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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Bento XVI, o Papa que mudou a história dos Papas. Ninguém imaginava que algo assim pudesse acontecer. Estávamos em 2013 quando o Papa Bento XVI anunciou que renunciava. De repente, toda a noção de séculos que tínhamos de um Papa mudava em poucos segundos. O Papa também era humano, também envelhecia e perdia forças para continuar. E em plena liberdade, o Papa decidia abandonar a missão que lhe tinha sido conferida oito anos antes. Bento XVI foi eleito Papa em abril de 2005. Na altura, tinha já 78 anos e coube-lhe a difícil tarefa de suceder a João Paulo II. Naquele dia, Joseph Ratzinger apresentou-se ao mundo na Praça de São Pedro. Ele, que durante a vida, sempre procurou fugir dos holofotes e que disse que o seu maior desejo seria passar a vida inteira sentado a uma secretária a escrever. Ele, que se habituou a escrever sempre a lápis para precaver a possibilidade de errar. Profundamente marcado pela experiência da Segunda Guerra Mundial, Ratzinger seria um dos teólogos mais brilhantes da história contemporânea. Participou no Concílio Vaticano II, que reformou a Igreja Católica e durante mais de 20 anos esteve à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, antes de chegar a Papa. Neste episódio da História do Dia, recordamos Joseph Ratzinger, do menino tímido que nasceu na Alemanha ao Papa que surpreendeu o mundo ao renunciar. Eu sou o João Santos-Duarte e vou falar com o João Francisco Gomes, jornalista do Observador que acompanha os temas religiosos. Bem-vindo, João Francisco Gomes.
Olá, João.
João, como é que vamos conseguir resumir aqui, em pouco tempo, a vida de um homem como Joseph Ratzinger, que viveu tanto e foi quase centenário e que teve uma importância tão grande na Igreja?
Não vamos. É muito difícil resumir o legado de um homem que viveu quase 96 anos, que durante mais de 50 anos teve uma influência decisiva nos destinos da Igreja Católica e da Cristandade. Podemos dizer que foi um dos mais brilhantes teólogos do século XX e do século XXI. Foi um dos primeiros a captar a essência dos tempos modernos e a compreender o lugar da religião na Igreja e na modernidade. Isto acho um ponto absolutamente fundamental. E foi, na verdade e na prática, uma das figuras que durante mais tempo influenciaram a Igreja Católica contemporânea. Primeiro, como o grande visionário que sintetizou os grandes objetivos do Concílio Vaticano II, ainda na década de 60. Depois, mais tarde, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Ele foi durante 20 anos o braço direito de João Paulo II. E nos últimos anos do Papa polaco, a intervenção de Joseph Ratzinger foi fundamental. E finalmente, como Papa, num momento que foi especialmente difícil para a Igreja Católica. Mas se eu tivesse de sintetizar num único elemento o grande, o maior, o principal legado de Bento XVI, tenho de dizer que foi mesmo a sua renúncia histórica em 2013. Foi um ato que transformou radicalmente a Igreja Católica e que até podemos especular que terá repercussões decisivas no futuro.
Bento XVI renunciou aos 85 anos. Curiosamente, mais ou menos a mesma idade que o atual Papa Francisco tem, mas já falaremos dele mais à frente. Ora, a resignação foi, como dizias, uma surpresa total, até porque embora existisse um precedente histórico muito antigo, a prática, como sabemos, foi sempre que um Papa seria Papa até morrer. O que é que o levou a renunciar? Foi pressionado?
Eu acho que para compreender a renúncia do Papa Bento XVI, é mesmo preciso perceber que ele teve um pontificado muito difícil. E em primeiro lugar, o primeiro ponto que explica essa dificuldade é o seu antecessor, João Paulo II, com um pontificado de 26 anos, um homem extremamente popular. Podemos dizer que a fasquia da popularidade estava mesmo muito alta para quem quer que fosse o sucessor de João Paulo II. E nesse aspecto, aquilo que dizias é muito importante. O precedente histórico de o Papa ocupar o cargo até morrer, tinha contribuído muito para consolidar a popularidade de João Paulo II. Aqueles últimos anos, quem tem memória disso, lembra-se de um homem já com muita debilidade, muito incapaz, até incapaz de tomar decisões na governação da Igreja, mas ainda assim um homem que sofreu até o fim.
