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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que se passa em Los Angeles beneficia ou prejudica Donald Trump?
"California may be first, but it clearly will not end here. Other states are next. Democracy is next. Democracy is under assault before our eyes. This moment we have feared has arrived."
O governador da Califórnia acusa o presidente dos Estados Unidos de violar a Constituição norte-americana ao enviar militares para Los Angeles. Gavin Newsom, democrata com aspirações presidenciais, diz que a democracia nos Estados Unidos está sob assalto. Primeiro a Califórnia, depois outros estados. Os protestos anti lei de imigração e contra as deportações em massa começaram em Los Angeles, mas alastraram já outras cidades. Washington anuncia que vai repor a lei e ordem e mobilizou praticamente 5 mil militares. É sobre o que se está a passar em Los Angeles e as consequências da resposta de Donald Trump, que vou conversar com José Carlos Duarte, jornalista da Internacional do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de quinta-feira, 12 de junho. Bem-vindo, José Carlos.
Olá, Ricardo.
José Carlos, o que se está a passar em Los Angeles?
Está a acontecer muita coisa, mas tudo começou na passada sexta-feira, quando o Serviço de Imigração e Controlo de Fronteiras levou a cabo várias rusgas em vários pontos de Los Angeles para ter imigrantes que estão em situação irregular. Em resposta, vários grupos de defesa de imigrantes convocaram manifestações, muitas delas ocorreram perto, por exemplo, de centros de detenção do Serviço de Fronteiras. E foi aí que começaram todos estes tumultos, todos estes protestos, que levaram depois a uma resposta musculada do governo Donald Trump.
E as autoridades locais, as autoridades da cidade de Los Angeles e do Estado da Califórnia, não conseguiram controlar estes tumultos, ou conseguiram?
Essa não é a versão que o governador da Califórnia, Gavin Newsom, deu. Segundo o governador e também a mayor de Los Angeles, Karen Bass, as autoridades estavam a dar resposta aos protestos e às manifestações e isso ficou provado porque nunca pediram ajuda à administração Trump. Ou seja, era uma questão estatal, não federal. Entretanto, também é certo que a situação escalou, houve mais protestos, houve mais tumultos e isso fez com que a autarca de Los Angeles até ordenasse o recolher obrigatório, que neste momento está em vigor entre as 20:00 e as 06:00 horas locais.
E é neste contexto que o governo federal, neste caso Donald Trump, entra em cena e envia militares da Guarda Nacional e dos Marines, dos fuzileiros, para Los Angeles. É neste contexto que há este envio de militares, as Forças Armadas, para aquela região, é isso?
Sim, é para responder aos tumultos, mas isto foi contra a vontade do governador da Califórnia. Inicialmente, a administração de Trump enviou 2 mil militares da Guarda Nacional para Los Angeles, e aí sucedeu-se uma troca de acusações entre o governador e o presidente, e Donald Trump ainda respondeu com mais força. Na segunda-feira, após trocas de acusações entre o governador e o presidente, Donald Trump decidiu enviar 700 fuzileiros para Los Angeles e na madrugada de terça-feira ainda foram enviados mais 2 mil militares da Guarda Nacional, sendo que neste momento estão 4 mil, para colaborar também com as autoridades locais. Portanto, existe a polícia de Los Angeles que também está a controlar a situação e estão estas autoridades todas a tentar colaborar para parar os protestos.
José Carlos, nós olhamos para tudo isto com as nossas lentes, as lentes portuguesas, e temos que pensar que só o estado da Califórnia tem 424 mil km². Portugal tem 92 mil. Portanto, estamos aqui a falar deste tipo de realidade. Os militares por cá podem atuar e atuam no território nacional, nomeadamente em ações de proteção civil. Nos Estados Unidos, não podem entrar assim nos estados e ajudar a conter os tumultos?
Normalmente podem, só que costuma ser uma colaboração entre as autoridades federais e as autoridades estatais. Ou seja, costuma haver uma sintonia entre os dois poderes. Só que neste caso, isso não aconteceu. A Guarda Nacional é uma espécie de força híbrida, que responde quer a ordens dos estados, quer a ordens do governo em Washington.
Mas são militares.
Mas são militares, sim. Fazem parte das Forças Armadas.
Podemos ter, às vezes, a tentação de se calhar equiparar à nossa GNR, mas não, a GNR cá tem competências policiais e aqui são militares.
São militares na reserva, é certo, mas são militares. Mas é muito raro que haja aqui esta discordância e é isto que acaba por causar tanta polêmica nos últimos dias. Aliás, a última vez que isso aconteceu foi em 1965, ou seja, há bastantes anos. Esta disposição política, o envio da Guarda Nacional para determinados estados contra a vontade dos governadores, só pode ser em três casos. O primeiro é quando os Estados Unidos estão em risco de serem invadidos. O segundo é quando o presidente julga que é incapaz de executar as leis norte-americanas. E a terceira é quando existe uma rebelião ou perigo de uma rebelião. E é neste último argumento que Donald Trump está a apoiar-se para enviar a Guarda Nacional e os fuzileiros.
