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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Afinal, a guerra não nos vai tirar o óleo para fritar as batatas. Este é o som de estaladiças batatas fritas, aquelas de pacote. O óleo de girassol atingiu um pico de preço em meados de abril: 2.200 € por tonelada métrica. Hoje está na casa dos 1980.

"Prices are up a great deal over the past year or so on the order of 40%, in some cases, in some vegetable oils and in the case of sunflower oil you can't even get it because of the Ukraine war."

No início do ano, a mesma quantidade era vendida por cerca de 1.400 €. A Ucrânia é o maior exportador mundial de óleo de girassol. O segundo é a Rússia. O óleo de girassol é muito usado pela indústria alimentar nos mais diversos produtos, incluindo as batatas fritas. A guerra levou a uma corrida às garrafas de óleo e, nalguns países obrigou mesmo a medidas de racionamento, incluindo em Portugal. Perante a escassez de produto, o preço subiu e temia-se que assim continuasse, mas agora está a baixar. Vamos explicar porquê. Vou conversar com a editora adjunta de Economia do Observador, Ana Sanleás. Bem-vinda, Ana.

Olá, Ricardo. Muito obrigada.

Vamos começar aqui por uma preocupação muito egoísta. As batatas fritas e os rissóis estão em perigo?

É uma preocupação egoísta, mas é uma preocupação muito legítima.

Também me parece.

Podes ficar descansado e os nossos ouvintes também. Também seria um problema pra mim porque eu adoro batatas fritas, mas não. Nem as batatas fritas, nem os rissóis, nem os fritos no geral, não estão em perigo, porque a nossa indústria é muito criativa. Realmente existe um problema, mas está a ser possível encontrar soluções.

Vamos então olhar pra este problema. O óleo de girassol está presente em vários óleos pra fritar, não é?

Exatamente. O óleo que nós compramos no supermercado é composto sobretudo por óleo de girassol. Esse óleo actualmente está a traçar um período de grave escassez por causa da guerra na Ucrânia e é um ingrediente muito importante, não só do óleo pra fritar, mas também noutros produtos como nas margarinas, etc. Portanto, sim, temos um problema.

Vamos então aqui por pontos, Ana Sanleás. A guerra está a prejudicar, e de forma severa, a produção de óleo de girassol na Ucrânia e também na Rússia. E os dois juntos são gigantes, não é?

Os dois juntos. A Ucrânia produz cerca de 55% do óleo de girassol a nível mundial. Com a Rússia, as duas juntas produzem 80%.

É um número gigante. Se há menos óleo e se a indústria alimentar depende muito desse produto, lembrando aqui as regras da economia, como é que o preço do óleo pra fritar está a baixar e não a subir?

É uma boa questão, eu vou tentar explicar e também não quero induzir as pessoas em erro, porque parece que há uma grande descida do preço. Não! Houve uma descida do preço entre abril e maio, mas a descida do preço do óleo que nós compramos nos supermercados. Não há uma descida do preço, por exemplo, em relação ao óleo que nós comprávamos no ano passado ou mesmo que comprávamos no início do ano. O efeito da guerra ainda lá está. O que acontece foi realmente que entre abril e maio houve uma queda, eu não quero dizer pequena, porque em alguns casos ainda foram cerca de 50,60,70 cêntimos. Foi significativa, até posso falar valores concretos, está acima dos 3 € e estava perto dos quatro. O que aconteceu? Como a indústria ficou sem o óleo de girassol da Ucrânia, teve de procurar alternativas ao óleo de girassol e foi procurá-los à América, à América do Sul e à América do Norte, que produzem óleo de soja e óleo de colza. São essas duas alternativas que a indústria teve de introduzir nos seus blends. Eles chamam-lhe blends, são as misturas. Exatamente.

É como no café.

