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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o dia em que a Galp começou a falar com sotaque espanhol.

A marca Galp será a marca vigente em Portugal e, portanto, as estações da Moeve em Portugal serão transformadas em estações Galp em termos de marca, e o contrário acontecerá do lado espanhol.

A marca Galp vai manter-se em Portugal. Não era propriamente com esta confirmação que esperava arrancar a última história do dia desta semana, mas a garantia deixada aqui por João Diogo Marques da Silva, um dos presidentes da Comissão Executiva da petrolífera portuguesa, faz sentido à luz do que se passou ontem. Dependendo de quem olhava a notícia, ou chegou com estrondo ou era um daqueles negócios que já se estava mesmo a adivinhar. A Galp, a nossa Galp, está a preparar uma parceria com a Moeve, dos espanhóis. Há quem se refira à Moeve como a antiga Cepsa, e há quem se refira a esta parceria como uma joint venture, uma integração, uma aliança ou até uma fusão. Para já, sabe-se que vai abranger áreas que os consumidores conhecem bem, como os postos de combustível, a mobilidade elétrica e as lojas de conveniência, e abranger outras que soam mais a economias, como a petroquímica, o trading e os combustíveis de baixo carbono. E sabe-se também que a única refinaria portuguesa também está incluída no pacote.

O governo foi já informado. Nós, obviamente, vamos cumprir com todas as obrigações que existam.

O governo está informado, garante a co-CEO da Galp. Os mercados reagiram com entusiasmo, precisamente por causa deste anúncio. Mas uma coisa são as burocracias institucionais e o entusiasmo bolsista, outra são as muitas dúvidas que ficam no ar. Quem ganha, quem perde e o que muda com este negócio? É por isso que eu vou conversar hoje com a Ana Suspiro, jornalista de economia, que é a nossa melhor guia quando precisamos de falar de empresas ou do setor energético. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 09 de janeiro. Ana, bem-vinda.

Olá, Pedro.

Olá.

Bem-vindo também.

Muito obrigado. Sim, eu acho sempre isto estranho, estar aqui e dizer bem-vinda aos jornalistas do Observador, quando eu é que sou o visitante. Mas é sempre simpático. Ana, falei aqui há pouco das várias formas com que se caracterizou este negócio. Uns dizem que é uma parceria, outros chegam mesmo a falar de uma fusão. Afinal, o que está aqui em cima da mesa?

Podemos usar as duas expressões. É uma fusão porque há ativos de duas empresas que vão ser autonomizados do universo da Galp, que é a empresa portuguesa, e da Moeve, que é a empresa espanhola, e vão ser transferidos para uma nova empresa, que será controlada pelos dois acionistas originais.

De forma igual, percentagens iguais?

Temos duas operações distintas. Temos uma operação que tem a ver com os postos de combustível, as estações de serviço. E aí, de facto, o negócio vai ser dividido em duas partes. A Galp e a Moeve vão ter partilha da parte acionista e da parte da gestão. Quando chega à parte daquilo que eles chamam o downstream, que basicamente são as refinarias, a parte industrial, aí há uma diferença muito grande de ativos. A Galp tem uma refinaria, a antiga Cepsa tem três refinarias e a Galp vai ficar numa participação minoritária, ainda que significativa segundo a empresa.

Para quem vê de fora, que é o meu caso, a ideia que dá é que com este negócio, a Galp vai passar a ser um bocadinho espanhola. Isso é uma interpretação legítima ou achas que é simplista?

Uma parte da Galp vai ser mais espanhola, efetivamente, a parte industrial, digamos assim, mas também a Galp ganha a capacidade de intervir, ainda que com uma participação mais pequena, em unidades industriais em Espanha. Se quiseres, a Galp vai ser mais ibérica, claramente que sim, porque vai ter metade de uma rede de 3500 postos de combustíveis, ou seja, vai concorrer diretamente com a maior empresa de combustíveis, que é a Repsol. Na parte industrial, perde o controle da refinaria de Sines, mas mete um pé, entre aspas, com alguma relevância, 20 e tal por cento a mais, em unidades industriais que são do parceiro espanhol.

