Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que dizem os rankings das escolas este ano?
Muitos pais decidem a educação dos filhos com base nos rankings das escolas, mas até que ponto esta classificação reflete a realidade? E o que fazer com as escolas no fundo da tabela?
É já um hábito que se repete todos os anos. Pais e alunos que consultam tabelas online para perceberem em que posição está a sua escola no ranking, ou como está a escola que pretendem frequentar no futuro. A base é sempre a mesma: as notas dos exames nacionais do ensino secundário. Mas nos últimos anos, novos critérios têm vindo a ser introduzidos para tentar espelhar também outras variáveis, nomeadamente o contexto socioeconômico dos alunos. Os rankings são agora conhecidos e se, por um lado, confirmam tendências dos anos anteriores, por outro, trazem também algumas novidades. A primeira novidade deste ano é a descida generalizada das notas dos exames. O ranking do Observador conta com 614 escolas e as médias dos exames nacionais desceram em todas, menos em nove. E mesmo essas, são exceções que escaparam à regra, mas por muito pouco. Este é já o sexto ano consecutivo em que o Observador, numa parceria com a Nova SBE, School of Business and Economics, cria os rankings das escolas para o ensino secundário com base em dados oficiais fornecidos pelo Ministério da Educação. As escolas privadas voltam a dominar o top 50, mas desta vez há duas públicas que também conseguem entrar. A escola que está no topo do ranking este ano funciona numa antiga fábrica têxtil do Norte e foi uma ideia de Belmiro de Azevedo, fundador da Sonae. Mas quando olhamos para estes dados, por que as notas desceram tanto este ano? Quais as escolas melhor colocadas? E para que estes rankings podem, de fato, servir? Hoje vamos falar com Ana Kotowicz, jornalista do Observador que tratou os dados do ranking das escolas. Bem-vinda, Ana.
Olá, João.
Vamos começar por uma pergunta prévia, mas que as pessoas podem fazer hoje ao abrir as notícias e verem vários rankings diferentes publicados. Por que há vários rankings das escolas e não apenas um?
Olha, João, o que acontece é que cada jornal decide fazer o seu próprio ranking. Por quê? Porque o Ministério da Educação dá-nos os dados em bruto e eles não vêm ordenados. E a partir dali, nós podemos ordená-los de várias maneiras e segundo vários critérios. E não são todos iguais de jornal para jornal. E por isso é que de manhã as pessoas acordam, veem vários rankings e aquilo que é vendido como a melhor escola, embora os rankings não seja para isso que servem, pode não ser a mesma escola número um da tabela.
Assim sendo, vamos então olhar primeiro para a forma como este ranking é feito pelo Observador, em parceria com a Nova SBE. O ano passado, por causa também da situação excepcional criada pela pandemia, existiu uma mudança nos critérios. Este ano, mantiveram-se os mesmos critérios que foram adotados na altura e que critérios são esses?
Não mantivemos os mesmos critérios do ano passado, mas também não voltamos aos critérios de antes da pandemia. Portanto, antes de existir COVID-19, o que nós fazíamos era só considerávamos escolas onde tivessem sido feitos pelo menos 80 exames. Depois, com o ano da pandemia e com todas as mudanças de regras que houve, o que nós fizemos foi considerar todas as escolas, independentemente do número de exames que tivessem sido feitos. Este ano percebemos que se continuássemos a fazer isso, íamos colocar escolas onde, por exemplo, só tinha sido feito um exame ou dois. Então voltamos a criar um mínimo de exames, mas abaixo do que era habitual. E, portanto, este ano só entram escolas onde tenham sido feitos 20 exames, no mínimo, e apenas os cursos técnico-científicos.
Vamos então começar a olhar aqui para os dados disponíveis. Este ano, as médias dos exames nacionais desceram em praticamente todas as escolas consideradas, menos nove escolas, em relação ao ano passado. Que dados existem e depois o que é que pode explicar isto que aconteceu este ano?
Primeiro, deixa-me dizer-te que dessas nove subidas, são subidas muito fraquinhas.
Mesmo as subidas são fracas.