Exatamente. Estão a introduzi-las e essa é uma das explicações que a própria indústria nos dá. Essa mudança já está a ter efeitos no mercado e no produto que chega ao consumidor. Há outra explicação e esta está mais ligada à distribuição. Se tu te lembras, e eu imagino que os nossos ouvintes também se lembram, quando começou a guerra na Ucrânia e se começou a falar desta escassez do óleo, começou a haver receios de açambarcamentos. Os supermercados começaram a introduzir limites ao número de garrafas que cada pessoa podia comprar, ias lá, só podias levar três garrafas ou só podias levar seis. Houve um momento inicial de quase pânico e nessa altura, um dos mecanismos que a distribuição encontrou para evitar esse açambarcamento foi precisamente aumentar os preços. É o que se chama de estar o mercado a funcionar. Esse risco de escassez e esse risco de pânico do consumidor, esse comportamento mais extremo, já passou, pelo menos houve uma normalização também na distribuição e esse é um efeito que está a contribuir para a descida dos preços.

Ou seja, tudo somado, o preço subiu bastante e agora baixou um bocadinho.

E agora baixa ligeiramente, mas nada nos garante que não volte a subir.

Que não volta a subir. Mas esta oferta de outras soluções, de outros óleos É suficiente para garantir que não vão faltar produtos, e lá voltamos nós, Ana Salés, às batatas fritas.

Tu gostas mesmo de batatas fritas, Ricardo.

Faz mal.

Faz mal, mas sabe bem. A indústria garante-nos que sim, precisamente por causa dessas alternativas. Em relação a estas alternativas também há problemas. Por exemplo, na América do Sul, a produção de óleo de soja teve uma redução em relação ao ano passado de mais ou menos 15% por causa da seca. E no óleo de colza, na América do Norte, também estão a ter problemas por causa da seca. Mas ainda assim, eles garantem que sim, que é suficiente, não se colocam questões de escassez. Há outra alternativa que é o óleo de palma, que também está a ser usada por alguma indústria, aqui não nas garrafas de óleo, mas nos produtos transformados que levam óleo. Aqui já estamos a falar destas batatas fritas, dos fritos e das fórmulas pra bebês, por exemplo, que também levam óleo. Dos alimentos processados fritos, tem havido, para já, quantidade suficiente para dar resposta às necessidades do mercado.

Falaste aí no óleo de palma. É o tal que é pouco amigo do ambiente.

É um dos piores inimigos dos ambientalistas. Estão sempre, há muitos anos, cruzadas contra o óleo de palma e com razões também legítimas, porque o óleo de Palma está ligado à desflorestação e é produzido sobretudo na Indonésia e na Malásia. Juntas fazem 92% da produção mundial. Tem havido muitas medidas, inclusive na Europa, há muitas restrições ao uso de óleo de palma nos alimentos. Em Portugal, a indústria não usa ou tem uso muito reduzido. Mas eu li, por exemplo, o caso de uma empresa inglesa que teve quase de pedir desculpas, porque as empresas nos últimos anos andaram a livrar-se do óleo de palma e a orgulhar-se disso aos consumidores. Nós somos livres de óleo de palma. E agora estão a ser obrigadas a ir pelo caminho inverso e estão a pedir desculpas aos consumidores porque dizem: "Nós não temos mesma opção e temos que recorrer a ele", mas ainda assim garantem que estão a ir buscar óleo de palma produzida de forma sustentável. Eu não sei se isso existe.

Até porque é uma cultura intensiva, não é?

Sim, exatamente. É uma cultura intensiva e que é muito difícil de ser sustentável.

E também há óleo de palma em quantidades suficientes ou também há algum risco de escassez?

Essa é uma excelente pergunta e na última semana teve desenvolvimentos. Como eu lhe dizia há pouco, a Indonésia é o principal produtor mundial de óleo de palma, produz cerca de 60, 65% do que é produzido mundialmente e têm adotado medidas protecionistas.

The world's biggest palm oil producer has banned the export of all palm oil products.

