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Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. Liz Truss caiu. Boris Johnson poderá voltar?
"I recognize though, given the situation, I cannot deliver the mandate on which I was elected by the Conservative Party."
Liz Truss anuncia que se demite e que se mantém em funções até ser substituída. A líder do Partido Conservador britânico não resistiu às críticas e caiu. Durante sete dias, um tabloide britânico, o Daily Star, manteve uma transmissão em direto no YouTube de uma corrida. Do lado esquerdo do ecrã, uma fotografia de Liz Truss, e do lado direito, Lizzy Lettuce, Lizzy Alface. Quem duraria mais? A alface ganhou a corrida. A fotografia da primeira-ministra foi tombada, as luzes de discoteca começaram a rodopiar na imagem, acompanhadas da música Celebration, dos Kool & Gang. E Lizzy, a alface, festejou a vitória. Liz Truss esteve apenas 45 dias no cargo, demite-se da liderança do Partido Conservador e perde a chefia do governo. Um ambicioso e muito criticado plano económico derrotou-a, como explicámos aqui na história do dia, no episódio de dia 19. E agora, o que se segue? É uma das perguntas que lançamos a José Carlos Duarte, jornalista do Observador, que está a acompanhar a crise no governo britânico. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Zé Carlos.
Olá, Ricardo, obrigado pelo convite.
I've got the list here. 45p tax cut, gone. Corporation tax cut, gone. 20p tax cut, gone. Two-year energy freeze, gone. Tax-free shopping, gone. Economic credibility, gone. And her supposed best friend, the former chancellor, he's gone as well. They're all gone. So why is she still here?
Mr Speaker. Mr Speaker, I am a fighter and not a quitter.
José Carlos, esta cena que estamos aqui a ouvir passou-se no Parlamento britânico na quarta-feira. O líder da oposição, o líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer, enumera as ideias que Liz Truss acabou por deitar fora. Pergunta também porque é que a primeira-ministra não é descartada, porque é que não se vai embora. E ela, a Liz Truss, responde que é uma lutadora, que não é uma desistente. Afinal, por que se demitiu um dia depois?
Demite-se e deveu-se a uma combinação de fatores. Em primeiro lugar, havia uma grande pressão por parte do Partido Conservador para empurrar Liz Truss para fora do cargo. Na quarta-feira houve uma reunião do Comité 1922 e os seus membros estavam a tentar que a primeira-ministra saísse. Na origem, esteve a reversão da política económica e do mini orçamento que foi preparado e que levou a alguma insatisfação por parte de alguns tories, e que levou depois à saída de vários ministros, um deles o ministro das Finanças, o Kwasi Kwarteng, a 13 de outubro, e na quarta-feira, a ministra do Interior, Suella Braverman.
Já percebemos que houve aí uma conjugação de fatores que levaram a esta decisão, mas José Carlos, tu falaste aí do Comité 1922. Comité 1922 parece um nome saído de um romance, ou mesmo de um livro do Harry Potter.
Sim, o Comité 1922 é o grupo parlamentar do Partido Conservador, que se reúne semanalmente às quartas-feiras. Ora, na reunião da última quarta-feira, o clima estava tenso, houve insultos, até há relatos de agressões físicas, tudo para retirar Liz Truss do poder. Este comité também é responsável, em parte, para quando existe uma vontade dos tories para que o primeiro-ministro saia do cargo, o comité reúne-se e pode, caso for essa a sua vontade, retirar o chefe de governo e obrigar assim a uma substituição. E nesta quarta-feira a reunião foi mesmo muito tensa.
Isso entre deputados conservadores.
Sim, exatamente, entre conservadores.
Liz Truss estava muito isolada.
Sim, estava. As sondagens assim o indicavam. Na segunda-feira, foi divulgado um estudo de opinião que mostrava que 55% dos conservadores queriam que a atual primeira-ministra resignasse do cargo. Além disso, 83% era da opinião de que ela estava a fazer um mau trabalho. Estes números são demolidores.
São avassaladores, claro.
Exatamente. E tornaram muito complicada a continuação do cargo para Liz Truss.
De resto, ela diz à saída que não tinha condições para continuar. E isto está tudo relacionado com o tal plano económico de que falámos aqui no episódio de quarta-feira da História do Dia, com o jornalista Edgar Caetano, precisamente sobre o plano económico de Liz Truss, que sentenciou o consulado de Truss.
