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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Há boas notícias no crédito à habitação?

"We are determined to ensure that inflation returns to our 2% medium-term target in a timely manner. Based on our current assessment, we consider that the key ECB interest rates are at levels that maintained for a sufficiently long duration will make a substantial contribution to this goal. Our future decisions will ensure that our policy rates will be set at sufficiently restrictive levels for as long as necessary".

A 14 de dezembro, a presidente do Banco Central Europeu anunciava a manutenção das taxas diretoras. Não haveria novo aumento. Christine Lagarde reafirmava o empenho do BCE em controlar e fazer baixar a inflação. No entanto, deixava o aviso que escutamos: as medidas restritivas são para manter enquanto for necessário. A subida das taxas de juro tem sido um grave problema para quem paga crédito à habitação. Muitas famílias estão no limite e algumas já ultrapassaram mesmo esse limite. Agora, com a inflação a descer, há uma centelha de alívio. Mas será mesmo assim? E quando se vai sentir? Vamos voltar a conversar sobre os juros com o jornalista da seção de Economia, Edgar Caetano. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de sexta-feira, 05 de janeiro. Bem-vindo, Edgar.

Obrigado pelo convite, Ricardo.

Cá estamos nós a falar de taxas de juro, porque pode haver aí uma centelha de esperança, já lá vamos a essa centelha. Nesta altura, Edgar, em que fase é que estamos?

Estamos numa fase em que as taxas de juro, em princípio, não irão ser mais subidas pelo Banco Central Europeu. Ninguém espera que isso aconteça. A dúvida agora é se vamos ficar neste nível em que estamos de 4% durante alguns meses ou mais meses, ou se vamos começar a ter descidas. E, portanto, agora estamos um bocadinho nessa dúvida sobre se o Banco Central Europeu vai, de facto, baixar as taxas de juro nos próximos meses ou vai ser mais tarde.

E já aqui explicámos noutros episódios da história do dia, contigo, Edgar, que o grande objetivo da subida das taxas de juro é, no fundo, arrefecer a economia e, por essa via, controlar a inflação. Esta é uma ação da política monetária do BCE. O BCE manda no euro, na moeda. Ora, isto tem um outro lado, que obriga a sacrifícios. Por exemplo, a prestação da casa disparou, nalguns casos, das pessoas que pagam crédito à habitação, nalgumas situações. Essas situações tornaram-se mesmo complicadas. A pergunta aqui, Edgar, é: esta política de aumento da taxa de juro está a resultar ou não?

Olhando pelos dados da inflação, de facto, a inflação está a baixar. Chegámos a ter a inflação superior a 10% na zona euro e agora temos pouco mais de 2% e, em Portugal, temos um bocadinho menos do que isso. Agora, até que ponto é que, de facto, foi a política monetária que fez com que a taxa de inflação baixasse tão rapidamente. Não sabemos se era necessário subir os juros tanto.

De forma tão agressiva, é isso?

De forma tão agressiva. É possível, e isso está a ser estudado por muitos académicos por esse mundo fora, o que está a fazer a inflação baixar tão rapidamente. Da mesma forma que houve muitos que estudaram por que ela subiu tão rápido. Se calhar, a resposta à pergunta se está a resultar, acredito que a política monetária está, de facto, a dar um impulso muito importante a este controle da inflação, porque de facto evita que as empresas e as famílias se endividem mais e evita que exista demasiada procura por bens e serviços na economia, porque isso é que faz subir a inflação. E, portanto, de facto, está a resultar, a inflação está a baixar. Não sabemos é se não teria acontecido isto na mesma, ou pelo menos subindo a taxa de juro um bocadinho menos do que aquilo que temos hoje.

Temos de falar também de Euribor e dos prazos mais curtos, porque, Edgar Caetano, estamos aqui a viver uma situação, podemos chamar-lhe uma situação invulgar?

Invulgar, sim, de certo ponto. O que está a acontecer é que quem costuma seguir as taxas Euribor, até para saber quando é que vai acontecer.

Neste caso tu, atentamente.

E quem tem crédito à taxa variável já poderá ter reparado que a Euribor a 12 meses está abaixo das Euribor a 3 e 6.

Que são os três prazos mais usados, não é?

Os três prazos mais usados. Ou seja, a dívida que normalmente é mais longa, tem juros maiores. Isso é a lei da gravidade, é o normal.

