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Esta é a história do dia. Desde as autárquicas de setembro, o Chega perdeu três dos 19 vereadores eleitos. Dois viabilizaram orçamentos de câmaras comunistas e um deles até conseguiu um pelouro.
Foi retirada a confiança política aos vereadores de Sesimbra e do Seixal.
Em conferência de imprensa, na segunda-feira, André Ventura anunciava que retirava o apoio a dois vereadores por violação daquilo que foi decidido pela Direção Nacional do Chega. O Chega não viabiliza executivos ou orçamentos do PS ou da CDU.
Nunca pactar, nunca acordar, nem nunca ceder aos partidos do sistema e sobretudo aos que têm destruído Portugal nos últimos anos. Quer em Sesimbra, quer no Seixal.
Quem são estes dois vereadores a quem foi retirada a confiança política? Como é que os candidatos do Chega acabaram a viabilizar câmaras comunistas? Hoje vou conversar com a jornalista do Observador Mariana Lima Cunha sobre os três vereadores que o Chega perdeu em poucos meses e vamos começar em Sesimbra. Bem-vinda, Mariana Lima Cunha.
Olá, Ricardo.
Almoçaste em Sesimbra?
Sim, posso confirmar que comi uma coxa de frango e um arrozinho.
A sopa de agrião, tem lulas recheadas acompanhadas com puré de batata salada, bifinhos de porco ao molho de cogumelo e natas, coxas de frango assado no forno com arroz e batatas fritas, lasanha à bolonhesa, tudo incluído.
Mariana Lima Cunha, estiveste no restaurante do vereador da Proteção Civil de Sesimbra. Quem é Márcio Souza?
Márcio Souza é luso brasileiro, diz que saiu do Brasil para fugir ao PT de Lula da Silva e ainda esteve a viver em vários países europeus antes de chegar a Portugal. Ele agora está em Sesimbra, tem lá um restaurante que abriu há 12 anos e já tem, aliás, uma carreira na restauração. Ele contava-nos que trabalhou em hotéis de luxo, chegou a servir, ele dizia com algum orgulho Pedro Passos Coelho no Salão dos Presuntos, ali em Lisboa, por exemplo, e ainda teve uma passagem pelo exército brasileiro, o que diz que o ajudou a criar uma admiração por Jair Bolsonaro.
Agora vamos apresentar o candidato à Câmara Municipal de Sesimbra, o nosso caríssimo Márcio de Sousa .
Boa noite a todos. Em primeiro lugar agradecer a presença de todos vocês aqui.
E como é que chegou a vereador da Câmara Municipal de Sesimbra?
A história do Márcio de Souza no Chega é recente. Ele esteve pouco tempo no partido, filiou-se em 2020, aproximou-se do Chega e ajudou a fundar a concelhia de Sesimbra, onde ele diz que o Chega só tinha 15 militantes, ou pelo menos só lhe deram os nomes de 15 militantes. E é por isso mesmo que ele diz que os méritos do resultado em Sesimbra, que foram os melhores do distrito de Setúbal, são dele e não de André Ventura, até porque ele pagou a maior parte da campanha do próprio bolso. E que foi ele que ajudou a desmistificar algumas ideias negativas que havia sobre o Chega e que as pessoas não se assustassem com o Chega. Como ele próprio diz, não percebia grande coisa de política antes. Aliás, quando nós chegamos ao gabinete da câmara pra conversar com ele, estava a ler um livro sobre governo local, porque diz precisamente, citando, "que não percebe patavina de leis".
Eu até seis meses atrás não percebia patavina nenhuma de leis, de regras. Percebia de política, como eu disse pra vocês, de ver televisão.
E agora é independente, antecipou-se à retirada da confiança política, como é que foi esse processo?
Sim, na verdade, há agora este anúncio da retirada da confiança política, mas os problemas já se iam acumulando desde cedo. Na verdade, logo desde que após a eleição, ele diz que começou a sentir-se pouco acompanhado pelo partido. Depois, começou a questionar a orientação, segundo o que ele nos descreveu, de votar contra todas as propostas do PCI e do PS na Câmara Municipal indiscriminadamente.