Já vamos falar um pouquinho mais da história da refinaria, precisamente porque é a única refinaria portuguesa que existe. Mas relativamente às estações de serviço, que eu diria que é talvez das coisas que os consumidores comuns mais identificam naquilo que é o contacto com a Galp enquanto empresa. Isso significa que vai haver uma marca nova, vai deixar de existir a Galp que os portugueses conhecem, vai passar a ter sotaque espanhol o nome, o que vai acontecer?

A Galp vai continuar a ser a Galp em Portugal. A empresa reconhece, aliás, os dois parceiros reconhecem que a Galp, como marca, é um ativo muito relevante em Portugal. Já em Espanha, onde aparentemente a Galp já está há muitos anos, mas não será um ativo assim tão relevante, vai deixar de ter os postos com a marca Galp, que vão passar a ter a marca Moeve.

Que também existe cá. O que vai acontecer?

Que existe cá. Esses postos vão passar para a marca Galp. Só para explicar, a Moeve é o novo nome da Cepsa, que é uma empresa espanhola.

Que é mais conhecida, claramente.

Que já estava em Portugal há muitos anos, é mais ou menos o quinto operador em Portugal As redes em Portugal vão aproximar-se dos mil postos de abastecimento, que vão todos passar a ter a marca Galp. Em Espanha, será uma rede de 2 mil, 2 mil e tal postos que vão ter a tal marca Moev, porque a Moev é o operador espanhol.

E relativamente a essa questão da refinaria de que falavas, havendo apenas uma em Portugal, e estando a Galp numa posição mais fragilizada nessa parceria no âmbito das refinarias, podemos dizer que aí há uma perda do controle significativa da única refinaria portuguesa?

Eu acho que esse risco existe. Vai depender da forma como o negócio for desenhado, porque a Galp vai negociar um acordo parassocial com o parceiro espanhol relativamente àquilo que é a unidade industrial, vai ter uma participação minoritária, mas isso não quer dizer que não possa vir a ter uma palavra a dizer naquilo que serão decisões estratégicas para a unidade industrial, nomeadamente para a única refinaria portuguesa.

Isso não é um ativo considerado estratégico?

É um ativo estratégico e, ao contrário de outros ativos estratégicos que nós temos, por exemplo, na área da energia, as redes elétricas, as barragens e até os aeroportos, são concessões. Ou seja, o Estado é o dono daqueles ativos e concessiona a privados. Aqui não se trata disso, a refinaria é da Galp, portanto o Estado não é dono da refinaria, nem pode reclamar direitos sobre a refinaria, mas o Estado tem alguns instrumentos legais que lhe permitem, eventualmente, se o governo quiser, ter algum tipo de intervenção nesta operação, eventualmente até opor-se, embora isso nunca tenha acontecido até agora, que é a lei dos ativos estratégicos que permitem, em caso de venda. E depois há aqui uma outra questão, que ainda não falámos, é: quem é que são os donos da Moev?

Espanhóis, não?

Não, não são espanhóis. Há muito tempo não. Desde 2019, que a Moev foi comprada por dois acionistas internacionais. O maior acionista é uma empresa que é gestora do Fundo Soberano do Abu Dhabi, dos Emirados Árabes, que até já foi acionista da EDP, neste momento já não é. E depois tens um acionista mais pequeno, que é o Fundo Carlyle, que é um fundo de investimento norte-americano. Se calhar, quando se avaliar a questão estratégica desta operação, isso provavelmente será tido em consideração ou poderá vir a ser tido em consideração.

