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Esta é a história do dia da Rádio Observador: França põe as armas nucleares em cima da mesa.
"Notre dissuasion est robuste et efficace. Tous ceux qui auraient l'audace de vouloir s'en prendre à la France savent le prix insoutenable qu'il y aurait pour eux à payer."
Não era com Emmanuel Macron que eu tinha planeado começar este episódio, vou confessar. Era com Ursula von der Leyen. Ia começar em Bruxelas, com as declarações do costume, com as reações de emergência, a Europa diplomática que reage, que tenta acompanhar mais uma crise, agora no Médio Oriente.
"We must work hard to de-escalate and stop the conflict spreading."
Mas depois...
"Le demi-siècle qui vient sera un âge d'armes nucléaires."
Emmanuel Macron anunciou uma coisa diferente. França, o único país da União Europeia com armas nucleares, vai reforçar o arsenal, vai ter mais ogivas, mas não vai dar mais números, e vai deslocar armas para outros países europeus com quem já está a trabalhar em parceria. Não é apenas uma reação ao que está a acontecer entre Estados Unidos, Israel e o Irão. É uma mudança de doutrina, uma dissuasão mais explícita, mais autónoma, e portanto, temos mesmo de falar disto. Num momento em que a Europa parece à margem de decisões estratégicas tomadas por Washington e Tel Aviv, estamos a assistir a uma tentativa de reposicionamento como potência militar. É esta a nova fase da segurança europeia? E que consequências tem isto para o nosso futuro coletivo?
"Soyons puissants, soyons unis, soyons libres."
Hoje vou conversar com o Henrique Borges, especialista em assuntos europeus. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 3 de março. Olá, Henrique.
Olá, Pedro.
Henrique, vamos começar por olhar para este anúncio feito hoje com o fundo imponente do local onde estão os submarinos franceses. O que Macron nos disse exatamente?
Pedro, eu acho que resumindo muito, para quem está longe destes temas no dia a dia, o que Macron veio dizer foi que as armas nucleares francesas deixam de estar apenas ao serviço da segurança francesa e podem estar ao serviço dos interesses dos europeus. E isto é uma mudança muito significativa, porque altera não só o cálculo de segurança dos franceses, evidentemente, isto não é pacífico em França, mas é uma sugestão para alterar o cálculo de segurança dos europeus também, em particular dos aliados da NATO, que tradicionalmente dependem da segurança nuclear americana. De resto, os americanos nos últimos tempos disseram que os europeus têm que aumentar a sua contribuição para a sua segurança, mas têm sido muito claros em dizer que estão a falar de armas convencionais e não nucleares. E, portanto, há aqui uma diferença significativa. Eu diria que isto não tem que ver com o que se está a passar no Irão, mas é impossível não termos de encaixar isto num mundo que é aquele que estamos a viver e onde se encaixa a guerra que se está a viver no Irão. Ou seja, isto tem que ser lido nesta dupla nova realidade. Nova relação com os americanos e, se quiseres, esta pós-rutura, considerando aquela rutura que o Carney anunciou em Davos, este mundo pós-rutura, que eu acho que a guerra no Irão é a primeira guerra do pós-rutura. É um pouco isto.
Ou seja, o que tu queres dizer é que esta guerra que nós estamos a ver agora é a primeira em que as partes que em tempos estavam aliadas estão agora cada uma a caminhar por si própria, é isso?
Com geometrias variáveis. Eu acho que esta é a guerra das geometrias variáveis. Ou seja, aquilo que o Carney anunciou no discurso de Davos foi que, no fundo, um: já não vivíamos no mundo da ordem internacional liberal e, portanto, que isso significava que já não fazíamos de conta que era uma ordem essencialmente assente em regras. E ele diz que havia mesmo alguma parte de hipocrisia, mas fazia parte do jogo. E o que ele diz é: esse tempo acabou. E de facto, se nós olharmos para o começo desta guerra no Irão, não houve sequer uma tentativa americana de fazer conta que isto encaixava num discurso de direito internacional. A razão de ser desta guerra é o interesse americano e o interesse israelita, a ameaça permanente que o Irão representava e em alguma perspectiva iminente ou não, na perspectiva de Israel era sempre iminente, isso justifica a intervenção. Mas desta vez os Estados Unidos não se deram ao incômodo, por exemplo, como deram no Iraque, de tentar ter aliados. Menos ainda sequer tentar convencer as Nações Unidas, porque o mundo é diferente. A reação dos europeus também teve em conta isso, ou seja, nós alinhamos, mas não alinhamos porque esteja o direito internacional, nós alinhamos porque os nossos aliados americanos estão a fazer isto e porque, diga-se de passagem, aquele regime é o regime que é. Ou seja, não há o direito internacional como havia, mas há uma noção de onde é que está o problema, e o Irão era uma ameaça. Se olharmos para isto visto assim, esta notícia vinda de França tem um significado especial, que é, o que França está a dizer é: os europeus já não precisam de pensar em termos de segurança, dizendo a nossa segurança, o nosso guarda-chuva nuclear é americano. Porque repara uma coisa, e eu termino aqui, mas é para fechar este contexto. Quando o Reino Unido saiu da União Europeia, uma das coisas que se disse foi A partir deste momento, já só há uma potência nuclear dentro da União Europeia, que é a França. Simplesmente, essa potência nuclear não tem as suas armas nucleares ao serviço da NATO e, portanto, a sua estratégia nuclear era autónoma da estratégia de segurança dos países da União Europeia que estão na NATO e dos países da União Europeia em geral. Esta mudança quer dizer que as alianças já não são o que eram, portanto organizemo-nos de outra forma. Temos que encaixar aqui, é mesmo a última coisa, o fato de outros países na Europa estarem a falar de ganharem capacidade nuclear. São claramente sinais de outro tempo.
