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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Na guerra pela Gronelândia, a bazuca europeia contra Trump.
"So our response will be unflinching, united and proportional."
Uma resposta sem hesitações, unida e proporcional. Ursula von der Leyen falava no Fórum Mundial Económico de Davos, que de repente se tornou o palco principal para discutir o assunto mais improvável do mundo: a Gronelândia. E é isto. A ilha sob jurisdição dinamarquesa ocupou o palco central de Davos. Trump já lá chegou, a Davos, não à Gronelândia, e antes de entrar no avião deixou claro que não mudou de ideias.
We have to have it. They have to have this done. They can't protect it.
Ora a Europa, pela voz da presidente da Comissão Europeia, fez saber que também está exatamente no mesmo sítio.
The sovereignty and integrity of their territory is non-negotiable.
O respeito pela soberania do território e, sobretudo, a incompreensão. Como é que um amigo e aliado faz isto a outro amigo e aliado? E, no entanto, alguma coisa mudou. A Europa dos corredores diplomáticos e dos discursos pomposos, mas sem músculo, fez saber que está a equacionar tudo para demover Trump. E tudo inclui usar a maior arma económica que tem à disposição, depois dos Estados Unidos terem ameaçado com novas tarifas se a Gronelândia não passar para mãos americanas. Os mais cínicos duvidam do poder europeu para deter Donald Trump, mas se eu lhe disser que esta arma é tipo bazuca, talvez lhe interesse saber do que estamos a falar, afinal. É por isso que eu hoje vou conversar com o Edgar Caetano, jornalista de economia do Observador. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 21 de janeiro. Bem-vindo, Edgar.
Muito obrigado, Pedro, pelo convite.
Está aqui uma dúvida para já, só em termos de ambiente, de mood entre estes dois parceiros, Estados Unidos e União Europeia. Está mesmo num clima frio e distante ou achas que ainda há aqui quem tente estabelecer umas pontes e que essas pontes são viáveis?
Eu acho que se comparares, por exemplo, com o mood que se vivia antes do último verão, antes de ter sido celebrado o acordo comercial, eu diria que é comparável, em certos pontos até é pior, por um lado. Porque na altura havia a percepção de que Donald Trump tinha uma ideia sobre tarifas, sobre política comercial, considerava injusta, tinha uma posição, a Europa tinha outra posição, e negociou-se. E embora em certos momentos tenha parecido que ia ser difícil, acabou por existir um acordo ali no final de julho. Agora é diferente, agora há uma sensação de que Donald Trump está a cruzar uma linha que não se esperaria que fosse cruzada e está a usar tarifas, que são uma ferramenta de política comercial, política económica, para fazer uma coisa que devia ser-
Expansão do território
...expansão do território numa perspectiva muito quase real estate, muito mercantilista, século XIX, de expansão de metro quadrado. Ainda mais ele imagina a Gronelândia como um país muito grande no mapa.
No fundo, nós não estamos só a viver um período em que temos pressão comercial de um lado, em termos de política económica, estamos a viver um período em que temos ameaças concretas de um dos nossos principais ou senão o principal parceiro e aliado da NATO, sobre outro parceiro, sobre outro aliado, e a usar instrumentos de política económica, já de si duvidosos, digamos assim, para fazer pressão para a conquista de um território.
Mas sabes que havia um psicólogo na América há umas décadas que dizia que quem só tem um martelo como ferramenta, a essa pessoa tudo parece um prego. E parece que Donald Trump usa as tarifas para tudo e mais alguma coisa. Já usou tarifas para ameaçar o México no que diz respeito à imigração ilegal, já ameaçou com tarifas o Canadá por outras razões, a China por causa do fentanil, dos precursores da droga sintética. Até já usou tarifas para exigir à Turquia que libertasse um pastor evangélico, não sei se se recorda, em 2018. Pouca gente se recorda dessa história. E conseguiu. E os dois rezaram depois na Casa Branca, foi um bom momento. E então, de facto, Donald Trump usa as tarifas para tudo. E é mais um caso em que, por alguma razão, pelas suas razões, ele decidiu que quer a Gronelândia. Poucos de nós imaginavam há um ano, há dois anos, que estaríamos a fazer uma história do dia sobre a Gronelândia.
