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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O crime no Centro Ismaili foi um ato isolado?
É claro que é um ato isolado, daquilo que se apurou até agora, e com motivações, veremos quais são as que são determinadas, mas psicologicamente isoladas. E uma determinada pessoa, num determinado quadro pessoal e familiar.
Marcelo Rebelo de Sousa visitou o Centro Ismaili, em Lisboa, ao final da tarde desta terça-feira. O presidente da República reafirmou a posição do primeiro-ministro e de outros titulares de órgãos políticos ao afirmar que o homicídio de duas mulheres se trata de um ato isolado, afastando assim a tese de um atentado terrorista. Mas que crime foi este? E como devemos analisar o que se passou em Lisboa? Vou conversar com o editor adjunto de sociedade do Observador, Pedro Rainho. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Pedro.
Olá, Ricardo.
Pedro, o que é que sabemos sobre o que aconteceu numa sala de aula no Centro Ismaili de Lisboa?
Sabemos que Abdul Beshir foi o autor do ataque, na manhã de ontem, numa sala de aula no Centro Ismaelita de Lisboa.
Cerca das 11h da manhã, um indivíduo que frequentava aulas de português aqui no Centro Ismaili, entrou nas instalações com uma arma branca e onde atacou três pessoas.
Sala 21. Ele estava numa aula de português com cerca de 15 outros alunos. Há relatos não confirmados de que ele recebe uma chamada durante a aula e a seguir há, muito subitamente, um desentendimento com o professor de português. O professor é esfaqueado.
O professor que se encontrava na sala também foi atacado, tendo sofrido ferimentos e tendo conseguido posteriormente dar o primeiro alerta para o que estava a passar.
De repente, gera-se o caos na sala, há colegas a pedir-lhe que parasse com o que estava a fazer, que aquilo não estava certo. Ele ameaça suicidar-se, chega a colocar a própria faca junto ao pescoço e depois muito rapidamente abandona a sala, dirige-se pra outra sala do centro, onde estavam Mariana Jadaui e Farana Saudrudin, as duas vítimas estariam no seu gabinete de trabalho e acabam ambas por ser esfaqueadas.
Infelizmente, este ataque provocou a morte a duas pessoas da nossa comunidade que muito estimávamos e que davam apoio a várias das nossas atividades. A comunidade muçulmana Ismaili, conhecida pelos seus princípios de humanidade.
E esta é a voz de Faisal Ali, porta-voz do Centro Ismaili, gravado pela Rádio Observador, que também ouviu Nizam Mirzada, irmão de uma aluna, que testemunhou a agressão e que dava conta da intervenção da polícia.
A faca estava na mão deles, chegou a polícia e depois a polícia atirou na perna dele pra controlar.
E a polícia, Pedro, foi muito rápida.
Passou-se tudo muito rápido, a resposta foi muito rápida. O alerta nós sabemos que é dado às 10h57, havia a informação de que havia um homem munido de uma faca branca no Centro Ismaelita e às 10h58, portanto, um minuto depois, chega o primeiro carro-patrulha ao local, logo a seguir chega outro carro-patrulha e terá sido precisamente um elemento da segunda equipa a abordar o autor do ataque. É lhe dada a ordem pra largar a faca, ele não larga a faca, avança sobre os agentes e é nessa altura que é atingido nas pernas. E depois então chega a equipa de intervenção rápida da PSP. Nós sabemos isto agora, mas quando essa equipa chega ao local, não sabe se há outros atacantes, se a ameaça permanece. E, portanto, aquilo que faz é estabelecer um perímetro de segurança, varrer o edifício, garantir-se de que a segurança estava assegurada, passo a redundância, e, portanto, é só nesse momento que a operação de neutralização daquele ataque é concluída.
E é um edifício ainda de grande dimensão. E o que é que sabemos das vítimas? Quem são estas duas mulheres, uma muito jovem de 24 anos e outra de 49?
Nós sabemos que elas são responsáveis pelo processo de integração de refugiados em Portugal. Elas também eram membros da comunidade ismaelita em Portugal e sabemos também que colaboravam com a Fundação Focus, que no fundo é uma fundação que trabalha na assistência humanitária a refugiados e que tem ligações à Fundação Aga Khan. E depois, especificando um bocadinho aqui quem são estas vítimas. Mariana, 24 anos, era assistente social, era sobrinha do representante da comunidade ismaelita em Portugal e no fundo ela trabalhava no apoio, no dia a dia, aos refugiados. Uma das tarefas dela era tratar dos processos de naturalização destes refugiados, entre os quais, aliás, estava o processo de Abdul Beshir. Era um dos processos que Mariana tinha em mãos. E há também a outra vítima, Faranda, 49 anos. Ela era também responsável da Focus, tinha funções de responsabilidade maior na fundação e tratava no fundo da parte estrutural, não tanto do dia a dia, mas da parte estrutural deste processo de acolhimento, num primeiro momento, e depois de integração dos refugiados. Era ela quem garantia, por exemplo, que quando chegavam a Portugal, estas pessoas tinham uma casa pra viver. Era tão fundamental quanto isso.
