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Este programa tem o apoio da FLAD, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.
Basicamente, há um dia que pego numa bifana do Afonso, levo ao chefe do Salado dos Presuntos, na altura era o chefe Hugo, e disse: "Olha, é isto que eu quero levar para os Estados Unidos". Ele abriu aquilo.
Provou e "ok".
"Ok, vamos embora. Vamos fazer aqui uma receita que represente a autenticidade da cozinha tradicional portuguesa".
Bem-vindos ao "Capitães na América", um podcast que é uma iniciativa da FLAD, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, em parceria com a Rádio Observador, criado com a missão de conhecer melhor os portugueses que vivem e fazem carreira nos Estados Unidos. O meu convidado tirou o curso de Gestão, depois o de piloto comercial, trabalhou num quiosque e mostrou Lisboa a turistas no seu tuk-tuk. Cá, é o Fernando Vaz. Os nova-iorquinos conhecem-no como "Mister Bifana". É o português que ensinou Nova York a dizer "bifana". Fernando tornou-se o novo embaixador da gastronomia portuguesa além-fronteiras, pela mão da sandes mais famosa de Portugal, exatamente a bifana. Desenvolvida em parceria com o Salgado dos Presuntos, recorre aos ingredientes e técnicas portuguesas, sem concessões. Para os americanos, tem sido a surpresa, uma explosão de sabores, eles dizem. Para os portugueses, sabe a casa. Uma forma muito concreta de diplomacia cultural feita por um pequeno e irrequieto empresário. Depois de eventos, show cookings e caterings, conquistou um lugar permanente na cidade que nunca dorme. Está agora no Time Out Market New York, em Brooklyn. Vamos conhecer melhor o alfacinha de gema que criou aquilo que os nova-iorquinos chamam "the perfect meat in the perfect bread". Olá, Fernando, e bem-hajas. Bem-vindo ao "Capitães na América".
Vamos a isso.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Eu aproveitei uma vinda tua a Lisboa. Tu vens cá muitas vezes. Tu estás meio lá e meio cá. Ou estás sobretudo lá?
É a primeira vez que venho desde que abrimos no Time Out. Também é a primeira vez que venho desde que obtive o meu visto de investidor, que foi um passo também muito importante.
Isso é importante, é uma das coisas que aqui faço questão de, para as pessoas que queiram vir e queiram fazer coisas, as dificuldades, as burocracias, o que é preciso.
Eu obtive o visto no dia 10 de junho, penso eu, ou no dia 9. Foi mesmo a tempo de ir para o Mundial.
Exatamente, foi o abre-olhos para toda a gente.
Foi o abre-olhos.
Foi o grande pontapé de saída.
Exatamente, literalmente. Desde o início do projeto, desde que eu tinha o projeto na cabeça, sempre pensei: "O Mundial vai ter que ser aproveitado e capitalizado ao máximo", e acho que o fizemos. E para tal seria necessário ter então o visto de investidor, que me permitia estar a trabalhar sem qualquer restrição nos Estados Unidos, e assim foi.
Agora já o submeteste e já o tens.
Já está, sim, absolutamente. Tudo absolutamente em compliance completo.
Como deve ser, legalmente.
Sim.
Já não és imigrante clandestino.
Nunca fui.
Eu sei, claro.
Nunca fui, porque estive sempre nos Estados Unidos.
Não estiveste com o negócio, não estiveste onde estás, no centro de Nova Iorque.
Não, e eu tinha um outro visto, eu tinha o visto de turismo, que era o B1/B2, que me permitia também realizar atividades relacionadas com o negócio. É absolutamente legal. Nunca fiz overstay do meu visto, portanto, o visto permitia-me estar lá seis meses. Eu respeitei sempre escrupulosamente todos esses prazos.
E ias depois renovando.
Exatamente. E depois cada vez que entrava nos Estados Unidos, muitas vezes, e tendo em conta o nosso cenário, o panorama atual, eles mandavam sempre, e também por causa das minhas viagens, eu até já tive a oportunidade de gravar aqui na Rádio Observador um programa sobre as viagens que eu já fiz. Estive em países como a Somália, como o Iémen.
O Irão, por exemplo.
O Irão não fui.
Mas eles perguntam sempre e tu tens que ir à embaixada dizer porque é que foste.
Exatamente.
Eles não dão os vistos, eles não são tão uns.
Não, zero, de todo. Mas quando chego aos Estados Unidos, antes de ter o visto de investidor, regularmente era enviado para a secondary search nos aeroportos, onde tinha lá os oficiais do ICE, da imigração, que me faziam perguntas sobre a minha vida. Isto foi sempre completamente cordial.