Que resistiu até o fim.
Exatamente.
São imagens muito marcantes também visualmente.
Completamente marcantes e que até contribuíram para aquela imagem de um homem que transcende as organizações humanas. Um homem, de facto, próximo de Deus. Pela sua própria vida transcender o tempo natural das coisas. Mas em segundo lugar, nos fatores que contribuíram para um pontificado muito difícil para Bento XVI, foi um conjunto de características do próprio Ratzinger. Ele era um acadêmico, era um professor universitário. Ele tinha passado toda a sua vida nos corredores das universidades e não no trabalho pastoral. Ele foi pároco durante um ano, numa paróquia. Todo o resto da sua vida de padre e bispo foi sempre na vertente acadêmica. E isso para os católicos no geral, para a grande população católica a nível global, foi uma diferença muito grande, porque de repente, há um contraste entre João Paulo II, aquele papa muito próximo, muito carinhoso, que tinha já conquistado o coração dos católicos, e Bento XVI, que era uma figura que até pela sua nacionalidade, um alemão mais frio.
Mais frio, mais racional.
Mais racional, exatamente.
Menos emotivo.
Mais teórico, mais teólogo, mais acadêmico. Ter uma figura dessas como papa para a generalidade dos católicos, foi uma comparação muito difícil, especialmente tendo em conta o seu antecessor João Paulo II. Mas em terceiro lugar, e isto é fundamental para compreender a renúncia histórica de Bento XVI, o pontificado de Ratzinger foi aquele período em que vieram a público muitos dos escândalos que ainda marcam a Igreja contemporânea. Muitos escândalos até adiados do tempo de João Paulo II.
Ireland's most senior clergymen were summoned to the Vatican after a damning report into the way the Catholic Church covered up for pedophile priests. Pope Benedict made it clear he shares the outrage felt in the aftermath of its publication.
Concretamente, em 2009 e 2010, os escândalos de abusos sexuais de menores na Irlanda e na Alemanha, que levaram Bento XVI a escrever uma célebre carta aos católicos irlandeses, que ainda hoje é um documento central para compreender a crise dos abusos na Igreja. E a maioria desses escândalos, apesar de já ter havido, por exemplo, a questão do Boston Globe, do Spotlight, etc., ainda durante o pontificado de João Paulo II, foi entre 2005 e 2013, no pontificado de Bento XVI, que os grandes escândalos vieram a público em todo o mundo. Em 2012, foi a questão do Vatileaks, a publicação de um conjunto de cartas que apontavam para indícios de corrupção no banco do Vaticano, que inclusivamente levou à prisão do mordomo de Bento XVI.
Foi quem revelou essas cartas.
Quem tinha revelado os documentos aos jornalistas. E, portanto, aquilo que nós percebemos é que ali nos anos finais do pontificado de Bento XVI, 2012, 2013, não só Bento XVI já era um homem idoso, cansado, como o seu pontificado já era marcado por inúmeras crises. A Igreja era marcada por um conjunto de crises que surgiam a todos os momentos, em vários países do mundo, com a questão da pedofilia, com a questão dos escândalos financeiros, a suposta existência de um lobby gay no Vaticano que estava a influenciar a tomada de decisão em torno de uma série de assuntos. Tudo isto começou a ser muito claro para o próprio Papa Bento XVI, a tornar muito claro para Bento XVI que ele já não era a pessoa indicada para conduzir a Igreja nestes tempos muito difíceis.
E é interessante também essa ruptura, essa renúncia histórica, ter partido de alguém que foi sempre associado a uma ala mais conservadora da Igreja Católica. Mas, na verdade, se olharmos aqui também agora um pouco para a vida de Joseph Ratzinger, isso não corresponde necessariamente à verdade.
