Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: o património que Seguro não declarou.

Que enquanto eu tiver cérebro para trabalhar e mãos para trabalhar, eu continuarei a fazê-lo. Foi isso que eu fiz durante 11 anos. Fui à minha vida.

"Eu fui à minha vida" é uma boa frase. É, aliás, uma das que ficou do único debate desta segunda volta entre António José Seguro e André Ventura. Seguro foi à sua vida, foi dar aulas, foi, como ele diz, investir no seu concelho, um dos mais pobres do país. E agora voltou à vida pública e às obrigações de transparência de quem está na vida pública. Nada que incomode um candidato que disse isto na entrevista que deu há um mês à Rádio Observador.

Eu sempre defendi, ao longo da minha vida, total transparência na vida pública.

Na primeira volta das presidenciais, o Observador publicou uma série de trabalhos sobre os rendimentos declarados dos vários candidatos. O título na notícia sobre António José Seguro, publicada a 13 de janeiro de 2026, era este: "Sem carro, sem dívidas e com três empresas". E nesse texto fica claro, através dos esclarecimentos que o próprio candidato dá ao Observador, que não tem carro nem créditos em seu nome. Em seu nome. E é verdade, o que Seguro não esclareceu é que, em rigor, até havia um carro, mas estava em nome da empresa. E havia mais. A questão é que o património das empresas de Seguro não foi declarado à Entidade da Transparência. E aqui surge a dúvida: por que este mistério vindo de um candidato que fez campanha a dizer "quem não deve, não teme" e a garantir ser contra as práticas que geram desconfiança?

Numa fase em que há tanta desconfiança do sistema político e dos políticos, o nosso papel não é esconder. O nosso papel é prestar esclarecimentos.

Eu vou falar hoje com o Miguel Pereira Santos. Ele é o jornalista que revelou que, afinal, Seguro não declarou o património das empresas familiares que tem. Quero saber como é que o Miguel chegou a esta informação e como é que António José Seguro reagiu às perguntas que o Miguel lhe fez e o que vai o candidato fazer a partir daqui. Eu sou o Pedro Benvides e esta é a história do dia de terça-feira, 3 de janeiro. Olá, Miguel.

Olá, Pedro.

Vou começar por te perguntar como é que tu chegaste a esta notícia de que António José Seguro não tinha declarado à Entidade da Transparência património das empresas familiares. Como é que chegaste a este final?

Sim, acho que é preciso explicar que os candidatos têm que apresentar também estas declarações de rendimentos, que todos os políticos têm que entregar.

Isto já sabíamos, para os titulares de cargos públicos, eles tinham que entregar as suas declarações de rendimentos todos os anos. Mas isto é válido também para candidatos.

Sim, neste caso, na verdade, é só os candidatos à Presidência da República. É o único cargo público que as pessoas que se candidatam têm que apresentar as declarações, mesmo depois não vindo a ser eleitas.

Certo.

Portanto, foi esse o caso aqui. Nós fizemos para todos os candidatos à presidência uma análise da evolução das declarações de rendimento ao longo dos seus anos de declarações. Por exemplo, pensemos em Luís Marques Mendes, que desde quase o 25 de Abril entrega declarações de rendimentos, e também fizemos isso para António José Seguro. Mas fizemos isso numa altura do final do ano em que esta declaração ainda não estava disponível. Portanto, os candidatos tinham até um mês antes do dia da primeira volta para entregar a declaração e depois ainda demora alguns dias até nós, comunicação social, e outras pessoas poderem consultar. Portanto, ainda não conseguimos incluir esta declaração nessa primeira análise que fizemos das declarações dele no seu tempo de política ativa, quando era líder do PS, etc.

Portanto, basicamente já havia uma primeira análise daquilo que era o percurso das declarações, por assim dizer, de António José Seguro, e depois era preciso atualizar esse trabalho e foi aí que dás conta de que há aqui informação que estava em falta.

Sim, voltámos da campanha, já só há dois candidatos. Portanto, eu volto a consultar esta declaração de rendimentos. Na verdade, já havia outro meio de comunicação que tinha falado dessa declaração de rendimentos, que foi a "Sábado", mas tiveram aqui um entendimento diferente, não consigo explicar por quê, daquilo que acaba por ser a notícia para a qual estamos aqui a discutir, que é que os candidatos têm que também declarar o património das empresas das quais eles são titulares principais e gestores, como é o caso aqui em duas das empresas de António José Seguro.

