um acordo com os Estados Unidos para aumentar as compras de gás americano, mas não será suficiente para compensar o gás que vem da Rússia. Que alternativas existem?

Há outros produtores no mercado, por exemplo, o Qatar. A Alemanha já tem feito alguns acordos com o Qatar. Há países em África, como a Nigéria, a Argélia, que também têm gás e que também podem aumentar a produção. O problema é que há muita gente à procura de gás natural neste momento. O mercado asiático é um grande cliente do gás e aqui há a possibilidade de se, por exemplo, a China, que compra muito gás natural liqufeito, passar a comprar algum do gás que a Rússia vendia à Europa, isso pode libertar algumas quantidades e ficam disponíveis pros países europeus. Mas há um outro problema que é: o gás existe, mas como é que nós trazemos o gás até à Europa e como é que o descarregamos nos portos? Porque o gás é transportado em barcos, que se chamam butaneiros, que são barcos muito especializados, é liquefeito pra ser transportado e depois quando chega aos portos europeus, tem que ser novamente regaseificado pra entrar nos gasodutos. E aí é preciso que haja terminais, como aquele que existe em Sines, e o problema é que não há. Quer dizer, a Península Ibérica tem vários, tem cerca de seis, há outros no Sul da Europa, mas os países do Norte e do Centro da Europa, precisamente aqueles que estão mais dependentes do gás russo e que se habituaram a ser abastecidos por gasoduto, não têm esses terminais, ou se os têm, não são suficientes pra todo o gás que vão precisar comprar para substituir o que vem da Rússia.

Nowadays, Lithuania is more ready to break all the ties with Russia in energy sector.

Ouvimos aqui o presidente lituano, em entrevista à MSNBC, garantir um corte total com os fornecimentos russos de gás. E a Lituânia está a contar com esse gás natural liquefeito como alternativa. Como é que se resolve essa questão do transporte de que falavas?

Esse é o problema, de fato. E há aqui dois tipos de problemas. Por um lado, nós poderíamos transportar o gás que chega, por exemplo, à Península Ibérica, que tem capacidade superior às suas necessidades de consumo. Podíamos transportar o gás através dos Pirineus, através de França, pra chegar à Alemanha, mas a interligação que a Espanha e Portugal defenderam e quiseram fazer no passado não foi considerada prioritária, a França não mostrou grande interesse, não foi feita. Agora dizem que querem fazer, mas vai demorar alguns anos a construir. E depois o outro problema é o que eu já tinha referido, faltam terminais no Norte e no centro da Europa e também faltam barcos para transportar o gás natural. Quer dizer, há alguns barcos, mas nem todos. Não existindo terminais físicos instalados, coisas que demoram quatro a cinco anos a construir, há alternativas, pras quais aliás Vários países europeus estão neste momento a olhar, que são barcos de grande dimensão, também uma espécie de terminais flutuantes. Ou seja, eles transportam o gás mas também têm a capacidade de o tornar líquido e de voltar a regaseificá-lo. Só que não há muitos destes barcos. São enormes e caríssimos. Há cerca de 50 barcos no mundo inteiro e estão quase todos ocupados. Portanto, temos aqui um estrangulamento que pode limitar a quantidade de gás que chega à Europa vindo de outros sítios que não da Rússia.

E há outro problema: as questões ambientais. Explicavas num artigo teu recente que este gás é menos eficiente e mais danoso. Por quê?

Eu desconhecia isto até ter falado com um professor especialista nesta área, o professor Jorge Sousa do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, que me explicou que o gás natural emite metano, sobretudo naquilo que é o processo de passar de gás para líquido e volta a gaseificá-lo. Este processo envolve energia porque é preciso baixar a temperatura do gás para valores negativos pra ele ficar líquido. Depois há todo o processo de transporte, que também usa combustível, produz CO₂ e tem uma pegada ecológica grande. E depois estas alterações processuais no estado do gás, do líquido pro gasoso e vice-versa, libertam metano, que é um dos gases que maior efeito de estufa provoca, mais até do que o CO₂, portanto, há de fato aqui um impacto ambiental e também financeiro, porque todo esse processo é mais caro do que transportar o gás através de gasoduto.

O que levanta à Europa aqui também um grande dilema.

Exatamente, porque a Europa é o continente bandeira nas questões ambientais, na transição energética e nas energias limpas. E agora, o que está de alguma forma obrigada a fazer ou que se sente empurrada a fazer é substituir o gás que chega por gasoduto e que é mais barato e ambientalmente menos nocivo, por o gás que vem através de barco liquefeito, que é mais caro e produz mais CO₂. Mas no curto prazo parece claramente que a União Europeia está a colocar a segurança do abastecimento e a independência energética em relação à Rússia em primeiro lugar.

Na passada sexta-feira durante a discussão do programa do governo ouvimos Duarte Cordeiro, o novo Ministro do Ambiente e da Ação Climática, citar o ministro das Finanças alemão dizendo isto em resposta a um deputado do Chega.

Porque a sua estratégia relativamente à guerra é ficar mais dependente da Rússia. A nossa estratégia é ficar menos dependente da Rússia, senhor deputado. Eu vou lhe citar um político de direita, o senhor ministro das Finanças alemão, ministro liberal, disse de uma forma muito sintética algo que eu subscrevo: As renováveis são neste momento a energia da liberdade. E é isso que move a ação deste Governo.

