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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Luís Montenegro ganha alguma coisa com a Madeira?
No meu mandato, PSD um, PS zero, Luís Montenegro um, António Costa zero. Só com uma diferença: é que eu vinha à Madeira sem saber qual era o resultado.
Numa noite que acabou por ser longa no Funchal, Luís Montenegro falou com os jornalistas para elogiar aquilo que considerou ser uma grande vitória. Uma declaração em que, no entanto, não conseguia disfarçar o desconforto causado pela ameaça lançada pelo líder do PSD Madeira, que avisou, antes das eleições, que se demitiria se não conseguisse a maioria absoluta. E não conseguiu. Luís Montenegro traz da Madeira uma verdadeira vitória? E esse resultado pode ou não ter reflexos na política nacional? Vou conversar com Rui Pedro Antunes, o editor de política do Observador e o enviado especial às eleições regionais na Madeira. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Rui Pedro.
Olá, Ricardo.
Estás no Funchal. Estamos a gravar esta conversa de madrugada e a noite começou até morna, mas depois a incerteza foi tomando conta da noite e animando a noite. Como é que foi esta noite eleitoral na Madeira?
É verdade, Ricardo. Olha, começou com a projeção à boca das urnas que dava um intervalo em que a margem mínima aparentemente não dava a maioria, mas a margem mínima normalmente está lá para depois fazer uma média entre a mínima e a máxima. Portanto, toda a gente acreditou que ia acontecer o resultado, que à partida era mais expectável de acordo com as sondagens, que era a coligação PSD/CDS obter a maioria absoluta e obter o número mágico da governação, que era 24 deputados. E imagina o que é que aconteceu, Ricardo.
Quantos é que teve?
Apenas 23. E é aí que começa uma noite completamente diferente. Aliás, a noite na sede do Somos Madeira, que era a coligação PSD/CDS, foi mudando o ambiente. Havia cerveja, havia sandes, havia essas coisas e as pessoas estavam quase como num convívio e a sorrir e a acreditar que iam ter a maioria absoluta. E há um determinado momento em que a malta do Excel, como eu lhes chamo, passo aqui este termo mais coloquial, começa a mexer-se muito, a abanar muito e com uma cara muito carregada. E é aí que se percebe que as coisas podem não estar a correr tão bem e começam a perceber que se calhar a maioria ia escapar pelos dedos e acabou por ser isso que aconteceu. Dos 24 que precisava, a coligação só teve 23, ficou a faltar, imagina, Ricardo, apenas um deputado.
Precisamente, Rui Pedro. Ou seja, não sabemos ainda o que é que vai acontecer, porque falta um deputado para garantir uma maioria absoluta que apoie o governo regional. Quais são os cenários em cima da mesa?
Olha, Ricardo, os cenários são, neste momento, ou uma coligação com a Iniciativa Liberal, porque tem um deputado, ou uma coligação com o PAN, embora seja assim uma coisa um bocadinho esquisita. Podemos até chamar assim Jerím Poncha, porque é criada aqui na Madeira e é uma geringonça estranha.
Jerím Poncha é muito bom.
Mas é que a Iniciativa Liberal mostrou logo desde a primeira hora essa disponibilidade e o PAN também. Há mais partidos que têm um deputado e que conseguiram essa eleição. São o caso da CDU, o caso do Bloco de Esquerda, o próprio Chega conseguiu quatro deputados, mas ninguém quer nada com o Chega. E depois ainda temos os Juntos pelo Povo, que é da área socialista, nasceu da área socialista e mais do centro-esquerda e que também não está disponível para isso. Portanto, neste momento temos, eu diria que três opções: ou a coligação PSD/CDS com a IL, a Iniciativa Liberal, a coligação PSD/CDS com o PAN, ou uma terceira opção, a coligação PSD/CDS que tenha um acordo com a IL e com o PAN e que vá jogando entre os dois. Há vários problemas, vamos ver se concretiza, porque nós estamos no Instituto do Vinho, ainda aqui estou, apesar disso estar tudo fechado. Até ao lavar dos cestos é vindima, acho que se enquadra aqui completamente a expressão.
E a gravar durante a madrugada, não sabemos o que é que o dia desta segunda-feira poderá trazer. Já vamos olhar mais em pormenor para o PSD. Este resultado também é uma espécie de garantia de vida ao CDS, uma vez que acaba também por ganhar?