Uma vez com esse visto, tu já não tens que tirar o ESTA e essas coisas ou tens que tirar sempre?
Não, o ESTA é precisamente um Electronic System for Travel Authorization.
Que a gente tem que tirar, mas quem tem visto já não precisa.
Quem tem visto não precisa, porque o ESTA é precisamente um Visa Waiver. O ESTA é uma autorização.
Um substituto.
É um substituto que permite uma pessoa ir aos Estados Unidos sem ter que tirar um visto. A partir do momento que se tira um visto, eu penso que já nem sequer é permitido sequer tirar um ESTA. E é desnecessário, porque chego lá, é a carta de entrada, apresento o visto de turista. E agora com o de investidor, ainda melhor, porque aí já eles sabem.
O investidor já te vem cá buscar.
Exatamente, até já me fazem as malas para lá fora.
Gestão na Nova SBL e na Nova. Durante o teu curso, estamos a falar em 2004, estiveste neste programa de intercâmbio e foste à Nova Zelândia.
2014, calma. 2004, calma.
Ias ter 50 anos. Foste então neste programa de intercâmbio à Nova Zelândia. Foi aí que nasceu aquele bichinho teu de explorar o mundo?
Foi um bocadinho, sim.
Antes nunca tinhas feito uma viagem tão grande como essa.
Eu já tinha viajado muito, mas sempre em família, com os meus pais, também derivado do fato do meu pai ter trabalhado na aviação, então nós tínhamos sempre a possibilidade de viajar.
Foste piloto depois.
Sim.
E teve esse bichinho também.
Teve a sua influência, mas foi na Nova Zelândia que eu comecei a viajar sozinho e andar às boleias, acampar, fiz couchsurfing, ficar a dormir em casa das pessoas.
Isso foi depois do curso já.
Isso foi durante o curso, na Nova Zelândia, enquanto eu fiz o meu intercâmbio na Nova Zelândia.
E aí foste ao Pac, foste a todos os lados. Aí, por exemplo, encontraste pastéis de nata no meio do deserto australiano.
Isso foi durante a volta ao mundo, que foi um ano depois.
Quando fizeste o teu gap year depois do curso.
No gap year depois do curso, que também passei pela Austrália e também passei pela Nova Zelândia. Mas este intercâmbio na Nova Zelândia serviu muito para expandir completamente os meus horizontes e transformar-me numa pessoa completamente diferente. E foi uma concretização de um estilo de viagem que eu até então não tinha podido fazer e passei a poder. E estar do outro lado do mundo sem qualquer tipo de amarras, ainda por cima na Nova Zelândia, que é um dos países mais seguros do mundo. Portanto, para quem está a viajar e era um iniciante como eu, não havia melhor circunstância do que estar num país onde o crime é praticamente inexistente As pessoas são superafáveis.
É como a Islândia, eu também acho que é assim.
É um género parecido.
Porque isso não é normal, não vale a pena.
É um estilo de vida completamente pacato e com paisagens absolutamente espantosas.
Sim, "O Senhor dos Anéis", todas as coisas que foram feitas lá, é mesmo assim.
É ainda melhor.
As cascatas, as montanhas, as florestas, é uma coisa de outro mundo.
É ainda melhor. É espetacular. E foi daí que surgiu muita coisa a nível de viagens.
Com este desejo.
Exatamente.
Então vieste para cá, voltaste a Lisboa e estiveste quatro meses ali num quiosque na Liberdade a ganhar dinheiro para partir logo que pudesses.
Exatamente.
E assim foi. No teu LinkedIn aparece que é Mr. Bivane NYC, Global Entrepreneur, World Traveler. Tu és um globe trotter, gostas muito. Então fizeste este gap year, este ano sabático, desperdício zero, como tu gostas de dizer, com dois amigos. Isto foi depois de acabar o curso, então pagaram entre 1.000 € que tinha que dar para 300 dias.
Oito meses.
E lá foram Sri Lankas, Myanmars, Laos e Australias até ao destino final, que era o Alasca.
Exatamente.
Tu percorreste o mundo praticamente todo, volta ao mundo, completamente.
Foi mesmo volta ao mundo.
Noruega, couchsurfing, sempre.