Até onde podem as renováveis ser uma real alternativa? Conseguimos só com as renováveis fazer isto?

Bom, ele tem razão quando diz que quanto mais renováveis, menos dependemos das energias fósseis e do gás natural, que é muito usado para produzir eletricidade. Isto é verdade, mas o outro lado da questão é quanto mais nós dependermos das energias renováveis, mais precisamos de ter backup, uma espécie de seguro para ativar quando não temos água nas barragens, quando temos pouco vento para produção eólica. Isso são fenômenos que acontecem, aliás, têm acontecido com alguma frequência na Península Ibérica. E quando as renováveis não são suficientes para abastecer o consumo, tu tens, num país como Portugal, duas opções: importa de Espanha ou produz eletricidade a partir de centrais a gás natural. Neste momento Portugal não tem o carvão, nem nunca teve nuclear, portanto o seguro do sistema elétrico e da segurança de abastecimento em Portugal, de certa forma, é o gás natural e não há condições para deixar de o ser nos próximos quatro, cinco, seis anos, provavelmente vai continuar a ser assim.

E мы тоже не собираемся заниматься благотворительностью. То есть действующие контракты будут остановлены.

Ouvimos Vladimir Putin dizer que não iria fazer caridade quando impôs que as compras de gás passassem a ser feitas em rublos. Isto deixou países como a Alemanha particularmente nervosos. Por quê?

Porque a Alemanha ainda depende muito do gás russo e por mais que esteja a tentar construir uma estratégia alternativa de fornecimentos, não vai conseguir fazê-lo no muito curto prazo. Vai demorar meses pelo menos, talvez até ao final do ano. No fundo esta ameaça da Rússia mostra também que existe do outro lado alguma disponibilidade e alguma capacidade para responder às sanções europeias. Isto é uma contrasanção. O que poderia acontecer se isto fosse levado ao extremo e dizendo às empresas europeias e aos países europeus que não iam ceder e que iam continuar a cumprir os contratos que são em dólares e euros, foi cortado o abastecimento, porque o presidente Russo amençou que não vende por caridade e se não lhes pagarem em Rublos, não entregariam o gás. Essa é a razão pela qual a Alemanha ficou nervosa a ponto de ativar um plano de emergência pro caso disso acontecer.

We will impose an import ban on coal from Russia

Do quinto pacote de sanções impostas pela União Europeia, faz parte um embargo à importação do carvão da Rússia. Ouvimos Ursula von der Leyen anunciá-lo na semana passada. Este fornecimento é mais fácil de substituir?

É um pouco mais fácil de substituir. A Rússia é um grande produtor de carvão também, penso que é um dos maiores fornecedores mundiais de carvão, mas há aqui duas nuances em relação ao gás natural. Aliás, eu diria três: primeiro, há produtores de carvão na Europa que são importantes, como por exemplo a Polónia e Alemanha. E a Alemanha já disse que ia aumentar a produção de carvão para substituir este produto que vem da Rússia. A questão logística não se compara com o gás, portanto, o carvão não precisa de redes de gasodutos nem de barcos. Um barco de transporte normal de mercadorias pode transportar o carvão, não tem essa limitação. E, por outro lado, os sistemas elétricos da Europa estão muito menos dependentes do carvão do que estão do gás natural. Por quê? Porque os países europeus, para reduzir as emissões de CO₂, fecharam ou têm vindo a fechar as centrais a carvão, como é o caso de Portugal, e têm estado a substituir o carvão pela produção elétrica a partir do gás natural.

Depois de tudo o que aqui explicaste, podemos concluir que, na prática, a Europa ainda está refém da Rússia em termos de energia?

Eu acho que alguma Europa está refém da Rússia apenas no gás natural. Todo o discurso relacionado com as sanções evoluir no sentido de atingir cada vez mais produtos que antes estavam fora do pacote e eram considerados, de certa forma, intocados. A Europa neste momento já avançou com o embargo ao carvão, que acho que vai entrar em vigor em agosto. Fala-se do petróleo, que também seria um passo importante. A Rússia é um grande produtor de petróleo, mas há alternativas no mundo. De fato, o gás natural é que continua a ser muito problemático de substituir e é precisamente por causa desta questão do transporte e da infraestrutura para receber o gás. Esse é que é o grande problema que a Europa não consegue resolver em seis meses.

Claro, o que quer dizer que não conseguindo implementar o que seria necessário em tão pouco tempo, prevê-se um próximo inverno ainda bastante complicado se seguirmos nesta linha.

Essa é precisamente a baliza, a baliza é o inverno. E por que o inverno? Porque nos países que usam muito gás natural, o gás é usado pra aquecimento e não tanto para produzir eletricidade, e, portanto, o consumo e as necessidades têm muito a ver com o nível das temperaturas. E por isso é que este grande estresse vai se sobretudo colocar nos meses que vão anteceder o próximo inverno, quando os países tiverem que começar ou que reforçar muito o armazenamento de gás para responder ao aumento de procura que acontece sempre nessa altura do ano. E aí é que nós vamos ver se a Europa conseguiu ou não conseguiu a sua independência energética do gás russo.

Obrigada, Ana.

Obrigada eu.

A Ana Suspiro é grande repórter da seção de economia do Observador. Continuamos de olhos postos no que se passa na Ucrânia, no jornal e na rádio. Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou a Catarina Santos. Até amanhã.