Eles querem beneficiar o mercado interno, querem garantir que na Indonésia não falte óleo de palma. Então até agora, até há alguns dias, as empresas produtoras tinham que garantir que 30% daquilo que produziam ficava na Indonésia. O que eles decidiram na semana passada? Fica tudo na Indonésia. Não há exportações. Ou seja, num mercado que já estava muito preocupado em relação a preços, tornou as coisas muito difíceis, ainda mais imprevisíveis em relação a mais aumentos de preços. Depois ainda há outra questão, que é о óleo de palma também pode ser usado para biocombustíveis, e estamos no meio de uma crise energética, e eles estão a tentar proteger-se, no fundo. Há aqui várias questões. O governo da Indonésia diz que esta medida vai ser revista mensalmente e que a proibição só vai durar até o óleo atingir o preço definido por eles, que é mais ou menos, pelo que eu percebi, $1 por litro. Os especialistas dizem que esta limitação não vai durar muito tempo, porque eles têm pouca capacidade de armazenamento e, portanto, vão ser mesmo obrigados a exportá-lo, porque senão não vão ter onde armazenar, não vão ter o que fazer com ele.

Não vão ter como consumir, né?

Exatamente.

Ana Salés, com estas alterações, com estas alternativas, com estas mudanças, estes novos óleos não alteram o tradicional sabor?

Essa também foi uma das minhas questões quando comecei a fazer estes trabalhos, fui perguntar à indústria: "Mas o que nós comemos vai mudar de sabor?" O que nos garantem é que a indústria tem mesmo laboratórios muito avançados, estamos a falar de química, e que não, o sabor do que comemos não vai mudar. Dava há pouco o exemplo da palma e dessa tal empresa inglesa, que é a Iceland, que diz que precisamente para o sabor não mudar, vão ter que substituir o óleo de girassol por óleo de palma. E é uma garantia de que não, as nossas batatas fritas vão continuar a saber batatas fritas.

E o que a indústria fez mais para se adaptar a essa nova realidade?

Esta situação da guerra e do aumento dos preços está a implicar que a indústria tenha de ir um bocadinho mais além, tenha de ser mesmo muito criativa nas alternativas que pode encontrar. Por exemplo, há uma empresa espanhola de conservas que decidiu retirar uma parte da quantidade de óleo que tinha nas latas, porque o que eles dizem? As pessoas acabam por deitá-lo fora, portanto, para quê que vamos estar a pôr tanto óleo nas latas tendo em conta que ele está tão caro. Outra das opções tem sido substituir o óleo por azeite. Na Península Ibérica, essa é uma opção muito viável, porque somos grandes produtores de azeite e não sei se há alguns Imaginávamos isto e o azeite está mais barato que o óleo.

O azeite está mais barato.

É verdade.

E é mais saudável.

E é mais saudável. Ganhamos todos.

E os rótulos?

Os rótulos, Ricardo, olha que bem lembrado. Os rótulos, eu acho que é uma daquelas coisas que nós consumidores comuns não nos lembramos, mas que é uma preocupação enorme para a indústria, porque a partir do momento em que o ingrediente muda, isso significa que os rótulos têm que mudar, os consumidores têm que ser informados, isto obedece a regras comunitárias. E qual é o problema? A indústria tem muitos rótulos impressos com as formulações antigas e agora fazer essas mudanças fica caro, porque isto aqui já são questões técnicas que eu vou tentar não entrar muito, mas uma das possíveis mudanças passa por autocolantes, e isso a indústria diz que fica muito caro e até pediram alguma flexibilidade em relação a isto. E foi possível, mas ainda é um assunto que ainda não está totalmente resolvido. E uma indústria que já estava tão pressionada, mesmo já desde a pandemia, custos de energia, esta questão dos rótulos ainda vai trazer-lhes mais um custo acrescido e um problema para cima. Não está a ser fácil.

