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No fim da Assembleia Popular em que tentaram definir estratégias para a luta, os manifestantes jogam xadrez
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▲No fim da Assembleia Popular em que tentaram definir estratégias para a luta, os manifestantes jogam xadrez

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

▲No fim da Assembleia Popular em que tentaram definir estratégias para a luta, os manifestantes jogam xadrez

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

O dia em que a descampada recuou para tomar balanço

Acampada decidiu voltar a montar as tendas no sábado e vota sexta-feira propostas de organização que até a Assembleia Popular põem em causa. Avisa que não sairá para dar lugar ao Mercado de Natal.

A maior decisão foi tomada pela organização pouco depois das três da tarde: sábado volta a “pernoita” e a “montagem de tendas” no Rossio. Isso pode significar nova carga policial e, por isso, os manifestantes procuram ganhar fôlego e organizar-se. A Assembleia Popular, que começou às nove da noite, teve por objetivo melhorar os processos de decisão, com propostas tão livres que a extinção da própria assembleia foi colocada em cima da mesa. Pelo meio houve outra novidade: a Acampada de Lisboa avisou que não vai sair da Praça D. Pedro IV por começar o habitual mercado de Natal no Rossio.

A estrutura vai ficando cada vez mais profissional. A cantina serviu mais de 200 refeições e no palco, à hora prevista, uma das porta-vozes do movimento e a habitual anfitriã tomou o microfone. Priscila Valadão está cansada e vai-se perdendo nos dias: “Não sei se é a 12.ª, a 13.ª ou 14.ª Assembleia Popular”. Chega lá com a ajuda do público: “É a décima terceira“. Estavam 200 pessoas, mas chegaram a estar cerca de 300.

Priscila Valadão começa a chamar os manifestantes com uma crítica irónica ao presidente da câmara: “Sentem-se nesse chão delicioso, que o Moedas deixou limpinho para nós”. O chão está imundo e Priscila queixa-se que está “picada” pelo que desconfia serem “pulgas“. Não faz nenhuma referência a Orwell que durante a Guerra Civil espanhola, como eternizou na Homenagem à Catalunha, dizia que era mais difícil combater as pulgas e os piolhos (nas trincheiras) do que os fascistas (no campo de batalha). Até porque a ativista-anfitriã — uma espécie de apresentadora/presidente da assembleia — avisa que não é suposto naquela noite de quinta-feira fazer “intervenções” políticas, por norma mais ideológicas, mas mais práticas e técnicas sobre “métodos de decisão”.

Reconhece, aliás, que há muita desorganização na organização. “Tudo o que a gente faz é no freestyle. Chutamos em improviso: às vezes fazemos golo, noutras não”, justifica-se. Priscila reitera que as propostas devem ser sobre a forma como decidem na Assembleia Popular. “Os Lenines e os Marxs são importantes, mas hoje não.”

A mega-Acampada, polícia ao longe, perturbação ao trabalho jornalístico

A polícia, a de trânsito, foi tendo alguns elementos a controlar ao longe e chegaram a passar três carrinhas da Unidade Especial da Polícia da PSP uma hora antes da Assembleia Popular. Mas que nem nos semáforos pararam. Já se sabia que não haveria tendas naquela noite. E, se não há tendas, não há problemas com a polícia — que nem chega a aparecer. A única perturbação foram quatro youtubers mascarados de Power Ranger que começaram a fazer barulho a gravar vídeos que levaram a um protesto coletivo por perturbarem as intervenções. Que foram, aliás, todas muito diferentes.

O primeiro a falar foi o Pedro. Só Pedro, sem apelido. Normalmente a votação na Assembleia Popular tem quatro tipos de voto: o sim, o não, a abstenção e o adiamento. O manifestante sugeriu que se invertesse a ordem, já que, se a maioria votasse pelo adiamento, evitava-se perder tempo com as restantes opções. O mesmo ativista sugeriu ainda uma espécie de mega-Acampada única. “Nós queremos acampar, mas temos medo. Depois de sábado [que já está decidido sem votação], devemos unir as duas acampadas e fazer uma só. Quero sugerir o Porto por uma razão política e outra tática”, começa por dizer. E explica depois essas duas razões: “Política e simbólica porque eles foram os primeiros a acampar e a levar bastonada; tática porque o Porto é mais pequeno e se nos juntarmos todos, com 400 tendas, ocupamos mais praças”. As duas propostas de Pedro só serão votadas na sexta-feira.

Seguiu-se Renata Cambra, também porta-voz da Acampada de Lisboa e líder do partido Trabalhadores Unidos, sugeriu criar uma espécie de duas câmaras de decisão: “Manter a Assembleia Popular, que mantenha o poder de decisão, já que seria um erro virar-nos para dentro; e uma outra Assembleia interna, para tratarmos de questões de segurança, apoio jurídico e logística”.