Não. Bento XVI será um papa que terá de ser a história a fazer justiça. Não será no nosso tempo, muito provavelmente. Porque, na verdade, se olharmos objetivamente, Joseph Ratzinger foi um dos principais reformadores da Igreja no século XX. Quando nós pensamos que Ratzinger chegou aos 18 anos à formação universitária com uma juventude profundamente marcada pela vivência do nazismo. Ele nasceu filho de um polícia, o pai dele era polícia e era uma figura que não tendo aderido ao Partido Nazi, estava inevitavelmente ligado ao regime. Joseph Ratzinger passou por uma série de aldeias e vilas do sul da Alemanha, porque o seu pai ia sendo colocado em diferentes postos da polícia, e desde muito cedo contactou com aquilo que era a discriminação dos judeus, com os horrores do nazismo. Ele próprio, com 16 anos, foi recrutado para o exército nazi. Ele já tinha sido obrigado a inscrever-se na Juventude Hitleriana. Eu lembro-me que quando Ratzinger foi eleito papa em 2005, logo nos meses seguintes começaram a correr vários rumores com vista a desacreditar o novo papa, que ele tinha simpatizado com os nazis, que ele tinha um passado associado a esses horrores da Alemanha nazi da década de 40, quando, na verdade, quando olhamos para a biografia de Ratzinger, é exatamente o oposto. A família de Ratzinger recusou-se sempre aderir ao Partido Nazi. O pai dele era radicalmente contra o nazi, tão contra quanto se podia ser num regime como aqueles. Ratzinger só aderiu à Juventude Hitleriana em 41, em 1941, quando já não conseguiu escapar à adesão obrigatória no seminário onde ele andava. Ele tinha apenas 16 anos em 1943, quando foi recrutado para o exército. Teve de cumprir serviço militar durante a Segunda Guerra Mundial, mas já na fase final da guerra, quando ele estava colocado numa unidade de infantaria no sul da Alemanha, isto foi tudo contado por ele nas suas memórias, chegou mesmo a desertar. Ele fugiu da tropa, fugiu para a terra dos pais, quis voltar para casa, não queria fazer parte daquela guerra, mesmo sabendo que aquilo que ele estava a fazer era punível com a pena de morte. Aliás, na altura, os agentes da Gestapo, da polícia do regime nazi, executavam sumariamente os desertores do exército nazi. Aliás, inclusivamente, ele Não só fugiu para a casa dos pais, como acabou por ser capturado pelas tropas americanas ainda antes do final da guerra. E os últimos meses da Segunda Guerra Mundial para Ratzinger foram passados num campo de prisioneiros. Quando olhamos para os anos que foram, para aquilo que Ratzinger tinha vivido até aos 18 anos, compreendemos que foi um homem que chegou à sua formação universitária completamente marcado por uma necessidade de renovação, completamente associada ao período do pós-guerra.
Como é que ele toma essa decisão de ir para o seminário? Sempre teve essa certeza que queria ser padre ou não?
Não podemos dizer que sempre teve essa certeza, mas é muito curioso ler nas memórias de Ratzinger que ele desde criança sentia esse chamamento. Ele conta como em criança, quando pedia presentes aos pais, pedia que lhe dessem coisas para ele imitar, para ele brincar aos padres, como ele chamava, brincar aos padres, imitar as missas, etc. Ele já tinha entrado num seminário menor, já estava a fazer a sua formação no contexto da Igreja Católica, mas ele conta que foi durante a guerra e durante o cativeiro, que consolidou decisivamente a sua vocação sacerdotal. Ele quando foi libertado, no final da Segunda Guerra Mundial, do campo de prisioneiros onde estava, saiu para o seminário maior e para a formação universitária. É aí que ele sente claramente esse chamamento para ser padre.
Isso, de facto, como já referimos aqui, não é verdade que Ratzinger fosse um conservador. Então qual era o pensamento dele nesta altura?