E já agora, para terminarmos também esta lógica, já que falaste na NATO, isto significa que a NATO deixa de ter a importância estratégica que tinha para a defesa da Europa e que a Europa está agora a caminhar num patamar um bocadinho mais autónomo?
Não completamente. Primeiro, porque há vários países da União Europeia que estão na NATO que não querem de maneira nenhuma perder a relação com a NATO e com os Estados Unidos. E mesmo a conversa do pilar europeu da NATO é uma coisa que tem que ser vista com alguma prudência, porque o Canadá não faz parte do pilar europeu da NATO e há um alinhamento na visão do mundo hoje em dia com o Canadá. O que a mim me parece é que nós estamos a assistir a geometrias variáveis e em alguns casos que se sobrepõem. França tradicionalmente quis um afastamento em relação aos Estados Unidos e em relação à NATO e, portanto, vê aqui um tempo em que essa oportunidade exista. Mas, por exemplo, a Alemanha não quer esse corte com os Estados Unidos. Agora, isto não pode ser desligado, insisto, por isso é que eu lhe chamo este tempo de pós-rutura, do discurso do Carney, que é semelhante ao discurso do Merz depois em Munique, que é: "Mas nós temos noção", no fundo é isso que eles dizem, "nós temos noção de que já não temos com os Estados Unidos a relação de aliança que tínhamos. Nós temos noção de que neste momento, mais do que o direito internacional, conta a força e, portanto, nós estaremos alinhados com os nossos aliados tradicionais, mas volta e meia desalinharemos". Veja-se o que há pouco tempo aconteceu na Gronelândia. Repara, há uma coisa estranha que é nós em relação à Gronelândia, o que dissemos aos Estados Unidos foi: "Para que vocês estão a ameaçar invadir quando podem usar?" O que é uma coisa estranha dizer a alguém que ameaça invadir, não é? Quando alguém ameaça invadir, nós no dia seguinte devíamos dizer: "Não só não invade, como não pode usar". Portanto, nós estamos nesta circunstância bizarra, que é termos uma relação com o nosso aliado, não confiamos completamente, queremos outros instrumentos. Esta novidade francesa é uma maneira de França aumentar o seu valor na União Europeia também.
Henrique, nós já vamos falar sobre as implicações de tudo isto, não só para a nossa defesa coletiva, como também para o mundo, o que isto vai significar, quando voltarmos a conversar. Até já. Estamos de regresso à conversa com o Henrique Bourne, especialista em assuntos europeus. Henrique, nós falávamos deste anúncio feito por Emmanuel Macron de que França vai ter mais ogivas nucleares, vai aumentar o seu arsenal e vai também reposicionar algumas armas em território europeu. Esta parceria anunciada por França não abarca todos os países da União Europeia. Houve aqui alguma lógica geográfica ou são apenas os países que estão mais confortáveis com esta questão de reforço da capacidade nuclear da Europa?
Há aqui uma coisa curiosa na escolha dos países, que é a Dinamarca tem uma explicação mais ou menos óbvia, Gronelândia.
Claro.
Parece-me aqui evidente. A Grécia não é um ator que costuma aparecer nestes cálculos. Depois, se olharmos para a Alemanha, a Polónia, os Países Baixos, encontramos os mesmos, são três, que juntamente com França, mas com Espanha também aí, fazem parte deste novo grupo dos E6, que estão a cooperar na área da economia e do euro, mas que não é verdade em relação à Bélgica. Ou seja, o que eu acho que nós estamos a assistir é a tal ideia de geometrias variáveis. Conforme os temas, conforme as prioridades, juntam-se países que têm interesses comuns ou geografias comuns ou possibilidades de cooperação. O que vai criar uma Europa muito não uniforme, digamos. O processo de integração europeia, que parecia um processo muito destinado à harmonização, está a avançar para um processo muito menos harmonizado. Eu acho que é sobretudo esse o sinal que sai daqui.