Sempre. No Sudeste Asiático era um pouquinho mais fácil também porque chegávamos e tínhamos um hostel por €5. Se calhar não vale a pena estar a dormir na rua por €5. Mas lembro-me perfeitamente quando aterrámos na Austrália, em Darwin, no norte da Austrália. Nós aterrámos, dormimos a primeira noite no aeroporto, um aeroporto impecável, chão alcatifado, dormimos ali que foi uma maravilha. Pensámos: "Quando acordarmos, vamos até à cidade, portanto boleias até à cidade para conhecer a cidade e ver se arranjamos um sítio barato para ficar". E eles: "Tens aqui um camping ground top, baratíssimo, 30 dólares". A pessoa: "Espera, 30 dólares? Está bem". Boleia para o aeroporto outra vez, mas a dormir naquele chãozinho. E ficámos três noites no aeroporto de Darwin, foi um alojamento absolutamente irrepreensível.
E costumas dizer que desses países todos que tu tiveste, que foram muitos, Portugal e Espanha são os sítios mais difíceis para arranjar boleia.
Sem qualquer dúvida. Foi Portugal e Espanha.
Ouvi um podcast que falavam que em Espanha nem uma. E assim que entrou em Portugal, boleias e boleias. Mas tu tiveste muita dificuldade em arranjar carro.
Portugal e Espanha foram os dois países mais difíceis para apanhar boleia para mim.
Se calhar hoje em dia. Antigamente não era assim, era mais fácil. E foi aqui neste gap year que encontraste então pastéis de nata no Outback?
Encontrámos pastéis de nata.
Mas bons? Eu também encontrei no Japão, pastel de nata português.
Eu diria que é igual a um pastel de nata absolutamente banal aqui em Lisboa. Pastel de nata de supermercado. Entrar num supermercado comprar pastel de nata era aquilo.
A saber-te bem?
Sim.
Pronto, ok.
Raríssimo. Nada a apontar.
Acampamentos e tal, e em casa de pessoas, e tu há dois anos fizeste então a marca dos 100 países.
Bati os 100 países certinhos.
E foste visitar o Taquara. O Taquara é um paraguaio que jogou no Benfica.
Exatamente.
Fazer o país 100, o Paraguai.
País 100, eu fiz questão que o meu país 100 fosse no talho do Cardoso. E felizmente por um amigo em comum, conseguimos que o Cardoso fosse lá. E foi uma loucura.
No teu Insta está a receção do dia.
Eu estou em Assunção, no talho do Cardoso, e ele vai me cumprimentar, porque teve a amabilidade.
Incrível.
Não tinha qualquer tipo de obrigação.
Se calhar qualquer dia é ele que vai a Nova Iorque e ele te vai chamar para te cumprimentar.
Ele será muito bem recebido. Gostava muito. Fica aqui o convite.
Países que te faltam. Quanto é que é? 90. Dos que te faltam, onde é que tu gostavas muito de ir?
Eu já não tenho isso, sinceramente.
Vanuatu.
Não há nenhum país que eu diga: "Eu tenho de ir lá".
Do que está posto, claro.
Eu tive isso com o meu país 55, foi a Mongólia. Era o país que eu dizia sempre: "Eu quero mesmo ir à Mongólia, adorava ir à Mongólia, não consigo não ir à Mongólia". E só em 2018 que eu fui à Mongólia, foi o meu país 55, e desde então continuei a viajar assim um pouquinho na ótica daquilo que ia surgindo.
Sabes todos de cor, o país que é e onde é. Sei. Qual foi o 38?
Agora tinha que ir ver. Não, o 38 foi durante a viagem, foi durante a volta. Aliás, não consigo dizer, porque a Islândia foi o 40, portanto o 38 é capaz de ter sido a Indonésia. Indonésia, Singapura, um ou outro.
Uma coisa que tu tens é porque tu disse: "Aprendi muita coisa nesta viagem", obviamente, qualquer pessoa aprenderia. É verdade que te mostrou, por exemplo, coisas sobre o risco, sobre a portugalidade, por exemplo, o viajares lá fora muito.
A nível de?
De valores, o trabalho, a hospitalidade, este tipo de valores, tu dizes: "Nós somos muito assim".
O gap year foi também a primeira vez que eu tive um contacto, e até há pouco tempo contei essa história, com a nossa diáspora. Eu até então nunca tinha tido contacto mesmo com a diáspora, digamos assim. E estar em Sydney durante o gap year, passados meses e meses de estarmos no Sudeste Asiático e na Indonésia, que também é Sudeste Asiático, e atravessar toda a Austrália, chegamos a Sydney, e em Sydney há um bairro que é o Little Portugal, em Petersham. Eu não tinha estado lá da primeira vez que estive na Austrália, mas desta vez fui. Eu estou com o meu amigo, eu estou com a camisa do Benfica, ele está com a camisa do Sporting e nós estamos a andar. E quem ouviu as minhas palestras há 10 anos sabe que é rigorosamente assim: nós estamos a andar em Petersham e vemos dois senhores sentados lado a lado, com uma mesa ao meio, ambos com crucifixo ao peito, camisa aberta, e nós olhamos para eles à distância e vemos: "Estes são portugueses, não há a mínima hipótese". Estamos do outro lado da estrada, do outro lado do mundo, em Sydney.