Acho que é preciso fazer primeiro um enquadramento. Ratzinger foi um jovem acadêmico e um professor universitário numa altura em que ainda não tinha acontecido o Concílio Vaticano II. A Igreja ainda era muito marcada por aquela teologia do século XIX, uma religiosidade muito rígida, muito apegada ao cumprimento escrupuloso de rituais muito pesados, associada ao latim, a um certo analfabetismo, digamos assim, teológico da maioria dos fiéis. As pessoas limitavam-se a participar em rituais que não compreendiam. Toda esta religiosidade muito pesada do passado, do século XIX, inquietava muito Ratzinger, que entretanto tinha sido completamente alimentado por aquele espírito de renovação do pós-guerra e que queria renovar a teologia, queria reestruturar a Igreja, queria tornar a Igreja relevante para o século XX. Era a grande preocupação dele. É muito curioso lembrar que em 1958, Ratzinger publicou um artigo que tinha um título muito sugestivo. Chamava-se: "Os Novos Pagãos e a Igreja". E nesse artigo ele argumentava que o mundo real e a Igreja e a fé, se estavam a afastar progressivamente enquanto mantinham um conjunto de relações institucionais. Ou seja, as pessoas continuavam a ir aos batismos e aos casamentos e a frequentar a igreja, mas por razões culturais e não por razões associadas à sua espiritualidade. Faltava uma densidade espiritual. Ratzinger viu isto em 1958. Este é um processo que nós ainda hoje conseguimos ver na Igreja. A quantidade de pessoas que atualmente, sem terem propriamente uma ligação espiritual, uma grande fé, continuam a participar em rituais religiosos por esses serem rituais fundamentais para a sua própria cultura. Aquilo que nós falamos dos católicos não praticantes, por exemplo. O Ratzinger ter visto isto antes do Concílio Vaticano II é de um progressismo autêntico, mas ele por ter escrito aquele artigo, foi classificado de ultraradical, acusaram-no de heresia, esteve para perder alguns empregos na academia. Aquilo foi uma coisa muito penosa para ele, numa altura em que ele já estava a ver muitas décadas à frente. Agora, eu diria que o grande contributo dele seria mais tarde, no Concílio Vaticano II.
11 de outubro de 1962. Finalmente chegou o grande dia. 2778 participantes. Avançam em ordem hierárquica. Sete patriarcas, 80 cardeais, 1619 arquivescopos e bispos.
O jovem Ratzinger vai ter um papel no Concílio Vaticano II, que decorreu entre 1962 e 1965, e onde de facto foram implementadas as reformas que tornaram a Igreja naquilo que conhecemos hoje em dia. Curiosamente, e há aqui uma história muito interessante, ele começa a dar nas vistas no Vaticano, por causa de um discurso que escreveu, mas que não foi ele que proferiu. Lembra-nos essa história e depois também qual foi de facto a participação que acabou por ter no Concílio.
Na altura, no início da década de 60, Ratzinger era professor universitário na Universidade de Bona, na Alemanha. E lá nessa universidade estudavam os seminaristas de Colônia. E foi justamente aí nessa universidade que ele conheceu o cardeal Joseph Frings, um cardeal muito importante do século XX na Alemanha, era o arcebispo de Colônia, e ele nessa altura já era um dos grandes homens influentes da Igreja Católica Europeia. E de facto, o cardeal Frings foi um dos participantes de um conjunto de conferências que aconteceram ali no início da década de 60, que era um conjunto de conferências de preparação do Concílio, daquilo que viriam a ser os temas em discussão no Concílio. Nessas conferências debatia-se aquilo que ficou conhecido com o tema "A Igreja e o Pensamento Moderno". Que lugar teria a Igreja no pensamento contemporâneo? E na altura, o cardeal Frings convidou o professor Ratzinger, então teólogo lá da Universidade de Bona, a escrever uma proposta de discurso. O cardeal tinha sido convidado a discursar nessas conferências, precisava de um discurso, de um conjunto de temas e pediu a Ratzinger que lhe fizesse uma proposta. O Ratzinger fez essa proposta, escreveu um discurso que o cardeal achou tão bom, tão brilhante, que o leu como ele tinha escrito perante a conferência. Poucas semanas depois, o cardeal Frings recebe um contacto do Vaticano a dizer que o Papa João XXIII queria falar com ele no Vaticano. O cardeal ficou cheio de medo.