Mas estes militares têm funções policiais?
Eles têm funções de segurança e protegem os funcionários federais, neste caso, os funcionários que trabalham para o Serviço de Proteção de Fronteiras, que estão a fazer as rusgas. E como as manifestações foram perto de centros de detenção.
Edifícios federais, é isso?
Sim, e a administração Trump diz que a vida dos funcionários estava em risco. Há aqui uma espécie de proteção destes trabalhadores e é daí que também a guarda nacional foi enviada para Los Angeles.
Cá esses dois lados, há o lado do Estado da Califórnia, depois há o lado federal dos Estados Unidos, o que para nós é uma realidade muito distante.
Sim, não existe isso, mas nos Estados Unidos há estas duas vertentes. E quando não estão em sintonia, que é o caso, a situação complica-se sempre.
Já voltamos à conversa com o José Carlos Duarte, jornalista da secção de internacional d'O Observador. Esta demonstração de força da Casa Branca beneficia ou prejudica o presidente Donald Trump? Estamos de regresso à conversa com o José Carlos Duarte, jornalista da secção de internacional d'O Observador. José Carlos, pelo que já explicaste, é compreensível a utilização do argumento constitucional para criticar a atuação da Casa Branca. Mas não há aqui também luta política pura e dura? O governador da Califórnia é do Partido Democrata, pode vir a ser candidato à presidência e o discurso de que ouvimos um pequeno excerto no arranque desta história do dia, são oito minutos de um manifesto anti-Trump, basicamente.
Sim, está certo. Gavin Newsom é, sem dúvida, um dos nomes mais bem colocados dentro do Partido Democrata para concorrer às primárias em 2028 e depois, se vencer, à Casa Branca nesse mesmo ano. E é indiscutivelmente um político experiente, já lidera a Califórnia há vários anos e ainda assim, apesar de governar a Califórnia, que é um Estado tradicionalmente mais progressista e até de esquerda, ele é um moderado dentro do Partido Democrata. Ele era muito próximo de Joe Biden, ainda continua a ser, mas noutro relevo. E é, sem dúvida, um nome que gera algum consenso entre os democratas. E a luta contra Donald Trump, este combate político que este caso lhe confere, dá-lhe, sem dúvida, capital político. Não nos esqueçamos que o Partido Democrata está a atravessar aqui uma travessia pelo deserto, depois ter perdido as eleições em novembro, ter perdido a presidência, a Câmara dos Representantes e o Senado. Ou seja, neste momento há poucas pessoas que queiram dar a cara pelo partido e Gavin Newsom encontrou aqui um espaço para se afirmar. E também convém dizer que ele está em final de mandato, ou seja, as eleições para a Califórnia são em 2026 e, portanto, ele tem que aproveitar este momento também para lançar e para se afirmar politicamente. E eu acho que também para ultrapassar outros possíveis candidatos, como por exemplo, o governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, ou até mesmo Kamala Harris, que ainda não especificou qual será o seu futuro político. Ou seja, há aqui realmente uma tentativa de se afirmar. Aliás, que já tinha acontecido em janeiro, com os incêndios em Los Angeles, e essa tentativa vê-se novamente agora de tentar ganhar capital político e balanço para as eleições secundárias.
Ou seja, de um lado e do outro, há aqui um aproveitamento político também dessa situação.
Sim, Gavin Newsom quer ser o líder da oposição a Donald Trump, ao trumpismo, ao Partido Republicano, e está a tentar posicionar-se dessa forma.
E este sábado, além de ser o aniversário de Donald Trump, acontece algo em Washington que também poderá ser importante para aferir em que ponto é que estamos desta luta política e não só.
Sim, no sábado vai haver uma grande parada militar em Washington DC e coincide com o aniversário de Donald Trump, mas a razão oficial tem a ver com o facto de as Forças Armadas norte-americanas terem sido fundadas há 250 anos, portanto, é a comemoração desta efeméride que está na base da parada militar. Mas é certo que vários críticos da presidência relacionam esta parada mais com uma forma de Donald Trump se exaltar, de Donald Trump mostrar o seu poder do que propriamente um evento comemorativo, porque o 14 de junho, nas Forças Armadas, nos Estados Unidos sempre foi celebrado, mas de forma muito discreta. Este ano há aqui um grande evento, tudo bem que são 250 anos, mas também há aqui o facto de calhar no aniversário de Donald Trump.
Porque estes tumultos, esta parada e a resposta que poderá ser dada aos eventuais protestos durante a parada, no fundo, são importantes para isso mesmo, para aferir também até que ponto as Forças Armadas estão ou não com o presidente. Não é exagero, sendo a realidade norte-americana diferente da nossa, pensar que há o eventual desconforto dos militares com Trump? Isso não passará disso mesmo, um eventual desconforto, poderá ser algo mais generalizado?
Eu acho que há, sem dúvida, alguma facção das Forças Armadas norte-americanas que está certamente desagradada com tudo o que está a acontecer, não só a questão da Guarda Nacional ter sido enviada para Los Angeles, como também a parada militar.