E ainda há uma terceira vítima, neste caso, o professor que estava na sala e que ficou ferido. O que é que sabemos sobre este homem?
É a primeira vítima deste ataque, na verdade, ele estava na sala com a turma onde o ataque começa. Sabemos que ele ficou ferido com cortes no tórax e no pescoço e que depois acaba por ser assistido em Santa Maria. Enfim, não terão sido ferimentos graves, porque ele acabou por ter alta hospitalar ainda durante a tarde de ontem.
Vamos agora, Pedro Rainho, olhar para o agressor. Quem é afinal este homem?
I am Abdul Bashir, I am from Afghanistan, I am 27 years old. I am a refugee in Greece country.
Esta é a voz de Abdul Bashir, um vídeo gravado depois de ele ter passado pela ilha de Lesbos, de ter estado no campo de refugiados de Moria. Nós sabemos que ele chegou a Portugal há sensivelmente um ano, tem 30 anos, tem três filhos, vivia em Odivelas e é viúvo. E esta experiência está muito relacionada com essa passagem pelo campo de refugiados de Moria.
After four and six months, in a fire accident, I lost my wife. During this fire accident, my wife is died.
Ele perdeu a mulher num incêndio na Grécia, precisamente nesse campo de refugiados. E quando ouvimos o ministro da Administração Interna a falar sobre o autor do ataque, ouvimos referências a um homem que chega a Portugal depois de passar por circunstâncias muito difíceis, fala até numa experiência traumatizante. Sabemos que Abdul Bashir é beneficiário de proteção internacional, precisamente por essa condição de refugiado com que ele chega a Portugal, mas não era de todo um rosto desconhecido da comunidade ismaelita em Portugal. Ele era uma presença frequente naquele centro e era descrito, aliás, por aquela comunidade como uma pessoa calma. As famílias das vítimas não tinham informação sobre conflitos anteriores em que ele tivesse estado envolvido. E no centro, ele tinha aulas de português, tinha aulas de costura, recebia apoio pra alimentação, recebia alojamento. A formação que ele tinha ali provavelmente serviria para que mais tarde ele pudesse ser transferido, colocado, alojado na região Norte do país, de Portugal, para trabalhar numa fábrica de confecção de peças de vestuário.
Já voltamos à conversa com o editor adjunto da seção de sociedade do Observador, Pedro Rainho. Como devemos, afinal, olhar para este ataque? Já está disponível o terceiro episódio do Sargento na Cela 7. O nome deste episódio é O Código Secreto. Esta é uma série em podcast que nos conta a história de António Lobato, o português que mais tempo passou em cativeiro na guerra em África. Fica um conselho importante: não avançar já para o terceiro episódio sem ouvir os dois primeiros, porque pode não entender a história. O Sargento na Cela 7 está disponível no site do Observador e nas habituais plataformas de podcast. Estamos de regresso à conversa com o editor adjunto da sociedade do Observador, Pedro Rainho. Pedro, e onde está agora o suspeito?
Está internado. Ele ontem, depois daquele ataque e depois de ter sido baleado nas pernas, foi sujeito a uma intervenção cirúrgica no Hospital de São José. Ao final da tarde, já depois da intervenção, estava em situação estável e é provável que tenha de ficar ainda algum tempo sob observação clínica. Uma coisa é certa, nos próximos dias, ainda que no hospital, vai permanecer sob uma forte vigilância policial.
Já explicaste que é viúvo, que tem três filhos. Essas crianças estão cá em Portugal, presumo que sejam crianças. Sabemos que idade têm e o que é que lhes aconteceu?
Sim, três crianças, nove, sete e quatro anos, todos menores. Segundo informações que recolhemos, estavam na escola no momento do ataque.
Aqui em Lisboa?
Provavelmente na zona de Odivelas, onde o autor do ataque vivia. As informações que existem neste momento, e não são absolutamente claras, é que foi manifestada a intenção por parte do centro ismaelita de acolher estas crianças, de ficar responsável por elas. Provavelmente, nos próximos dias perceberemos melhor qual a situação das crianças, mas pelo menos houve esta manifestação de interesse por parte do centro.
E já conseguimos perceber quais são ou quais foram as motivações deste ataque?
Há aqui algumas dúvidas que são importantes para apurarmos essa questão. Por um lado, nós percebemos pelas informações que foram sendo divulgadas ao longo do dia, que o autor do ataque estava armado com uma faca de grandes dimensões. A questão é: estaria armado logo quando chegou ao centro? Ele estava numa aula das 10h da manhã e que deveria acabar às 13h, à 13h. Ele já estaria armado? Se sim, por quê? Que intenções teria ao chegar armado com uma faca, com uma arma branca, ao centro? E depois disso, o que é que motivou o ataque? Falou-se numa chamada telefônica momentos antes do início do ataque. Que chamada foi essa? Que conversa aconteceu nesse momento e com quem? Haveria já um plano quando o autor do ataque chegou ao centro de manhã? Nós sabemos que a casa dele foi revistada, ainda não se sabe o que resultou dessa operação.