Mas é o que está a acontecer.
Exato.
E é o que está a acontecer neste momento em que, apesar de tudo, vão-se intensificando as palavras de um lado e do outro, mas também graças a Donald Trump e à sua fiabilidade, ele acabou de divulgar mensagens privadas que tem recebido de alguns líderes europeus, designadamente de Macron, por exemplo. Apesar de tudo, ainda há uma tentativa de conquistar Donald Trump do ponto de vista diplomático ou às vezes do ponto de vista do contacto pessoal, quase a cortejá-lo, a bajulá-lo.
Isso é um bom ponto, porque a tua primeira pergunta era sobre a comparação, se calhar, entre agora e o período anterior ao verão passado, em que houve o acordo comercial. E talvez essa seja a parte positiva, embora eu tenha dito que o ambiente, por um lado, está pior. Aprendeu-se alguma coisa naquela altura e desde então E aprendeu-se que essa é a forma de tentar lidar com Donald Trump, e é bom que isso produza efeitos, porque se ele diz que vai aumentar as tarifas no dia 1 de fevereiro, isso significa que temos cerca de uma semana e meia para, de alguma forma, dar uma possibilidade de saída airosa a Donald Trump, sempre ciente que ele tem a sua personalidade.
Imprevisível, já agora.
Imprevisível, que isso até lhe dá força numa primeira fase, a longo prazo, se calhar, tira-lhe força, mas numa primeira fase, ou a curto prazo, dá-lhe força. Alguém que é imprevisível ganha poder negocial, mas chega a um ponto em que isso se esfuma a certa altura.
Sendo que o que temos aqui, neste momento, é, para já, uma consequência imediata, que é o Parlamento Europeu, tal como se esperava, suspendeu a aplicação do acordo. Não chegou a votar a ratificação do acordo comercial.
Sim, que tinha que ser. Desculpa interromper-te, mas é que de facto o acordo foi atingido em julho, mas só agora é que ia ser ratificado do lado europeu, porque na América ele assinou uma ordem executiva ou fez um tweet, não há problema, e está feito. Aqui ainda era preciso aprovar, mas ias dizer...
Isso ia acontecer por esta altura e, tal como se esperava, essa votação foi suspensa, portanto, para já o acordo não tem esse efeito. Mas a questão aqui é que a Europa, talvez de uma forma surpreendente, porque normalmente não tem este tipo de iniciativa, já está a discutir fortemente a possibilidade de usar uma bazuca contra os Estados Unidos. Vamos por pontos, o que é esta bazuca de que se está a falar?
Olha, é uma coisa que foi criada a pensar na China, embora seja um pouco rigoroso dizer isto, porque, na verdade, este tipo de problema já estava a surgir em algumas outras situações, mas foi pensado depois de uma pequena quezília entre a China e a Lituânia, que é uma história longa que não temos tempo para contar agora, mas tem a ver com o facto da Lituânia-
Pode ser lida no teu artigo.
Poderá ser, sim. Mas tem a ver com o facto da Lituânia ter, a certa altura, deixado abrir um escritório de representação de Taiwan, e a China não gostou. E fez uma série de coisas que foram consideradas coerção, e a Europa, na altura, percebeu que tinha que criar um mecanismo qualquer.
Que desse resposta a este tipo de coisa.
Certo, porque às vezes recorrer à Organização Mundial do Comércio não é eficaz, e era preciso criar um instrumento. E esse instrumento foi criado, na altura, em 2021, mas só ficou funcional a partir do final de 2023, mas nunca foi usado.
O que prevê esse instrumento?
Prevê uma série de limitações na forma como o país que faz a coação, como é que ele pode estar presente na economia do país que sofreu essa coação. Ou seja, prevê que, por exemplo, sejam impostos limites ao investimento direto dos Estados Unidos, ou do país agressor.