Quase nos antípodas.
E nós começamos a andar e ouve: "Vou Benfica!". Depois o outro diz: "Não, estou Sporting, é que é!". Onde é que nós estamos? De repente, entramos num café, o café chamava-se Sabores do Alentejo. Eu bebo um cafezinho, um delta, e quase que me vêm as lágrimas aos olhos. "Fogo, saudades disto".
Foi um bocadinho aí, já ficou a germinar qualquer coisa em ti? Foi só com os americanos, com os tuk-tuks, levavas às bifanas do Afonso e dizias: "Imaginem agora provar isto no coração de Nova Iorque".
São coisas diferentes, porque a minha premissa para ir para as bifanas, agora saltando algumas etapas, foi sempre que não há cozinha tradicional portuguesa direcionada ao mercado internacional, porque cozinha tradicional portuguesa nos Estados Unidos há.
Newark, em todo lado.
Eu vou a Newark todas as semanas comer arroz de cabidela enquanto ouço o preço certo na televisão, que é o meu prato preferido. E está lá uma senhora, a dona Conceição, em Newark, que continua a fazê-lo.
E o cabrito da tua mãe, claro.
E o cabrito é a minha mãe. Sim, a minha mãe faz o melhor cabrito.
Ela também deve trabalhar. Eu trevo uma vez este momento de entrevista a dizer: "O americano que estava a entrevistar, ou o holandês, o que é que era? E o que é que isso é? É o risoto de português, não quero entrar em pormenores".
É melhor ficar por aqui.
Fica com sangue, não sei o quê.
Isto para dizer o quê? Não há a cozinha tradicional portuguesa direcionada para a diáspora, e isso encontra-se a 100%.
Com produtos portugueses.
A saber melhor até essa cabidela que eu como em Newark é melhor que muitas das cabidelas que eu como em Portugal, é absolutamente fantástico.
Mas não para os nativos.
Mas não direcionado, porque os portugueses sempre acharam que, eu acho que isto é geral, isto não é um traço da diáspora, nem pouco mais ou menos. Aliás, a diáspora tem sido os maiores apoiantes que nós temos no projeto e são absolutamente fantásticos.
Tu recebes visitas, às vezes, vêm de Rhode Island e vêm do Canadá provar as tuas bifanas em Nova Iorque. É incrível.
É mesmo.
É o maior elogio que podes ter.
O apoio da diáspora é de loucos.
Portanto, não havia nada tradicional para os nativos.
Porque eu acho que os portugueses sempre tiveram medo de apresentar a sua cozinha, mesmo cá em Portugal, não precisamos de ir lá para fora. Quando vem algum turista cá é pensar: "Aí é muito à local". Nós temos um bocadinho de medo de mostrar aquilo que nós verdadeiramente somos e então achamos sempre que temos que adaptar um bocadinho, porque o turista não vai gostar se o bacalhau vier com espinhas.
É uma coisa que tu sabes bem. Isto é sem questões.
Ou se o peixe vier com a cabeça. E eu ponho-me a pensar, eu acho mesmo que o nosso maior património enquanto país é a nossa cozinha tradicional.
Gastronomia, claro.
Não há nenhum país do mundo onde eu tenha estado, que tenha uma cozinha tradicional, pratos de dia a dia. Não estou a falar de restaurantes, não estou a falar de refeições de high-end. Estou a falar do dia a dia, do roots mesmo, de prato de cozinha da avó.
A cozinha da avó e cozinha de tasco, cozinha de conforto.
Cozinha de tasco, de conforto, não há nenhum país que tenha a nossa riqueza. E nós descuramos este nosso património, mandámo-lo para o lixo completamente, por termos receio de julgamentos sabe-se lá de quem.
Temos um tesouro nas mãos.
Temos um tesouro nas mãos que não o estimamos, mas depois é curioso, porque se alguém, um estrangeiro, vem cá e diz que comeu melhor em Espanha do que em Portugal, lá vem aí a alma do português.
Exatamente. Como é que é possível?