Sente-se instrumentalizada, podemos dizer isso?
Sim, politizada. Ou seja, as Forças Armadas estão aqui a ajudar a cumprir fins políticos e não fins militares. E alguns militares disseram à imprensa norte-americana Que o seu juramento não foi a um presidente, não foi a um chefe de Estado, foi a uma constituição e que se devem manter independentes de qualquer manifestação política. E portanto, há aqui esta sensação de dever com a Constituição face a tudo o que está a acontecer, cria uma espécie de desconforto para muitos militares. Mas eu acho que ainda é cedo para avaliar o quão desconfortáveis estão, ainda que eu acho que no sábado, não só com o desfile militar, como com os protestos que foram organizados para mostrar e para marcar uma posição contra Donald Trump, será um palco para perceber em que lado é que estão as Forças Armadas.
É um medidor de forças.
Sim, este medidor de forças vai ser efetivamente uma demonstração de para que lado é que mais ou menos estão.
Mas Zé Carlos, aqui chegados, e esta resposta dura de Donald Trump vai ou não vai ao encontro das expectativas dos eleitores que lhe deram a vitória? Ou seja, apesar das dúvidas constitucionais que já percebemos que existem sobre a forma como os militares foram convocados para esta questão dos tumultos, como tudo isto está a ser gerido, Trump acaba por sair a ganhar ou não?
Eu acho que sai, sem dúvida, a ganhar. A base eleitoral do Partido Republicano está com Donald Trump. Esta questão em particular da imigração é, sem dúvida, um tópico sensível entre os eleitores do Partido Republicano e tem uma espécie de magia de juntar todos os eleitores do Partido Republicano. A imigração é uma questão quase consensual dentro do partido, deve haver menos imigrantes, os que estão em situação irregular devem ser expulsos e, portanto, estas ações da Guarda Nacional são justificáveis por causa do fim, que é expulsar imigrantes que não estão em situação regular. E eu acho que entre o partido é realmente uma ação popular. E também tem a vantagem, eu diria, para a fação mais radical, de haver esta luta, que já se vê há alguns anos nos Estados Unidos, entre este movimento antissistema do Make America Great Again, dos MAGA, contra a elite dominante, a elite que vive principalmente onde? Na costa oeste e na costa leste, mas principalmente na costa oeste, na Califórnia. Kamala Harris era de Los Angeles, vive em Los Angeles e, portanto, há toda esta espécie de luta contra o regime, contra o sistema, que galvaniza, diria, a fação mais radical do Partido Republicano, que não só está ligada com a questão da imigração, que é abertamente contra, como também fica bastante emocional, temperamental com tudo o que está a acontecer. Eu acho que isso também já é uma forma de combater um futuro adversário político, ou seja, já a tentar aqui limitar as hipóteses também de Gavin Newsom, ou seja, mostrar o quão débil é, o quão ele não consegue dar resposta a estes problemas. E acho que os republicanos também já estão com essa estratégia, porque percebem que também lhe estão a dar palco, não é? E há que também aqui mostrar que ele não é eficaz, que ele comete erros, que tem problemas e, portanto, há aqui realmente já a tentativa de anular politicamente. E eu acho que também, e acabando, é também uma forma de desviar atenções. Ou seja, a semana passada ficou marcada pela discussão entre Donald Trump e Elon Musk nas redes sociais e acho que esta ação, o envio de militares, faz com que esse assunto perca grande destaque e haja aqui outros assuntos que surjam.
Há um novo tema.
Há um novo tema, há um novo assunto em que os canais de televisão vão estar sempre a cobrir. E eu acho que isso acaba por também o ajudar politicamente a afirmar-se.
Obrigado, Zé Carlos.
Obrigado.
José Carlos Duarte é jornalista da secção de internacional d'O Observador. Ficam ainda algumas notas para esta quinta-feira repleta de efemérides. José Luís Carneiro entrega a candidatura a secretário-geral do PS. É o último dia para o fazer e até ver não há oponente. As eleições são a 27 e 28 de junho. E esta quinta-feira, Portugal e Espanha assinalam com pompa e circunstância os 40 anos da assinatura do tratado de adesão à CEE, hoje União Europeia. E numa outra efeméride importante para a identidade nacional, o Zé Povinho, criado por Rafael Bordalo Pinheiro, faz esta quinta-feira 150 anos. Lisboa prepara-se para a noite mais longa do ano. Esta sexta-feira é dia de Santo António, feriado municipal em Lisboa e noutros 14 municípios. O santo, que nasceu em Lisboa e morreu em Pádua, tem fama de casamenteiro. Por isso, esta quinta-feira há casamentos de Santo António e à noite há desfile de marchas na Avenida da Liberdade, bailes e sardinhas um pouco por todo o lado na cidade. Mas como o feriado é municipal, amanhã há história do dia. A sonoplastia deste episódio é do Bernardo Almeida, a música e o genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.