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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o desafio do TikTok que pode matar adolescentes.
Venham fazer a minha skincare comigo enquanto eu falo de uma coisa que vi no TikTok hoje e não gostei nada.
O que está a ouvir é uma adolescente portuguesa no TikTok. Ela está a fazer o que milhões fazem todos os dias: rotina de skincare, creme de olhos e uma câmera sempre ligada.
Vou começar com a água micelar da Garnier e este pad reutilizável. A Garnier também tem um pad reutilizável que é muito melhor que este.
Ela fala de assuntos de beleza, mas o tema, na verdade, é outro.
Basicamente, eu não sei se vocês viram a notícia do challenge que anda por aí, dos jovens, crianças andarem a tomar imenso paracetamol.
O desafio chama-se Paracetamol Challenge. E esta jovem está indignada, porque há quem diga que isto é exagero, que são notícias falsas.
Lá porque não chegou à tua for you page, não quer dizer que não aconteça.
Está mesmo a acontecer em Portugal, noutros países europeus, nos Estados Unidos, com outro nome, o Benadryl Challenge, mas a mesma lógica.
The Benadryl Challenge on TikTok after the death of a 13-year-old in Ohio.
Um medicamento banal, daqueles que temos em casa para febre ou dores de cabeça, e a proposta, tão simples quanto absurda: tomar doses exageradas, ver até onde se aguenta, ver quem resiste mais tempo sem ir ao hospital. Não há euforia, não há alteração de consciência, não há nada, há apenas risco. E a pergunta é precisamente esta: por que um adolescente decide fazer isto? Hoje vou falar com Rui Ferreira Carvalho, psiquiatra da infância e da adolescência. Quero perceber o que é exatamente este desafio, que consequências pode ter pra saúde, mas, sobretudo, o que leva um jovem a embarcar numa coisa assim. Que papel têm as redes sociais nesta escalada de comportamentos e o que podem fazer os pais antes que seja tarde. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 24 de fevereiro. Senhor doutor, muito obrigado por estar conosco.
Obrigado eu pelo convite.
Deixe-me perguntar-lhe já, pra início de conversa, o que é exatamente este desafio de que estamos a falar?
Neste momento, o que sabemos acerca deste desafio que está a circular em redes sociais é que está a existir aqui uma espécie de forma de incentivar jovens, majoritariamente adolescentes, para fazerem intoxicações voluntárias, ou seja, ingestões de medicamentos de forma voluntária, com a expectativa de aguentar e não recorrerem a serviços hospitalares, mesmo perante sintomas ou efeitos secundários que estas ingestões possam trazer. E aqui muito focadas no paracetamol, que é uma substância que até pode ser acedida sem prescrição médica, mas com um elevado risco para a saúde física das pessoas que tomem em doses excessivas.
Quais são os riscos, já agora, pra percebermos?
O risco desta ingestão medicamentosa numa dose supraterapêutica pode ir até à insuficiência hepática, portanto, o fígado deixar de funcionar ou ficar gravemente afetado, com situações no limite a necessitarem até de transplante hepático, de ser substituído, pode levar ao coma, pode levar mesmo à morte. E é importante ter presente que estes sintomas podem ser tardios, ou seja, não ser imediato uma reação muito intensa fisicamente à medicação, mas sim depois quando começa a existir a metabolização desta substância, às vezes dias depois, é que pode mesmo levar a uma fase de destruição dos nossos órgãos, que pode já ser muito tardia para intervir ou para prevenir o agravamento dos sintomas.
Isto é um problema de que se fala em vários países, naturalmente em Portugal também. Eu hoje estava a falar com uma das minhas filhas, eu tenho filhas adolescentes também, e uma delas dizia: "Não, mas eles estão sempre a inventar essas tendências, isto não é verdade." Na verdade, já existem casos registrados aqui em Portugal, certo?
Sim, existem situações que temos conhecimento de ingestão medicamentosa voluntária de paracetamol, nem sempre associado necessariamente a este desafio. Também podemos não ter uma real percepção de todas as situações que estejam, de uma forma mais direta, ligadas a esta disseminação nas redes sociais, mas a realidade é que temos um número significativo de ingestões medicamentosas voluntárias em contexto de urgências hospitalares e, portanto, não é de todo algo que necessite de incentivo para ser ainda mais disseminado ou que aconteça de uma forma Generalizada. Já temos casos muito graves e nem sempre temos a perceção do impacto potencial destes fenómenos de contágio, destes efeitos de ser abordado por já ter sido feito por outro jovem ou por estar a ser um desafio que alguém coloque com enorme risco, obviamente.
Doutor, vou lhe fazer uma pergunta já daqui a pouco, que é a pergunta que provavelmente estará na cabeça de muita gente: por que os adolescentes entram neste tipo de desafios? Já voltamos a falar. E regressamos à conversa com o médico psiquiatra de infância e adolescência, Rui Ferreira Carvalho. Doutor, uma das questões que está na cabeça de muita gente é: por que os adolescentes fazem isto? Por que eles entram nestes desafios quando estamos a falar de riscos de morte que nem sequer são desconhecidos? O que leva um adolescente a fazer isto?