Claro, porque os espanhóis vendem-se muito melhor e vendem a cozinha deles com orgulho e com uma autenticidade muito melhor do que a nossa.
Exatamente.
Espanhóis dizem: "Nós somos assim. Gostas, gostas. Não gostas, não gostas".
A minha avó não é chef, nunca foi. Mas tomara os grandes cozinheiros deste mundo cozinhassem como a minha avó cozinhava. Tu és ótimo. Tu estiveste então com os tuk-tuks, ganhaste dinheiro e vinha aí o mundial que tu pensavas... Eu só me lembrei deste teu negócio por causa das roulottes, sempre cá aqueles jogos de hambúrgueres, de hot dogs, de não sei o quê, à volta dos estádios, os pitas schwarmas, tudo o que tu podes imaginar. Pensei: "Isto é um bocadinho isso em Nova Iorque", só que agora já tens um espaço. Mas percebeste que havia, de facto, essa falta de oferta gastronómica tradicional lá. Encontras em todo lado os sushis, os tacos, os hambúrgueres, o pad thai, o que tu quiseres. Mas nunca vês um arroz de pato, um bocado isso, esse tipo de coisas não vês.
E aqui a ideia com a bifana foi muito pegar num produto que represente a cozinha tradicional portuguesa, os sabores da nossa cozinha tradicional, mas que ao mesmo tempo case com a cultura americana de grab and go.
Exatamente. Eles adoram isso.
Nós temos aqui a nossa tradição de a hora de almoço é sagrada, uma horinha.
Exatamente.
Intervalo de uma horinha.
Eles é a andar.
Pão, azeitona, sopa, prato, sobremesa, café, bebida, tudo. Lá não.
É o grab and go. É o meio de movimento.
Tem de ser tudo muito rápido.
Daí os sandes, pastramis, como tu dizes, as club sandwich, as sandes cubanas, como tu dizes. Falas nisso e um dia, viste à saída de Grand Central Station, de repente, uma fila enorme. E afinal era uma sandes de prosciutto, que estava a vender uma roulotte. Pensei: "Como é que é possível isto?" Ter fila de gente, mas comer uma sandes é o almoço deles, porque para eles é uma refeição principal.
Exatamente.
E disseste: "Por que a gente não traz?" Mas tu não tinhas experiência nenhuma de restauração e tu conhecias muito bem já as bifanas, por exemplo, de Vendas Novas, ou não? Onde diz que nasceu o conceito, no Café Bouvista.
Exatamente.
De facto, lá são maravilhosas. E tem aquele truque que tu fazes também, que é ficar fininha, o pão é cinco estrelas.
Claro.
É tudo importantíssimo.
O pão que eu uso nos Estados Unidos é um game changer, muda tudo, porque eles objetivamente nunca comeram um pão daquele. É um pão da avó, é o mesmo pão da avó, da pastelaria, do Chiabas.
Aqui prestamos homenagem ao Chiabas. Encontraste-o por acaso, num jantar com amigos. Já estavas há um mês à procura em todo lado, em Boston.
Foi literalmente isso. Eu estou sentado à mesa em Newark, no restaurante de um amigo também lá, que é o No Pão. Chama-se No Pão Sem Reserva. Eu comi o pão e disse: "Ó Zeca, acabou-se, é este pão. Acabou". Eu quero saber rigorosamente de onde é que este pão vem, porque é este pão que eu vou usar para as minhas bifanas.
De facto, é aquele pão que é crostadíssimo, por dentro é mole, há de poder o molho sem se desfazer todo.
É perfeito.
E às vezes comes aqui em certos sítios, um pão de seco normalíssimo, que vem todo molhado, a desfazer-se.
O nosso pão de seco já é muito bom, mas ali aquele pão da avó acaba por ser muito bom, porque é consistente, tem um sabor absolutamente fantástico E casa muito bem com a bifana. Temos ali o pão, que é escrupulosamente português, a carne também é porco ibérico.
Porco ibérico, exatamente. O corte tem que ser aquele fininho.
Um corte fininho.
E a marinada é toda à Vinadais, aquilo tudo que tu fazes, o azeite é tudo português.
O azeite é português.
É extraordinário. E tu és bom nisso, porque tu dizes: "Nunca é que há concessões, não vou adaptar". No Japão, comi McDonald's do menu ébico, é com camarão, não é com vaca, há hambúrgueres de camarão.
Aqui o McDonald's também tem o McBifana e é supíssima.