Exatamente, sentenciou, porque o plano económico nem sequer era aprovado, recebia grande apoio do Partido Conservador. O plano consistia na baixa de impostos, principalmente para os mais ricos, para aqueles do escalão de IRS mais alto Ao mesmo tempo que procurava aumentar as despesas. Isto foi uma combinação fatal, os mercados não gostaram desta junção e isso levou ao aumento das taxas de juro. A libra também afundou e evidentemente o Partido Conservador teve também de agir e evitar que houvesse aqui um cataclismo económico.
Falaste nessa reação dos mercados, agora também já reagiram? Que tal foi a reação dos mercados? E foram os mercados que empurraram Liz Truss para a demissão.
Sim, agora, pelo contrário, celebraram a sua saída. A libra negociou em alta, os juros da dívida caíram, portanto, o cenário para os investidores e para os credores está muito mais sorridente esta quinta-feira do que propriamente nos dias anteriores.
"I came into office at a time of great economic and international instability. Families and businesses were worried about how to pay their bills. Putin's illegal war in Ukraine"-
O anúncio da demissão foi quase tão curto como o mandato. Teve 89 segundos, cerca de um minuto e meio para 45 dias no lugar.
Sim, o anúncio foi seco. Liz Truss não demonstrou grande emoção, mas garantiu que ficará como primeiro-ministro interina até haver o novo nome que a substitua. Este assunto deverá ficar arrumado muito em breve.
E já vamos tentar perceber como. Já vamos voltar à conversa com o jornalista José Carlos Duarte, precisamente para tentar perceber, afinal, o que se segue.
Sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica, mas é mais do que isso. Leva-nos mais longe do que imaginamos. Encontra no silêncio o ritmo perfeito. Faz-nos olhar duas vezes, se formos suficientemente rápidos. Por isso sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica e entre outras coisas fantásticas, apoie esta história do dia. Audi, o futuro é uma atitude.
Estamos de volta à conversa com o jornalista José Carlos Duarte. José Carlos, em quatro meses, vê lá se estas contas estão certas. O Reino Unido teve quatro ministros das Finanças, vai ter três primeiros-ministros, já a contar com o próximo, e dois monarcas. Como é que se desata este nó?
As contas estão corretas. De acordo com o presidente da Comissão 1922, Graham Brady, o processo vai ser rápido. Espera-se que numa semana esteja concluído.
"That it will be possible, to conduct a ballot and conclude a leadership election, by Friday the 28th of October."
O procedimento será rápido. Os deputados que quiserem candidatar-se podem apresentar as suas propostas e se tiverem 100 deputados a apoiá-los, o processo fica logo encerrado.
Então deixa-me ver se eu percebi. São 360 deputados no Partido Conservador, no Parlamento. Se um deles conseguir mais de 100 apoios, ou seja, vamos imaginar neste cenário, cada um de três consegue 120 deputados, esses três podem entrar na corrida, é isso?
Exatamente, sim.
Isso quer dizer que vamos assistir a uma nova corrida eleitoral nos conservadores. Não vai ser escolhido um candidato por aclamação, ou vai?
Não, a princípio não, a não ser que haja algum candidato que realmente reúna aqui um grande favoritismo. Mas em princípio, o que vai acontecer é que vai haver uma votação, que será concluída na próxima sexta-feira, e só aí é que vai ser conhecido o primeiro-ministro, tendo em conta antes que haverá algumas rondas que funcionarão com processo de eliminação, consoante lá está, se atingirem ou não os 100 apoios.
Isso faz um bocadinho lembrar a eleição do delegado de turma, em que a turma põe os nomes dos alunos favoritos para assumir o cargo. Substituir Boris Johnson foi muito mais demorado, o processo não foi este.
Exatamente, foi muito mais demorado. Boris Johnson demitiu-se no início de julho e só a 5 de setembro é que tivemos Liz Truss enquanto nova primeira-ministra. No entanto, tendo em conta que já houve dois primeiros-ministros num tão curto espaço de tempo, o Partido Conservador quer acelerar a eleição e quer realmente ter alguém num futuro próximo e não quer esperar, não quer ter um processo tão demorado como o outro, que consistiu numa série de rondas. Primeiro era uma cerca de 10, depois passou para três e depois é que houve um duelo final entre o Rishi Sunak e Liz Truss. Agora o processo vai ser muito mais rápido e não vai ter tantas complicações como o outro. Ricardo, deixa-me acrescentar aqui uma coisa. Todos os candidatos têm de ser deputados. Ou seja, aqui em Portugal, por exemplo, isso não acontece. Nós temos o caso Luís Montenegro, que apesar de ser líder do PSD, não é deputado. Aqui isso não pode acontecer. O próximo líder do Partido Conservador tem de ser necessariamente um deputado que esteja na Câmara dos Comuns.
