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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Gustavo Santos, um messias ou um charlatão? "Se queres ter cancro, lembra-te disto: não te ames, não te ames, não aceites, não controlas. Nunca digas não. Se tu confias na segurança e na eficácia das vacinas, mas vives constantemente com medo dos outros e defendes uma imunidade de grupo que tantas vezes não se justifica, tu podias ser só um caguinchas hipocondríaco. Mas não, é pior. O cenário é pior. Tu és ideologicamente manipulado e controlado." Ele contestou as vacinas, desafiou a ciência e com isso conquistou milhares de seguidores. "Nenhuma vacina faz mais bem do que mal. A quimioterapia mata mais do que cura." Mas nos últimos meses, o projeto do Gustavo Santos ganhou escala. "Portugal está, desde que nasci, entregue a mansos, corruptos, incompetentes e cínicos." Ele tem agora uma associação, organiza encontros por todo o país e quer acordar Portugal numa missão que garante que recebeu de Deus. "Durante a conversa, até uma borboleta cruzou o nosso plano, passou entre mim e ela no momento exato em que mencionei a palavra Jesus." Hoje eu vou conversar com a jornalista do Observador, a Mariana Marques Tiago, que passou meses a investigar este movimento. Vamos perceber o que defende Gustavo Santos, por que tanta gente acredita nele e até onde é que ele próprio quer chegar. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 10 de agosto. Eu sou o Pedro Benevides. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia. Olá, Mariana.

Olá, Pedro.

Nós cada vez que conversamos é sempre sobre temas polêmicos. Até agora, já fizemos um episódio sobre as pessoas que se identificam com cães, e com gatos, e com animais. E agora vamos falar de uma das figuras mais polêmicas do panorama nacional, que é Gustavo Santos. Antes de começarmos no sumo do artigo que tu escreveste, explica-me só por que houve esta ideia de ir conhecer melhor esta figura tão controversa.

Sim. Gustavo Santos começou a ganhar algum destaque na altura da pandemia, por causa das suas opiniões antivacina. Desde então, toda a sua marca, podemos dizer assim, tem crescido e ganhou aqui uma dimensão tão grande que recentemente criou uma associação que tem como cara Gustavo Santos.

Como é que se chama essa associação? É a associação...

Movimento Acorda.

Movimento Acorda, exato.

Ama.

Associação Movimento Acorda.

Exatamente.

Daí o Ama, que é uma palavra simpática. Ama é uma palavra simpática.

E que vai muito ao encontro daquilo que é a base da associação e da mensagem do Gustavo Santos, que é muito na base do amor e o amor ser a solução para tudo, principalmente para doenças e tudo mais.

Já vamos ver como é que isso se põe em prática. Mas portanto, tendo esta dimensão, decidiu-se no Observador: vamos fazer aqui um trabalho grande sobre o Gustavo Santos. Quem é ele, o que é que defende.

Sim, porque a associação começou a ganhar muito destaque, principalmente nas redes sociais, mas depois também nos eventos que começaram a ser dinamizados de norte a sul do país. Portanto, está-se aqui a criar uma associação que está a conquistar seguidores, apesar do Gustavo Santos nunca lhes dar esse nome. Mas são pessoas efetivamente que seguem aquilo que o Gustavo Santos diz, que se baseiam muito nele para validar certas questões e para esclarecer certas dúvidas e, portanto, está a ganhar aqui uma dimensão. Já não é só aquela pessoa que fazia vídeos nas redes sociais na altura da pandemia a dizer: "As vacinas fazem mal e vão nos matar a todos".

Portanto, tu foste pesquisar as ideias de Gustavo Santos, foste a um evento de Gustavo Santos e mais, chegaste a falar com ele.

Exatamente. Depois desse evento, o trabalho todo continuou e um dos pontos principais do trabalho foi fazer o levantamento de todas as informações relacionadas com saúde que eram apresentadas nesse evento por Gustavo Santos, para serem depois validadas pela Associação de Literacia em Saúde. E depois disso, chegamos à fase final do trabalho, digamos assim, que foi uma entrevista com o Gustavo Santos. Portanto, nós fomos à casa dele e falamos com ele cerca de quase duas horas, se não me engano, uma hora e 45.

Tenho curiosidade de saber como é que foi essa entrevista, porque o Gustavo Santos é uma figura que proclama o amor como a salvação, como a solução para as coisas, mas também é uma figura que tem alguma animosidade com jornalistas, portanto, tem uma relação difícil com a imprensa. Como é que foste recebida?