Porque significa, se se concretizar nos termos que estão mais ou menos pré-desenhados, ainda haverá essa negociação de que falavas, que um ativo estratégico nacional, nomeadamente a única refinaria portuguesa, pode ficar controlada maioritariamente por um fundo do Abu Dhabi e mais um-

Não é um caso inédito. Há países na Europa que não têm refinarias. Nem uma. Nós temos uma, tivemos duas, já fechou, e explica também um bocadinho porque este negócio acontece. É muito difícil ter refinarias na Europa. Muitas têm fechado, porque as exigências ambientais, a descarbonização envolvem muito dinheiro e o mercado é muito difícil. Também nesta junção de ativos na Península Ibérica, também se está a tentar criar aqui escala e conseguir sustentabilidade para poder fazer as grandes operações de transição energética que as refinarias-

Porque essa é uma das coisas que os comunicados que saíam, quer de um lado, quer do outro, falavam sempre da questão da transição energética. A minha dúvida era se parte disso não é algodão doce que se mete sempre nesse tipo de comunicados, quando na verdade o interesse é outro.

A transição energética está a ser feita. A refinaria de Sines, dentro da Península Ibérica, penso que até é razoavelmente pioneira nesses projetos que estão a ser investidos centenas de milhões de euros. Há parcerias até com outras empresas. Essencialmente, vais ter uma produção de combustível sustentável, que é um combustível que vai ser, por exemplo, utilizado no setor da aviação. E também vais ter o processo de descarbonização da própria refinaria com a produção de gases renováveis pra substituir a utilização de gás natural no processo industrial, através da produção de hidrogênio verde. Isso, de facto, está a avançar. À partida, iria avançar mesmo sem esta operação, mas aquilo que os gestores da empresa argumentam é que com esta operação ganham músculo para garantir que essa operação é sustentável.

Isto era inevitável, este negócio?

Eu diria que não era propriamente inevitável, mas penso, pelo que percebi, pelo que percebemos, não se falava dele no mercado. Aqui há um mês ou dois, a Galp anunciou a parceria pra exploração de petróleo na Namíbia, sobre a qual havia imensas notícias, eles já andavam há um ano à procura. Sobre isto ninguém falava. Portanto, foi um segredo muito bem guardado. Ouvindo agora as explicações, parece que era mais ou menos uma inevitabilidade, mas não era uma coisa assumida. Eles não iam para as conference call com analistas dizer: "Andamos à procura de um noivo para estes ativos". Não era uma coisa assumida, mas pelo racional que agora é utilizado na explicação, parece que havia aqui alguma inevitabilidade, embora, se calhar, não tinha que ser agora, poderia ser daqui a uns anos, não sei.

E o fato de ter sido agora, o que isso diz sobre as duas empresas, sobre a Galp e sobre a Moev espanhola? É uma demonstração de poder criarem aqui um grupo forte a nível ibérico, até europeu?

Esta aliança não é contranatura. Ela já esteve em cima da mesa em Portugal. Nós tivemos no final dos anos, ou na viragem do século, do milênio Tivemos uma negociação entre a então Petrogal, antecessora da Galp, com a Cepsa, precisamente para fazer um negócio muito parecido com este. Por quê? Porque a ideia era criar aqui um segundo operador para ter dimensão para concorrer com o gigante ibérico que é a Repsol.

Certo. Que continua a ser maior do que este grupo.

Continua a ser e vai continuar a ser. Poderá haver alguns indicadores em que se aproxima, mas eu penso que a Repsol continua a ser o maior operador ibérico. E na altura também se juntava a refinação, juntavam-se os postos, mas o negócio não foi para frente.

Por quê?

Porque saíram umas notícias a antecipar com a informação de que poderia haver despedimentos. Ou seja, houve ali uma espécie de boicote interno, digamos assim, dentro da empresa ao negócio e depois os gestores que o negociaram foram afastados da empresa.

Portanto, o negócio acabou por cair.

E depois, mais tarde, o que aconteceu foi uma parceria com a Eni, lembras-te, certamente. E aí a Galp já era o petróleo e o gás, já tinha também o gás natural.

Do ponto de vista do consumidor, porque quem nos está a ouvir, se calhar, também gostava de saber isso, temos duas empresas que, na verdade, eram concorrentes aqui no mercado em Portugal. Antevê-se aqui alguma consequência para o consumidor a nível de preços, a nível do que seja, ou para já, isso ainda é muito cedo para estarmos a falar desse tipo de questões?