São. Só há uma que tem uma subida quase nos dois valores e, portanto, aí já quer dizer alguma coisa, mas as outras estamos a falar mesmo de toquezinhos na média. O que é que pode explicar? Provavelmente, a mesma coisa que explica a subida extraordinária a que assistimos no ano da pandemia, e que é a estrutura dos exames nacionais. O que é que aconteceu? Nós precisamos perceber o que aconteceu em 2020 para perceber o que é que depois acontece este ano. Que é: em 2020, o IAVE, que é o organismo público que cria os exames nacionais, tinha os exames prontos, porque os exames demoram meses a ser feitos e são todos os anos feitos de raiz. E aconteceu a pandemia. Portanto, era preciso mexer nos exames de alguma forma para não prejudicar os alunos que estavam a ter o ensino remoto e as escolas que estavam a completar os programas de forma completamente diferente. O que é que se decidiu fazer? Perguntas opcionais. Tivemos um grande bloco de perguntas opcionais e ainda com um acréscimo, que é: tu podias responder a todas as perguntas opcionais e só as que tinham melhor cotação é que contavam pra tua média. Para além disso, as perguntas obrigatórias eram menos, mas valiam mais. Portanto, mesmo com as obrigatórias, tu mais facilmente tinhas uma pontuação alta. Isto foi possível fazer numa situação de emergência e é por isso que temos muitos críticos a achar que os exames do ano passado não revelaram a realidade portuguesa. Este ano, o que é que acontece? Decide manter-se a mesma matriz, este ano não, em 2021 e este ano em 2022 também. Portanto, vamos ter três anos consecutivos em que os exames vão ter estas perguntas opcionais. Só que as perguntas já foram feitas de raiz. E isso faz toda a diferença. Ou seja, tu consegues que as perguntas que tu podes responder em alternativa sejam comparáveis em termos de dificuldade, de complexidade. Ou seja, se tu só responderes às perguntas fáceis e outro às perguntas difíceis, não vão ter a mesma cotação. Porque era uma coisa que podia acontecer no passado. Por outro lado, o número de perguntas opcionais também é menor e, portanto, também as perguntas obrigatórias, que normalmente são as mais complexas, fazem com que as médias não possam subir tanto. Apesar de tudo, o que a investigação nos diz é que um exame que tem perguntas opcionais tende sempre a ter resultados mais altos do que um que não tem. E é por isso que se explica que as médias continuam a ser mais altas do que em 2019, antes da pandemia.
Mas baixaram muito.
Mas baixam bastante. No total, baixam 1,6 ponto em relação ao ano passado, mas depois temos escolas que baixam quase cinco pontos. Há aqui uma descida óbvia em relação a 2020.
E há muitas escolas que este ano não conseguem atingir uma média positiva, ou seja, 10 valores?
Olha, em Portugal, posso dizer que temos 44 escolas que não conseguem chegar aos 10 valores e quatro delas são particulares. Portanto, não é um problema só das escolas públicas. A média mais baixa de todas foi em Loures, foi numa escola de Loures, a Secundária José Cardoso Pires, que ficou com 8,07 valores. E realizaram 102 provas, portanto, também não foram assim tão poucos alunos.
A amostra não foi assim tão curta quanto isso, não é?
Exatamente.
Falemos então das escolas e do ranking em si. Este ano, no topo, mais uma vez, não muda muito. Não é uma surpresa que os colégios privados continuam a dominar.
Não é surpresa. Foi surpresa em 2002. Até essa altura, mais ou menos, em que o topo era dominado pelas escolas públicas. E depois, de ano pra ano, isso começou a alterar-se. As privadas começaram a estar cada vez mais no topo da tabela e agora é o que tem acontecido nos últimos anos, que lá em cima estão os colégios. E também não são os colégios quaisquer, eles acabam por se repetir muito. Nós temos, por exemplo, o Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, que é um daqueles que ano após ano está ali no top cinco e não sai. Outro que também costuma ter sempre ótimos resultados, tanto no nono ano como depois no secundário, é o Colégio D. Diogo de Sousa, que é em Braga e pertence à arquidiocese. Este ano temos o Colégio Nova Encosta em segundo lugar. E aqui, por exemplo, apesar de ser um colégio que está sempre ali nos primeiros lugares, costuma estar mais abaixo. Este ano subiu pra segundo lugar. O primeiro lugar é que é uma grande surpresa e é uma estreia, que é o Colégio Efanor.
Exato, é esse que ia perguntar-te agora, porque encabeça este ano a lista pela primeira vez. Porque é uma escola também relativamente recente.
Exato.
Mas tem uma história interessante, não é? Porque é uma escola que foi idealizada pelo fundador da Sonae, Belmiro de Azevedo. Conta-nos um pouco a história desta escola e como é que ela chega agora ao topo do ranking.
