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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o regime poderá cair no Irão?
"אני מזהיר את הדיקטטור האיראני מהמשך ביצוע פשעי מלחמה וירי טילים לעבר אזרחי ישראל."
Israel Katz é o ministro israelita da Defesa e deixa aqui um aviso ao Aiatola Khamenei. Chama-lhe ditador. Diz que se continuar a cometer crimes de guerra e a disparar mísseis contra Israel, deverá recordar-se do que aconteceu ao vizinho iraquiano, no caso, Saddam Hussein. Hussein foi julgado e condenado à morte por um tribunal especial iraquiano. Acabou enforcado depois de perder a guerra. O regime iraniano, uma teocracia, está a ser atacado e em força por Israel, mas até que ponto está ameaçado? E se cair, o que poderá vir aí? São perguntas para Paulo Baptista Ramos, especialista em relações internacionais e profundo conhecedor do Médio Oriente e do Irão. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de quarta-feira, 18 de junho. Bem-vindo, professor Paulo Baptista Ramos.
Obrigado, Ricardo, por mais este convite.
Já aqui falámos na história do dia deste regime teocrático iraniano, mas para quem não ouviu esses episódios, lanço-lhe este desafio: consegue explicar-nos em 30 segundos que regime é este que domina o Irão?
De uma forma muito resumida, é um regime ditatorial, teocrático, como o Ricardo acabou de referir, que chegou ao poder derrubando a monarquia do Xá em 1979 e que, desde então, se tem mantido no poder, apesar de realizar eleições ciclicamente. Essas eleições são meio um simulacro, um fantoche, e é liderado por uma elite religiosa, através de princípios religiosos, assento ou respaldado numa elite militar, nos famosos Guardas da Revolução Islâmica. E logo desde o início de 1979, anunciou ou declarou como seu principal inimigo Israel, precisamente por causa da questão palestiniana.
Exatamente. Uma das razões que levam Israel a bombardear e agora a tentar enfraquecer o Irão, reside na premissa de que um dos grandes objetivos do Irão é a aniquilação do Estado de Israel. Isto é mesmo assim ou é só uma retórica belicosa?
Retórica é, é uma retórica repetida e, como acabei de referir, desde o primeiro dia da fundação da República Islâmica do Irão no ano 1979. E retórica ou não, a verdade é uma: Israel acredita, não é só o Netanyahu, toda a população de Israel, toda a elite política de Israel acha que sim, que existe uma intenção real de o Irão aniquilar o Estado de Israel e da parte do Irão, as políticas que tem desenvolvido desde então, incluindo o desenvolvimento do seu programa militar e do seu programa nuclear, visam também a aniquilação daquilo que o Irão chama o pequeno Satã.
E o Irão usa os chamados proxies. Portanto, quase por procuração, grupos para atacar Israel. Também há esse pormenor, que não é pormenor, é um pormaior.
Exatamente. Parte dessa estratégia defensiva/ofensiva do Irão, ao longo dos últimos 40 anos, tem sido precisamente a fundação, o apoio financeiro, militar, estratégico a esses grupos, que são grupos, na sua maioria, grupos terroristas ou pelo menos são grupos híbridos que combinam estratégias militares com estratégias de terror e até com estratégias religiosas e sociais, caritativas. Portanto, são uns grupos particulares que estão espalhados pelos territórios, pelos países entre o Irão e Israel. Os grupos mais ativos e mais importantes é em primeiro lugar o Hezbollah, que estava baseado no sul do Líbano, portanto junto à fronteira norte com Israel, o próprio Hamas, que a partir dos anos 90 também tem mantido relações estreitas com o regime iraniano, o regime sírio do Bashar al-Assad, que também tem uma vertente xiita e foi muito próximo também do Estado iraniano. E depois há uma série de outros grupos armados, grupos terroristas, quer no Iraque, espalhados pelo Iraque, quer no Iémen, os famigerados Houthis, que também é um grupo rebelde xiita e é ao longo do chamado crescente xiita que operam toda uma série de grupos Que apoiam e servem como linha da frente defensiva do regime iraniano.
Aqui também está em causa o programa nuclear iraniano e a possibilidade do Irão vir a ter armas nucleares. Esta é uma ideia que compreendemos que não agrada a Israel, mas também não agrada aos vizinhos árabes da região, não é?