Ficou assustado.
Completamente assustado.
Quando o chefe pede para falar conosco.
Tinha medo de ter dito alguma coisa errada, que podia ter sido muito progressista. Achava até que ia ser demitido de cardeal. Até há uma história engraçada que é essa: o cardeal Frings, quando vai para o Vaticano para se encontrar com o Papa, põe a capa vermelha aos ombros do padre Ratzinger e diz: "Olha, é possível que seja a última vez que eu pegue nesta capa". Mas quando chegou ao escritório do Papa, percebeu que, na verdade, ele ia ali para ser elogiado. É que o Papa João XXIII tinha lido o discurso que o Ratzinger tinha escrito e disse-lhe que tinha sido uma síntese perfeita do que a Igreja precisava de fazer no Concílio, que o próprio Papa não tinha conseguido formular tão bem o objetivo do Concílio Vaticano II. O texto só bastante mais tarde é que viria publicamente a ser atribuído ao Ratzinger, mas acabou por se tornar num dos documentos centrais da preparação do Concílio. Mais tarde, o próprio cardeal Frings foi um dos participantes do Concílio, aquilo que se chamam os padres conciliares, e levou o padre Ratzinger com ele como perito de teologia para participar no Concílio. Portanto, Ratzinger acaba por se cruzar com grandes nomes da teologia do século XX no Concílio, acaba por ser o autor do texto, ou de um dos textos, que moldaram o Concílio e depois, ainda hoje, os escritos que o Ratzinger produziu durante o Concílio são alguns dos documentos fundamentais para percebermos o que aconteceu ali. Portanto, Ratzinger não só influenciou decisivamente aquilo que foi o Concílio Vaticano II, como ainda depois a sua ação, no futuro, se tornou completamente herdeira daquilo que tinha sido o Concílio Vaticano II.
Já voltamos à conversa com João Francisco Gomes, jornalista do Observador, que acompanha os temas religiosos. Vamos falar também dos últimos anos de vida do Papa Bento XVI e ainda que portas é que a decisão histórica de resignar pode abrir no futuro.
E o resto é história, com João Miguel Tavares e Rui Ramos, às quartas-feiras depois do jornal do meio-dia e sempre em podcast.
Estamos de regresso à conversa com João Francisco Gomes, jornalista do Observador. João, a verdade é que Ratzinger tem, de facto, essa participação no Concílio, mas sai muito desiludido com aquilo que acaba por ser o desfecho. O que é que aconteceu e como é que depois disso e dessa desilusão, ele acaba por chegar ao Vaticano mais tarde?
É verdade o que diz. Ele desiludiu-se bastante com o desfecho do Concílio, não necessariamente com os conteúdos ou com a discussão que teve lugar no Concílio, nem sequer com os documentos que foram produzidos. Ele explicou mais tarde, já depois de renunciar ao papado, que, na sua opinião, houve dois concílios a decorrer ao mesmo tempo. Um, que foi o verdadeiro, dentro do Vaticano, com os padres a discutirem teologia e a discutirem o lugar da Igreja no mundo contemporâneo, e um outro, que aconteceu fora da Igreja, fora dos muros do Vaticano. Aconteceu nos jornais, nas televisões e nas rádios, e que foi basicamente uma transposição daquilo que eram algumas linhas do Concílio para uma hermenêutica, para uma linguagem mais jornalística, mais mundana, que acabou por traduzir o Concílio Vaticano II não num debate de ideias sobre o lugar da Igreja no mundo contemporâneo, mas sobre uma luta política interna entre facções da Igreja. E essa ideia de que o Concílio Vaticano II tinha sido uma luta entre progressistas e conservadores e que, no final, ganharam os progressistas, com, por exemplo, a missa ser realizada em várias línguas e não apenas em latim, a tradução dos textos da Bíblia, etc. Todos esses desfechos do Concílio, que foram muitas vezes vistos como uma, através de fora, através dos meios de comunicação, como uma derrota do tradicionalismo da Igreja e uma vitória do mundo profano, digamos assim, sobre a Igreja, acabou por desiludir muito Bento XVI, desiludiu