O Colégio Efanor aparece em 2008 e ele é idealizado pelo engenheiro Belmiro de Azevedo e pertence à fundação que tem o seu nome. Ele nasce para ser um colégio de excelência, mas também um colégio que quer que 10% dos seus alunos sejam alunos carenciados e que irão frequentar a escola através de bolsas. E é isso que está a acontecer. Nos primeiros anos, o colégio esteve um pouco estagnado, funcionava a pré, a creche, o primeiro ciclo e, portanto, não aparecia sequer aqui nos rankings. Só há seis anos é que o colégio avança para o secundário, pro ensino secundário. E aí, de fato, começa a A mostrar resultados académicos. Como era, e ainda é, um colégio pequeno, com 1100 alunos da creche até ao 12º ano, ficava fora dos rankings porque não fazia as 80 provas que precisava para ser apanhado, por exemplo, pelo ranking do Observador. Quando agora na pandemia essas imposições caem, ele aparece e acredito que nos próximos anos vai continuar a aparecer, porque está em crescimento. O diretor do Colégio João Trigo disse-nos em entrevista ao Observador que planeia continuar a crescer, ter mais 400 a 500 alunos nos próximos anos e conseguir que os alunos carenciados sejam uma parte importante no colégio. E as bolsas que eles têm começam logo na creche. Depois têm as bolsas para o eixo jovem, terceiro ciclo secundário, mas depois ainda apoiam os alunos que consigam acabar o secundário com a média de 17. Ou seja, garantem que esses alunos podem seguir para o ensino superior e prolongam essa bolsa. Tem outra coisa engraçada, que é o Colégio Efanor. Efanor era uma fábrica têxtil no norte e foi onde Belmiro de Azevedo teve o seu primeiro emprego. Então há uma parte da escola que ainda funciona nas instalações da fábrica.
Estavas a falar, por causa do colégio, da questão dos alunos mais carenciados e, de resto, há um indicador relativamente recente, introduzido pelo Ministério da Educação em 2020, que versa sobre a questão da equidade. O que é que este critério pretende avaliar?
Antes da pandemia, nós tínhamos o indicador que eram os percursos diretos de sucesso. E tentando resumir, são os alunos que têm positiva nos exames nacionais, depois de fazer o secundário sem chumbos. A diferença dos percursos diretos de sucesso para a equidade é que só olha para os alunos carenciados, que são aqueles que têm a chamada ação social escolar, que é o apoio estatal que é dado aos alunos mais pobres. O que este indicador quer ver? Quer ver se a escola está a funcionar como elevador social, se está a conseguir puxar pelos alunos mais carenciados, que nós sabemos que são os que têm sempre piores resultados académicos ano após ano. O que te posso dizer mais é que é um indicador muito recente, portanto, é uma série muito curta para nós podermos já começar a tirar conclusões, mas vai ser importante daqui para a frente para perceber o que as escolas estão a fazer e o que se pode aprender com as escolas que estão a conseguir puxar pelos alunos com maiores dificuldades devido à situação socioeconómica.
Todos os anos estes rankings são publicados e quando são publicados, os pais, os próprios alunos vão logo consultar e de resto podem fazê-lo no nosso site. Tu tens imensos trabalhos apoiados com tabelas e gráficos sobre isto, mas para verem em que lugar, em que posição está a minha escola. Mas para além disso, para que é que podem servir então estes rankings? Que consequências práticas podem ter?
Na minha opinião, a sua principal função é serem usados como uma ferramenta pelos diretores das escolas, porque dão um retrato daquilo que os seus alunos fizeram através dos exames nacionais, através do ranking da equidade e portanto permite-te olhar para dentro, repensar as práticas dessa comunidade educativa, mantê-las, mudá-las e perceber principalmente para onde é que estás a andar. De resto, o que eu acho é para que eles não devem servir é para dizer que esta escola é melhor do que a outra, porque as realidades são muito diferentes.
Obrigado, Ana.
Obrigada, João.
Ana Kotowicz é jornalista do Observador e tem um extenso trabalho online sobre o ranking das escolas, que conta também com gráficos explicadores, para além das tradicionais tabelas onde pode consultar a posição da sua escola ou da escola dos seus filhos. Esta foi a história do dia. No início deste episódio contámos também com sons de uma reportagem da Euronews. A sonoplastia é do Diogo Casinha. O João Ribeiro fez a música do genérico. Eu sou o João Santos Duarte. Tenha um bom dia.