Nós fomos recebidos, digo nós, eu e o fotógrafo que estava comigo, de uma forma muito calorosa, sempre. Gustavo tentou sempre ter uma abordagem muito pacífica e muito acolhedora

Porventura estavam à espera de hostilidade, mas foram recebidos de braços abertos, exatamente como eu gosto e como eu sou. Pedi-lhes apenas uma contrapartida: nós, Associação Movimento Acorda, vamos filmar a conversa. Eles aceitaram e assim o poder ficou dividido entre os dois lados, o observador e a Associação Movimento Acorda. Por falar em mundos paralelos, vamos olhar então aqui para o mundo de acordo com o Gustavo Santos, que é um pouquinho diferente daquilo que é o mundo que nós conhecemos, a generalidade de nós que vive dentro do sistema, como ele gosta de dizer, aqueles que, assumo eu, não estão acordados. Uma das coisas que eu achei mais curiosa no teu artigo foi a forma como o Gustavo Santos descreve o seu movimento, portanto, humanitário, apartidário, não religioso. E esta parte do religioso interessa-me muito, porque embora ele diga que não é religioso, ele fundou este movimento por uma razão, diz ele, que eu diria que tem alguma coisa a ver com religião. Ou espiritualidade, pelo menos.

Sim, o Gustavo Santos diz que foi chamado por Deus para esta missão e encara mesmo como uma missão. Ao mesmo tempo, no evento em Óbidos, onde eu estive, alguns momentos em que Gustavo Santos até recorre ao quadro branco que tinha lá, onde vai escrevendo uma espécie quase de novos mandamentos, que na entrevista ele diz que não são novos mandamentos, que são simplesmente ideias, mas que se ele por acaso fosse reescrever os mandamentos, estariam lá. Portanto, ao mesmo tempo, há algumas referências a passagens da Bíblia. Há também uma comparação que Gustavo Santos faz com alguma frequência, que é: Jesus foi perseguido, assim como eu também estou a ser perseguido, porque todos aqueles que estão a difundir a verdade são perseguidos. Portanto, Gustavo diz que não é um movimento religioso, ao mesmo tempo, diz-se guiado por Deus, diz ter recebido uma mensagem de Deus, e está constantemente a fazer comparações e referências a Jesus.

E é um movimento muito autocentrado, portanto, a imagem dele é a imagem do movimento. Tu há pouco dizias que ele não gostava de chamar as pessoas que o seguem como os seus seguidores, mas efetivamente, ele é uma espécie de messias. Apresenta-se como tal ou age como tal, um pouquinho a fazer lembrar, e corrige-me se esta imagem está errada, aqueles pastores, às vezes da igreja americana, que são umas figuras maiores do que a própria mensagem. Tu achas que as pessoas olhavam para ele como uma espécie de líder, de guia?

Sim, sem dúvida. E de pessoa que sabe mais do que os outros, principalmente em termos de saúde.

Sabe a verdade.

Exatamente. Foi aí que o movimento começou e é aí que se tem estado a basear. Até a questão dos tratamentos para o câncer, por exemplo, é uma coisa que Gustavo Santos explora muito. Portanto, as pessoas olham para ele como: "Ok, esta pessoa sabe, esta pessoa está nos a dizer uma coisa que as entidades do nosso país não nos dizem, que, por exemplo, a DGS não nos diz ou não nos explica, ou que os médicos não nos explicam e o Gustavo sabe."

A indústria não nos diz.

Exatamente.

E ao mesmo tempo, ao dizer esse tipo de coisas, que para quem acredita na ciência são assustadoras, nomeadamente que aquilo que provoca o câncer são emoções negativas, não necessariamente são questões genéticas, por exemplo, é a pessoa ter raiva, viver com raiva, responsabilizando quase a pessoa por esse tipo de sentimentos e pelas consequências que esses sentimentos, naquilo que ele propaga, podem fazer à pessoa. Mas ao mesmo tempo, é uma mensagem de esperança, que é: a cura existe e é relativamente acessível.

Sim, e está dentro de nós, e nós é que temos a cura e somos a cura.

Tu conseguiste perceber se é isso que leva tanta gente a segui-lo e olhá-lo como uma espécie de líder mais do que espiritual.

Sim. E foi interessante perceber isso em Óbidos, por exemplo, com base na plateia que estava lá. Quer dizer, tínhamos pais que tinham crianças novas, pequeninas, ou que se estavam a preparar para ser pais, e uma das dúvidas era precisamente vacinas. Devemos aceitar que as nossas crianças sejam vacinadas ou não? Ao mesmo tempo, temos também pessoas, mulheres, principalmente, de meia idade, que se calhar há aqui uma procura por alguma coisa que lhes falta, ou um acompanhamento, ou um conforto que às vezes lhes falta. E aliás, a Sociedade de Literacia fala um pouquinho disso, a questão do câncer, por exemplo.