Eu comecei a perceber que eu não tinha apoio nenhum. Não era fácil, as respostas eram sempre: É pra votar não. É contra. Eu tenho meu negócio aqui, eu vivo aqui, eu crio meus filhos aqui. Eu estou há 12 anos em Sesimbra, 22 em Portugal. Eu não vou prejudicar o conselho que me acolheu.
E acabou por se desfiliar em dezembro e comunicar isso mesmo à direção do Chega. A direção com quem nós também conversámos diz que anunciou a retirada. É verdade que ele já estava fora do partido, mas para que isso ficasse claro junto à opinião pública e dos próprios eleitos, continuavam a referir-se a ele como vereador do Chega, com a ideologia do Chega, e quis marcar essa posição.
Estamos a falar de um vereador eleito pra Câmara Municipal de Sesimbra, que está nas mãos da CDU e que fez acordo com a presidência da Câmara, uma presidência comunista.
Exatamente.
Como é que isto acontece, Mariana Lima Cunha?
Certíssimo. É o próprio Márcio de Sousa que conta que explicou desde logo ao presidente da Câmara que ia passar a independiente, porque lhe tinham dito que sendo do Chega nunca poderia negociar com a CDU. Foi o próprio presidente que teve essa conversa com ele e que manifestou a sua vontade de colaborar com o Executivo. Dizia que não queria chegar às reuniões e ir-se embora. E a CDU tem, de facto, essa política de oferecer pelouros a outras forças políticas que elejam, mesmo quando é ela que preside à Câmara, um pouco por todo o país, embora houvesse este obstáculo de ser do Chega. Retirado esse obstáculo, acabou mesmo por oferecer o pelouro da proteção civil e segundo as duas partes, contra o que dizem que são as más línguas, sem terem negociado com isso o orçamento municipal, ou seja, sem terem combinado que o orçamento passava e depois o vereador teria direito ao pelouro.
Mas no calendário foi isso que aconteceu?
No calendário é de fato isso que aconteceu. Não sabemos quais conversas de bastidores é que aconteceram, mas o que nos garantem é que não houve uma relação nova iniciada antes da outra terminar e, portanto, que saiu do Chega antes de começar a negociar com a CDU.
E como é que o presidente da Câmara Municipal, porque também falaste com o comunista Francisco Jesus, justifica esta Esta aliança.
Pessoalmente, não rever nesta pessoa ninguém com aquele discurso mais populista do Chega e aquela narrativa mais de ódio, nunca vi. Mas a verdade é que disse isto pessoalmente, portanto, não foi institucional, porque era impossível . Ninguém vê a CDU sentada.
Trazendo a marca do Chega, não há dúvida.
Com certeza, até era impossível.
O que o presidente nos explicou, admitindo que pode parecer estranha a aliança, é que para quem conhece Márcio de Sousa pessoalmente, não se vê ali propriamente um perfil em nada ideologicamente vincado ou de racismo, ou de populismo, ou dessas ideias associadas muitas vezes ao Chega, mas que enquanto fosse do Chega se recusava a oferecer pelouros. Mesmo assim convidavam-no a assistir às reuniões preparatórias, às reuniões de orçamento e quando ele se tornou independente, a CDU diz que entendeu que deixava de haver aqui um obstáculo à tal aliança.
Não tenho dúvidas que mesmo dentro da CDU ou do PCP não terá sido uma situação totalmente agradável. Mas há aqui uma questão muito particular: as características e as particularidades locais não podem ser lidas estritamente a uma leitura nacional.
Sim, foi uma decisão que o próprio Francisco Jesus admite que mesmo junto dos militantes da CDU não é imediatamente pacífica nem fácil de explicar, mas, e ele usa precisamente este argumento, sendo Márcio de Souza alguém com bastantes conhecimentos dos dossiers e da pasta que está a tratar, não é uma pessoa que se associe imediatamente às ideias do Chega e portanto é um pouquinho mais maleável do que seria alguém com uma ideologia mais vincada.
Mas este caso é tão estranho que até causou polêmica na reunião de Câmara Municipal em Sesimbra a 9 de fevereiro.
Sim, foi uma reunião no mínimo atribulada. Começou com o PS a condenar duramente a atribuição do pelouro.