muitos dos homens que estiveram envolvidos no Concílio Vaticano II. Bento XVI acaba mesmo por dizer que muitas das coisas que saíram do Concílio acabaram por descarrilar. Seminários vazios, igrejas vazias, um certo afastamento das pessoas relativamente à religião, que muitas vezes ainda hoje é atribuído à maneira como se comunicou sobre o final do Concílio Vaticano II. Agora, o que é verdade é que depois do Concílio, o padre teólogo Ratzinger voltou à Alemanha, voltou a dar aulas, voltou à sua vida acadêmica, mas durou cerca de uma década esse regresso à vida acadêmica, porque já na década de 70 é elevado a bispo, é nomeado arcebispo de Munique, e pouco depois é chamado pelo Papa João Paulo II, no início da década de 80, para ocupar o cargo de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, um cargo importantíssimo na Cúria Romana. Ele já era considerado um dos melhores teólogos Da Igreja atual naquele momento e aquele cargo que é muitas vezes até apontado como o guardião da fé ou cão de guarda do Papa ou da fé, e que na verdade é um organismo que sucedeu à Inquisição e que hoje é responsável por manter a doutrina da fé. Joseph Ratzinger, elevado a cardeal, foi a escolha natural de João Paulo II para colocar um homem profundamente conhecedor da teologia católica à frente daquele organismo, que muitas vezes é apontado como o braço direito do Papa. E ali ficou durante 20 anos, aquele cardeal que só tinha sido padre um ano, que achava que não tinha jeito nenhum para lidar com pessoas e que gostava era de estar nos corredores da universidade, acabou por estar no topo da hierarquia da Igreja Católica. Portanto, em 2005, quando João Paulo II morreu, perante aquele problema de quem é que poderá vir agora, que possa fazer jus àquela popularidade de João Paulo II, Ratzinger acabou por ser uma escolha natural na continuidade. Acabou por ser um homem que tinha passado os últimos anos com João Paulo II e que ele próprio sabia que ia ser um papa de um período especial, um período de transição, de mudança de época. Mas sim, durante 20 anos, no topo da hierarquia do Vaticano.
E foi nesse período, enquanto guardião da fé, como referiste, que ele acaba também por ter um papel importante para a Igreja portuguesa.
Exatamente. Foi Ratzinger que esteve ao lado de João Paulo II no momento daquela revelação pública do chamado terceiro segredo de Fátima, ou mais corretamente, a terceira parte do segredo de Fátima, que é apontado como um dos grandes momentos da Igreja contemporânea em Portugal. E esse segredo, essa mensagem, que fazia parte daquelas visões que os pastorinhos tiveram em Fátima e que tinha sido escrita pela irmã Lúcia, falava de um ataque a um bispo vestido de branco, uma coisa que seria mais tarde associada aos atentados contra João Paulo II durante a década de 80. E foi justamente Ratzinger, enquanto teólogo-mor do Vaticano nessa altura, que escreveu o comentário teológico àquele texto, que ainda hoje é um documento central para compreender o fenômeno de Fátima, digamos assim. Ao mesmo tempo, enquanto professor, Ratzinger já tinha tido um impacto muito interessante em algumas figuras, hoje muito importantes da Igreja Católica em Portugal. O exemplo mais claro será o cardeal António Marto, que foi bispo de Leiria-Fátima até bem recentemente, e que em tempos contou numa entrevista ao Observador, como se cruzou com o professor Ratzinger em Roma, quando esteve em Roma a fazer o seu doutoramento sobre o Concílio Vaticano II, e vivia no colégio alemão, porque ele falava alemão e dava-lhe jeito viver ali. E o Ratzinger sempre que ia a Roma ficava alojado ali também. Portanto, eles cruzavam-se muitas vezes lá. E certo dia, o cardeal António Marto, ainda jovem seminarista ou já padre António Marto, decide pedir ajuda a Ratzinger para o ajudar com o seu doutoramento. E ele perfeitamente acedeu, foi ao quarto dele, esteve lá reunido com ele uma série de tempo.