Exato, também. Vais à Jordânia e comes um McDonald's, não sabe a mesma carne, não sabe ao mesmo pão. Obviamente, eles adaptam-se também. Agora, não percebias nada de cozinha e então aqui o Solado dos Presuntos, eles já tinham esta parceria com o Garagem.
Exatamente.
Com o teu Tuc-tuc.
Exatamente. São muito amigos.
O Pedro Cardoso aqui para te dar uma ajuda.
São grandes amigos. A minha única experiência no ramo do turismo, de hotelaria, tinha vindo do quiosque onde eu trabalhei, depois do curso na Avenida Liberdade, que era o Bambu, onde aprendi uma brutalidade de coisas, uma quantidade enorme de coisas, que ainda hoje aplico regularmente no dia a dia, na gestão do Mr. Bifana. É aplicado aquilo que eu aprendi lá, rigorosamente. Com patrões também ficaram muito meus amigos e que me ajudaram bastante a nível de troca de ideias, mas foram aqui o Solado dos Presuntos, quando eu falei com o Pedro e disse: "Quero levar bifanas para os Estados Unidos", ele disse: "Vamos embora, o que eu puder ajudar".
Foste lá estagiar na cozinha deles. Vamos fazer agora aqui um brevíssimo intervalo, Fernando. Já voltamos à conversa. Até já. E no Capitães da América estamos a conversar com o Fernando Vaz, que muitos americanos conhecem por Mr. Bifana. É o português que vende bifanas em Nova Iorque com gosto 100% português e acaba de assegurar uma banca permanente no Time Out Market New York, em Brooklyn. É preciso dizer que aqui o Solado dos Presuntos também é um restaurante famosíssimo, que se dá muito bem e ser um grande apologista da comida tradicional portuguesa. Por isso foste lá e disseste: "Eu quero fazer uma bifana lá para fora" e eles iam ajudar-te. O gerente integrou-te uma semana inteira na cozinha, viveste como um cozinheiro deles. Tu nas tuas viagens de Tuc-tuc, com os americanos, já tinhas clientes americanos fixos que acompanhavas o ano todo, quase. Paravas sempre nas bifanas do Afonso?
Sim. Foi uma coisa que eu reparei no Tuc-tuc, foi a popularidade de Portugal junto dos americanos cresceu exponencialmente.
Exatamente.
E eu mesmo trabalhando no Tuc-tuc, eu próprio, pessoalmente, parava nas bifanas do Afonso para comer a minha bifana, a minha espinha.
Enfiar uma bucha.
Enfiar uma buchazinha. E adorava, e adoro, são ótimas, são fantásticas. Por isso é que têm a fila que têm.
O Afonso já lá foi.
Não, isso é que era.
Mas era giro ele ir.
Isso era o senhor Afonso passar lá um dia destes.
E os americanos também comiam, os teus clientes, e depois diziam.
Sim, eu dava-lhes a provar a bifana.
Imagina isso.
E eles diziam: "Isto é espetacular". Claro que nós quando estamos em viagem, o feedback tem que ser sempre como o sal e como a pimenta. Mas também outra coisa, que eu fiquei espantado com as bifanas do Afonso era a operação, porque aquilo era sem parar, era bifanas no tacho.
Fazia as 30, as 40, saía.
Sempre a sair. E eu pensei: "Isto a nível operacional é um produto fantástico", porque, por exemplo, um prego demora muito mais tempo. O prego tem que ser feito no momento, o prego tem que ser grelhado no momento, tudo tem que ser feito naquele momento, o pão tem que ser torradinho no momento. A bifana, não.
Porque é marinada.
É marinada e como é cozinhada no mais baixo.
Nem tinha pensado nisso, é verdade.
A operação é completamente diferente, então foi uma coisa também que gostei muito. Então, basicamente, há um dia que pego numa bifana do Afonso, levo ao chef do Solado dos Presuntos, na altura era o chef Hugo, e disse: "Olha, isto é o que eu quero levar para os Estados Unidos". Ele abriu aquilo, disse: "Ok, vamos embora. Vamos fazer aqui uma receita que represente a autenticidade da cozinha tradicional portuguesa". E essa questão do Solado dos Presuntos também é muito importante, porque também é aquilo que disseste há pouco. O Solado dos Presuntos é um sítio que é um autêntico mosteiro de cozinha tradicional portuguesa.
É um santuário da nossa comida.
Eu hoje fui lá almoçar, eu estava a ver os pratos de bacalhau à Gomes de Sá saírem e eu estava a comentar com as minhas mulheres: "Este bacalhau à Gomes de Sá é exatamente igual a qualquer bacalhau à Gomes de Sá à volta de Portugal, só que extremamente bem feito, com ingredientes bons, com uma boa confeção".
