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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O CDS vai morrer?

As propostas que o CDS propõe, e eu espero cumpri-las quando for, como espero, Ministro da Defesa...

A confiança de Francisco Rodrigues dos Santos de que iria ser ministro chocou de frente com os resultados das eleições de 30 de janeiro. A concorrer sozinho, o CDS perdeu pela primeira vez a representação parlamentar.

Estes resultados não deixam margem para dúvidas de que deixei de reunir condições para continuar a liderar o CDS Partido Popular e por essa circunstância apresentei ao presidente do Conselho Nacional a minha demissão de presidente do CDS. Quero também dizer ao país que o CDS, apesar deste mau resultado eleitoral, não morreu. O CDS continua vivo. O CDS é o partido que está na governação da Região Autónoma da Madeira.

O CDS é um dos partidos fundadores da democracia portuguesa e enfrenta agora a maior crise da sua história. Este fim de semana, quatro candidatos concorrem à liderança do partido com a promessa de o salvar. O CDS vai desaparecer? Como se chegou aqui? Vou conversar com o editor adjunto de política do Observador, Miguel Santos Carrapatoso, sobre o CDS.

A nossa presidente, a presidente do CDS e futura Primeira Ministra de Portugal. Peço o voto aplauso.

Bem-vindo, Miguel.

Olá, Ricardo.

Quando te convidei pra esta conversa, sugeriste começar por este momento que acabámos de ouvir: Congresso de Lamego do CDS em março de 2018. Por quê?

Porque este congresso mostrou uma Assunção Cristas e um partido a acreditarem, de facto, que podiam ser, pela primeira vez na história da democracia, um partido de poder, a primeira escolha dos eleitores à direita. Isto foi há quatro anos. Há quatro anos, o CDS e Assunção Cristas acreditavam que podiam ser a primeira escolha dos eleitores de direita. Quatro anos depois, o CDS desapareceu do Parlamento. Este período mostra que o partido já com ameaças à sua direita vivia numa outra realidade e não soube perceber e antecipar os riscos desses desafios que se colocavam.

Essa fase mais eufórica que começou nas autárquicas com o resultado de Cristas em Lisboa em 2017 tem um primeiro balde de água fria com as eleições europeias em maio de 2019.

No CDS mantemos a nossa representação no Parlamento Europeu, quando queríamos eleger o segundo eurodeputado. Ficamos, por isso, aquém do objetivo traçado.

Precisamente. Nessas eleições assiste-se a um péssimo resultado da Assunção Cristas e foi o seu primeiro mau resultado. A seguir surgiriam as legislativas e já na altura se percebia que havia uma grande tensão dentro do próprio partido. O CDS é conhecido por ser uma máquina también de muita conspiração e nessa altura já se percebia que nem tudo corria bem, mesmo dentro da ala conhecida como Ala Portista. Essa campanha da Assunção Cristas e Nuno Melo ficou marcada por muitos momentos de dessintonia entre os dois. E o resultado, depois daquela euforia nas autárquicas de Lisboa, que se pode explicar também pela candidata Teresa Leal Coelho escolhida pelo PSD criou a expectativa que essas europeias iriam ser, de facto, mais um salto por parte do CDS. E até foram feitas escolhas muito ambiciosas. Pedro Mota Soares, por exemplo, saiu do parlamento para ser candidato europeu e com esse resultado nas europeias, não só começa a fricção dentro da chamada Ala Portista, como se perde também um quadro que era Pedro Mota Soares.

E ó Pedro Mota Soares queria dizer muito em particular que se não temos desta vez mais um grande eurodeputado continuaremos a contar contigo aqui junto do nosso CDS.

E nessa noite da derrotaAssunção Cristas tem uma frase que ficou dessa noite dizendo que...

Compreendemos bem o sinal que os eleitores nos quiseram dar.

Vamos saber a seguir que não compreendeu tudo.

E pegando nessa imagem do sinal, há outro sinal de que as coisas não estavam bem. Veio em outubro 2019.

Da minha parte entendo que dei o meu melhor durante quatro anos mas em face dos resultados tomei a decisão de não me recandidatar.

