Há cinco dias que a rotina de David era a mesma: depois de terminar a jornada de oito horas na farmácia onde trabalha, rumava ao Rossio onde pernoitava até às seis da manhã. Voltava depois a casa para tomar banho, descansar um pouco, e regressar ao local de trabalho pouco depois. Esta quinta-feira chegou à Praça do Rossio com dois sacos de cama e agasalhos, pronto para a segunda noite a dormir ao relento, em “conchinha”, com outros manifestantes. Isto depois de a PSP proibir tendas montadas na Acampada de Lisboa e de a organização da manifestação ter improvisado uma dormida ao ar livre na noite de quarta-feira.
Os sacos de cama e mantas regressaram a casa mais cedo, bem como David, depois de a Assembleia Popular decidir esta quinta-feira que não haveria pernoita no local público. A casa para onde o farmacêutico de 24 anos regressou é um T5 partilhado e o quarto onde vai dormir custa-lhe 420 euros por mês. Há pouco tempo soube que o senhorio não quer renovar contrato, nem a si nem aos colegas de casa. “Estou à procura de casa, quero poupar dinheiro porque ambiciono comprar uma casa para mim”, afirma ao Observador David, sem esperança de que essa compra possa ser feita próxim ao local em que trabalha. “O centro [de Lisboa] é um privilégio de poucos”, lamenta.
O jovem de 24 anos não chegou a tempo de votar o destino da sexta noite de protestos na capital, mas confia na decisão da maioria. “A noite de ontem foi muito dura. Sugerimos que a acampada passe para sábado. Precisamos de organizar equipas para as pessoas poderem estar seguras e para não ficarem doentes. Isto não é um sprint é uma maratona”, apelou uma das manifestantes a intervir na assembleia enquanto defendia a proposta de não pernoita junto à estátua de D. Pedro IV. Foram menos de dez os votos a favor da pernoita, com a maioria dos manifestantes no local a abster-se na votação.
“Não vou votar a favor para as mesmas pessoas continuarem a pernoitar aqui”, ouviu-se nesse momento entre as centenas de pessoas que tomavam a decisão da dormida ou não dormida ao relento. David apela a que se continuem a mobilizar pessoas nas redes sociais para juntar mais gente para a “luta no sábado”. Para o dia 24 de outubro está marcada uma manifestação com ponto de encontro no Marquês de Pombal, que voltará a desembocar no Rossio.
Renata Cambra, porta-voz da Acampada e ex-líder do MAS, diz ao Observador que estava “disposta a dormir outra vez ao relento” esta quinta-feira. “Sei que muita gente estava também”, garantiu ainda. “O facto de na assembleia muita gente se ter centrado em recuperar forças para estarmos muito fortes no sábado fez com que mesmo quem estava disponível para acampar tenha achado mais profícuo recuperar da violência que é expor-nos a isto. O Governo obrigou-nos a estar aqui a dormir ao relento”, acusou ainda.
▲ Assembleia Popular votou contra pernoita na praça da capital
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
A porta-voz do movimento garante que a organização continua à espera de uma “resposta concreta” para a crise da habitação. “Sabemos que neste momento está ao nosso alcance uma vitória muito concreta, que é a nossa reivindicação da retirada da nova lei do arrendamento do Parlamento”, afirma. “Sabemos que seria importante manter aqui o protesto, mas também é importante conseguirmos que as pessoas na linha da frente possam recuperar”, defende ainda.
Sem nova “aconchada” à vista, os manifestantes deitaram-se no chão da praça da capital para o “minuto da conchinha”, um novo ato simbólico que dizem que vão repetir diariamente. Tentaram fazer um minuto de silêncio em protesto pelo direito à habitação, mas houve quem rompesse a intenção. “É assim que se vão ganhar casas?”, gritou um manifestante, em desacordo com o gesto simbólico.
Acampada muda-se para Marvila na sexta-feira. Caso do despejo de viúva vai ser contestado em vigília
Do Rossio para Marvila. O movimento da Acampada de Lisboa vai mover-se esta sexta-feira para o Bairro do Condado. O ponto de encontro para uma vigília marcada para as 18h00 é na morada da habitação social de onde uma viúva com dois filhos foi despejada este verão. Em setembro, a Câmara Municipal de Lisboa recusou reverter este despejo garantindo que existiam “2.800 famílias à frente” daquela que foi retirada da casa após o titular do contrato de habitação social ter falecido.
A nova Assembleia Popular da Acampada vai realizar-se também em Marvila e está marcada para as 19h00 desta sexta-feira. Ao Observador, vários manifestantes confirmaram que vão marcar presença no protesto deslocalizado, saudando a mudança. No momento em que os porta-vozes davam como garantido o protesto na nova localização, já depois de votada essa moção, vários manifestantes gritavam que a casa que protagonizou o despejo está neste momento vazia e desafiaram: “Ocupa”.