E estas duas empresas não constavam da declaração de rendimentos dele?

Constavam só no sentido em que ele tem uma quota em ambas. Na verdade, até constam três, porque ele tem quotas em três e é sócio-majoritário de duas. Agora, o património dessas próprias empresas é que não constava e, segundo a lei, também deve constar. E portanto, foi esse o esclarecimento que nós tentámos obter junto do próprio candidato, que depois, nesse momento, acabou por revelar-nos qual é que era detalhadamente o património de cada uma das empresas. Antes já sabíamos que eram empresas, uma delas que está mais vocacionada para o alojamento local em Penamacor, a terra natal de António José Seguro, e a outra mais ligada para a produção e distribuição de produtos regionais ali da zona das Beiras, vinhos e azeite. E, portanto, o património que foi conhecido agora, que foi revelado pela candidatura do socialista, corresponde a esse tipo de atividades. Matou-se aqui uma dúvida, pode-se dizer. Estamos a falar de seis imóveis que pertencem a uma das empresas, à tal que explora o alojamento local, e são tudo casas, parece-me ser uma zona histórica de Penamacor, que servem para esse fim do alojamento local, e depois um veículo ligeiro. E no outro caso, estamos a falar de um terreno agrícola e de um veículo de mercadorias.

Nada disso constava da declaração de rendimentos?

Não, isso não constava.

Então, a dúvida básica é por que não constava dessa declaração de rendimentos? Imagino que tenhas também colocado essa questão a António José Seguro, à equipa dele.

O que me disseram foi que tinham o entendimento que sendo candidato, esta questão não se aplicava. Ou seja, não sendo um titular de cargo político e sendo apenas um candidato, que essa parte não se aplicava.

A lei não seria tão exigente com candidatos versus aquilo que exige a titulares de cargos públicos.

É isso, mas a verdade é que a única vez em que a lei menciona candidatos à Presidência da República é para dizer que estão equiparados nos seus deveres aos restantes declarantes. Essa é a única vez e não existe nada, nem nenhum caso passado, nem nenhuma deliberação, nenhuma CCDR, que às vezes existem estas coisas para falar dos casos muito específicos, mas aqui não, é bastante claro, estão equiparados às restantes pessoas, têm que fazer o mesmo tipo de declarações e isso neste caso não aconteceu.

Do teu ponto de vista, a lei não tem grandes dúvidas. A única vez que fala sobre candidatos à Presidência da República é para dizer: aplica-se a estes senhores ou a estas senhoras, tudo aquilo que se aplica aos titulares de cargos públicos, incluindo os deveres na declaração de rendimentos.

Foi isso. E aconteceu, por exemplo, também com Cotrim de Figueiredo, que tinha um caso em tudo semelhante a este, tinha uma sociedade familiar já há mais de 10 anos e ao contrário de António José Seguro, tem declarado várias vezes o património nesses últimos 10 anos e só agora nesta última declaração como candidato à Presidência da República é que ele declara um imóvel de alojamento local, que também é explorado como alojamento local por uma empresa familiar à qual ele pertence, da qual também é sócio. E nós confrontamo-lo na altura, quando estávamos a fazer essa análise à evolução dos rendimentos dos candidatos, e disse-nos também: "Realmente, é verdade, eu tenho que declarar isso. Fui alertado entretanto, mas antes não sabia que precisava declarar também o património das empresas." E depois realmente acabou por fazê-lo agora nesta última declaração e António José Seguro, o que nos disse a equipa dele é que vão consultar o pessoal jurídico que tenha conhecimento deste caso e que possa realmente confirmar isto e caso se confirme aquele que é o entendimento que me parece ser claro na lei de que toda a gente tem que declarar o património das empresas, também vão fazê-lo. Neste caso, ou podem fazer uma alteração à declaração que já fizeram como candidato à Presidência da República, ou provavelmente podem esperar pela nova declaração efetivamente como presidente, que isso neste momento parece ser o caso mais provável em relação a esta segunda volta, e fazer esse acrescento desta informação que não esteve na primeira declaração.