Ou seja, quanto mais tempo demoras a pagar a dívida, a taxa será maior e num prazo mais curto, a taxa será menor, é isso?

Sim, em termos simples, é isso.

Mas não é isso que temos agora.

Neste momento não temos isso. Temos a Euribor 12 meses mais baixa do que a 3 e 6. Isso, normalmente, não é no sentido de ser invulgar. É um bocadinho invulgar, não é inédito, é normal. Agora, o que está a acontecer é que a forma como a Euribor a 12 meses passou para debaixo das outras mais curtas, foi a ocasião em que isso aconteceu de forma mais rápida e mais brusca. Tu tens neste momento a Euribor a 3 e 6 meses à volta de 3,9 e tens a Euribor a 12 meses 3,5. Portanto, ainda é uma diferença que foi, de facto, muito íngreme e foi muito rápida e está a ser duradoura, está a ser assim.

E isso pode ser um problema? Há aqui gato ou não?

Normalmente, quando a taxa de juro do prazo mais longo fica abaixo da taxa de juro do prazo mais curto, isso significa que pode haver uma inversão da política monetária, ou seja, um banco central que até agora tinha vindo a subir taxas de juro, vai começar a descer. Isso normalmente também pode significar, sobretudo em obrigações com prazos mais longos, como 10 anos, que pode vir aí uma recessão. Aliás, a outra vez, historicamente, na zona euro, e a história da zona euro não é assim muito longa, mas a outra vez na história da zona euro em que isto aconteceu de forma mais clara, foi logo em 2001, quando a zona euro tinha taxas de crescimento de cerca de 3% e ali em 2001, 2002, passou pra metade disso. Aliás, em 2002, 2003, nem sequer chegou a 1%. Portanto, às vezes, quando acontece aquilo que está a acontecer agora Normalmente, isto pode querer significar uma desaceleração ou uma recessão económica. Pode não ser o caso aqui, porque nós sabemos que chegamos aqui, ao nível de juros que estamos neste momento, de forma muito rápida. De facto, nunca tinha acontecido uma subida tão rápida das taxas de juros, que foram de -0,5% para 4% em poucos meses de um ano.

Exato. Foi em fulga, quase.

Exatamente. É natural que agora se gerem fenómenos aqui um bocadinho mais pronunciados e mais estranhos do que é normal.

E a recessão, já aqui aprendi contigo na história do dia, é quando temos dois trimestres-

Consecutivos de contração do Produto em cada ano.

Ou seja, quando a economia não cresce em dois trimestres sucessivos.

Decresce mesmo o produto económico.

Já voltamos à conversa com Edgar Caetano, jornalista da secção de Economia. Afinal, onde está a tal centelha de esperança para quem paga crédito à habitação? Estamos de regresso à conversa com Edgar Caetano, jornalista da secção de Economia do Observador. Edgar, afinal há ou não aqui a tal centelha de esperança para quem paga as prestações da casa, que tem o crédito à habitação, crédito, obviamente, indexado à Euribor?

Sim, sobretudo no prazo a 12 meses, as pessoas já estão a começar a ver alguma redução daquilo que é a oscilação diária deste indexante. Isso significa que para estas pessoas podemos antecipar que nos próximos meses pode haver alguma revisão.

E isso é por quê? Porquê a 12 meses?

A Euribor a 12 meses pode ser lida como uma expectativa dos mercados financeiros sobre aquela que será a média, ao longo dos próximos 12 meses, da taxa de juro do BCE. E o mesmo aplica-se aos outros prazos. Neste momento, como temos a Euribor a 12 meses mais baixa que os outros, significa que matematicamente a média da taxa de juro do BCE será inferior.

Neste ano, 2024, por exemplo, não é?

Sim, nos próximos 12 meses.

Mas nas taxas mais curtas, três e seis meses, que também são muito utilizadas, aí as contas já são mais difíceis de fazer.

Porque a média matematicamente aponta para um valor mais alto. Por quê? Porque não se espera que o BCE desça tanto os juros nos próximos três meses ou nos próximos seis, como se espera nos próximos 12.

Portanto, podemos dizer que é uma miragem pensar que vamos ter agora descidas rápidas para compensar as subidas rápidas que tivemos?