Esse foco no risco parece-me particularmente importante para tentarmos perceber este fenômeno, porque sabemos que, do ponto de vista neurobiológico, os próprios adolescentes, nesta fase de desenvolvimento, e faz parte também dos nossos mecanismos de sobrevivência e de evolução, procurarmos riscos e irmos desafiando os nossos limites nesta fase de crescimento, encontram aqui precisamente uma procura de novidade, uma procura de sensações, de se colocarem mesmo no fio da navalha e que pode ser um risco muito grande para a saúde física, para a saúde mental e até mesmo para a vida como um todo. Do ponto de vista mais neurobiológico, do desenvolvimento do nosso córtex, particularmente o nosso córtex pré-frontal, sabemos que ele está em desenvolvimento nesta fase da adolescência e que o nosso mecanismo de colocar travão, a nossa parte mais inibitória, de parar para pensar antes de realizar algum impulso ou antes de fazer ou dizer algo que nos possamos arrepender, está um bocadinho menos evoluído, menos avançado nesta faixa etária do que o nosso sistema de procura de gratificação, de recompensas, de lidar com o risco e com o desafio, quase a procura da adrenalina. E podemos ter um fenômeno em que essa procura de risco ultrapassa os nossos mecanismos inibitórios. E depois, pensando no sistema, mais no sistema social, nas redes que nós estabelecemos, as nossas conexões, sabemos que para estes fenômenos e para muitos outros, existe toda uma pressão pelos pares, uma procura de aceitação social, de integração, de pertença.
E acha que as redes sociais vieram intensificar ainda mais esse fenômeno?
Sem dúvida que facilitam uma identificação imediata, para o bem e para o mal. Da mesma maneira que também facilita esta proximidade e esta conexão, pensando até em situações de redução do estigma para a saúde mental, de encontro de grupos minoritários, portanto, esta visão de não se sentirem isolados ou sozinhos, ao mesmo tempo, também poderá facilitar e promover uma exposição a conteúdos que possam ter um impacto negativo na saúde mental dos jovens, como estas ingestões medicamentosas voluntárias, os comportamentos autolesivos, a exposição a conteúdos também promotores de alterações do comportamento alimentar, da anorexia, e é uma caixa de Pandora que pode realmente libertar muitas coisas negativas.
E eu presumo que haja muitos pais que estejam a ouvir isto e que estejam a acompanhar as notícias e se perguntem: "O que nós podemos fazer para evitar este tipo de comportamentos por parte dos nossos filhos?"
Essa é uma excelente pergunta, porque remete-nos para a ideia de que é algo relativamente universal e isto pode acontecer em qualquer família. Os pais, os educadores, devem promover literacia para a saúde, literacia para a saúde mental, abordar estes conteúdos, estes desafios perigosos, explicar porque muitos dos jovens que possam ter contacto com este desafio e até mesmo fazer tomas excessivas de paracetamol poderão não ter a perceção da letalidade desta medicação, que é tão frequentemente utilizada para dores, para febre.
Parece inocente, quase, não é?
Exatamente, pode parecer inocente. Nem todos os jovens que possam fazer uma ingestão tão volumosa, se calhar, têm noção dos riscos e principalmente estes riscos mais tardios Em que os efeitos possam não ser necessariamente imediatos, até podem passar relativamente bem aquela fase inicial, não terem grandes náuseas, vômitos ou efeitos físicos mais intensos numa fase inicial, mas depois poderem vir a ter a descompensação dos órgãos mais à frente, como estava a dizer, às vezes até dias depois. E portanto, a literacia, o abordar isto, desmistificar, é muito relevante, não de uma forma alarmista e também não no sentido de dar ideias propriamente, mas garantir que o risco é conhecido e que existe informação legítima sobre estes tópicos.
Doutor, muito obrigado.
Obrigado eu pela conversa.
Eu conversei com Rui Ferreira Carvalho, médico especialista em psiquiatria da infância e da adolescência. Há mais histórias para seguir este dia. Esta terça-feira, o primeiro-ministro encontra-se pela primeira vez com o Presidente da República eleito, vai acontecer no Palácio de Queluz e vai servir para a apresentação formal de cumprimentos, mas também para Luís Montenegro detalhar o PRR nacional desenhado pelo governo para a recuperação das zonas mais afetadas pelas cheias. E depois das chuvas e da tempestade, vem aí uma nuvem de poeira do Sara. O fenômeno deverá atingir hoje Portugal e depois segue para o resto da Europa. Apesar de ser um fenômeno que ocorre a alta altitude, pode haver depósitos de poeiras em carros e janelas. E o Benfica voa para Madrid para a segunda mão frente ao Real e Prestianni deve seguir na comitiva. O argentino foi suspenso preventivamente pela UEFA, mas o Benfica interpôs recurso. Não é provável que haja uma decisão a tempo do jogo, mas pelo simples não, o jogador mantém-se na lista. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do João Trição, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.