Assunção Cristas demite-se depois de o CDS alcançar apenas 4% dos votos nas eleições legislativas o que representou o encolher dos deputados do CDS para apenas cinco deputados.

O CDS già tinha sido o partido do táxi fica muito perto disso com apenas cinco deputados sem liderança aliás e mais uma vez com todos os traumas e com todas as guerras intestinas a virem novamente ao de cima com a Ala Portista a tentar criar herdeiro no caso João Almeida e se quisermos todo ou todos aqueles que nunca se sentiram representados por Paulo Portas e por esse grupo de fiéis de Paulo Portas a construírem uma solução essa solução chamada Francisco Rodrigues dos Santos.

Irei enunciar os resultados decorrentes da votaçãodas moções globais

J Voltar a Acreditar, o subscritor Francisco Rodrigues dos Santos obteve 671 votos correspondente a 46,4% dos votos.

Aí está o anúncio oficial da vitória de Francisco Rodrigues dos Santos que vence este- Eu vou lhe ser sincero, eu sou um otimista por natureza. Há quem diga que os otimistas são pessimistas mal informados, mas se eu achasse que não tinha condições para ser o melhor candidato à liderança do partido e consequentemente o seu presidente para esta circunstância, não me teria candidatado.

E numa madrugada fria de janeiro de 2020, bem perto das quatro da manhã, Francisco Rodrigues dos Santos vencia o congresso em Aveiro.

Precisamente, e vence porque conseguiu congregarp todos aqueles que nunca foram adeptos ou nunca seguiram Paulo Portas enquanto líder do CDS. Era sempre uma parte do partido, segundas e terceiras linhas, que nunca teve oportunidade de ocupar cargos de relevância, que se sentiu sempre menorizada em relação aos supostos herdeiros de Paulo Portas e que no fundo se juntaram em torno de Francisco Rodrigues dos Santos, que tinha acabado de sair da liderança da Juventude Popular e que chegou à presidência do CDS com uma promessa que era devolver uma certa pureza ideológica ao CDS. Porque foi siempre isso, ou foi um dos motivos que mais serviram para atacar Assunção Cristas. A ideia de que o CDS na ânsia de se tornar um partido grande, tinha perdido a sua própria identidade.

Se conseguir ganhar este Congresso como é que vai governar este partido desta maneira? O facto desse elenco de figuras mais proeminentes do partido estarem do lado do João Almeida não signifiquem que tenham uma relação crispada comigo ou que não consigamos manter as relações institucionais com vista ao superior interesse do partido.

Francisco Rodrigues dos Santos aparece prometendo devolver uma alegada pureza ideológica e voltando a fazer do CDS o verdadeiro partido da direita. Ora vamos saber a seguir que não fez nem uma coisa nem outra.

Isso porque Rodríguez dos Santos esteve dois anos à frente do CDS e olhando para resultados eleitorais consegue aquilo que nós até podemos chamar um bom resultado nos Açores apoia Marcelo, Marcelo vence, está com Moedas na vitória nas autárquicas em Lisboa e depois de tudo isto Miguel Santos Carrapatoso acaba sem único deputado.

A meu ver este desfecho pode resumir-se a três grandes questões.

Então vamos dividi-las. Vamos aquela que será pra ti Miguel a primeira razão que leva a este desfecho.

A primeira é contexto externo. Francisco Rodriguez Dos Santos chega à liderança do CDS quando Portugal entra no período pandémico. Um líder que já tinha à partida muitas dificuldades de afirmação por ser jovem, por ser pouco conhecido, por não estar no Parlamento. Que eu serei um deputado sombra que em vez de estar na Assembleia da República andarei por todo o país. Tem ainda de enfrentar um contextoa em que todos os portugueses estão recolhidos dentro de casa e em que a política se torna absolutamente secundária.

Basta lembrar que o Congresso eletivo em janeiro de 2020 e em março de 2020 ficámos todos em casa. Portanto a pandemia tu elencas como uma primeira de três razões.

Porque é sempre obstáculo Isso também se aplica ao PSD. Foi muito difícil para estes dois partidos fazerem a oposição numa altura em que se exigia consenso e unidade nacional. E isso prejudicou, quer se queira quer não, a possibilidade de afirmação de Francisco Rodrigues dos Santos.