Miguel, já voltamos a conversar. Estamos de volta. Miguel, isso quer dizer que a equipa de António José Seguro, enfim, António José Seguro ainda não está inteiramente convencido da interpretação da lei, que à partida parece clara, mas não é. Aquilo que fica talvez mais difícil de compreender é como é que um candidato, que ainda por cima é verdade que ele esteve afastado dos olhares públicos e também por causa disso é que não teve que preencher declarações de rendimentos para que ficassem públicas, mas ele esteve muito tempo no espaço público, ocupando até várias funções e portanto supostamente deveria conhecer mais ou menos como é que as coisas funcionaram. Estas empresas de que estamos a falar são empresas que foram criadas no tempo em que ele esteve longe dos olhares públicos, sem ocupar nenhuma função política, certo?

Sim. Estamos a falar num total de quatro empresas em que António José Seguro esteve envolvido na constituição. A primeira delas, António José Seguro já não tem nada a ver com ela, que é uma sociedade que presta atividade na área da alimentação e da inovação alimentar, etc. Foi apenas dois a três anos, entre 2016 e 2019, que António José Seguro esteve envolvido com ela, mas as restantes três continuam a ter ligações até hoje.

Portanto, uma delas é a tal de alojamento local, que tem os seis imóveis.

A Marcor, sim. E com a qual António Galamba, que é um ex-deputado socialista, esteve também presente no momento da fundação, mas com uma quota mínima. Era mesmo a sociedade de António José Seguro, e que está ligada a essa exploração de alojamentos locais, especialmente, pelo menos atualmente, na zona de Penamacor. E depois temos outra sociedade, que é a Mimos da Beira, que está ligada à produção, como já dissemos, daqueles produtos.

Do azeite e do vinho, que sabia que ele estava ligado a isso. E ainda há uma terceira.

Ainda há uma terceira que não é totalmente claro para que fins é que António José Seguro a criou. A Sábado diz que esta terá sido a empresa que foi utilizada para a faturação de serviços de consultoria, de conferências Também para a sua docência universitária, ainda que o objeto social da empresa não aponte diretamente nesse sentido.

Qual é o objeto social dessa empresa?

Tradicionais cerâmicas, peças de arte e restauração.

Portanto, a partir disso, e conferências não jogam.

Podem não jogar.

A menos que sejam conferências sobre arte tradicional, etc.

É isso. E nós sabemos que, isso é algo que o próprio António José Seguro revelou, que também prestou serviços de consultoria de negócios a outras empresas. Ele não diz explicitamente qual dessas três é que o fez, mas lista o nome das empresas, que são três, às quais prestou serviços de consultoria.

Os tais clientes que ele disse que ia divulgar para mostrar transparência.

Sim.

Qual é que foi a reação de António José Seguro e do staff de campanha quando tu começaste a fazer perguntas sobre a ausência destas informações na declaração de rendimentos?

António José Seguro tem sublinhado muito aqui que quer ser transparente e se entendeu que não devia ter declarado quando nós o pressionamos, de uma forma saudável, digamos.

Jornalística, que é essa a nossa função.

O que fizeram foi não só dar-nos a nós a informação, mas publicá-la no site da candidatura e os dados estão discriminados publicamente para toda a gente e a resposta não foi dada a nós, Observador, mas está aqui a informação de qual é que é o património detalhado das empresas de António José Seguro no seu site de candidatura.

Muito bem, pelo menos isso também já não é mau.

Não é mau.

É mais um acrescento à transparência de que o próprio António José Seguro tanto fala. Miguel, muito obrigado.

Muito obrigado, Pedro.

O Miguel Pereira Santos é jornalista de política do Observador. Passou dias a consultar declarações de rendimentos e a fazer perguntas, porque as presidenciais continuam na ordem do dia, embora tenham sido ofuscadas pela tempestade e pelos efeitos brutais, sobretudo no centro do país. Há muita gente ainda a precisar de ajuda. Hoje não vou falar dos bens de primeira necessidade, vou falar dos materiais de construção, de reconstrução, que também são urgentes e que pode fazer chegar aqui em Leiria, no Pavilhão dos Pozos, que está a organizar a recolha de donativos. É preciso lonas e mangas de plástico, telhas, areia, cimento, silicones, luvas de trabalho. Na Marinha Grande, é no Pavilhão Nery Capucho, lonas e plásticos precisam-se. Na Marinha Grande é no Estaleiro Municipal, que pode entregar materiais de construção, e em Pombal é no Pavilhão das Atividades Econômicas. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.