O CDS, Ricardo, eu acho que a obtenção da maioria era mais uma espécie de tábua de salvação para o CDS, porque ia manter as suas secretarias regionais. O CDS tem o equivalente a ministros nesta coligação. Há quem diga que até tem um peso desproporcional, porque tem mais secretarias regionais neste atual governo que ainda está em funções, face àquilo que é o verdadeiro peso do CDS. E isto pode obrigar aqui uma terceira força, e vai obrigar a uma terceira força, que pode levar a uma menor preponderância do CDS. Além disso, temos sempre aqui um problema, que pelo menos uma destas forças que está em causa é um concorrente direto do CDS e que até foi responsável em parte pelo esvaziamento do CDS a nível nacional. Portanto, anteveem-se aqui muitos obstáculos e muitos problemas para Miguel Albuquerque resolver.
Quero deixar claro, olhos nos olhos, que o Chega
Está indisponível para fazer qualquer acordo, qualquer coligação, qualquer entendimento com Miguel Albuquerque.
E o Chega volta a ganhar terreno na Madeira, onde a terceira força política é um partido de cariz mais regional, apesar de não existirem partidos regionais, o JPP, os Juntos pelo Povo, que é a terceira força na Madeira. Mas o Chega é ou não também um dos vencedores desta noite eleitoral, Rui Pedro?
Olha, Ricardo, o Chega é um vencedor no sentido que teve 600 e poucos votos há quatro anos e agora elegeu quatro deputados. Portanto, é difícil não dizer que teve uma vitória. O problema é que com os dois deputados, por exemplo, que conseguiu nos Açores há três anos, conseguiu mais relevância do que com estes quatro, porque ninguém quer nada com o Chega. Eu há dias num texto dizia que era a história de quem quer casar com a Carochinha e ninguém queria casar com esta Carochinha que era o Chega. E isso mantém-se. E André Ventura disse num som que acabámos de ouvir, que, na verdade, ele não quer fazer coligação com ninguém. Mas eu também posso dizer aqui, e tu és testemunha, Ricardo, que não quero ganhar o Prêmio Pulitzer. Também não ia ganhar. E assim é André Ventura. Ele diz que não quer coligação, mas também ninguém se queria coligar com ele.
Já voltamos à conversa com Rui Pedro Antunes, enviado especial d'O Observador à Madeira. É possível fazer uma leitura nacional destas eleições regionais da Madeira? Regressamos à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política d'O Observador, enviado especial à Madeira. Rui, e o PS, como sai o PS destas eleições?
O PS teve uma derrota estrondosa. Já se esperava que assim fosse, porque houve uma coisa extraordinária há quatro anos, que foi Paulo Cafôfo quase que conseguiu roubar aqui a região da Madeira ao PSD, onde está agora há 47 anos, portanto, onde estava há 43 anos, quase conseguia roubar. E, portanto, já se esperava que houvesse uma quebra muito grande, porque agora o candidato não tinha tanta notoriedade. Além disso, António Costa tinha feito uma coisa que podemos chamar, eu não quero ser muito duro, mas semicobarde, que era colocar apenas João Torres, o secretário-geral adjunto, a reagir a uma provável derrota, e foi isso que aconteceu.
E, portanto, o Partido Socialista não confunde eleições. Cada eleição é uma eleição e as eleições têm natureza distinta.
E, portanto, o PS já esperava aqui uma grande derrota. Teve sorte, porque acabando com a maioria PSD/CDS, em que o PS não é o responsável por isso, claramente, terá tido o seu contributo, mas não é o responsável, conseguiu ofuscar um bocadinho ou mascarar um bocadinho a derrota. E António Costa depois teve aquilo que eu posso chamar uma jogada de mestres político, que fez uma nota informativa a felicitar Miguel Albuquerque pelo resultado e a dizer que esperava a continuação do bom trabalho. Eu acho que deve ter rebentado a escala do cinismo político. Mais uma vez, o cinismo não tem aqui uma conotação, é o bom cinismo da boa batalha política. E António Costa conseguiu estar de camarote a assistir àquilo que, à partida, era uma derrota estrondosa do PS, que efetivamente foi.
