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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que pensa o presidente sobre o caso Luís Neves? O ministro da Administração Interna está fragilizado.

Ninguém que tenha olhado para esta conferência de imprensa hoje pode dizer, a menos que esteja politicamente completamente enviesado, que o senhor ministro, depois do que disse hoje, tem condições para continuar a ser ministro da Administração Interna. Não tem sequer adequação para o cargo que ocupa.

Nem era preciso ouvir as vozes da oposição para reconhecer que o ministro da Administração Interna é um problema político. A conferência de imprensa de quarta-feira não teve o efeito que se esperava e as polémicas em que Luís Neves está envolvido não se esvaziaram depois das explicações do ministro. Perante isto, os dias passam e o Presidente da República tem se mantido em silêncio. É expectável que António José Seguro fale nos próximos dias, mas para já o presidente tem preferido uma abordagem que é, se quisermos, a antítese de Marcelo Rebelo de Sousa. Discrição, gestão cuidadosa dos silêncios e, sobretudo, das palavras. Hoje eu vou falar com o editor adjunto de política do Observador, o Miguel Santos Carrapatoso, para percebermos, apesar disto tudo, o que pensa António José Seguro sobre o que se está a passar, o que mais o preocupa e o que tem feito nos bastidores desta crise. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 31 de julho. Olá, Miguel.

Olá, Pedro.

Hoje vai ser um dia importante do ponto de vista dos desenvolvimentos políticos deste caso de Luís Neves, porque o Parlamento vai decidir se o ministro vai ou não ser ouvido durante estes dias em que funciona apenas a Comissão Permanente.

Sim, e é importante porque obviamente é diferente dar uma conferência de imprensa ou ser escrutinado pelos deputados com assento na Assembleia da República. Se de facto Luís Neves tiver de ir ao Parlamento, isso pode trazer ainda mais desgaste ao governo. E, por outro lado, também pode ser importante na definição dos tempos de António José Seguro. Isto porque não é de excluir a hipótese de António José Seguro estar à espera que Luís Neves se apresente na Assembleia da República para que possa pronunciar-se finalmente sobre o caso.

Tu dizes finalmente porque efetivamente ao longo destas semanas em que temos visto aqui uma série de notícias difíceis para Luís Neves, vimos também a conferência de imprensa, vimos vários pedidos de demissão do ponto de vista partidário, no caso da oposição, o Chega e a Iniciativa Liberal, sobretudo, mas não vimos o Presidente da República a falar sobre isto.

Não, António José Seguro está claramente a gerir o seu tempo. A última vez que falou foi a 17 de julho para dizer que estava muito atento ao que se estava a passar. Daí esta parte já muito aconteceu. O Presidente da República está em silêncio, tem procurado não ter uma agenda pública. Percebe-se por quê e há várias razões que concorrem para isso mesmo. António José Seguro não é Marcelo Rebelo de Sousa, não quer ser Marcelo Rebelo de Sousa. Sabe que tudo o que disser neste momento pode provocar uma reação e pode, no limite, ajudar a aumentar a tensão que já existe neste momento. E portanto, António José Seguro não quer contribuir para degradar ainda mais o clima político, esse é um aspecto. Em segundo lugar, também por contraste com Marcelo Rebelo de Sousa, António José Seguro quer ser um presidente muito mais institucional. Ou seja, é evidente que tem falado com Luís Montenegro, é evidente que sabia de antemão aquilo que Luís Neves ia explicar ao país, as explicações possíveis do ministro da Administração Interna. É evidente também que já partilhou com Luís Montenegro algumas das suas reservas em relação à atuação de Luís Neves enquanto diretor da Polícia Judiciária e o efeito que isso pode ter para a credibilidade das instituições, seja da Polícia Judiciária, seja do governo, mas António José Seguro nunca fará aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa fez a António Costa quando João Galamba, então ministro das Infraestruturas, estava envolvido numa polêmica e como todos nos recordamos, Marcelo Rebelo de Sousa exigiu publicamente a cabeça do ministro para no mesmo dia ser contrariado e desautorizado por António Costa. Portanto, António José Seguro nunca fará isso, está a dar todos os sinais a Luís Montenegro, mas esperará pelo seu próprio tempo para falar ao país.