A Sociedade de Literacia para a Saúde.

Exatamente. Que foi quem reagiu a todas as informações relacionadas com saúde que o Gustavo Santos propagou em Óbidos e que desmentiu todas. Era uma lista de 10, o levantamento que eu fiz.

Já agora, vale a pena recordar aqui algumas. Que as vacinas contêm alumínio em doses perigosas, que têm formol e isso é apresentado como uma coisa má, embora, na verdade, a quantidade de formol que existe nas vacinas é inferior àquela que existe naturalmente numa série de alimentos, que têm células de fetos.

De fetos abortados, atenção.

Fetos abortados, células de macaco, que o próprio câncer também é uma doença, como dizíamos há pouco, provocada por estas emoções negativas que nós alimentamos dentro de nós. E tudo isso foi desmentido por quem trabalha do lado da ciência, principalmente.

Sim. Que não é algo que surpreenda Gustavo Santos.

Pessoas que baseiam todas as suas escolhas unicamente em estudos científicos, são ignorantes da alma, são carniceiras do próprio corpo e por isso mesmo vão sofrer graves consequências na pele.

Ele vê as críticas com imensa normalidade. Quando estamos a fazer a entrevista na casa dele, diz que não se surpreende por a Sociedade de Literacia ter desmentido, porque os médicos não sabem mais, não sabem fazer melhor. As pessoas quando entram para a universidade para tirar o curso de Medicina, aprendem simplesmente aquilo que lhes dizem, engolem isso e não vão além disso. Não tentam fazer pesquisa autónoma, ao contrário daquilo que o Gustavo Santos diz fazer. Isto, por exemplo, na questão das vacinas. Especificamente na questão das vacinas. O que acontece? Quando alguém que está com dúvidas, se tem um filho, se está com dúvidas sobre as vacinas que a criança vai levar ou não, vai a um evento daqueles e de repente tem uma pessoa que está ali à frente durante três horas a falar sobre o que compõe cada vacina e o que cada componente faz ou pode fazer, e os riscos associados a essa vacina, e estudos não sei de que ano, não sei de que entidade. Se a pessoa não sabe, chega ali e ouve isto de uma pessoa que está a proferir tudo com tanta segurança.

Porque ele fala com essa segurança e com essa propriedade, embora também não se assuma como médico, nem como membro da comunidade de saúde, com estudos em saúde, ele faz as suas pesquisas com fontes, digamos, alternativas.

Isso é uma questão muito interessante, a questão das fontes. Porque na entrevista eu perguntei-lhe especificamente quais é que eram as fontes dele. Podemos reduzi-las a três. A primeira são os médicos amigos, os médicos que lhe são próximos, que ele diz que são os médicos da verdade, os que têm a verdade, que são essencialmente aqueles médicos que vão estar agora no grande evento de Santarém. Depois temos a pesquisa autónoma, que ele diz que pesquisa os componentes das vacinas e vai ver o que é que cada componente é, o que é que faz.

Descobre uma verdade que a generalidade das pessoas não conseguiu descobrir.

Sim. E por último, o terceiro, que é o seu algoritmo de Instagram. Diz que nas suas redes sociais, as pessoas que aparecem lá apresentam conteúdo de verdade e isso também alimenta a verdade que ele depois quer propagar.

Uma das questões mais interessantes, que tem a ver precisamente com essa narrativa de saúde, é que ele não esconde a ambição de ser um influenciador de políticas públicas. Ou seja, quando houver o governo certo, com capacidade para ouvir o movimento do Gustavo Santos, ele será, ou este movimento será mais ou menos equiparado com aquilo que é a Direção-Geral de Saúde hoje. E, portanto, ele pode contribuir para iluminar as políticas públicas e quem decide políticas públicas. No entanto, tu perguntas-lhe se houver pessoas que ponham em prática aquilo que ele defende e que não têm validação científica. Imagina uma mãe com um filho que decide não vaciná-lo, porque ele diz que as vacinas são perigosas, que decide não tratá-lo para o cancro de acordo com aquilo que são os tratamentos.

Portanto, quimioterapia, não.

Por exemplo, não vai recorrer à quimioterapia, não vai fazer aquilo que os médicos lhe dizem, vai trabalhar as emoções da criança, porque o Gustavo Santos lhe disse que é assim que o cancro se cura. Se isso correr mal, qual é que é a posição dele relativamente a isso?