Não compreendemos também, nós Partido Socialista, como a CDU procede a esta nomeação, que vai contra todas as ideologias que defende.
E acabou com uma troca de acusações entre PS e Márcio de Sousa, que se acusaram mutuamente de terem tentado fazer acordos nas costas da CDU.
Fui chamado ao gabinete do vereador Nelson e foi me feita uma proposta e eu contrapropus. Como ele é feijãozinho de duas caras, vou lhe dizer a verdade aqui indireto, que é: ele me propôs e eu contrapropus. A resposta dele foi negativa. Negativa por quê? Ele tinha o que queria e queria que eu continuasse como estava. Eu, como vereador independente escolhi meu caminho. Essas palavras que você usou aí são muito fortes e indecorosas. Não me olha com essa cara de palhaço. Desculpa lá, tá bem? Eu não gostei das suas palavras comigo e não vai me tratar mais assim. Que o fascista aqui é você.
Muito obrigado, senhor Vereador. Já dou a palavra também. Defesa da honra em primeiro lugar. E o que o vereador Márcio nesse dia chega junto do primeiro eleito do Partido Socialista foi a dizer que vamos nos juntar evamos лиchar a CDU. Foram as palavras do vereador Márcio. Senhor Vereador Márcio, pra defesa da honra.
Senhor Presidente, tendo em vista que o vereador Nelson está faltando com a verdade, eu vou esclarecer eles. Se calhar é porque ele bebeu uns vinhos a mais no dia que foi no meu estabelecimento, me propôs tal situação e eu lhe respondi...
Zangam-se as comadres, descobrem-se algumas verdades de um lado e do outro. Façam desculpem-me lá. Deixe-me dizer que estou estupefacto com aquilo que estou ouvindo parte a parte.
Quem pareceu divertido no meio da reunião foi mesmo o presidente da câmara, que foi comentando que por ele podiam continuar a falar enquanto a CDU ouvia, que quando zangam as comadres sabem-se as verdades, dizia ele, e portanto estava a descobrir imensa coisa nova ali ouvindo o PS e o ex-Chega.
Na conversa que tiveste, Márcio Sousa também explica quando e por que saiu do Chega.
Sim, ele aponta várias razões. Por um lado diz que a falta de apoio que sentiu tanto na campanha como na variação, com a postura que dizia que estava com o telemóvel no WhatsApp ao lado e ia perguntando que posições é que devia tomar e que lhe diziam não a tudo que era do Contra e que queriam impor essas ideias que não eram dele. Até com alegada xenofobia que diz que sentiu dentro do partido.
Na distrital, outros candidatos que eu não vou dizer o nome, eles falavam e me tratavam dessa maneira. E brasileiro é maluco. Para você ver. Eu inúmeras vezes ficava sentido, passei noites sem dormir de raiva.
Sendo que sobre a direção do Chega dá motivos diferentes, aponta-lhe a vontade de ficar com emprego na câmara ou ambição até de chegar a deputado.
E abre a porta a uma mudança de partido?
Sim, na verdade, o que Márcio de Sousa diz sempre é que tem a certeza de que é direita, isso é ponta firme, e que o único partido de direita a quem fecha a porta para sempre é mesmo o Chega. Portanto, tanto pelo PSD como pela Iniciativa Liberal tem simpatia, sendo que na nossa conversa até elogia mais a Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo, e diz que aí estaria uma possível solução.
Olá, sou Henrique Freire, candidato à Câmara Municipal do Seixal pelo Partido Chega. Estamos aqui junto ao nosso outdoor, que mais uma vez foi vandalizado.
Outro dos vereadores que o Chega perdeu esta semana é Henrique Freire.
Não nos vão parar, não nos vão calar. Viemos para ficar. Habituem-se que dói menos.
Sim, Henrique Freire é outro dos candidatos que perderam a confiança política do partido depois de ter deixado passar um orçamento municipal da CDU e a quem Ventura também atribuiu interesses obscuros e disse que tinha tomado uma posição de aliança relativamente à CDU que o partido não podia deixar passar porque era contrário às suas ideias.