Eu acho que a existir algum tipo de consequência, será ao nível da dimensão da rede. Ou seja, poderá haver alguma sobreposição de postos, poderão fechar alguns postos, poderão ser vendidos a outros operadores. Também vai depender da forma como a concorrência olhar para este mercado e para este negócio e se vai ou não impor algum tipo de condições. Do ponto de vista do preço, penso que não, porque apesar de tudo, o mercado português é bastante competitivo e tem outros operadores com alguma dimensão nacional.

Então, só para terminarmos, porque estes anúncios às vezes dão a ideia de que a coisa está pronta a assinar. Este negócio ainda não está exatamente nessa fase. Estamos em que fase ainda?

Estamos na fase em que eles chegaram à conclusão de que têm boas razões para negociar e estabeleceram os termos gerais de referência daquilo que vai ser a operação. Portanto, eles dizem que não há nenhuma negociação vinculativa, mas existe um termo de referência. Vão ser feitas aquelas coisas que se chamam as due diligences, para perceber se o negócio é tão bom como parece no papel. Portanto, fazer as continhas todas. Parece que o governo foi informado. Normalmente, quando estas operações são grandes e quando vêm a público, é de bom tom informar.

Até porque, como falávamos, há um ativo estratégico aqui envolvido também.

Sim. Não será expectável que venham objeções dessa parte, sobretudo com o governo que temos neste momento em funções, mas há aqui um conjunto de coisas que podem não correr bem. Quer dizer, podem chegar à conclusão que o negócio não é tão bom como parece. Ou, por exemplo, quando forem negociar a partilha de poderes na área mais sensível, que é obviamente a área industrial, em que há um que vai ficar mais pequeno que o outro. Podem não chegar a um acordo sobre quais são os temas em relação aos quais, por exemplo, a Galp teria sempre uma palavra a dizer na área industrial, que é uma área obviamente importantíssima.

Mas não fazendo futurologia, que não é essa a nossa indústria, tu achas que o negócio tem pernas para andar?

Eu acho que o negócio faz sentido. Do ponto de vista das empresas, o negócio faz sentido. Já foi, como te disse, discutido no passado.

Por alguma razão foi.

Por alguma razão foi. Portanto, basicamente é o líder português junta-se à segunda maior empresa espanhola para ganhar alguma dimensão, em termos ibéricos, para concorrer com o maior operador ibérico. Na Europa há concentrações nesta área da energia, portanto, não é nada de extraordinário. A maioria das empresas de energia portuguesas, os acionistas já não são portugueses, ainda que a gestão ainda esteja em mãos portuguesas. A gestão ainda é portuguesa, mas os acionistas não são portugueses. A Galp era mais ou menos uma exceção. E a Galp também está muito interessada em explorar e produzir petróleo, porque é daí que vem o grande valor que a empresa tem em bolsa e para os acionistas.

Porque este negócio corresponde a cerca de 30%.

Exatamente, são os ativos que estão na Península Ibérica. Sobretudo em Portugal, 70% do valor da Galp está fora, é sobretudo a exploração e produção de petróleo e gás natural.

Muito bem. Ana, se calhar vamos voltar a falar sobre isto daqui a uns tempos. Sabemos como é que anda o negócio. Obrigado.

Obrigada eu.

Ana Suspiro é jornalista do Observador e acompanha de muito perto o setor da energia e vai continuar de olhos postos neste negócio da petrolífera portuguesa. Por falar em petróleo, a situação da Venezuela é ainda incerta e também passou a estar na agenda do Conselho de Estado, convocado por Marcelo Rebelo de Sousa, originalmente para falar da Ucrânia. Um Conselho de Estado que acontece hoje, exatamente a dois meses do fim do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. Aliás, está a chegar ao fim a primeira semana de campanha para escolher o próximo presidente, com cinco candidatos empatados nas sondagens. Hoje estarão todos na estrada, com a curiosidade de saber que Cotrim de Figueiredo e Gouveia e Melo vão estar praticamente à mesma hora, no mesmo sítio: a Feira de São Gonçalinho, onde o ponto alto é o lançamento de cavacas, aqueles doces típicos do cimo da capela. Coragem. Na próxima semana isto acaba, antes da segunda volta, claro. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.