António Costa, que foi à Madeira no arranque da campanha, mas não voltou. Já antevia que o resultado pudesse ser este?
Sim, foi só dois dias antes. Eu acho que na campanha oficial não é tão grave, mas na altura com Paulo Cafôfo esteve muito presente, apoiou muito, envolveu-se muito e desta vez afastou-se, não queria estar associado à derrota. A palavra que ele utilizou é muito forte, eu acho que nunca o ouvi utilizar palavras que é: tinha uma obsessão pela Madeira. Era algo que ele queria ver o partido ganhar. Eu acho que talvez as únicas eleições que o PS nunca ganhou. Há autarquias que obviamente o PS nunca conquistou, mas em termos de eleições no país, já venceu nos Açores, já venceu a nível nacional, já apoiou candidatos que venceram presidenciais e isto acaba por ser o que falta. E António Costa tinha essa obsessão, mas desistiu completamente dela e estes resultados vêm mostrar que muito dificilmente o PS será a alternativa a breve prazo, a menos que Cafôfo volte numa manhã de nevoeiro, se conseguir aterrar, porque nem sempre se consegue no aeroporto da Madeira, que os ventos são muito fortes.
Depende do vento.
E que consiga de novo cativar e motivar as pessoas, o que para já não parece ser possível o PS formar essa alternativa.
E ainda à esquerda, Bloco e PCP conseguem dar uma prova de vida.
Sem dúvida, Ricardo, um dos derrotados da noite, indiretamente, é também Volodymyr Zelensky, porque o PCP teve o primeiro teste pós-Ucrânia e mostrou que sobrevive, pelo menos na Ilha da Madeira, não há essa leitura, não há essa perda. E o Bloco de Esquerda, que nas sondagens estava à frente da CDU, acabou por ficar até atrás do PAN, mas conseguiu o objetivo que era eleger representação parlamentar. E, portanto, os dois estão no Parlamento e acho que isso já é uma vitória tendo em conta o contexto.
Rui Pedro Antunes, vamos agora olhar para o PSD. Luís Montenegro, líder do partido, Hugo Soares, secretário-geral do PSD, Paulo Rangel, vice-presidente do PSD, estiveram aí no Funchal, na noite eleitoral. Ou seja, o PSD nacional quis ficar na grande fotografia da grande vitória. E o que é facto é que a coligação ganhou, mas parece que esta vitória não foi assim animadora, como nos estavas a explicar na primeira parte.
Não foi, Ricardo. Eu acho que a vitória sabe mesmo é a derrota.
Quem me dera a mim, que nas próximas eleições legislativas
obtivesse o resultado que foi hoje aqui alcançado.
Agora estão a tentar dar a volta, mas não vai ser fácil conseguir essa maioria para governar. Mas vieram todos, boa parte da Direção Nacional veio aqui e, de facto, foi um grande embaraço, porque se não estivessem cá, sempre era diferente. As coisas correram um pouco mal. Agora, estar cá deu um peso, obrigou a taticismos entre quem entrava primeiro, quem entrava depois. Algumas pessoas foram-se cansando e foram-se embora. Os vice-presidentes iam olhando uns para os outros a perguntar: "Mas o que eu faço aqui? Por que eu tive que vir aqui?" E ao início até era meio que pitoresco e engraçado, porque estavam numa noite eleitoral, numa região autónoma, mas depois quando começa a vir um vento, uma vitória com sabor a derrota, as coisas ficam piores e chega a ser constrangedor ver aquelas pessoas ali sem saberem muito bem o que vieram cá fazer. Vai haver aqui na Madeira a reunião da Comissão Permanente, mas mesmo assim parece-me difícil que percebam o que vieram cá fazer e acho que Luís Montenegro deve estar arrependido e quando apanhou o carro para esta zona, talvez quisesse ter apanhado mais para a zona de Santa Cruz para o aeroporto e ter sido embora, mas teve que vir aqui dar a cara.
Mas ficou pelo menos uma garantia que Montenegro não tinha dado até agora, pelo menos de uma forma tão clara, é que é desta que Montenegro diz que com o Chega não.
Nós não vamos governar nem a Madeira, nem o país com o apoio do Chega, porque não precisamos.