E se calhar é um bocadinho de pragmatismo.
Esqueci-me de incluir a Suécia, que é aqui um ator muito importante, porque repara, há dois anos a Suécia não estava sequer na NATO.
Certo.
As preocupações de segurança da Suécia eram completamente diferentes das que são hoje. Repara o upgrade que a Suécia faz de achar que estava bem como está para inclusivamente querer estar numa cooperação com a França no nuclear, sendo que entretanto tinha entrado pra NATO.
Sim, houve aí uma viragem muito grande e é talvez um dos casos mais simbólicos de como o mundo mudou depressa nestes últimos anos. Eu perguntava há pouco se esta Europa a várias velocidades não é um bocadinho o pragmatismo, tendo em conta as dificuldades que ainda agora neste fim de semana houve dos ministros dos negócios estrangeiros conseguirem entender-se quanto a um comunicado comum relativamente àquilo que se passa no Irão, o caminho pode vir a ser, de facto, esta Europa a várias velocidades.
É, eu diria, aliás, uma expressão que com o Bernardo Ivo Cruz usei esta semana que passou num artigo no Expresso, num ensaio no Expresso, nós vamos assistir àquilo que chamaríamos cooperações abertas reforçadas, ou seja, cooperações reforçadas, que é uma figura que existe dentro da União Europeia, de ter países da União Europeia que cooperam em certas áreas E em alguns casos elas vão ter que ser abertas a países que não são membros da União Europeia. Não faz sentido pensar a segurança europeia sem falar com os britânicos, sem falar com os noruegueses, em alguns casos com os turcos. E portanto, esta vai ser a realidade. Porque nós muitas vezes queixamos que a União Europeia não foi capaz de ter uma posição forte, mas eu faria dois comentários. Primeiro, nem a União Europeia nem mais ninguém. A China também tem uma opinião provavelmente muito mais forte até que os europeus sobre o que está a passar no Irão e não foi capaz de ser consequente. E daí vamos concluir que a China não é um ator internacional? Não. Vamos concluir que não tem capacidade de ter influência nesta situação específica do Irão. Um. Dois, se nós tivéssemos uma posição europeia, estávamos disponíveis para concordar com qual das posições? A de França, que acaba neste momento por ser sobretudo a da Alemanha, mas também de França e dos países que no fundo alinharam com os Estados Unidos, ou quem diz isso gostava que a posição europeia fosse a de Sanchez, ou estavam disponíveis para que a posição europeia...
Sanchez que criticou abertamente o ataque.
Exato. E portanto, repara, muitas vezes as pessoas dizem que tem que haver decisões europeias na política externa por maioria. Vamos imaginar que neste caso tinha havido uma maioria e que Sanchez era o que estava de fora. Não é exatamente o caso, não é o único, mas para o raciocínio é importante pensar assim. Vamos imaginar que Sanchez era o que estava de fora e desalinhado com a posição americana. Faz algum sentido que Espanha aceite que a sua política externa, nomeadamente para o Médio Oriente, fosse a da União Europeia alinhada com os Estados Unidos e Israel, contrariando aquilo que é a política definida por Espanha? Não faz e Espanha não vai ceder nisso. Portanto, não é provável, e o estado do mundo não aconselha aos governos, a maior integração nestes temas. Portanto, nós vamos assistir a mais decisões por cooperação. Em alguns casos vão ser à escala europeia e talvez tenham 27, 25 ou 24. Em alguns casos vão ter 28, 29 ou 30, mas não são todos da União Europeia. É por este caminho que nós vamos andar nos próximos tempos, parece-me.
Uma visão sobre o que é que vai acontecer ao mundo e à Europa em particular nos próximos tempos. Henrique, obrigado.
Obrigado. Gostei muito de voltar à Rádio Observador, como costumo.
O Henrique Bourne conversou comigo a partir de Bruxelas, de onde acompanha em permanência os assuntos da política europeia. Falamos dos Estados Unidos, onde hoje, por acaso, começa o ciclo eleitoral de 2026 e onde há muita coisa em jogo. É o primeiro dia de primárias, hoje na Carolina do Norte, no Arkansas e no Texas. São eleições determinantes para escolher candidatos republicanos e democratas para as eleições de novembro, onde os democratas querem recuperar o Senado e assim tirar poderes a Donald Trump. É também o dia em que, também nos Estados Unidos, Kristi Noem, a polêmica secretária de Segurança Nacional, vai finalmente ser ouvida na Comissão Judiciária do Congresso. Este é um pedido que os democratas estão a fazer desde janeiro, sobretudo para ouvir Noem, depois da morte de Rayne Goode e Alex Prady às mãos do ICE em Minneapolis. E por cá, há reunião da Concertação Social com a ministra do Trabalho a presidir. Vai falar-se do plano de recuperação nacional, mas também vai tentar desatar-se o nó da legislação laboral. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.