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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que se passa na ilha de São Jorge, nos Açores.

Que passa também por fazê-lo através da própria rádio local, mas havendo falhas de comunicação e não havendo redes sociais a funcionar nem a própria rádio, será feito, e não será feito só em alternativa, será feito em simultâneo o replicar dos sinos nas freguesias, algo que já está articulado com os senhores presidentes de junta.

Luís Silveira é o presidente da Câmara Municipal de Velas, na Ilha de São Jorge. Através da RTP Azores, explica que os velhos sinos das igrejas vão tocar em caso de alarme. Aquela zona da ilha tem sido palco de dezenas de sismos e há o receio de uma erupção vulcânica que faz lembrar o que aconteceu em La Palma, nas Canárias, entre setembro e dezembro do ano passado. Em Urzelina, na ilha de São Jorge, há uma torre da igreja cravada na terra. Está escondida entre árvores. As paredes são brancas e os pilares e a base negros do basalto. É o que resta da igreja engolida pela lava em maio de 1808. O perigo de uma erupção vulcânica na ilha de São Jorge é real? Hoje vou conversar com o professor José Madeira, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. É especialista em regiões vulcânicas e tectônica. Bem-vindo, José Madeira.

Olá, Ricardo. Obrigado pelo convite.

Professor, o que está acontecendo afinal na ilha de São Jorge, nos Açores?

O que está ocorrendo é aquilo que designamos como uma crise sísmica ou um enxame sísmico. Sismos esses que têm sido muito frequentes, mas de magnitude relativamente baixa. Portanto, o sismo de maior magnitude foi de 3,3, mas a grande maioria deles está mesmo abaixo de magnitude dois. São sismos muito pouco energéticos.

Isto deve-se a um ajuste nas placas que se cruzam ali naquela região?

Pois, isso é a questão que falta saber. De fato, a ilha de São Jorge é atravessada por um conjunto de falhas ativas, falhas essas que produzem sismos. E neste momento não é claro se aqueles sismos estão associados à movimentação dessas falhas simplesmente ou se poderão envolver o sistema magmático ativo.

Isso quer dizer?

Isso quer dizer que as erupções que ocorrem em São Jorge se localizam ao longo dessas falhas ativas e, portanto, se as falhas ativas se movimentarem, elas podem fazer com que haja uma resposta do sistema magmático e eventualmente evoluir para uma erupção. Foram sentidos 11 sismos, de acordo com o Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores.

Esses sismos que estamos a assistir e segundo aquilo que está a explicar, podem no fundo ser então ou uma libertação de energia ou um prenúncio de uma erupção. É isso?

Exato. Os sismos tectônicos e a sismicidade que está a ocorrer têm características tectônicas até este momento. Não há ainda sismos com características vulcânicas. Eles têm um sinal distinto. Correspondem a uma libertação de energia acumulada nas rochas, que se partem e libertam essa energia acumulada. No entanto, são sismos de muita baixa energia. Estas crises sísmicas são bastante frequentes no arquipélago. Depois terminam sem acontecer mais nada. Mas há outros dois cenários possíveis. Há casos nos Açores em que no decurso desta crise sísmica ocorre um sismo de magnitude alta. Isso sucedeu, por exemplo, em 1841, na ilha Terceira, na região nordeste da ilha Terceira, onde já tinha havido um sismo no século XVIII, muito destruidor, que causou mortes, etc. E em 1841, quando se iniciou a crise sísmica, as pessoas com medo que viesse um sismo grande passaram a dormir ao relento. Armaram tendas e não dormiam em casa. E, de facto, a meio da crise veio um sismo de magnitude mais elevada, que causou uma grande destruição, mas não causou vítimas mortais. E o terceiro cenário possível, como eu disse há pouco, o sistema magmático ativo da ilha de São Jorge está asociado a estas mesmas falhas e, portanto, se esta sismicidade produzir uma resposta do sistema magmático pode evoluir pra uma erupção.

Hoje às 15h30 foi comunicada a subida para o nível V4 de alerta vulcânico, que significa possibilidade real de erupção.

E quais são os sintomas que levam os cientistas a admitir como possível essa erupção? Quais são os sinais?