No meu quarto existia um piano. O piano era do colégio, eu não tocava piano, simplesmente estava lá. E quando ele entrou, a primeira coisa que fez foi sentar-se ao piano e tocar. E depois atendeu-me. Era por causa do tema da tese. E como ele tinha sido perito no Concílio, eu quis fazer algumas interrogações para que ele me esclarecesse determinados aspetos dos textos do Concílio.
Outro exemplo é o do padre Henrique Noronha Galvão, padre português que já morreu e que foi o único português que pertenceu a um grupo muito seleto, os estudantes que tiveram o seu doutoramento orientado por Ratzinger. Aliás, ele fez o doutoramento em Teologia Dogmática na Alemanha, sob orientação de Ratzinger, e durante anos a fio, aliás, até já como Papa, o Ratzinger, o Papa Bento XVI, reunia no Vaticano todos os seus alunos que ele tinha orientado no doutoramento, que ele considerava serem umas grandes mentes da teologia contemporânea e até bem recentemente reuniu-os em Castelo Gandolfo, na residência de verão do Papa, para discutir teologia.
João Paulo II morre a 2 de abril de 2005. Na sequência, então cardeal Ratzinger é nomeado Papa aos 78 anos. Tem a tarefa, como dissemos, de suceder a um papa marcante, muito popular, que teve um dos mais longos pontificados da história. Só que, sabemos agora, não poderíamos saber na altura, o mesmo teria acontecido a Bento XVI se não tivesse resignado e ainda fosse papa. A questão é que esta resignação criou aqui também para a Igreja uma situação inédita. De repente, existiam dois papas vivos, um reformado ou emérito, se quisermos usar o termo que é usado pela Igreja, e outro papa em funções. Ora, como é que foi essa convivência entre os dois ao longo dos últimos anos?
Nem sempre muito pacífica. Não por eles, que sempre se deram relativamente bem desde o período da renúncia do Papa Bento XVI, mas muito por causa de fatores externos. Em primeiro lugar, Bento XVI Optou por ficar no Vaticano a viver num mosteiro a cinco minutos do lugar onde Francisco vive. E essa opção foi sempre justificada com o fato de Bento XVI, na verdade, ser o bispo emérito de Roma, portanto, é na diocese onde ele trabalhou, Roma, que ele deveria ficar como emérito. Na altura, especulou-se se ele voltaria pra Alemanha ou não. Mas o fato dele ficar ali tão perto, continuar no Vaticano, no centro geográfico da Igreja Católica, na capital da Igreja, criou um problema ao Papa Francisco, que é o problema da ingerência mesmo involuntária de Bento XVI. Quando o Papa Francisco foi eleito e foi apresentado ao mundo como este homem moderno, diferente, mais próximo da América Latina, etc., portanto, uma figura que não agradou muito aos tradicionalistas e aos conservadores, houve muitas pessoas da ala conservadora que continuaram a achar que Bento XVI é que era o grande chefe da Igreja. E o fato dele estar ali tão próximo levou muitas vezes, muitos desses cardeais mais conservadores, muitos desses bispos mais conservadores, a irem ao Vaticano não para visitar Francisco, mas para visitar Bento XVI no seu mosteiro de isolamento. Essas visitas, essas declarações e esses textos que iam saindo causaram muitas vezes embaraço ao Papa Francisco por criar a ideia de que havia posições diferentes entre dois papas. O próprio Bento XVI, sempre que teve a oportunidade de falar, disse claramente: "Só existe um papa". Foram feitas montes de fotografias do Papa Bento XVI a reverenciar o Papa Francisco enquanto o único papa com poder de governação sobre a Igreja. Mas a verdade é que o Bento XVI foi muitas vezes arrastado pra polêmicas que procuraram opor um papa ao outro. Posso dar só um exemplo, muito rapidamente, que foi o exemplo do cardeal Robert Sarah, que é considerado um dos cardeais mais conservadores da Igreja atual. E Robert Sarah trocou uma correspondência com Ratzinger, com Bento