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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Será o fim da festa para Boris Johnson? Este é o som dos apupos ouvidos por Boris Johnson à chegada à Catedral de São Paulo, em Londres. O primeiro-ministro, vestido de frac e acompanhado pela mulher, sobe a escadaria. É um dos convidados da missa de ação de graças no âmbito do jubileu da Rainha Isabel II. Boris Johnson não tem como escapar ao protesto de algumas entre as milhares de pessoas que tentam, atrás de grades, um vislumbre dos ricos e famosos. Durante os quatro dias do jubileu da Rainha, Boris Johnson gozou de alguma tranquilidade, mas esta semana o primeiro-ministro britânico poderá receber a notícia de que irá enfrentar uma moção de censura. O homem que liderou a campanha pelo Brexit e que conseguiu arrebatar o Partido Conservador, pode agora cair devido ao chamado Partygate. Hoje vou conversar com a jornalista do Observador, Cátia Bruno. Bem-vinda, Cátia.

Olá, Ricardo.

Esta história hoje começa com uma festa?

Começa com várias festas. Neste momento, eu já não sei exatamente quantas. Tenho a certeza que o relatório de Sue Gray detalha quantas são em particular, mas o que é certo é que foram festas rijas, com álcool, música, karaoke, pessoas até quase a envolverem-se fisicamente de forma intensa.

Festa rija.

Festa rija.

E festa rija em período em que as festas eram proibidas no Reino Unido e em plena residência oficial do primeiro-ministro.

Sim, a altura em que eram proibidas, por causa da Covid-19, não só as festas, mas vários tipos de interação social. Basta lembrar que muita gente nesta altura nem sequer pôde participar nos funerais dos próprios pais, por exemplo. Os contactos sociais estavam muito limitados, mas em Downing Street houve não só uma série de festas, como festas que eram consideradas pelos próprios responsáveis em Downing Street como proibidas. O relatório de Sue Gray mostra que havia a consciência que aquilo não devia acontecer.

This means that people can only see friends and family they don't live with, or are in a support bubble with, in outdoor public places and of course in line with the rule of six.

E o caso até deu origem a multas.

Sim, vários membros do governo foram multados, inclusivamente o próprio primeiro-ministro. Ao todo, foram mais de 100 multas passadas, mas Boris Johnson só foi multado uma vez, embora tenha estado em mais do que um evento em Downing Street, e foi uma multa de apenas £50, ou seja, menos de €60.

E foi confrontado com estes casos também no Parlamento.

There is only one issue. Did the Prime Minister deliberately mislead the House? Could I ask the Prime Minister, did you deliberately mislead the House at the dispatch box? No, Mr. Speaker.

Sim, desde dezembro que Boris Johnson e o chamado Partygate têm sido tema de conversa intensa na Câmara dos Comuns. A oposição tem insistido muito no tema, mas ao longo do tempo, as próprias respostas do primeiro-ministro foram mudando. Inicialmente, Boris Johnson dizia não saber de festas nenhumas que tivessem acontecido em Downing Street. Agora, mais recentemente, reconhece que havia esses eventos, mas achava que eles não incumpriam as regras porque os considerava eventos de trabalho. E depois, quando o relatório de Sue Gray agora tornou claro que eram eventos de trabalho que envolviam vinho espalhado nas paredes, pessoas bastante alcoolizadas, Boris Johnson diz agora que achava que as festas eram importantes para o moral da sua equipa e, portanto, não se sentia bem em proibi-las.

Ou seja, o primeiro-ministro não nega a existência das festas.

Não, embora o tenha feito inicialmente, neste momento não nega. Considera é que não são um assunto assim tão relevante que cause a indignação que acha que tem sido levantada pela oposição.

A questão da mentira é fundamental neste caso, neste Partygate. Ainda na semana passada, em entrevista a um site chamado Mumsnet, é o mais popular site para pais no Reino Unido, é o próprio Mumsnet quem o diz, Boris Johnson respondeu a perguntas de leitoras e a primeira pergunta foi logo a matar: por que devemos acreditar naquilo que diz quando está provado que o senhor é um mentiroso habitual?

Well, I, first of all, don't agree with the conclusion that Tim, the questioner asked, but, or the premise of the question, but-

Boris Johnson respondeu que não concordava com a premissa da pergunta e, portanto, que não se considera um mentiroso habitual. E aproveitou essa entrevista também para dizer que todo este caso do Partygate, para ele, tinha sido aquilo que ele considera uma experiência terrível e que ele queria pôr para trás das costas. E, portanto, da parte do governo, tem havido aqui uma tentativa de encerrar o assunto, de tentar matar o tema, mas as sondagens mostram que grande parte dos britânicos não está com muita vontade de fazer isso.

E agora, o que vai acontecer, Cátia Bruno?

Oficialmente não sabemos de nada, mas o Partido Conservador, o partido de Boris Johnson, é conhecido pelas suas jogadas de bastidores e pelas suas noites de facas longas. E nós podemos estar num momento de noite de facas longas. Vários deputados já confirmaram que enviaram cartas a Sir Graham Brady, que é o presidente do Comitê 1922, que é basicamente o comitê partidário que trata das moções de censura aos líderes do Partido Conservador, a pedir precisamente para que seja votada uma moção de censura ao primeiro-ministro. E com o jubileu da Rainha já terminado, há uma forte probabilidade de que esse assunto possa agora ser trazido para cima da mesa esta semana.