Isso é uma questão curiosa, porque lendo aquilo que os analistas nos dizem, eles avisam que não haverá descidas rápidas. Mas o mercado e os indicadores, que são concretos, não são opiniões, é dinheiro a falar, diz-nos que até ao final de 2024 podemos ter o equivalente a 160 pontos base de descida. O que isso significa? Temos agora taxa de juro de 4%, e significa que a taxa de juro do BCE pode terminar o ano entre 2,25% e 2,5%. Seria uma descida muito agressiva e é curioso que os mercados são voláteis, mas é isso que estão a prever, mas os especialistas dizem que não será assim, poderá ser mais lento.

Será mais gradual. E é essa gradualidade que vai sendo antecipada pela Euribor. No fundo, é isso.

É isso mesmo.

E do outro lado, do lado dos depósitos, também há aqui um fenômeno que nos deixa a pensar, pelo menos. Também já falámos aqui na história do dia de uma certa, vou chamar-lhe lentidão.

Inércia?

Sim, inércia, lentidão da banca portuguesa em subir as taxas pagas pelos depósitos, depósitos a prazo, por exemplo, na sequência das subidas das taxas pelo Banco Central Europeu. Agora, essas taxas pagas pelos depósitos já estão a descer. Estão a descer à mesma velocidade que demoraram a aumentar ou já desceram?

Aparentemente, isso não está a acontecer. Estão a descer já mais rapidamente.

Ou seja, na hora de pagar...

Sim, não te esqueças que só nos primeiros nove meses de 2023, os bancos portugueses, os cinco maiores bancos, tiveram uma margem financeira superior a 5 mil milhões de euros só em nove meses.

5 mil milhões.

E só na operação portuguesa. E o que isto quer dizer? Significa a diferença entre aquilo que os bancos pagaram para se financiar, nomeadamente os depósitos, aquilo que pagaram pelos depósitos, e a diferença em relação àquilo que cobram nos juros. Basicamente, isto significa a margem financeira é aquilo que o banco em cada momento está a pagar pelos depósitos das pessoas e aquilo que está a cobrar pelos créditos que tem concedidos junto das pessoas. É só isto.

Ok.

E portanto, se um banco está em média a pagar 1% pelos depósitos e está a cobrar, por hipótese, 3% em média pelos créditos, tem uma margem financeira de dois pontos.

E o que é facto e o que se nota é que esse ajuste foi agora na hora em que desce a taxa aplicada aos depósitos, quando as pessoas põem o seu dinheiro no banco, no depósito a prazo, desceram muito mais depressa do que subiram quando foi na hora de remunerar esses depósitos. É isso?

Sim, nós escrevemos ontem sobre alguns casos de alguns depósitos, não é ainda todos os depósitos dos bancos, mas alguns casos de alguns bancos influentes, como o Santander e o Montepio e também um depósito secundário do BCP. O que está a acontecer é que os bancos, de facto, à medida que a Euribor está a cair um bocadinho, eles já estão rapidamente a refletir isso naquilo que pagam pelos novos depósitos. Atenção, quem tem depósitos já feitos.

Aquilo que está contratado, está contratado.

Sim, mas é importante também referir isso. Mas atenção que é importante também ter em conta que aquilo que os bancos pagam pelos depósitos é uma oferta que os bancos fazem, ou seja, é como a mercearia a vender batatas. Se nós acharmos que o banco não está a remunerar o meu depósito como eu acho que ele deve remunerar, eu posso sempre procurar outro depósito e há depósitos melhores.

E os portugueses têm tradição de procurar melhores depósitos ou deixam-se estar quietos?

A julgar por aquilo que os dados demonstram, e até o Governador do Banco de Portugal falou sobre isso há pouco tempo, os portugueses são muito inertes, de facto. Mas nós não podemos queixar-nos dos bancos pagarem pouco pelos depósitos. Desde que exista concorrência e desde que exista, de facto, alternativas, se achamos que o nosso banco já não me está a oferecer uma taxa que eu acho que é justa, eu vou procurar outros bancos, porque eles de facto existem e existem boas ofertas no mercado.

Obrigado, Edgar.

Obrigado.

Edgar Caetano é jornalista da secção de Economia do Observador. Esta foi a História do Dia. E se gosta da História do Dia, se nos ouve habitualmente, há um gesto simples que nos pode ajudar e muito. É clicar em seguir a História do Dia nas aplicações que habitualmente utiliza para ouvir podcasts. A sonoplastia é do Diogo Casinha e do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.