E isso tem a ver também com o que vai acontecer hoje no Parlamento e nos próximos dias vamos perceber o que é que vai acontecer. Mas eu gostava que tu me dissesses o que se sabe já do nível de preocupação do presidente relativamente a isto que se está a passar com o ministro da Administração Interna.

António José Seguro afirmou-se sempre publicamente e politicamente como um defensor intransigente da ética republicana. Fez uma campanha presidencial muito em torno da necessidade de devolver essa dimensão à política Portanto, por tudo aquilo que vamos vendo e sabendo sobre Luís Neves e sobre aquilo que foi fazendo, as informalidades que foi tendo na sua conduta enquanto diretor da Polícia Judiciária e também os esclarecimentos que deu, e é verdade que se até aqui podíamos dizer que António José Seguro estava à espera dos esclarecimentos do ministro da Administração Interna, também podemos assumir que depois daquela conferência de imprensa em que Luís Neves assumiu que foi informal na questão do outro lado, não teve o cuidado devido na questão da relação que mantinha com o amigo empreiteiro, foi no mínimo incauto na questão da declaração de rendimentos. Com tudo aquilo que sabemos que são as convicções de António José Seguro, podemos assumir perfeitamente que o presidente da República está muito preocupado, muito desconfortável com aquilo que ouviu do ministro da Administração Interna.

Miguel, e do lado do primeiro-ministro, nós sabemos que Luís Montenegro tem falado com António José Seguro, eles têm as reuniões semanais, naturalmente. Imagino que partilhem também alguns pontos de vista sobre esta situação, mas o que tu ouves do lado do governo a nível de desconforto com esta situação?

Obviamente que Luís Montenegro está desconfortável com esta situação. Aliás, o núcleo de aconselhamento político de Luís Montenegro partilha da mesma opinião, é uma posição muito difícil, mas aqui é preciso ter em conta que o primeiro-ministro e o governo como um todo estão apostados na ideia de que apesar de todo este desgaste, Luís Neves conseguirá convencer a generalidade das pessoas de que tendo cometido erros, foi sempre movido por boas intenções. E foi isso que Luís Neves foi fazer e foi dizer à conferência de imprensa de quarta-feira. Portanto, uma coisa é o que dizem os partidos da oposição, uma coisa é o que dizem jornalistas e comentadores, outra coisa será aquilo que pensa a maioria dos portugueses. Mais uma vez, há aqui uma preocupação, um desvalorizar, melhor dizendo, da pressão feita pela bolha político-mediática e uma sobrevalorização daquilo que será, em teoria, a convicção do cidadão comum. Agora, toda esta situação tem limites e Luís Montenegro não é insensível a esses mesmos limites. Terá compreendido as reservas de António José Seguro, ele próprio terá reservas sobre a situação em que está Luís Neves. E claro, se nos próximos dias continuarem a surgir notícias embaraçosas para o ministro da Administração Interna, a situação terá de ser de alguma forma revista, sendo que aqui há uma preocupação que não deixa de estar presente no núcleo duro do governo. Estamos a entrar no mês de agosto, plena época de incêndios, em que tem de haver uma coordenação muito oleada do combate aos fogos e não passa pela cabeça de ninguém dispensar agora um ministro da Administração Interna. Agora, depende e vai depender muito do evoluir da situação de Luís Neves, a decisão última de Luís Montenegro. Se houver um escalar de notícias comprometedoras para o ministro da Administração Interna, eventualmente a pressão de António José Seguro será maior e a capacidade ou a tolerância de Luís Montenegro para com Luís Neves será menor. Portanto, é uma situação que vai ser monitorizada à medida que os dias e as semanas se vão passando.

Vamos ver o que vai acontecer nos próximos dias. Sendo que há aqui também outro elemento que é significativo e que é importante para o desenrolar desta história, que tem a ver com a própria forma como a Polícia Judiciária está aqui também debaixo do foco. Isso é também uma questão que preocupa o Presidente da República e que dificilmente vai amenizar quando chegarmos a setembro e quando houver esta anunciada comissão de inquérito do Chega.