Correto, sim, afirmativo. Um dos objetivos do regime iraniano, também desde o início, o Irão já dispunha de um programa nuclear criado nos anos 50, ainda no tempo do Xá e apoiado pelos Estados Unidos e logo também a partir do nascimento da República Islâmica na década de 80, houve intenção de desenvolver um programa nuclear civil e militar. E o objetivo principal do desenvolvimento desse programa nuclear de cariz militar, sempre foi a sobrevivência e a manutenção do regime iraniano. Portanto, a elite religiosa e militar iraniana sabe que se conseguir desenvolver uma arma nuclear, a garantia de perpetuação do regime teocrático iraniano é muito maior. Eles costumam comparar com aquilo que aconteceu na Líbia com Gaddafi ou no Iraque com Saddam Hussein, que tentaram desenvolver armas nucleares, não conseguiram. No caso do Iraque, o programa nuclear foi precisamente destruído por um ataque israelita e como não conseguiram, os regimes acabaram por findar, acabaram por ser derrubados por revoltas civis, no caso do Iraque também com intervenção externa americana. E depois apontam o exemplo da Coreia do Norte, que é uma ditadura, neste caso comunista estabelecida nos anos 50, durante a Guerra Fria, e que se mantém firme, robusta, estável, precisamente porque tem um programa nuclear militar bastante desenvolvido e que serve de dissuasão contra eventuais ataques, quer do seu vizinho do Sul, da Coreia do Sul, quer obviamente dos aliados dos Estados Unidos.
E nesta altura, quão fraco está o Irão?
É difícil de afirmar isso. O regime sempre teve momentos de contestação interna, principalmente desde 2009, desde o Movimento Verde de 2009. Ainda há dois anos houve muitas manifestações no interior do Irão com o movimento Mulher, Vida e Liberdade após a morte daquela jovem Mahsa Amini. E todas essas manifestações que têm ocorrido ao longo dos últimos 15 anos, mais ou menos, não foram suficientes para sequer abalar o regime. Portanto, a tal elite que domina o Irão tem conseguido manter-se coesa e ao mesmo tempo bastante sólida no controle e manutenção do poder do Irão. Portanto, isso parece evidente. Agora resta saber com estes ataques da parte de Israel, até que ponto, e só passaram ainda cinco dias, seis dias, até que ponto já foi desgastado o suficiente, principalmente a cúpula do regime, para o fragilizar ao ponto de poder haver alguma mudança de regime.
Já voltamos à conversa com Paulo Batista Ramos, especialista, professor de Relações Internacionais, que conhece muito bem a realidade iraniana. Vamos pegar precisamente neste ponto. Poderá ou não este regime dos Aiatolás cair? Estamos de regresso à conversa com Paulo Batista Ramos, especialista em Relações Internacionais e profundo conhecedor do Médio Oriente. Professor, temos aqui falado dessa hipótese da queda do regime chamado regime dos Aiatolás. Poderá, na sua opinião, cair na sequência desta intervenção ou poderá vir a ser derrubado internamente? Há alguma hipótese disso acontecer?
Hipótese existe sempre, mas eu diria que vai ser difícil. Como referi ainda há pouco, na última década aconteceram várias manifestações internas, todas elas pacíficas, é verdade, um pouco por todo o Irão, em Teerão, na capital, mas em muitas outras cidades iranianas, manifestações contra o regime, contra o guia supremo, Khamenei. Podemos dizer da população de uma forma geral e de setores ténues da oposição, que não se manifesta muito internamente, não pode se manifestar internamente, e essas manifestações não foram efetivamente suficientes, mas também não tiveram nunca uma componente de violência, de ataque direto à cúpula do regime. Ora, isso neste momento é o que está a acontecer, precisamente com os ataques de Israel à cúpula, à estrutura de comando de todas as Forças Armadas do Irão e eventualmente também, ainda não aconteceu, à componente política ou religiosa do regime, portanto, àqueles que governam o país propriamente dito Se estes ataques poderão incentivar ou mobilizar a população para se revoltar contra o regime, ainda não sabemos. Já percebemos que Netanyahu desejaria isso.
Exatamente, está sempre a incentivar isso.
Exatamente. Depois de um primeiro momento de ter dito que os ataques visavam essencialmente o programa nuclear do Irão, começou a incentivar a população, começou a dirigir-se aos iranianos a dizer que o ataque não era contra eles, era contra o regime e que poderia constituir uma oportunidade, visto que no passado não conseguiram.
Professor, vamos imaginar que essa hipótese acontece. Sabemos quem é que poderia seguir-se?
Quem poderia suceder? Há várias hipóteses. A oposição está organizada em vários grupos no exterior do Irão. Há os pahlavistas do Pahlavi, da monarquia, que querem a restauração.