Disse de uma forma muito clara que com o Chega não. Isso talvez seja o maior ganho e a maior leitura nacional que possamos fazer. Eu vou te dizer, Ricardo, que pela primeira vez, como havia uma grande multiplicidade de partidos, comecei a tentar ensaiar, fui buscar dados e escrever uma parte do texto antes. Tive que mandar todo esse texto fora. E uma das coisas que eu escrevia antes da noite eleitoral começar era que passada esta maioria absoluta, o PSD podia se dedicar agora às europeias e que isto dava um bom balanço para as europeias. Hoje ninguém falou de europeias. Não se conseguiu virar a página, não se conseguiu virar o ciclo para começar a pensar já na próxima eleição, que realmente é importante para a liderança de Luís Montenegro. E portanto, tudo isso criou aqui um ruído, que o facto de eles terem vindo cá só piorou e ficou essa nota mais negativa para Luís Montenegro.
Isso é muito culpa, diria eu, de Miguel Albuquerque, que disse primeiro isto:
Acho que é ser claro, não é chantagem. Acho que há um pressuposto, os políticos têm que falar claro aos eleitores. O problema da democracia é muitas vezes os políticos não terem a coragem de dizer aquilo que é necessário dizer. E eu digo: ou tenho maioria ou não tenho condições para governar.
E agora vem dizer que já tem uma solução e que vai conseguir a tal maioria absoluta.
Quero-vos dizer hoje que estou em condições, nos próximos dias, apresentar perante os madeirenses um governo de maioria parlamentar.
Afinal, Rui Pedro Antunes, em que ficamos?
Olha, Ricardo, há um ponto que eu fiz essa pergunta a Miguel Albuquerque na quinta-vigia, na quarta-feira, e ele respondeu de forma muito taxativa que se demitia, não havia volta a dar. Ia se demitir caso não tivesse maioria. E não era uma coisa de interpretação ou com segundas leituras, era se a coligação, se a força que tivesse não tivesse maioria, ia-se embora porque não podia governar, ou pelo menos colocava a decisão nas mãos do PSD Madeira através da sua demissão. E agora deu um mortal à retaguarda ou encarpado, nem sei, para dizer que afinal não disse isso. Apesar de tudo isso faz parte do jogo político. Mais estranho foi cada vez que os jornalistas referiam esse facto, a sala começar a ficar impaciente e a assobiar. Isso é que realmente é mau sinal, que é quando os próprios militantes ficam chateados com perguntas que são meramente factuais, mas foi uma grande volta que Miguel Albuquerque deu. Mas isso faz parte, não é o primeiro político a fazê-lo, e é agora a realpolitik de encontrar uma forma de não sair do poder e continuar a governar.
E aqui chegados, Rui Pedro Antunes, há alguma leitura nacional que possamos fazer destas eleições regionais?
Sim, Ricardo. A maior leitura nacional que se pode fazer é que o PSD e a Iniciativa Liberal, se tiverem sucesso neste acordo que agora são forçados a fazer, podem lançar as bases para um entendimento sem o Chega no futuro e convencer os eleitores que são alternativa juntos. E portanto, é aqui um teste de fogo e isso pode ter uma leitura nacional. Uma segunda leitura é que de facto o PS não é imbatível e na Madeira muito menos. E António Costa teve sempre aqui uma derrota, por muito que não tenha aparecido para dar a cara por essa derrota. Por outro lado, Luís Montenegro precipitou-se completamente e não devia ter se colado tanto àquilo que esperava ser uma vitória, porque ao vir cá criou confusão. E se isto podia dar um balanço para as europeias, criou aqui um bocadinho de pedra na engrenagem e, portanto, a leitura é que nós não mudámos ainda de ciclo a nível eleitoral e de eleições. E portanto, primeiro ainda se vai discutir se há ou não governo na Madeira e depois então é que Luís Montenegro pode arrancar para aquele processo eleitoral de europeias. E tudo isso era evitável com um pouco mais de cuidado e com um pouco mais de tática política que neste caso não houve.
Obrigado, Rui Pedro.
Obrigado, Ricardo.
Rui Pedro Antunes é editor de política e é um dos enviados especiais do Observador à Madeira. Os sons que ouvimos neste episódio foram recolhidos pela Rádio Observador, no Funchal, e também pela RTP, SIC e CNN. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.