Isso que faz a diferença.
Por isso é que o restaurante é tão bom, mas não há nenhuma adaptação ao bacalhau à Gomes de Sá.
Não há nenhuma concessão.
É aquilo, acabou.
Trial and error. Foram tentando. Os teus amigos foram os cobaias.
Ali foi só trial, porque o chef Hugo fez aquilo uma vez, eu olhei, é isto, bora. Está feito.
Portanto, não há qualquer tentativa de adaptar a bifana ao paladar americano.
Não.
E sim, para eles levarem e terem a experiência de um gosto 100% português. Isso é muito importante. O ano passado fixaste lá e tu dizes: "A nossa relação com eles". Então os Founding Fathers brindaram com vinho de Madeira. A história é conhecida, obviamente.
É verdade.
Como é que foi o choque cultural para ti? Estás lá há muito mais tempo, sentes muita saudade disso? Tu achas que te adaptas bem?
Eu adapto-me bem à cidade. Nova Iorque nem é Estados Unidos. Nova Iorque é Nova Iorque. Nova Iorque é uma coisa à parte. É mesmo à parte. Eu adoro estar lá e também para mim é muito importante a comunidade portuguesa em Newark, é mesmo muito importante.
Sim, é a tua fonte dos ingredientes todos e mais alguns.
Não é só a nível de negócio.
Clientes também, apoio.
Não, ou seja, não tem nada a ver com o negócio. Para mim, enquanto pessoa, eu quando sinto saudades de casa, meto-me num comboio, vou comer arroz de cabidela, vou comer uma torradinha daquelas em pão de forma, com as fatias do meio e com o caldo de pequeno-almoço Eu sou benfiquista, quando o Benfica joga jogos importantes, vou à casa do Benfica, estou no Estádio da Luz. Não estou nos Estados Unidos.
Não podes ver essa camisola.
Esta é verde, mas passava. Esta é da África do Sul, para quem está a ouvir, para não haver casos. Esta é da África do Sul.
O que é que Portugal tem que os americanos poderiam aprender conosco, Fernando?
Não sei. A capacidade de desenrascar.
Estava à espera que dissesses isso, por acaso, o desenrasca. Começaste assim, foste tirar o curso do piloto no Bahrein, atenção. Já eras funcionário da TAP.
Eu tirei o curso de piloto cá.
Há um estágio?
Não, aqui basicamente como funciona: eu fiz o curso de piloto, obtive a minha licença de piloto comercial. Entretanto, a TAP abriu concurso, eu candidatei-me à TAP, passei o recrutamento todo e a partir do momento em que passo o recrutamento, começo a fazer aquilo que eles chamam o curso de integração na empresa, que é o CIE, a primeira fase de quem já passou o recrutamento. A fase seguinte é fazer o type rating, que é o curso de especialização num aparelho. Naquele caso, o Airbus 319, 20 e 21, é a família do Airbus 320. E este curso, já sob a alçada da TAP, é que é feito numa escola no Bahrein. E foi no Bahrein que nós estávamos, foi a meio de uma sessão de simulador, que eu estava com o meu aparelho e saímos para beber um café, estávamos com o instrutor, o instrutor estava reto, por acaso o instrutor era espetacular.
Souberam de um vírus que andava aí.
Caiu uma mensagem, o comandante a dizer: "Voltem para o hotel, amanhã vão para casa".
Por causa da pandemia.
Por causa do Covid. Isto foi em março de 2020.
O que te faltava para estares a pilotar o avião? Acabar esse curso, o CIE?
Não, o CIE eu acabei, faltava acabar o type rating, faltava fazer o voo base.
Era mais o quê?
Mais uns meses. E depois fazer todo o treino de linha na TAP, que são uns quantos setores.
Como é que tu resistes a isso? É um investimento muito grande, tirar um curso de piloto. Chegaste onde já chegaste, passaste toda a gente, passaste tudo. Na ponta final, de repente dizer: "A tua vida, afinal, não pode seguir por aqui". E ninguém sabia se ia durar um ano, se 10.
Não se sabia nada.
Não és o único caso, são 500 amigos meus que interromperam o curso ou acabaram e já não foram contratados. Uns anos investidos ali.
Eu passei dos aviões para o tuk-tuk.
Aí decidiste vir para Portugal, comprar os tuk-tuks e andar aqui.
Volto do Bahrein para Portugal, estamos aqui no ano de 2020, que foi o que foi para toda a gente.
Não paraste e: "Então vou fazer outra coisa" e acabou.