Imaginando que esse instrumento era aplicado aos Estados Unidos, portanto, os Estados Unidos tinham limites no investimento que podiam fazer no espaço europeu?
Certo. Até que ponto é que as empresas americanas podem, por exemplo, concorrer a concursos públicos na Europa. No limite, pode-se fazer muita coisa e pode-se até limitar a forma como as empresas prestam serviços.
Serviços como o que a empresa americana é? Google, por exemplo.
No limite, ninguém está a dizer que isto é um cenário plausível ou minimamente próximo, mas no limite, tu não consegues aceder ao sistema operativo do teu telefone, porque nem o Observador consegue estar alojado na cloud de uma certa empresa que domina o mercado das web services. Acho que já disse. E no limite, isso pode acontecer, está previsto, não é minimamente de excluir.
Ou seja, todo esse tipo de armas do ponto de vista económico estão previstas nessa bazuca.
Sim.
Estamos a falar da Europa, de entendimentos a nível europeu, e claro que mesmo isso está a ser muito discutido internamente, nem todos os líderes estão alinhados nessa matéria, mas isto é a linguagem que o Donald Trump entende? O que pode mover Donald Trump?
Deixa-me só tratar de um ponto em relação ao que estavas a dizer. Pode não haver entendimento total, mas há um ponto muito importante sobre esta questão deste instrumento anti-coerção, é que ele não precisa de unanimidade, não é como as sanções. As sanções muitas vezes enfrentam aquelas forças de bloqueio que nós conhecemos.
Dois ou três países que estão alinhados com outros interesses.
Com os seus interesses próprios ou de outros, não sabemos, e que vão sendo forças de bloqueio. Aqui não existe isso. Aqui é só preciso uma maioria qualificada reforçada.
E se for usado, o que achas que é eficaz contra Donald Trump? O que é que pode parar Donald Trump?
Eu diria que depende de como é que se este instrumento, de facto, for ativado, que eu acho que a intenção da Europa não é ativá-lo. A intenção da Europa é falar nele.
準 備 uma nuclear. Nós temos, não queremos usar.
Da mesma forma que o Mario Draghi, na altura, disse que a qualquer momento intervinha nos mercados.
Foi suficiente essa palavra.
E foi suficiente, nunca comprou nenhum título de dívida ao abrigo daquele programa, comprou ao abrigo de outros e acabou com a crise da dívida só com uma mera sugestão. Depois, depende do que é que realmente, se for ativado, o que é que realmente se faz. Porque é como eu estava a dizer, no limite, pode-se fazer muita coisa, mas pode-se fazer pouco. Pode-se só impedir, por exemplo, que uma empresa tecnológica vá aos concursos públicos da Europa, por exemplo. Pode-se impedir algum tipo de investimento, claro que não me passa pela cabeça da Europa impedir que as empresas de venture capital americanas invistam nas startups europeias. Isso era uma tragédia para a Europa. A Europa também não quer dar um tiro no pé neste aspeto.
Instrumentos como a dívida, por exemplo, isso também faz parte desse pacote?
A dívida não tanto, porque penso que não está previsto que possa obrigar, penso que é isso que estás a falar, nomeadamente de vender títulos de dívida da América. Isso não é possível fazer de forma fácil no contexto europeu, até porque, de facto, a Europa é um dos maiores credores dos Estados Unidos no mundo, mas a maior parte dessa dívida está detida por mãos privadas e na Europa não se vai obrigar nenhum fundo de investimento em Frankfurt a vender títulos de dívida americana. Mas isso já aconteceu.
Para além da questão do confronto direto com os Estados Unidos, que a Europa tenta evitar, isto também teria custos para a Europa e, portanto, isto poderia, do ponto de vista económico, não ser muito saudável para qualquer das economias.
E esse será sempre o grande cuidado que a Europa vai ter, porque quer sempre reagir a isto mostrando uma posição de força, até porque como dizíamos, isto é mais do que apenas uma questão comercial que está aqui em causa, é uma questão de soberania. A Europa vai gerir isto, ao mesmo tempo que mostra uma posição de força, também não quer dar um tiro no próprio pé. E isso liga àquilo que estavas a dizer há pouco sobre a dívida. Nenhum investidor vai ser levado a vender a dívida americana e depois ter perdas, por patriotismo ou pelo que for. E portanto, é curioso que na primeira vez que Donald Trump anunciou naquele dia da libertação, no início de abril.