Porque vai ser primeiro-ministro.
Exatamente.
E já lá vamos falar dos favoritos. Eu queria primeiro perceber uma outra coisa, que é se há ou não hipótese de um cenário de eleições antecipadas.
Has a clear plan, and the public entitled to choose between that stable Labour government and this utter chaos of the Conservatives. Are you ready for government? This is not the context you would have wanted to take over. We are ready to form a government-
Eleições antecipadas, é o que está aqui a pedir Keir Starmer, o líder do Partido Trabalhista, o líder da oposição. José Carlos Duarte, isto é um cenário plausível?
Não, esse cenário não é sequer É previsível que aconteça, porque teria de haver uma moção de censura e essa moção de censura teria de ser aprovada pelo Partido Conservador, que tem a maioria dos assentos parlamentares na Câmara dos Comuns. Ou seja, só se o Partido Conservador quisesse é que haveria eleições antecipadas, o que, tendo em conta as circunstâncias, não deverá de todo acontecer.
Até porque está à procura de um novo primeiro-ministro, não é?
Exatamente.
E outra dúvida: em Portugal, o Presidente da República tem o poder da chamada bomba atómica de dissolver o Parlamento. Em Inglaterra, o Rei Carlos III tem essa possibilidade?
Tem essa possibilidade, mas tem de ser a pedido do primeiro-ministro. Portanto, neste caso, só se Liz Truss quisesse é que o Parlamento seria dissolvido.
Ou do novo primeiro-ministro, o que também será pouco provável. Vamos então olhar para quem se segue. Quais são, nesta altura, José Carlos Duarte, as hipóteses mais prováveis para a liderança do Partido Conservador e para ocupar o cargo de primeiro-ministro?
Um dos nomes é Rishi Sunak, que é o ex-oponente de Liz Truss, ou seja, que esteve naquele duelo do Partido Conservador que durou cerca de 15 dias, está neste momento a ser colocado como um dos favoritos para a suceder. Outro dos nomes é a líder da Câmara dos Comuns, a Penny Mordaunt, que também concorreu para ser líder do Partido Conservador contra Liz Truss e Rishi Sunak. E ainda há um terceiro nome, que é o de Boris Johnson.
Boris Johnson. Ele próprio, o que foi demitido pela própria bancada, demitido pelo próprio partido, é mesmo uma hipótese?
É mesmo uma hipótese. Boris Johnson está a recolher grandes apoios entre os conservadores e na sondagem que eu aqui já referi, segunda-feira, dava conta de que 32% dos conservadores tinham como opção preferencial para substituir Liz Truss, Boris Johnson. Ou seja, há aqui uma hipótese em que vejamos um duelo entre Rishi Sunak e Boris Johnson, é bastante provável.
Ele que foi ministro das Finanças de Boris Johnson.
Exatamente. Portanto, será um ex-ministro das Finanças contra Boris Johnson. E aliás, que depois houve aqui um processo de desentendimento entre os dois, que levou a que Rishi Sunak se demitisse no governo dele e agora poderão novamente enfrentar-se, desta feita em circunstâncias diferentes.
José Carlos Duarte, mas a confirmar-se essa hipótese, eu não resisto a esta pergunta: Boris Johnson duraria mais do que uma alface?
Não diria como alface, mas mais como gelo num gin tónico.
Então.
Então, porque ainda existe um inquérito sobre as festas da pandemia, o chamado Partygate.
Partygate.
Que ainda está a decorrer e se Boris Johnson, se provar o envolvimento dele nestas festas, poderá levar a consequências e está em cima da mesa perder mesmo o lugar de deputado. Portanto, a ser escolhido, não se sabe muito bem qual será a longevidade do seu cargo.
Obrigado, José Carlos.
Obrigado.
José Carlos Duarte é jornalista do Observador e está a acompanhar a crise política no Reino Unido. Esta foi a história do dia. As declarações que fomos ouvindo ao longo deste episódio foram registadas pela Sky News. E a canção que ouvimos na abertura é dos Kool & The Gang, "Celebration". A sonoplastia é do Dioca Zinha e a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda. Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron.