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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O Papa Leão XIV conseguiu um golaço na visita à Espanha?
"Eu suponho que para um jogador de futebol, fazer um gol neste estádio é algo que lhe marca para a vida. Mas, Dom José, hoje a igreja de Madrid marcou um golaço para sempre" .
Este golaço da Igreja Católica foi aplaudido por mais de 70 mil pessoas no Bernabéu, o estádio do Real Madrid. É uma autêntica enchente, à imagem do que aconteceu em todos os pontos da visita do Papa Leão XIV à Espanha. O líder da Igreja Católica realiza uma longa visita pelo território espanhol e tem deixado várias mensagens políticas com um forte apelo à união e ao respeito pelo próximo. Hoje fazemos a análise a esta visita papal e também à imagem que a Igreja Católica está a conseguir passar com estes banhos de multidão que se estão a registar em Espanha. Vou conversar com o padre João Basto. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de quinta-feira, 11 de junho. Padre João Basto, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Não viajou para a Espanha nestes dias de visita do Papa Leão XIV ao país vizinho?
Não, fiquei por Viana, até porque se vê se calhar melhor em Viana na televisão e na rádio do que em Espanha, com tantas multidões, mas também como professor há notas para dar e reuniões de avaliação, por isso também não dava, de qualquer maneira.
Muito bem. Mas vamos falar desta visita a Espanha, uma visita prolongada do papa a território espanhol. Podemos falar de um dos pontos altos deste pontificado?
É realmente uma visita prolongada. O Papa Leão XIV, tirando uma ou outra exceção, está-nos a habituar a visitas prolongadas, às vezes que possibilitam várias passagens por vários sítios, por vários países, mas não sei se é uma marca grande do pontificado, até porque o pontificado ainda é muito breve, mas a viagem a Espanha é muito significativa. Por quê? Porque até agora o papa viajou para o Meio Oriente, viajou a África, viajou ao Mónaco, que embora esteja no continente europeu, não faz parte da União Europeia, e esta é a primeira viagem do Papa Leão XIV a um país da União Europeia, fora de Itália, propriamente dito. É, de certa maneira, a entrada na Europa a sério. São sete dias em sete regiões, duas cidades, mais duas ilhas nas Canárias.
Espanha tem um papel importante para a Igreja Católica e isso está-se a notar também nesta visita.
Espanha como um país europeu, e se calhar um dos grandes países europeus, muito embora não esteja na Europa Central, vive as tensões da Europa de hoje. Ou seja, Espanha é um país católico, aliás, a rainha tem aquele privilégio de se vestir de branco diante do papa, mas também é, neste momento, um dos países mais secularizados do mundo, mais polarizados, possivelmente. É também um país onde as leis sobre o aborto e a eutanásia são talvez das mais liberais, entre aspas, da própria Europa, e é onde a Igreja tem vivido nos últimos anos a ferida dos abusos sexuais. Portanto, ir à Espanha, de certa maneira, é ir ao espelho da igreja europeia de hoje, portanto, uma herança imensa, por outro lado, mas também uma dificuldade imensa em gerir tudo aquilo que circunda a volta do espaço público.
Mas Madrid foi uma enchente. Três dias em Madrid, só deixar aqui alguns números. 600 mil pessoas é a estimativa na vigília de oração com os jovens, sábado. Depois 1,2 milhão de pessoas numa missa ao ar livre no domingo, no centro da cidade. E depois, Santiago Bernabéu, um estádio de futebol, o estádio do Real Madrid, 70 mil pessoas, quase como se fosse um concerto, quase um formato rockstar. Isto é importantíssimo para a Igreja Católica marcar também um sinal de vitalidade.
E se quiséssemos ainda juntar a Arena Movistar, que é uma espécie de grande Pavilhão Atlântico, e se quiséssemos fazer uma comparação, pensemos que na Jornada Mundial da Juventude em Portugal, de todo o mundo nós tínhamos 1,5 milhão de pessoas, havia números de 2 milhões. Em Espanha, só daquela faixa etária, daquele país, melhor dizendo, na missa, como disseste, foi 1,5 milhão, 1,8 milhão de pessoas. Agora, eu teria um bocadinho de desconfiança de uma espécie de leitura puramente triunfalista de que está tudo bem, há multidões, portanto, não há problema nenhum. Indo por partes. Realmente, aquilo que está a acontecer em Espanha é não só comovedor, mas é realmente uma espécie de contragolpe de marketing contra a ideia de que o mundo secularizado apagou Cristo e a igreja do mapa. Isso em Espanha é muito importante. O papa ainda ontem brincou no Santiago Bernabéu dizer que se para um futebolista marcar um gol no Bernabéu é o sonho da vida dele, a igreja espanhola tinha marcado um golaço nesta visita a Madrid. Parece-me que também pode ser um bocadinho prematuro ler esta visita pelas enchentes e pelas lotações que vai tendo. É verdade que nós hoje temos falado muito de um regresso ao mundo religioso, mas eu creio que nós temos que ter um bocadinho de cuidado quando estamos a falar destes assuntos, porque são realidades muito polifónicas. Nós ainda não sabemos que regresso, melhor dizendo, está a acontecer, o que isso significa, se está a acontecer, em que moldes e que religião é que está aqui a regressar.
Um dos pontos mais altos também desta visita, principalmente pelo simbolismo, porque isto não acontece em todo lado, é a passagem pelo Parlamento, com direito a discurso, o papa a falar de guerra, a falar também da defesa da vida humana, várias mensagens políticas. Podemos falar de um dos pontos altos por todo o simbolismo que tem?
Sim, acho que toda a gente percebe que o Vaticano é uma máquina diplomática gigantesca e aquilo que o papa conseguiu no Parlamento Espanhol foi algo extraordinário. A Espanha é dos países mais polarizados do mundo, com mais tensões internas. A sua história recente é testemunha disso. Nos últimos meses, tem sido quase catapultada a níveis estratosféricos. Mas a verdade é que o papa ter feito um discurso que é aplaudido por todos os parlamentares espanhóis, de pé, durante sete minutos, é claramente uma vitória institucional do papa, pessoal do papa e da Igreja da Santa Sé. Agora, claramente, o discurso é muito importante. Recentemente, ontem li no "El País" alguém a dizer que o papa estava a tornar-se progressivamente o anti-Trump. Ora, eu creio que isso é uma leitura extremamente redutora e que temos que começar por rebater, porque o papa realmente tem coisas no seu discurso que podem apelar a sentimentos mais próximos da fação de Pedro Sánchez, com a questão da imigração, com a questão da paz, mas também tem afirmações muito fortes, muito claras e muito incisivas sobre a questão da vida humana ser digna desde a sua conceção até à sua morte natural. E por isso, claramente, nós não estamos aqui a falar de um papa que está a escolher um lado em detrimento do outro e que é um papa de uma fação. Não, o papa está a anunciar o evangelho. O evangelho é uma mensagem social e moral que não pode ser dissociada uma coisa da outra. Parece-me que o grande ponto forte e o centro do discurso do papa no Parlamento é quando ele se refere àquilo que já falámos, a questão de Salamanca. Salamanca é uma das escolas de pensamento mais geniais de toda a Europa, com figuras, como o papa referiu, como Francisco de Vitória ou Suárez. E o papa vinca precisamente isso. Aquilo a que Espanha contribuiu para a história do Ocidente foi ajudar a perceber que o homem não é mais uma peça na ordem social, económica e política. A Espanha ajudou, e a escola de Salamanca ajudou a pensar o que é a humanidade. E embora seja compreensível que nós nas notícias falemos da questão da paz, da questão do aborto e eutanásia, da questão da inteligência artificial, eu acho que a grande pergunta que o papa deixou no Parlamento é: que homem e que humanidade nós queremos construir? Para lá das nossas divisões, o que nós queremos construir enquanto imagem da humanidade? Qual é a nossa antropologia, a visão total? Quando nós muitas vezes, em política, olhamos para as questões parcelares e segmentadas. E deixou também, consequência disto, a ideia que não se trata, que ele aliás já falou na encíclica dele, não se tratam de coisas meramente neutras, de questões unicamente utilitárias e pragmáticas, não. As nossas opções testemunham e criam imagens da humanidade e são resultados de imagens da humanidade. E creio que o papa, na visita a Espanha, está a tentar convocar e convocou no Parlamento, a refletirmos, a darmos um passo atrás e a vermos o que nós construímos e desejamos como humanidade no nosso todo.
Falar aqui também da Catalunha, porque ainda antes da partida para a Catalunha, houve uma certa polêmica, mais pela imprensa e pelos políticos, se iria ou não falar em catalão, até por causa das diferenças culturais, políticas em todo o país espanhol. Falou catalão, sim, sabemos que isso aconteceu. Gere bem estas diferenças o papa Leão XIV nesta visita?