Quando anunciou as tarifas todas.
Exatamente, quando anunciou aquelas tarifas, que depois nada daquilo ficou aplicado como estava a ser anunciado naquela noite, embora de facto tenha havido tarifas aplicadas. Nessa altura houve uma grande instabilidade nos mercados, como estamos a ver agora, e nessa altura Donald Trump recuou e gerou-se aquela ideia que ele no fundo recua sempre. Mas não recua sempre. Mas nesse caso, recuou. Não sabemos se foi a China que ameaçou vender a dívida da América, para as pessoas perceberem, se um grande detentor de títulos de dívida de um país como a América, que é um país com uma posição orçamental das contas públicas absolutamente desastrosa. Se essa dívida é despejada no mercado, os títulos passam a ser mais caro para a América renovar a dívida que precisa de ir renovando. E portanto, isso coloca-os numa posição ainda mais difícil em termos de contas públicas. Portanto, essa é que pode ser a bomba atómica que os outros países podem fazer, nomeadamente a Europa, que também tem muita dívida americana, e que também pode ser relevante para este caso. Mas de facto gerou-se a ideia de que o Trump no final recua sempre e tenta obter algum deal, como ele costuma dizer, que consiga vender nas suas hostes nacionais, nos seus apoiantes internamente.
Uma vitória.
Como uma vitória. Mas a verdade é que ele nem sempre recua e não se pode assumir que isso vai ser assim. E, portanto, a Europa tem de facto ir pela via diplomática primeiro, até porque o tal instrumento anti-coerção implica sempre que isto não é uma coisa imediata, não se carrega num botão e de repente acontece aquilo que a Europa quiser que aconteça a esse nível. Não, isso é um processo, é preciso primeiro demonstrar que houve uma coerção, o que neste caso se calhar até é mais ou menos fácil de provar que é, mas toma o seu tempo e ainda mais estamos a falar da Europa. Depois ainda é preciso tentar sempre uma via negocial. Portanto, isto na demora, isto não é propriamente uma coisa que possa resolver o nosso problema nos próximos 10 dias ou nove dias.
Portanto, no fundo, o que nós estamos a ver aqui é que a Europa falou alto, cosnou, mostrou que tem ali algumas armas, mas estamos basicamente num clima de Guerra Fria entre Estados Unidos e Europa, pelo menos do ponto de vista económico e por causa da posse de um território.
E é muito difícil. E que território, como dizia há pouco, quem esperaria que os destinos do mundo estariam neste momento a ser debatido a nível da Gronelândia? Ninguém esperaria.
Mas é o mundo como está hoje. Edgar, obrigado.
Muito obrigado, Pedro.
O Edgar Caetano é jornalista de economia do Observador e escreveu no jornal sobre isto, que foi tema da nossa conversa e que é tema em Davos. A reunião de líderes de governos, empresas, academia e sociedade civil que se juntaram para discutir o futuro, abordar questões globais e definir prioridades. E agora, para discutir a Gronelândia. A partir de hoje vai lá estar também o ministro português das Finanças, até porque Luís Montenegro tem agenda cheia por cá. Ele vai estar na assinatura com os sindicatos do acordo plurianual para os salários da função pública. A CGTP, claro, não vai estar presente nem vai assinar o documento. Depois disso, o primeiro-ministro segue para o Parlamento para o debate quinzenal, o primeiro depois das eleições presidenciais que não correram nada bem ao candidato apoiado pelos partidos do governo. À noite, há a Liga dos Campeões, Juventus-Benfica, às 20h, é a sétima jornada da fase de liga e o clube italiano já anunciou que tem casa cheia só com apoiantes da equipa de Turim, até porque o Benfica foi proibido pela UEFA de contar com adeptos no estádio depois dos incidentes na partida contra o Ajax. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.