Então vamos à segunda razão Miguel.

A segunda e já falamos dela aqui foi de fato a guerra intestina que existiu no CDS. A ala portista nunca aceitou bem a derrota nesse congressoo houve uma permanente conspiração contra Francisco Rodrigues dos Santos que nunca foi reconhecido como líder legítimo ou legitimadoo e da parte de Francisco Rodrigodos Santos e da sua direção porque Isto Não foi unidirecional houve sempre uma tentativa de ajuste de contas com essas figurasa que representavam o passado recente do CDS. E eu aí no Conselho Nacional confesso que levei um pouquinho mais longe a linguagem tradicional que uso sobretudo fora do partido quando estou em representação institucional do CDS e uma linguagem externa ao partido. É verdade que o fiz. Mas foi porque naqueles Conselhos Nacionais eu oiço dos maiores impropérios possíveis. Portanto a direção de Francisco Rodrigues dos Santos nunca tentou incluir ou chamar para si esses quadros. E portanto quando as duas partes não se quiseram ou não querem entender o resultado foi o que foo. O CDS foi sempre um partido em convulsão permaneente basta lembrar que a meio destes dois anos de mandato de Francisco Rios Santos Adolfo Mesquita Nunes tentou de facto derrubar o líder em funções. De repente o CDS estava resumido ou marcava agenda mediática não pelas propostas que tinhaa não pela oposição que fazia mas por ser saco de gatos e portanto o resultado estava mais ou menos anunciado. Eu tenho medo de alguma coisaa Com trinta e tantos anos propus-me a liderar o CDS e estou cá a dar a cara contra todos eles nas televisões todos os dias a terco braços e lagartas minha mim nada. Tenho medo de quêê Do Nuno Melo Por amor Deus!

Isso foi bee visível no final do ano passadooo com aquelas discussõess e os conselhos nacionais e necessidade de marcar Congreso com Francisco Rodrigues dos Santoss até a dizer que estava a ser vítima de fogo amigo. Nos últimos dois anoss os adversários do CDS não estiveram lá foraaa moraram cá dentroo

O fogo amigo matou.

Exatamente, o fogo amigo matou diria mais tarde Francisco Rodrigues dos Santos. Mas a verdade é que o CDS viveu neste psicodrama permanente e o drama maior viria a seguir com o resultado nas legislativas.

Vamos então a contas. Dizes que há três razões: a guerra interna, a pandemia. Qual é a terceira razão para este, eu não vou usar outra palavra, vou usar mesmo esta, descalabro do CDS?

A terceira razão, e já muita gente perspetivava que isso se colocasse no horizonte do CDS, é que o CDS perdeu utilidade, o CDS perdeu razão de ser quando à sua direita nasceram Iniciativa Liberal e Chega. Dois partidos muito diferentes. A Iniciativa Liberal que conseguiu captar todos os eleitores ou quase todos os eleitores liberais que antes até admitiam votar no CDS. O Chega conseguiu captar aquele eleitor mais conservador que votava desde 1975 no CDS por falta de alternativa. E portanto o CDS viu-se encurralado entre duas forças políticas novas, com muita criatividade, com muita capacidade de furar a agenda mediática, e o CDS, neste período de afirmação dos dois concorrentes à direita, estava virado pra si próprio. E Portanto, Francisco Rodrigues dos Santos aqui mais uma vez não sendo o único responsável por este descalabro, o facto de ter procurado sempre uma certa pureza ideológica do CDS fez com que o CDS deixasse de falar para ninguém, para absolutamente ninguém, quando à sua direita havia dois partidos a concorrerem e a disputarem finalmente eleitorado que votava tradicionalmente no CDS.

Aqui senta-se aquela prima modernassa, ateia, que é uma profissional liberal de sucesso.

E nem aqueles vídeos usados na campanha eleitoral conseguiram recentrar o discurso e trazer esse discurso para o CDS.

Sim, Francisco Rodrigues dos Santos fez toda uma campaignha contra os primos mal comportados e moderninhos, dizia ele. Os eleitores preferiram votar nos primos mal comportados e na prima moderninha, palavras de Francisco Rodrigues dos Santos, do que votar num partido que não se percebia exatamente o que era.