São, por ejemplo, os sismos tornarem-se progressivamente mais superficiais, é a ocorrência de sismos com características vulcânicas, que correspondem às vibrações produzidas pela movimentação de magma ou fluidos magmáticos nas fraturas. É, por um lado, deformação topográfica, porque muitas vezes as erupções causam um empulamento da topografia que pode ser detetado através de técnicas como, por exemplo, o GPS de precisão.

É como se a Terra mudasse de forma, é isso?

Exatamente. Há variações que podem ser da ordem Dos centímetros ou, às vezes, em certos casos, até superiores, que mostram que há qualquer coisa que está a ser injetada em profundidade e que está a deformar a superfície topográfica.

E há mais algum sintoma?

E depois há o sintoma, que é a resposta do sistema geotérmico com um aumento da libertação de gases vulcânicos. Os magmas são ricos em gases, gases estes que estão dissolvidos quando o magma está sob pressão. E à medida que o magma ascende para níveis mais superficiais, a redução da pressão faz com que os gases se começam a libertar, a resolver do líquido. E o primeiro gás que se liberta com essas diminuições de pressão é o dióxido de carbono e depois mais tarde o dióxido de enxofre.

E nessa altura, olhando para esses sintomas, algum deles se está a manifestar ou não?

Eu não tenho ainda informação sobre os levantamentos de emanação difusa de gases que estão a ser feitos pelos colegas da Universidade dos Açores. Relativamente à deformação, as estações de GPS que estão a funcionar na ilha não mostram nenhuma deformação, para já. Há uma análise das imagens de satélite que mostra alguma deformação, mas necessita de ser confirmada pela comparação com outras imagens, que vão demorar ainda alguns dias até o satélite as obter. Portanto, para já, existe uma sugestão de que a erupção é possível, mas é algo que é necessário ainda confirmar.

Aqui fala André Silveira, presidente junto da freguesia da Urzelina, uma das mais lembradas a nível vulcânico. Estou aqui para vos dar algum contributo e partilhar alguma informação que vá acontecendo durante estes dias que vivemos, que são um bocadinho adversos.

Professor José Madeira, vamos só dar aqui um salto ao passado, a maio de 1808. O que aconteceu?

Em 1808 ocorreu a segunda erupção histórica na ilha de São Jorge. Já tinha havido uma erupção em 1580 e em 1808 ocorreu outra, que é conhecida como a erupção da Urzelina, porque os centros eruptivos abriram na vertente sobranceira à vila da Urzelina. Essa erupção começou nesse ponto e depois migrou, avançou para oeste, saltou dois quilómetros e depois novamente dois quilômetros, emitiu uma pequena quantidade de lavas e regressou ao ponto inicial. Nessa altura, a população da Urzelina já tinha evacuado a povoação, embora o padre se tenha mantido na igreja.

A tal igreja de que só resta a torre?

Exatamente, a tal igreja de que só resta a torre. E quando finalmente começaram a ser emitidos derrames lávicos que correram pela vertente abaixo, o padre tocou o rebate a pedir ajuda à povoação vizinha para remover as imagens e os paramentos da Igreja da Urzelina por uma capela situada um pouco mais a leste.

Hoje começámos o dia por preparar as medidas de evacuação, nomeadamente o toque do sino da igreja, mesmo num caso hipotético de corte de energia, uma vez que o sino funciona através de energia. Preparamos outro sistema que não necessite de estar alimentado a fonte de energia e também aproveitámos e estivemos a tentar prevenir danos dentro da igreja e com o património dela.

Quando estavam nessa tarefa de transportar as coisas da Igreja da Urzelina, essa erupção produziu fluxos piroclásticos, que são nuvens incandescentes muito quentes de gases e partículas vulcânicas que descem a grande velocidade pelas encostas e que apanharam esse grupo de pessoas que estava a realizar esse trabalho. Essas pessoas sofreram queimaduras muito graves, muitas delas morreram logo a seguir e portanto não se sabe exatamente o número de vítimas, mas terá andado autour de pelo menos dez pessoas. O padre da Urzelina estava abrigado na kapela e sobreviveu.

Professor, podemos dizer que a ilha de São Jorge é o resultado de uma ou de mais erupções, a ilha tal como a conhecemos?