O caso do vereador do Seixal é diferente do caso do vereador de Sesimbra.
Sim, por um lado porque apesar dos tais interesses obscuros que Ventura referia, Enrique Freire não tem nenhum pelouro, portanto não tem responsabilidades no executivo, apesar de também ter deixado passar um orçamento e tem uma ligação mais antiga ao Chega desde a fundação do partido e portanto ao contrário de Márcio de Sousa não se desfiliou por sua iniciativa
A primeira baixa autárquica no Chega foi ainda em novembro, Cidalia Figueira.
Foi logo a primeira notícia neste sentido, foi no rescaldo das eleições e mais uma vez o Chega também acusou a candidata de já ter uma suposta aproximação a outro partido, nesse caso era ao PS, sendo que as versões também aqui são diferentes. A candidata queixou-se também de falta de apoio do partido, disse que na campanha tinha andado sempre sozinha, que estava insatisfeita, houve confrontos internos com a distrital e acabaram mais uma vez na perda de um vereador para o Chega.
Dos 19 vereadores eleitos, o Chega perdeu três. Isto causa mossa no partido ou são apenas dores de crescimento?
Eu diria que há alguns elementos comuns. Os vereadores que o Chega perdeu apontam falta de apoio do partido, de preparação do partido, que realmente podia ainda não ter uma rede forte o suficiente pra crescer da maneira como cresceu. A título de exemplo, o Chega, que é fundado em 2019, consegue 19 vereadores nas primeiras autárquicas, mais 15 do que o Bloco de Esquerda, que tem 23 anos de existência. E o partido responde dizendo que tiveram complacência com outros partidos ou vontade de agarrar cargos quando tiveram essa oportunidade. Aliás, André Ventura até assumiu que nas legislativas a lista pro grupo parlamentar foi feita com cuidado e com escolhas pessoais. Portanto, os chamados tachos que o Chega critica, Márcio de Sousa fala disso, mas coloca a questão de outra maneira. Diz que depois de uma campanha que foi difícil, em que foi insultado na rua, desenharam suásticas na carrinha dele, coisas do gênero, seria frustrante não poder exercer as funções em pleno a que se candidatou e por isso mesmo quis pegar no pelouro a que conseguiu chegar e fazer parte do executivo, mesmo sendo este liderado pela CDU.
Não vivia da política antes, não vive da política agora, ao contrário de muitos outros candidatos do Chega que sim, estavam à espera dessa oportunidade.
André Ventura estabeleceu as regras para os candidatos autárquicos, explicou que não haveria qualquer hipótese de acordos nas autarquias com PS, CDU, com forças de esquerda nunca, eventualmente só com o PSD. Mas o facto é que houve muita gente a candidatar-se, o Chega conseguiu ter muitos candidatos em todo o país e as eleições autárquicas, como sabemos, são sempre complicadas para arregimentar candidatos. Achas que pode ter havido aproveitamento de algumas pessoas para ganhar fama e glória, chamemos assim?
A direção do Chega certamente dirá que sim. Os próprios talvez coloquem a questão de outra maneira. Quando lhes perguntamos se de fato aproveitaram o tal tacho político como o Chega costuma dizer, eles explicam que a campanha foi difícil, foi dura, foi feita com pouco apoio e que agora seria muito ingrato chegar à meta e não conseguirem aproveitar o cargo a que conseguiram chegar.
Você entrou, cara, você desafiou, você fez um caminho, você atravessou o deserto todo. A água está logo ali, você não vai beber? Espera aí.
Obrigado, Mariana Lima Cunha.
Obrigada.
Esta quinta-feira, André Ventura está em Madrid. O líder do Chega quer tentar o 13º deputado, hipótese aberta pela repetição das eleições no círculo da Europa. Ventura começa em Madri um périplo europeu. Pretende estar com as comunidades portuguesas na Suíça, Bélgica, Luxemburgo, Reino Unido, França, Espanha. Tem também encontros marcados em Madrid com Santiago Abascal e em França com Marine Le Pen. Esta quinta-feira vamos continuar también a acompanhar ao minuto a situação na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia, no site e na Rádio Observador. Esta foi a História do Dia. A música do genérico e a sonoplastia são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.