▲ Protestos sossegaram pela meia noite e meia, com manifestantes a dispersarem nas horas seguintes
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
A plataforma Casa Para Viver emitiu uma nota a reiterar que a razão desta nova ação é a Câmara Municipal de Lisboa ter despejado “uma viúva e dois filhos em Marvila”. Alega que “não se trata de um caso isolado”, mas que “resultado de uma política municipal que trata a habitação pública como património a gerir e não como um direito a proteger.” E acrescenta, de olhos postos no Executivo de Moedas: “Uma política que, em plena crise habitacional, prefere casas vazias a famílias em casa.”
Os manifestantes querem a “suspensão imediata do despejo e o regresso da família à sua casa”, “uma solução habitacional definitiva, digna e no seu bairro” e ainda o “fim dos despejos sem alternativa na habitação municipal”. A plataforma apela “à presença de moradores, vizinhos, coletivos e de todas as pessoas que recusam que se despejem famílias para a rua” em Marvila, na próxima ação.
Um dos porta-vozes do movimento, João Veloso, diz que ainda não está ainda decidido se esta sexta-feira vão existir ações de luta no Rossio, mas garante que não vão existir ações paralelas em Marvila e na Baixa pombalina,
Manifestação sossegou à meia-noite e meia como pedido pela PSP. Há quem não perceba “fetichismo em manter o civismo”
Ao início da noite, a atmosfera da Acampada era vibrante, com centenas de manifestantes na Praça do Rossio. Numa das laterais da estátua de D. Pedro IV, Quim cortava o cabelo de graça a quem pedisse. “Hoje é o primeiro dia que estou aqui a cortar o cabelo grátis”, contou ao Observador.
“Obrigadão por estares a fazer isso à malta”, agradece um dos manifestantes. “Cortar o cabelo é uma coisa política, há quem não saiba que às vezes as pessoas não têm acesso a um corte de cabelo”, refere quem se voluntariou para cortar cabelos. E acrescenta: “Sou afetado por estas questões de habitação e não sei se vou conseguir manter o espaço que alugo”. É o sexto corte da noite, vai ficar até as máquinas de barbear terem bateria.
▲ "Cortar o cabelo é uma coisa política", afirmou voluntário a oferecer serviços grátis
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Após a Assembleia Popular seguiram-se vários concertos e depois de se ouvir “Grândola, Vila Morena” cantada a plenos pulmões no Rossio, e já depois de entoado um último “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, os instrumentos pararam de tocar e as vozes de quem gritava e cantava sossegaram. Era meia-noite e meia, a hora apontada pela PSP para que o protesto chegasse ao fim. Depois disso, garantia a organização da Acampada ao Observador, o que decorria na praça lisboeta era um mero “ajuntamento”.
Houve quem criticasse essa designação e a tentativa de não hostilizar as autoridades. Durante a Assembleia Popular, um dos manifestantes colocou-se contra o posicionamento assumido nos últimos dias pelos organizadores e porta-vozes da Acampada. “Não percebo o fetichismo em manter o civismo”, afirmou ao microfone, garantindo que uma acampada “intermitente” não vai cumprir os efeitos desejados por quem luta pelo Direito à Habitação.
“Abril não se fez com negociação nem a cair nas boas graças da imprensa, ainda menos na legalidade”, garantiu o manifestante, apelando a que seja siga o exemplo dos “colegas franceses e albaneses”.
Com o passar das horas, a maioria dos manifestantes foi dispersando da praça. Às 3h00 da madrugada, já só 15 pessoas estavam encostadas à estátua D.Pedro IV. Meia hora depois, eram 11 as pessoas que confirmavam ao Observador que iriam pernoitar no local, mais uma vez ao relento e desta vez em menor número. Na noite de quarta-feira 150 pessoas tinham dormido no Rossio. Junto à estátua, onde ficaram acumulados cartazes e faixas com palavras de ordem, pernoitaram 11 pessoas em situação de sem-abrigo.
▲ O momento em que uma agente da PSP aborda um automobilista que gritou "vão para Cuba" para a Praça do Rossio
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Já de madrugada, um automobilista tentou provocar os manifestantes que ainda permaneciam no Rossio. De dentro de um carro um homem gritou “vão para Cuba”, “vergonha” e “vão trabalhar”. Os dois agentes da PSP a patrulhar a praça nesse momento deslocaram-se de imediato junto ao carro e depois de uma curta conversa fizeram com que este seguisse caminho.
Porto convidou CGTP e UGT para a Batalha numa jornada terminada pela chuva
No Porto, os manifestantes também decidiram poupar-se para sábado. A Assembleia Popular decidiu uma concentração para sábado às 16h00 na Praça da Batalha, que fica a cerca de cinco minutos a pé da Praça D. João I. Os manifestantes convidaram ainda as duas maiores centrais sindicais, a CGTP e a UGT, para participar no protesto. O aviso de manifestação também já foi entregue na câmara municipal do Porto.
Depois de terminada a Assembleia Popular ainda ficaram cerca de 100 manifestantes, separados por pequenos grupos, na praça e foram-se entretendo a conversar e também com momentos de dança. A chuva, que caiu pouco depois das 22h, afastou a maioria de manifestantes que ainda se encontravam na Praça D.João I. Nesse momento o sistema de som foi desmontado e a “cantina popular retirada”. Duas horas antes da hora do limite legal, a ação de protesto chegava, assim, ao fim.