Não se responsabiliza.

Portanto, ele admite vir a influenciar políticas públicas de saúde, mas não sente responsabilidade por isso. Como assim?

Aquilo que o Gustavo nos disse na entrevista é que as pessoas não o devem seguir. As pessoas devem seguir-se a elas próprias, porque cada um de nós tem a verdade dentro de si. Tem o amor, tem a sua consciência, portanto, cada um de nós tem a verdade dentro de si. E apesar de o Gustavo dizer: "Ok, quimioterapia não vai resolver esta situação de cancro porque já está muito avançada", por exemplo, não quer dizer que eu tenha que seguir aquilo que ele diz. Isto é a ótica do Gustavo Santos. Ou seja, ele faz os eventos norte a sul, tem as suas redes sociais com milhares de seguidores, em que faz estas afirmações, mas depois diz que se alguém seguir aquilo que ele tiver indicado e por acaso correr mal, ele não tem nada a ver com isso. Ele não se responsabiliza por quem toma as decisões, são as pessoas, não é o Gustavo.

Aliás, a liberdade de cada um é um dos pilares deste movimento.

E é uma das coisas que preocupa tanto a Ordem dos Médicos como depois a Sociedade de Literacia em Saúde. Nós questionámos precisamente sobre isso e eles dizem, especificamente a Ordem dos Médicos, que chama a atenção mais até para a questão do cancro, que o bastonário me disse que é efetivamente um dos temas que mais o preocupa. Que os médicos têm imensos anos de formação, estão sempre em formação contínua e se algo corre mal, eles são responsabilizados. Faz-se investigação, percebe-se o que é que correu mal, onde é que eles falharam. Se o Gustavo Santos orientar alguém a negar certo tratamento, como é que se responsabiliza o Gustavo Santos aqui? Por que ele não é responsabilizado? Por que não há uma fiscalização?

Sobretudo quando se propaga publicamente este tipo de narrativas. Claro que cada um é responsável por si próprio e tem que tomar decisões por si próprio, mas estamos aí numa fronteira complicada. Falávamos deste movimento. Apesar de Gustavo Santos ser o rosto deste movimento, ele não foi fundado apenas por Gustavo Santos.

Sim.

Estamos a falar de mais gente.

Sim. Gustavo Santos, quando oficializou o registro da associação enquanto tal, foi em abril deste ano, ele foi acompanhado de duas outras pessoas, Xénia Pereira e Ana Brandão. Xénia Pereira é, neste momento, quem gere as suas redes sociais, é produtora de conteúdos, etc. Ana Brandão é enfermeira. Dando aqui uma nota também interessante de uma questão que entretanto descobri, que Ana Brandão tem, neste momento, um processo na Ordem dos Enfermeiros, um processo disciplinar.

Por propagar informações que...

Sim. Além destas duas pessoas que acompanharam Gustavo Santos, existe ainda um outro núcleo, chamemos assim, que são os Nove Magníficos, que não sabemos quem é e que o Gustavo recusou dizer de quem se trata.

Por que ele recusou? O que ele alega?

Ele diz que não é relevante saber quem são estes Nove Magníficos. No entanto, no dia em que eles registam a associação, Gustavo com Xénia Pereira e Ana Brandão, fazem um vídeo a anunciar isso nas redes sociais e agradecem aos Nove Magníficos. Dizem que quando chegar o momento, as pessoas vão saber quem eles são, que também foram chamados por Deus e que estão a seguir a missão que Deus lhes atribuiu. E eu perguntei a Gustavo quem são os Nove Magníficos e ele disse que não é relevante saber quem são.

Portanto, fica mais um mistério por esclarecer, apesar destes meses de investigação.

Sim, e apesar da alegada transparência que Gustavo Santos diz que mantém sempre.

Mariana, obrigado.

Obrigada.

Eu conversei com a jornalista do Observador, Mariana Marques Tiago. O trabalho da Mariana mostra um movimento que já vai para além das redes sociais. Gustavo Santos é um homem com uma missão. Ele quer influenciar a saúde, a política e a educação, mas recusa assumir responsabilidades pelas decisões de quem ouve o que ele tem para dizer. E, na verdade, ele acaba por ter razão. Esta história também é sobre quem está à procura de alguém com as respostas todas, é sobre a necessidade de pertença e é sobre a vontade de mudar de vida. Um nicho que o Gustavo Santos soube identificar depressa. Um forte abraço e acorda, Portugal. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.