A ilha de São Jorge é uma ilha muito particular no arquipélago dos Açores, porque é uma ilha muito longa, com cerca de 55 km de comprimento por apenas sete de largura máxima e eleva-se mais de mil metros acima do nível do mar. E por que ela tem essa forma? Porque o vulcanismo que deu origem a essa ilha ocorre ao longo precisamente de uma fratura, de uma zona de falha que tem a orientação da ilha. É a acumulação dos produtos de milhares de erupções que fez com que o edifício vulcânico fosse crescendo a partir do fundo do mar até finalmente emergir. Essas erupões ocorreram em diferentes fases. As erupções mais antigas que afloram acima do nível do mar têm dois milhões a um milhão de anos. Depois disso, há uma outra fase à volta dos 500, 600 mil anos. Depois há uma outra à volta dos cem a duzentos e tal mil años. E a última fase de atividade vulcânica intensa terá começado há cerca de oito a 10 mil anos. E é esse sistema que é o sistema atualmente ativo. Ao longo dessa zona, nós temos muitas dezenas de cones vulcânicos, cada um deles o resultado de uma erupção. Portanto, ao ocorrer uma erupção neste momento na ilha de São Jorge, ela é apenas uma das muitas dezenas de erupções que ocorreram nos últimos dez a oito mil anos.

Qual é a probabilidade de ocorrer uma erupção vulcânica em São Jorge? Consegue atribuir uma percentagem a essa probabilidade?

Não é possível indicar um número, mas eu diria que é uma probabilidade média. Portanto, não há uma resposta pra essa pergunta. Isto é uma questão de continuar a observar o que se passa e interpretar as informações que a atividade nos dá e depois verificar se tudo aponta para uma erupção iminente, mas em termos de probabilidades, não é possível dizer.

Mas sabemos qual seria a zona da ilha mais afetada ou não?

Sim. Isso pelo menos pela distribuição atual dos sismos, nós sabemos que provavelmente será ao longo duma das falhas que atravessa essa zona oeste da ilha, que começa na zona do Pico do Carvão e se estende pela vertente sul da ilha entrando no mar numa Zona das Velas. E dentro desse troço de falha há duas zonas onde há maior concentração de sismos e que serão os dois locais potencialmente mais prováveis para uma erupção vir a romper. Infelizmente, os dois locais onde essa probabilidade é maior são precisamente por cima da Vila das Velas, que é a capital da ilha de São Jorge, é uma das duas vilas que existem na ilha e a outra é por cima nas vertentes sobranceiras ao aeroporto.

Na zona da Urzelina.

Não, ainda mais pro Oeste, portanto, na zona da Queimada.

Vimos agora recentemente tratar da retirada, não quero chamar evacuação, mas sim retirada, do lar de idosos da freguesia da Urselina, nomeadamente preparação e desmontagem de camas, colchões e colocar num sítio no conselho da Calheta que seja mais seguro e tratar de apoiar toda essa logística, que são estas pessoas que têm mais dificuldade quando possa ser necessário sair da freguesia.

Ouvíamos aqui André Silveira, o presidente da Junta da Urzelina. As medidas que as autoridades açorianas estão a tomar parecem-lhe suficientes?

Sim, o Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores é aconselhado pelos colegas da Universidade dos Açores, pelo CIVISA. Eles estão a receber aconselhamento constante à medida que a situação evolui. Já traçaram planos pros diferentes cenários possíveis que se poderão vir a verificar. De modo que, conforme já pudemos ouvir pelas notícias, as pessoas são aconselhadas a ter uma mochila com os seus documentos, medicação, muda de roupas, etc., pra poder evacuar a qualquer momento. De momento, não faz sentido mandar evacuar já as populações dessas zonas. Haverá sinais premonitórios suficientemente com algum tempo de antecedência para que as pessoas evacuem rapidamente. Elas tão preparadas pra isso.

Deixe-me pegar nesse ponto, que é o tempo de aviso que temos. Há algum sinal inequívoco que diga: "Atenção, isto vai acontecer e temos agora uma hora, meia hora, dez minutos". Isso é possível?

O tempo exato disponível não é possível indicar. Mas se a sismicidade subitamente começar a tornar-se cada vez mais superficial, aí, sim, é um sinal de que uma erupção poderá estar iminente.

Menos de dez quilômetros de profundidade? Qual é a...