Sim, e aqui há uma informação que podemos dar. André Ventura comunicou institucionalmente a António José Seguro que estaria disponível para abdicar da Comissão Parlamentar de Inquérito à Polícia Judiciária, no fundo, aos mandatos de Luís Neves à frente da Polícia Judiciária, se o ministro da Administração Interna se demitisse. Isso não vem a acontecer. André Ventura não parece estar já disponível para recuar nessa intenção e António José Seguro, pelo menos nesse primeiro momento, viu ali uma oportunidade de poupar a Polícia Judiciária a essa questão. Agora, avançando essa comissão parlamentar de inquérito, é inegável para todos que acompanham ou que sabem os efeitos que tem uma CPI sempre que acontece, terá para a credibilidade e para a imagem da Polícia Judiciária. Portanto, António José Seguro está muito preocupado com essa possibilidade. Enfim, não há muito que possa fazer para travar as intenções de André Ventura. E mesmo que Luís Montenegro pudesse repensar a continuidade de Luís Neves, não é certo nem é claro que a CPI deixasse de ter lugar. Portanto, António José Seguro está muito preocupado com essa questão, porque sabe e reconhece a importância da Polícia Judiciária e sabe que Ser escrutinado daquela forma no Parlamento pode trazer consequências muito negativas para a credibilidade e para a dignidade das instituições.

E portanto, se fizermos as contas e se as coisas seguirem tranquilamente dentro do que for possível para o ministro da Administração Interna, pelo menos até setembro, é essa a ideia, ele manter-se no cargo. A questão é saber se depois de setembro ele terá condições para isso quando aparecer esta comissão de inquérito. E é curioso que até Hugo Soares, o número dois do PSD, braço direito de Luís Montenegro, tenha falado desse prazo de uma forma muito curiosa.

Sim, isso é meramente análise feita por terceiros, gente que conhece bem a forma de pensar de António José Seguro, gente que está atenta aos desenvolvimentos que vão ocorrendo e que aponta esse, podemos chamar-lhe lapso freudiano de Hugo Soares, quando em entrevista no domingo à CNN Portugal acaba por dizer que espera que o elenco do governo seja o mesmo em setembro e acrescenta a palavra: "E será, provavelmente." Acrescenta esse advérbio do provavelmente. O próprio Hugo Soares, com todo o peso que tem junto de Luís Montenegro, teve o cuidado de manter alguma margem para que possam existir mudanças a partir desse período crítico que é o mês de agosto e o mês onde se espera que o combate aos incêndios seja mais intenso. Setembro é um mês que pode ser decisivo para a continuidade de Luís Neves, não só porque se encerra esse período, mas como será o momento de discutir se a Comissão Parlamentar de Inquérito avança ou não e em que termos. Também é um mês a ter em conta. Isto não significa nem que Luís Neves saia em setembro, nem que permaneça no cargo depois dessa data. Está tudo em aberto. A vontade, se pudermos resumir assim, a vontade do governo é que Luís Neves continue como ministro da Administração Interna. Reconhece-se que está a fazer um bom trabalho, reconhece-se que tem potencial para ser um excelente ministro da Administração Interna. Também se reconhece que está numa situação de grande fragilidade e que, pondo as coisas nestes termos, basta um empurrãozinho para ficar numa situação insustentável. Tudo isto vai ser medido, aliás, muito cuidadosamente nas próximas semanas e meses.

Vamos aguardar com atenção, Miguel. Obrigado.

Obrigado.

Hoje eu conversei com o editor adjunto de política do Observador, o Miguel Santos Carrapatoso, sobre a forma como o Presidente da República está a acompanhar a gestão do caso Luís Neves. O Miguel escreve sobre isso no jornal e explica como Seguro está preocupado com os efeitos que este caso tem na credibilidade da Polícia Judiciária, por exemplo, e sobretudo, que possa arrastar momentos de degradação institucional, como a ainda mal explicada vandalização do gabinete de André Ventura, que o presidente do Chega ligou precisamente ao ministro da Administração Interna. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.