O CDS reúne-se em Congresso, em Guimarães. Nuno Melo é entre os quatro candidatos, diria, o mais forte entre todos estes candidatos. Será Miguel Santos Carrapatoso o homem certo nessa altura que tenta salvar o CDS?

Nuno Melo teve uma primeira oportunidade de chegar a líder do CDS ainda na sucessão de Paulo Portas. Foi público que Nuno Melo e Assunção Cristas na altura debateram essa questão. Nuno Melo preferiu afastar-se, deixar Assunção Cristas quase quer dar o partido. Nuno Melo, olhando para todos os quadros no CDS, aqueles que ainda permanecem no CDS e na política ativa, é de fato o rosto mais conhecido e aquele que tem pelo menos uma capacidade de furar a agenda mediática mais evidente. Se é o homem certo, se representa uma novidade, se conseguirá trazer esse rasgo que falta ao CDS, não sabemos, ninguém saberá. Se vai ser mais combativo, isso não tenho dúvidas que será mais combativo que Francisco Rodrigues dos Santos, até porque faz parte do estilo de Nuno Melo. Nuno Melo chega muito facilmente à comunicação social, coisa que Francisco Rodrigues dos Santos não conseguia, e já tem um percurso político que fala por si, já está na primeira linha de combate há imenso tempo.

E eu não tenciono perder um segundo a falar do passado. Não tenciono gastar um minuto a fazer ajustes de contas.

E, portanto, neste momento, é aquele que reúne as melhores condições para este momento do CDS. Se terá sucesso ou não, ninguém sabe dizer.

E aqui chegados, Miguel, vamos à grande pergunta, à pergunta que fazíamos na abertura deste episódio: Ainda há salvação pro CDS?

Não sei, acho que ninguém sabe, e é a resposta mais humilde que podemos dar e devemos dar. O que me parece é que mesmo com Nuno Melo, e basta olhar para a moção que apresentou, continua por responder àquela questão que eu levantei há instantes. Para que serve o CDS? Com a iniciativa Liberal de um lado, com o Chega do outro, com o PSD partido aglutinador sempre num patamar diferente destes três, para que serve o CDS? Quem é que serve o CDS? Quem é que representa o CDS? Nuno Melo apresentou uma noção bastante completa. Os outros candidatos também têm as suas próprias ideias, mas até ver ninguém conseguiu dar esta resposta simples. Pra que serve o CDS? Quem é que o CDS quer representar? Não me parece que vá cair no erro, se Nuno Melo vencer as eleições, de tentar procurar uma pureza ideológica. Ele próprio já manifestou que quer fazer do CDS a casa dos liberais, democratas cristãos, conservadores. Mas são precisas ideias, são precisas propostas, é preciso rasgo. E é verdade que sem estar no Parlamento, com Iniciativa Liberal, Chega, muito ativos, com o PSD também a lutar com os seus próprios problemas e desafios e com vontade de afirmação, Nuno Melo terá aqui uma janela de oportunidade muito curta se vencer as eleições. Estamos partindo do princípio que Nuno Melo vence, mais uma vez, porque é o candidato em melhores condições, teoricamente. Mas qualquer outro líder do CDS seja Nuno Melo ou outro, terá sempre este desafio: como fazer do CDS relevante? Há quem defenda, mesmo no CDS, por exemplo, Diogo Feio, que esta pode ser uma boa altura de repensar se vale a pena manter o partido vivo, se não será melhor extingui-lo ou fundi-lo, quem sabe, com o PSD, por exemplo. Nuno Melo terá de responder a esta questão e tem um período muito curto. Em termos eleitorais, tem até às próximas europeias, em 2024, para provar que consegue inverter este ciclo. Não me parece que vá ser fácil e todos os sinais apontam para o desfecho que dá o mote a este programa, que é: Terá o CDS salvação? Os sinais, infelizmente para a democracia, dizem o contrário. O CDS está mesmo em risco de desaparecer.

Obrigado, Miguel.

Obrigado, Ricardo.

Miguel Santos Carrapatozo é editor adjunto de Política do Observador. Vamos estar com uma cobertura intensiva no jornal e na Rádio Observador sobre o congresso do CDS que decorre este fim de semana em Guimarães. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.