Exatamente. Os primeiros sismos, no dia 19, sábado, estavam a profundidades inferiores a dez quilômetros e depois, a partir daí, têm estado na ordem dos dez a vinte quilômetros e agora no último dia e meio, parecem estar mais ou menos estabilizados a dez, treze quilômetros. Não tem havido uma tendência de se tornarem mais superficiais. Para já, as evidências que existem não são ainda alarmantes.

Pegando em tudo o que disse até agora, temos então a possibilidade de ter um grande sismo ou uma erupção do tipo La Palma, nas Canárias, ou ambos?

Não, em princípio, ou um cenário ou outro. Se a crise não terminar sem mais nada. Ou acontecerá uma coisa ou outra. A erupção a ocorrer será uma erupção que envolve magmas basálticos, semelhantes àqueles que foram emitidos na ilha de La Palma. A ilha de La Palma é também um sistema fissural como a ilha de São Jorge, com a desvantagem de que São Jorge é uma ilha bastante mais íngreme que a de La Palma, o que quer dizer que os derrames lávicos que forem produzidos descerão muito rapidamente pelas encostas da ilha. Além do mais, a ilha tem muita água no subsolo e essa água pode interferir com o sistema vulcânico e dar explosões que nós designamos como explosões freáticas.

É como se fosse uma caldeira a explodir?

Sim, digamos que sim, é uma coisa desse tipo. Quando olhamos pras erupções históricas, pras duas que ocorreram em terra, porque houve uma no mar em 1964, nós verificamos que ambas as erupções produziram fluxos piroclásticos. Em 1580, o primeiro foco eruptivo dessa erupção foi precisamente do outro lado da Baía das Velas, numa vertente bastante íngreme, e o cone à medida que foi crescendo nas primeiras horas de erupção acabou por colapsar graviticamente. Deu origem a um fluxo piroclástico do tipo nuvem ardente E esse fluxo piroclástico apanhou um grupo de pessoas que tinha ido à Fajã da Queimada tentar recolher equipamentos agrícolas que tinham lá nos campos. Nesse caso, também houve vítimas em consequência de um fluxo piroclástico, tal como em 1808. Estas erupções de São Jorge são um pouco mais perigosas do que aquelas que ocorreram em La Palma.

A população, em geral, está nervosa com a situação, ainda por cima as condições do tempo já não são as melhores. Temos pessoas que estão em pânico e estão a sair, outras pessoas que não querem saber, continuam a sua vida normal e acham que isto não vai ser nada. Esperemos que não, temos esperança que não. Ainda assim, temos que estar alerta e prevenidos para o caso de alguma eventualidade ou necessidade de sair em segurança.

No limite, perante estes cenários, professor José Madeira, os Açores podem ficar com mais uma ilha se São Jorge se dividir em dois, com um novo vulcão, ou isto são cenários que não se colocam?

Não. A ilha dividir-se em duas não ocorrerá, nem desaparecerá e nem se formará uma nova ilha, a não ser que a erupção ocorra no mar e aí pode-se formar um pequeno cone vulcânico que eventualmente pode emergir e formar uma pequena ilhota. Aliás, imediatamente a oeste da Vila das Velas há o Morro das Velas, que é um vulcão que começou precisamente por uma erupção submarina. Um pouco mais a oeste há o Morro do Lemoes, outro vulcão um pouco mais antigo que também resultou de uma erupção submarina. Se ocorrer uma erupção submarina, pode formar-se numa pequena ilha. Será uma erupção semelhante à dos Capelinhos e eventualmente formará uma pequena ilha que pode ou não depois unir-se a terra. Esse cenário é um cenário em que não haverá produção de derrames lávicos, mas certamente produzirá uma grande quantidade de cinzas. Cinzas essas que afetarão, sem dúvida, a região das Velas.

Muito obrigado, professor José Madeira.

Obrigado eu.

O professor José Madeira é um especialista em regiões vulcânicas e tectônica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Neste episódio ouvimos ainda uma declaração de Clelio Meneses, o secretário regional da Saúde, numa conferência de imprensa que foi transmitida pela RTP Açores. Ouvimos também mensagens de áudio que nos foram enviadas pelo presidente da Junta de Freguesia de Urzelina, André Silveira, e que nos ajudam a ter uma ideia do que está a acontecer no terreno. Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.