Eu creio que esta visita é um claro sinal de que o papa sabe gerir muito bem estas diferenças, mas, de novo, é preciso ter um bocado de cautela com o que se passou na Catalunha. A nível do catalão e da história da Catalunha, se calhar, o Diogo Noivo ou o Marco Neves são capazes de saber muito mais, certamente. Mas aqui a grande questão é: o papa falou em catalão, mas deixou uma mensagem muito forte a dizer que a Catalunha e Barcelona, em particular, que ele até usou a expressão catalã de cabeça da Catalunha, têm uma grande obrigação de serem um garante de unidade e de estabilidade. O papa claramente usou o catalão por respeito, mas não deixa de usar o castelhano, porque o papa entende também que embora tendando a uma particularidade, tem que criar ele próprio, creio eu, a unidade e promover a unidade.
Queria falar das viagens que já foram realizadas por este papa. Começou o pontificado em maio do ano passado, 2025. Novembro e dezembro foi ao Líbano e à Turquia, foram as primeiras viagens. Depois Mônaco, um dia, 28 de março, já este ano. Em abril, África, Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Agora Espanha. Depois, na agenda deste ano, ainda há San Marino, França e para o ano a Coreia do Sul, na Jornada Mundial da Juventude. Que análises podemos fazer destas viagens já realizadas e que comparação é que é possível também fazer com outros pontificados?
As viagens papais foram, de certa maneira, não quero usar a palavra invenção, mas foram inauguradas pelo Papa Paulo VI, que começou realmente a viajar de avião e visitar as comunidades católicas de todo o mundo. Sabemos que o Papa João Paulo II utilizou as viagens como uma grande ferramenta de evangelização em massa e chegou a visitar 120 países. O Papa Bento XVI viajou menos, mais de uma abordagem teológica, e o Papa Francisco foi claramente o papa das periferias. Nós nos lembrarmos que quando o papa veio a Portugal, tentou fugir claramente do estabulismo anti-político da época. E o Papa Francisco creio que só discursou em três parlamentos no seu longo pontificado, que foi o Parlamento Europeu, a ONU, as Nações Unidas, e depois o Senado americano. Foram raras exceções. Claramente, o papa, na linha do Papa Leão XIV, linha do Papa Francisco, tem valorizado a parte das periferias, da paz, das migrações, mas tem adotado um perfil mais institucional, que ele vai buscar a Bento XVI e a João Paulo II, falando em parlamentosDirigindo-se à classe política e cultural. Reparemos que o Papa nos últimos tempos, nas últimas viagens, tem recuperado algo que o Papa Bento XVI tinha nas suas viagens, que era um diálogo com o mundo da cultura. Ele fez isso agora em África e fez isso agora em Espanha também. Aliás, tornou-se famoso o discurso que o António Banderas escreveu diante do Papa. E por isso creio que nós estamos a ver um papa que, valorizando o pontificado anterior, tenta também fazer uma síntese daquilo que foram os contributos quer de João Paulo II, quer de Bento XVI, para falarmos dos pontificados mais recentes, claro.
Para terminar, temos aqui essa informação, é recente, de António José Seguro ter convidado o Papa Leão XIV para visitar Portugal no próximo ano. Vão assinalar-se em 2027, 110 anos das aparições de Fátima e 500 anos da abertura da Nunciatura Apostólica em Portugal, é como se fosse a embaixada do Vaticano em Portugal, podemos dizer assim. Parece-lhe uma possibilidade real esta visita no próximo ano?
Sim, parece-me que é uma possibilidade real. Não sei se é uma possibilidade que se vai concretizar. Agora, há duas coisas que claramente confluem para que isto se torne uma possibilidade real. Primeiro, são as datas que assinalaste e depois o facto de realmente António José Seguro ter formulado o convite. Nós sabemos que a diplomacia do Vaticano tem uma coisa muito particular, que é: o Papa só vai onde é convidado ou só convida quem aceita o convite de antemão. Portanto, o facto de o Papa, destas conjunturas estarem a alinhar, é provável que nós tenhamos uma visita a Portugal, em que moldes, se calhar, é muito prematuro dizer. Nós sabemos que Robert Prévost conhece bem Portugal, que já esteve cá, que o ano passado quando foi eleito, havia notícias de que ele estava escalado, entre aspas, para presidir à celebração em Fátima, uma das celebrações do aniversário das aparições de Fátima. Entretanto, a morte do Papa Francisco e a sua eleição mudaram tudo. O presidente Marcelo já tinha aflorado essa hipótese. O próprio presidente Seguro também já formulou o convite e, portanto, ainda não tendo uma confirmação oficial do Vaticano, estando o calendário de 2027 ainda em aberto, creio que o alinhamento das datas e tudo isto pode ajudar a que seja uma hipótese bastante sólida para o próximo ano.
Obrigado, padre João Basto.
Obrigado.
O padre João Basto é colunista do Observador e faz parte do painel do podcast "As Histórias da Bíblia". Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.