São adeptos do Xá.
Exatamente, do rei, do Xá. Portanto, neste caso é o filho, gostariam de vê-los regressar e há a hipótese de instaurar uma monarquia constitucional. Mas existem também outros grupos no exterior, os Mujahedin-e Khalq, outros grupos da oposição que também estariam interessados em tomar o poder. Obviamente que também há a hipótese de haver uma transição para uma república democrática. Há também no interior do próprio Irão, setores democráticos, um pouco à semelhança do que acontece no Ocidente, que estariam interessados em terminar com a teocracia, não eliminar o poder religioso, mas acantoná-lo, atribuir-lhe o lugar que devem ter em democracia e instaurar uma democracia parlamentar no Irão. Existe massa crítica, existe muita gente, principalmente fora do Irão, mas também no interior do Irão, que estaria com certeza em condições de tomar as rédeas do país e de fazer uma transição pacífica para um regime democrático pró-ocidental.
Professor, e num cenário, porque temos de colocar este cenário quando estamos a falar de Israel, em que o Aiatola Ali Khamenei é assassinado. Vamos imaginar isto, porque Israel já mostrou ser capaz de localizar e eliminar inimigos. Isto, na perspetiva xiita, no olhar dos xiitas, pode transformar Khamenei num mártir e unir ainda mais o país em torno deste regime? Poderia ter um efeito contrário àquele que seria o pretendido por Israel?
Eu julgo que não no sentido em que o Ricardo está a colocar a questão. Eu julgo que a maioria, pelo menos a avaliação que eu faço do que se passa no Irão e principalmente em Teerão e entre a juventude iraniana, é que realmente a maioria da população não quer saber da elite religiosa militar do Irão. Por exemplo, estão a morrer dezenas de líderes militares e pura e simplesmente a população não quer saber disso para nada. Eles não têm qualquer tipo de afeição ou respeito por esta elite militar e religiosa. Penso que o problema será outro, é que a população do Irão, de uma forma geral, não gosta, e julgo que esta é a principal razão pela qual ainda não se revoltaram e não foram para as ruas apoiar os ataques de Israel, a população iraniana nunca iria gostar de ser vista como fantoches nas mãos de Israel. E mais do que serem contra o Khamenei e não gostarem do Khamenei, porque um dos slogans entre a população nas várias manifestações passadas foi "Morte ao Khamenei". Eles desejavam a morte ao Khamenei, "Márg bar Khamenei". E o que eles não gostam é de ser visto associados a Israel ou serem vistos como atores de uma potência estrangeira. É uma população extremamente nacionalista, extremamente patriótica, assente na cultura persa, no orgulho persa, nesse espectro cultural, e nunca gostariam de ser vistos como instrumentos das potências ocidentais, quer seja Israel, quer seja os Estados Unidos, e por isso acho eu que é a principal razão para não se colocarem do lado de Israel e irem para as ruas para derrubar o regime. Mas eu diria que tudo pode ser possível, de um momento para o outro, em escassas horas, escassos dias, tudo é possível. Vimos isso na Síria, de um momento para o outro, um regime cai, é derrubado e a liderança tem que fugir do país. Eu diria que esse cenário ainda está em aberto.
Obrigado, professor Paulo Baptista Ramos.
Eu é que agradeço, Ricardo.
Paulo Baptista Ramos é professor, especialista em Relações Internacionais, um profundo conhecedor do Medio Oriente e do Irão. E para esta quarta-feira, véspera de feriado, ficam várias notas de destaque. Termina a apresentação e discussão do programa de governo no Parlamento, onde será votada e rejeitada a moção de censura apresentada pelo PCP. No Porto, é assinado o acordo político entre PSD e CDS e Iniciativa Liberal para a candidatura de Pedro Duarte à Câmara Municipal. E no Palácio da Justiça, em Lisboa, prossegue o julgamento do caso que opõe Os Anjos a Joana Marques. Os cantores reclamam mais de 1 milhão de euros de indemnização devido a uma piada da humorista. E amanhã não há a história do dia, é feriado de Corpo de Deus, um feriado religioso que se assinala na primeira quinta-feira, 60 dias depois da Páscoa, uma celebração do mistério da Eucaristia. Os católicos acreditam que Jesus está presente no pão e no vinho consagrados nas missas. Em muitas cidades do país, incluindo Lisboa, há procissões nesta quinta-feira. E para quem pretende gozar o feriado e o calor de uma outra forma, esta quinta-feira assinala-se o Dia Internacional do Piquenique. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar e do João Tição, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até sexta.