E para Portugal, isto poderá ser uma oportunidade? Muitas vezes na economia, a guerra é uma infelicidade a vários níveis, mas a nível económico para uns e às vezes é uma oportunidade para outros. Pode haver aqui uma aposta, por exemplo, no girassol ou noutro tipo de culturas em Portugal?

Nós já tivemos, e agora temos, mas é muito residual e deixámos de ter porque deixou de ser competitivo, precisamente por causa da Ucrânia, deixou de ser competitivo produzir. Mas o setor agora defende que é altura de voltar a produzir girassol, tanto Portugal como Espanha, Espanha se calhar até mais do que Portugal. E dizem que o investimento é substancialmente mais barato do que outros cereais, como o milho, por exemplo, é mais barato produzir girassol e é uma cultura que não consome muita água e que até tem um retorno de investimento que pode ser interessante. E tendo em conta a escassez global que existe, até pode ser uma solução Portugal começar a produzir girassol.

Já percebemos que vamos continuar a ter batatas fritas, vamos continuar a ter gordura para fritar, mas os preços na alimentação, apesar deste pequeno ajuste no preço do óleo, esses seguramente vão continuar a subir, Ana.

É verdade, chama-se inflação. Eu acho que já ouviste falar e os nossos ouvintes também.

E temos um episódio precisamente sobre a inflação, que eu recordo que é de 4%, é a que está prevista para este ano.

É a que está prevista para este ano. Em abril ela já foi de 7,2%. E na alimentação, nos alimentos não transformados, ultrapassou os 9%.

9%. Vamos ver como é que fechamos o ano.

Sim, mas isto é outro tema e dará certamente outros programas. Mas em relação aos preços à alimentação, a isso que estamos aqui a falar, sim, por que nós constatámos que o preço do óleo de abril para maio baixou? Porque nós, Observador, começámos a reunir mensalmente um cabaz de produtos essenciais, são 18, entre os quais está o óleo, para ver qual a evolução dos preços neste contexto atual de elevada inflação, para fazermos esse controle. E notámos que sim, que houve um aumento generalizado na maior parte dos produtos que escolhemos incluir nesse cabaz. Há exemplos como a farinha, a farinha de trigo, que também está relacionada com a guerra na Ucrânia. A Ucrânia também é uma grande produtora de trigo. Houve o exemplo dos ovos, que também tiveram um aumento muito significativo. E aqui a explicação é outra, está na gripe das aves. Foram identificados casos em França e nos Estados Unidos e eles foram obrigados a abater muitos animais e isso já se refletiu no aumento dos preços. Este mês, se formos ao supermercado, já estamos a pagar os ovos mais caros. Ainda houve mais exemplos. Lembro-me do leite, dos espaguetes. É generalizado, quase nenhum produto escapa.

E qual é a diferença que registámos nesse cabaz?

Para já temos um cabaz. O primeiro cabaz que fizemos, comparámos três supermercados, os preços que eles têm online, e de um mês para o outro, os aumentos foram entre 5% e 10%, isto traduzido em euros dá entre €3 e €5.

Portanto, ficou entre €3 e €5 mais caro o carrinho.

Mais caro. O mesmo carrinho de abril para maio ficou entre €3 a €5 mais caro, os mesmos produtos. E aqui contando com o efeito das promoções, porque há sempre produtos em promoções e nós estamos a fazer com esse efeito também.

E ainda o ano não vai a meio.

A precisão vai no ar.

Obrigado, Ana.

Muito obrigada, Ricardo.

Ana Sanles é editora adjunta de Economia do Observador e autora do especial "Como a Guerra Já Está a Mudar o Que Comemos". No Observador estamos atentos e a fazer contas à evolução do preço daquilo que compramos todos os meses nos supermercados. Os aumentos são consequência da guerra na Ucrânia e é lá que estão os enviados especiais do Observador Pedro Jorge Castro e João Porfírio. Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.