Ou seja, esta semana poderemos ficar a saber se há ou não uma moção de censura contra Boris Johnson.

Sim. Graham Brady ainda não confirmou se já tem o número de pedidos suficientes para avançar com esta moção de censura, que são 54, mas há muitas pessoas dentro do Partido Conservador, inclusivamente o antigo líder William Hague, que disse na semana passada que achava que agora seria o momento em que essa moção de censura ia mesmo avançar.

Cátia, falaste em cartas. Os procedimentos para uma moção de censura, pelo que percebemos, são bem diferentes daqueles que são observados no Parlamento português.

São muito diferentes, até porque a oposição não é tida nem achada para este cenário. Estas moções de censura do Comitê 1922 são moções de censura internas, são do próprio Partido Conservador e são muitas vezes as mais comuns no Parlamento britânico. Sobretudo o Partido Conservador tem uma certa tradição de afastar os seus próprios líderes, muitas vezes quando os seus líderes estão no poder. Foi isso que aconteceu com Margaret Thatcher. Foi isso que aconteceu também com Theresa May, embora não através de uma moção de censura. Mas há muito esta tradição e o que acontece em termos de procedimentos é que quando 54 deputados conservadores escrevem uma carta a pedir para que seja aberto um processo de moção de censura, essa moção de censura tem de ser votada e se mais de metade dos deputados conservadores votarem favoravelmente a moção de censura, o líder do partido é demitido e, portanto, o primeiro-ministro é também demitido. Neste caso, tendo em conta o número de deputados que existem, serão necessários 180 votos a favor para que Boris Johnson seja afastado. Se ele não os conseguir, durante um ano ninguém pode voltar a desafiá-lo.

E a acrescentar a essa ameaça de sucesso na moção de censura, há eleições em dois círculos eleitorais, agora no final deste mês. É apenas a eleição de dois deputados para o Parlamento britânico, mas isto é importante, Cátia.

É muito importante porque estes dois círculos eleitorais, que são o círculo de Wakefield e de Tiverton & Honiton, são círculos que pertenciam ao Partido Conservador até aqui, um deles desde 1997, e que, de acordo com as sondagens, agora podem ser perdidos para o Partido Trabalhista e para os Liberais Democratas. Isto significa que é mais uma derrota eleitoral para os conservadores, que já tiveram derrotas nas últimas eleições locais em maio, e causa pressão adicional sobre o governo e pode fazer com que muitos destes deputados conservadores decidam que se não for a altura de avançar para a moção de censura esta semana, talvez seja em junho, depois de estas eleições serem perdidas pelos conservadores.

A situação de Boris Johnson é tão periclitante que até já há discussão sobre nomes de possíveis sucessores.

É verdade. O Partido Conservador tem uma tradição muito pragmática de afastar líderes quando acha que há alguém que os possa substituir com sucesso. E, portanto, fala-se muito dentro do partido sobre quem pode ser a pessoa que possa fazer um trabalho melhor do que Boris Johnson. Fala-se no atual ministro das Finanças, Rishi Sunak, fala-se na atual ministra dos Negócios Estrangeiros, Liz Truss, e fala-se também de Jeremy Hunt, que já tinha concorrido contra Boris Johnson em 2019, mas que perdeu e que é visto como um homem mais moderado, mais centrista, menos radical em questões como o Brexit, por exemplo. Mas a verdade é que ainda na semana passada falava com Andrew Gimson, o biógrafo de Boris Johnson, que dizia: "Parece-me que nenhuma destas figuras é consensual o suficiente para que Boris esteja completamente tramado". Como se não houvesse uma alternativa tão bem-sucedida que faça com que o afastamento do primeiro-ministro seja certo.

Boris Johnson, que também foi protagonista dessa prática que tem se explicado aqui nesta nossa conversa de quase golpes palacianos no interior do Partido Conservador.

É verdade. Boris Johnson foi ministro de Theresa May, foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Theresa May. A certa altura demitiu-se porque disse que não concordava com a proposta que a primeira-ministra tinha para o Brexit e desde então foi minando um pouco na sombra as várias propostas que May foi apresentando e que foram sendo chumbadas e rejeitadas pelos seus próprios deputados. E quando Theresa May foi sujeita a moção de censura, conseguiu vencer essa moção de censura, mas a pressão interna, na qual supomos que Boris Johnson terá estado muito envolvido, foi tanta que May acabou por se demitir ao perceber que não tinha ninguém no partido consigo.

E Boris Johnson foi eleito rapidamente o seu sucessor. E agora poderá ser o fim da festa para Boris Johnson?

Poderá, no sentido de que a situação não é nada fácil. O contexto é de crise económica, uma inflação galopante, um grande descontentamento no Reino Unido. Boris Johnson está numa fase muito má nas sondagens. O caso do Partygate parece não desaparecer, mas há quem diga que Boris Johnson teve o condão de ser diferente da maioria dos líderes conservadores, no sentido em que tem um carisma tal que convence muitos dentro do próprio partido a nunca o abandonarem e a acreditarem que pode vir a ser diferente no mês seguinte. Portanto, vamos ter mesmo de esperar para ver.

Obrigado, Cátia.

Obrigada eu, Ricardo.

Cátia Bruno é jornalista d'O Observador e há muito que acompanha a política britânica. Esta foi a História do Dia. Para este episódio, contei com a ajuda do jornalista d'O Observador, João Santos Duarte. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.