XVI, o papa emérito, sobre um tema bastante polêmico na Igreja Católica, que é a questão do celibato dos padres. E numa altura em que o Papa Francisco tinha em mãos uma proposta do sínodo para pensar na possibilidade de ordenar padres casados, ou melhor, ordenar homens casados, ter homens casados a fazer as funções de padre na Amazônia, por causa da falta de padres naquela região do mundo, como exceção. Houve ali um período em que o papa recebeu esta proposta e tinha de tomar uma decisão. E nesse período, esse cardeal publicou um livro em que colocou na capa do livro o nome de Bento XVI como um dos autores e publicou nesse livro um conjunto de textos que ele tinha trocado com Bento XVI e que basicamente diziam que o celibato era absolutamente inegociável, que era impossível reverter o celibato, etc. Isto foi muito mal visto na altura, porque parecia que Bento XVI estava a querer influenciar a decisão do sucessor, quando na verdade se veio a perceber mais tarde que Bento XVI nem sequer tinha autorizado a publicação daquele texto. Portanto, claramente manipulado ali ao serviço dos interesses de uma ala mais conservadora, mas toda essa sucessão deste tipo de problemas fez com que se criasse a ideia de que eles estavam em polos opostos. Inclusivamente, o Vaticano teve até a dada altura publicar um livro escrito a quatro mãos pelos dois papas sobre a questão dos abusos sexuais na altura, para dar a ideia de que os dois papas concordam na maioria dos temas importantes e estão conciliados.
Esta decisão histórica de renunciar abre-nos aqui também uma questão para o futuro, não é? Que é: será que poderemos agora ver também mais papas a renunciar? E quando falo do futuro, falo de um futuro mais ou menos próximo até. Ou seja, a morte de Bento XVI pode abrir também caminho a uma possível renúncia de Francisco?
Eu acho que sim, embora é cedo pra dizer. Aquilo que sabemos é que a renúncia de Bento XVI, logo à partida, mudou para sempre a face da Igreja no que toca ao pontificado. O próprio Papa Bento XVI diz uma coisa importante, que é: fica claro que não se perde a grandeza do cargo, mas acentua-se a dimensão humana do cargo. O papa é acima de tudo um homem, uma pessoa que tem fragilidades e que pode chegar a velho e que quando chega a velho, pode ter que se reformar como acontece a todas as pessoas. Pode já não ter condições pra continuar a liderar a Igreja. O próprio Papa Francisco, desde que foi eleito papa, foi deixando várias pistas de que tencionava seguir as pisadas do seu antecessor. Agora, aquilo que sabemos da parte daqueles que são mais próximos do Papa Francisco, é que Francisco nunca aceitaria renunciar enquanto Bento XVI fosse vivo. Criaria uma situação muito complicada, com a existência de dois papas eméritos e um papa em funções, muito difícil de gerir. E, portanto, a indicação que sempre veio do Vaticano, a partir daqueles que são próximos dele, é que depois da morte de Bento XVI, talvez fizesse sentido uma renúncia de Francisco. Nós soubemos que há algum tempo, o Papa Francisco revelou que tem uma carta de renúncia preparada para o momento em que um dia deixe de ter condições. Eu diria que com a morte de Bento XVI, abre-se espaço a esta possibilidade. O Papa Francisco já tem vários problemas de saúde, já tem aparecido às vezes em público em cadeira de rodas, tem reduzido as viagens que tem feito, etc. Isto é um padrão que também vimos acontecer em Bento XVI e, portanto, é bastante possível que isto se venha a repetir.
Obrigado, João Francisco.
Obrigado.
João Francisco Gomes é jornalista do Observador e segue de perto a atualidade da Igreja Católica. Esta foi a História do Dia. Neste episódio usamos também sons da Sky News e das italianas RAI e Mondovisione. A sonoplastia é da Beatriz Martel Garcia. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.