Entretanto, no plano político, o Chega chamou ao Parlamento o ministro da Administração Interna. André Ventura fala em bandalheira.
Seja terrorismo ou não seja, foi esta política de bandalheira, de portas abertas, de nenhum controle, que nós avisamos durante anos que trariam problemas ao país e que fomos ignorados, que se traduziu neste resultado.
Segundo André Ventura, Portugal não controla os refugiados afegãos e paquistaneses, é o que diz o líder do Chega. Há alguma coisa que indicie que se possa tratar de um ataque terrorista?
Muito objetivamente, aquilo que sabemos neste momento não aponta pra qualquer tipo de ataque de pendor terrorista. Não há informações sobre qualquer processo de radicalização, que é sempre uma questão que vem à tona quando se fala de ataques terroristas, que percurso é que estas pessoas fizeram até concretizarem um ataque deste tipo. E os próprios membros da comunidade ismaelita referiram que não havia Qualquer antecedente de mensagens radicais. Portanto, respondendo muito diretamente à tua questão, não. Não há qualquer sinal de que possa tratar-se de um ataque terrorista.
E é o que dizem taxativamente várias instituições, como a Presidência da República e o governo, por exemplo.
E até outras confissões religiosas, mas houve muitas reações ao ataque ao longo do dia.
É claro que é um ato isolado, daquilo que se apurou até agora.
Agora tudo indica que foi um ato isolado.
E sendo um ato isolado, acho que não vale a pena estar a generalizar, porque é injusto.
Houve uma mensagem que eu diria até coordenada, muito taxativa e com um termo, com uma expressão que foi recorrentemente usada: ato isolado. O que significa que não há aqui uma operação em rede, que à partida não haverá o tal plano prévio de que falávamos. E isto foi dito pelo Presidente da República, pelo Primeiro-Ministro, pelo Ministro da Administração Interna e, portanto, a mensagem, de acordo com aquilo que sabemos neste momento, é: trata-se de um ato isolado.
E Pedro, com tudo aquilo que sabemos, e ainda temos muitas perguntas mesmo sem resposta, que leitura podemos fazer, afinal, deste ato criminoso?
É inevitável que às primeiras horas da manhã, quando fomos confrontados com a informação de que havia um ataque em curso no Centro Ismaelita, nos tenha ocorrido esta ideia: ato terrorista, um ataque terrorista. É um ataque a um centro muçulmano que acontece em pleno Ramadão, poucos dias depois do início do Ramadão, e depois também ao longo do dia vão surgindo informações sobre motivações pessoais. Ora, não há, como já dissemos, neste momento, nenhum indício de que se trate de um ato de inspiração terrorista. Também surgiram, ao longo do dia, algumas referências, e este ponto é importante, a perturbações do foro psíquico. Nós não sabemos nada de concreto sobre que problemas poderiam estar aqui em causa. Também não é possível, neste momento, traçar qualquer relação entre uma eventual perturbação psíquica e o ataque que foi realizado ao Centro Ismaelita. Não podemos dizer que há uma causa e efeito. Relativamente ao cenário de terrorismo, ele foi afastado por todos os responsáveis políticos, pelas forças de segurança, que também não fizeram qualquer referência a essa possibilidade, e depois há aqui um contexto que é preciso termos em conta. Quando um refugiado chega a Portugal, ele não chega com cheque em branco. O que acontece é: há um processo de fiscalização prévio nos centros de acolhimento noutros países, na Grécia, em Itália, enfim, essa informação é transmitida às autoridades portuguesas. E eu gostava de lembrar, por exemplo, para percebermos o que acontece quando há suspeitas efetivas sobre algum refugiado, o que aconteceu com outra pessoa, Abdessalam Tazi. Ele foi detido, estava detido em Monsanto, onde acabou por morrer na prisão em janeiro de 2020. Ora, ele era suspeito, quando chegou a Portugal, de recrutar operacionais para o Estado Islâmico. E nesse caso, o que aconteceu foi, através da partilha de informações entre as forças de segurança e os serviços de informações europeus e internacionais, mais até do que europeus, ele foi vigiado desde o primeiro momento. Não chegou sem filtragem prévia e não andou em total liberdade de movimentos enquanto esteve em Portugal e até ser detido. Ora, esse não era o caso de Abdul Beshir. Não havia qualquer referência prévia que o apontasse no sentido de ser possivelmente um autor de um ataque terrorista, de um radicalizado, eventualmente, do Estado Islâmico. E, portanto, a pergunta fica: o que é que aconteceu no Centro Ismaelita? Não há uma resposta fechada. Podemos assertivamente dizer que foi um momento negro na história da comunidade, em Portugal, do próprio país, e há um contexto psicológico que provavelmente só o próprio poderá explicar, mas isso só daqui a algum tempo.
Obrigado, Pedro.
Obrigado.
Pedro Rainho é editor adjunto da secção de sociedade d'O Observador. Esta foi a história do dia. Os sons de Marcelo Rebelo de Sousa e de André Ventura, que ouvimos, foram registados pela CNN. Este episódio contou com a colaboração da jornalista Nadine Soares. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia e a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.