Pelo meio houve propostas para fechar as assembleias aos jornalistas. “Se em casa reunimos sem jornalistas, porque aqui não podemos?”, questionou uma ativista, num ataque à liberdade de imprensa ao mesmo tempo que confundia espaço público com espaço privado. Uma outra manifestante colocou-se à frente da câmara para sabotar um direto da CNN Portugal numa outra afronta ao trabalho dos jornalistas. A organização tenta sempre fazer um controlo de danos, mas não consegue impedir essas perturbações.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Contra a “bófia” e a própria Assembleia Popular, “fruta para caraças” e a “gula continua”

Houve propostas mais radicais, como as que foram lidas por um coletivo de camaradas contra a autoridade. Esse grupo acusou a própria organização da Acampada de ser “vertical” e criticou existirem “discursos oportunistas e com motivações partidárias”. O grupo diz que não é apenas contra “a autoridade do Estado, do capital e da bófia”, mas também “contra modelos autoritários, protoparlamentares”. E despediram-se a dizer que não querem “líderes, organização ou o comité central”, mas apenas “prazer, satisfazer o prazer aqui e agora, junto das nossas companheiras”. E remataram: “Saúde e anarquia“.

Um outro manifestante, apresentado como Cancelinha, saiu em defesa da Assembleia Popular, que considera um “espaço de partilha e diálogo”, que destaca ser muito mais horizontal e democrático e que “nada tem a ver com o Parlamento burguês da Assembleia da República”. Propõe, por isso mesmo, manter as atuais três estruturas de decisão: Assembleia Popular, Plenário de delegados e Grupos de afinidade. António Tonga, outro dos porta-vozes, também corroboraria a defesa da Assembleia Popular: “Podemos melhorá-la, mas acabar com ela era mandar o bebé fora com a água suja”.

Foi ainda proposta a mudança das Assembleias Populares das 19h00 para as 21h00 para que a equipa da cantina e da logística possa participar (sexta-feira ainda será às 19h00). Essa equipa acabaria por intervir e pedir mais donativos, incluindo comida, que já começa a faltar. Fruta é que não. “Graças à Fruta Feia [associada da Plataforma Casa para Viver] há fruta para caraças.” O grupo despediu-se com um slogan personalizado: “A gula continua“.

Ao longo da Assembleia Popular foram feitos ainda vários apelos para que os manifestantes nunca saíssem do espaço sozinhos, sugerindo que pode haver ataques de extrema-direita nas ruas de Lisboa. Foi ainda solicitado que as propostas apresentadas fossem exequíveis e que se evitassem propostas utópicas e irrealizáveis como “abolir o Estado”. Até porque já existem “várias páginas de propostas por cumprir”.

Antes da Assembleia Popular acabar, ainda subiram três mulheres transgénero ao palco a acusar a própria Acampada de ser heteronormativa, de ter uma visão cis do mundo e de as excluir. Apesar das fortes críticas, e da pouca clareza do discurso em alguns momentos, puderam falar mais tempo que os três minutos de limite que tiveram os demais intervenientes. A Assembleia Popular chegou ao fim com música de intervenção a sair das colunas (que como é habitual) fica até às 00h30 a tocar. Por essa hora, a organização arruma tudo.

Acampada está para ficar (sem pausa natalícia)

Os manifestantes estão empenhados em que haja continuidade na Assembleia Popular, que seja diária, mesmo que isso não exista no caso das pernoitas e dos acampamentos que dão nome ao movimento. A Câmara de Lisboa, sabe o Observador, já informou a organização que, na próxima segunda-feira, dia 3 de novembro, vão começar a ser montadas as estruturas do habitual Mercado de Natal do Rossio. Apesar de o mercado só começar no dia 13, há entre os manifestantes quem desconfie que a autarquia utilizará a montagem para tentar acabar com as concentrações no Rossio.

Teresa Mamede, uma das porta-vozes do movimento, disse à Agência Lusa que pretendiam manter-se no local apesar do Mercado de Natal organizado pela Associação de Dinamização da Baixa Pombalina entre 13 de novembro e 21 de dezembro. “O mercado de Natal do Rossio parece-me um problema irrisório perante aquilo que são as mobilizações justas que estão a acontecer nesta praça pelo direito à habitação, pelo fim da precariedade nas nossas vidas, e, portanto, estas mobilizações vão continuar enquanto o movimento popular assim quiser e assim se mobilizar para o fazer”, disse Teresa Mamede. O também porta-voz João Veloso reiterou ao Observador essa intenção de permanecer no Rossio, embora a organização nunca exclua prosseguir a luta noutro local.

As propostas desta quinta-feira vão ser todas votadas esta sexta-feira, mas não impactam no protesto que vai começar no sábado às 16h00 no Largo Camões e que descerá até ao Rossio. Nessa noite serão também montadas várias tendas, embora, até ao momento de uma eventual intervenção policial, esteja sempre em aberto — como já fizeram em algumas circunstâncias — os manifestantes retirarem as tendas. Tudo é estratégia. E os manifestantes tentam prever a melhor jogada. Talvez por isso vários ativistas tenham começado jogos de xadrez pouco depois do fim da Assembleia Popular. No tabuleiro, é claramente mais fácil saltarem de casa em casa.

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