Sim.
Com boa cara.
Sim. Em 2021 fui para Zanzibar, que na altura não havia Covid. Eles não fizeram qualquer tipo de-
Restrição?
Não, aquilo era um universo paralelo. Mas um universo paralelo, completamente. Aquilo que foi cá o segundo lockdown, eu fiz em Zanzibar.
É bom.
E depois volto para Portugal, ainda tentei seguir um rumo como piloto instrutor em escolas de voo, mas também o mercado da aviação estava morto em 2021.
Sim.
E então eu decidi-
Tenho que mudar de vida, tenho que fazer outra coisa.
Mudar de vida, vou fazer outra coisa, vou comprar um tuk-tuk. Eu já tinha trabalhado nos tuk-tuks em 2019, depois do curso de piloto e antes de entrar na TAP, é um estilo de vida absolutamente fantástico.
Gostaste imenso.
É o melhor. E é uma pena, porque de facto é um mercado que podia ser mesmo muito bom para a cidade, podia fazer muito bem à cidade, se fosse devidamente regulamentado.
É isso que eu acho.
Se fosse devidamente protegido as pessoas que lá trabalham.
Tinha que ser regulamentado. Já estava o caos, Fernando.
Estava e está, e não parece haver interesse.
Já há algumas restrições. O Porto fez logo restrições e nós uns meses depois também.
A questão aqui tem de ser não só restrições a nível de circulação.
Mas de facto tinha que haver regulamentação, como as trotinetes, como tudo.
Mas a regulamentação aqui no caso dos tuk-tuks era mais até para mim, não só a nível de acessos nas cidades, mas de quem efetivamente está a trabalhar, porque estão muitas pessoas a servir como guias turísticos, que são, ao fim e ao cabo, embaixadores da cidade, não estão minimamente qualificados para tal, não só a nível de conhecimento histórico, mas a nível de relação com os colegas, a nível de relação com os habitantes, com os residentes da cidade.
Tem que haver essa empatia e não há muitas vezes.
Isto tinha que ser devidamente bem feito, calculado, e não foi. Acho que se está a perder uma grande oportunidade, porque objetivamente, é o melhor estilo de vida que há, é a melhor profissão que há.
Tu gostaste imenso, não gostaste?
É uma maravilha.
Tinhas muitos clientes americanos, tu falas muitos americanos. E dizes, era um número crescente, mas também apanhavas espanhóis e franceses.
Sim. Eu tinha dias que falava cinco línguas.
Quem gosta imenso disso, desse contato.
Tinha dias que chegava ao fim do dia e já não sabia em que língua estava a falar. Mas era muito giro.
Numa cidade que faz da sandes uma religião, já falámos disso, como é que nunca ninguém se tinha lembrado de fazer um negócio com as bifanas, Fernando? Se eu te perguntasse isso.
Acho que vem também do facto de nós, os empresários portugueses, muitos, quando saíram para fora, a nível de restauração, lá está, temos medo de apresentar. Eu acho que este é mesmo um traço nosso. Temos medo de apresentar a nossa cozinha tradicional. Temos medo. Achamos que os outros não vão gostar. "O turista ou o americano não vai comer isto, porque para ele tens que fazer assim". Eu não vejo os espanhóis a fazerem isso e a cozinha deles. Para mim, eu adoro Espanha, mas lamento, não é nem metade do que é a nossa. Está sempre lá em cima. Quando se pergunta: "Que país é onde se come melhor?" Espanha está sempre lá em cima. Eu fico: "Eu não tenho nada contra Espanha, eu adoro Espanha".
Claro que sim.
Os espanhóis atravessam a fronteira para vir comer ao Alentejo.
Exato.
Os melhores clientes dos restaurantes de fronteira do Alentejo são os espanhóis que atravessam a fronteira para vir comer. Portanto, a nossa cozinha, que é melhor, não é vendida lá para fora da maneira como os espanhóis fizeram, que foi muito bem feito e têm todo o mérito nisso. Obviamente, também têm um produto muito bom com o qual trabalhar, como é mais que evidente. Este receio, se calhar é mais parecido com um chef português que vai lá para fora abrir um restaurante de cozinha italiana ou de cozinha espanhola, ou de cozinha americana, do que de cozinha tradicional portuguesa, quando temos um património de loucos. Os americanos sabem o que é uma palha, mas não sabem o que é um arroz de marisco. Porque o nosso arroz de marisco dá 10 a zero.
Ou um bacalhau à Gomes Sá, como tu dizias.
Ou um bacalhau à Gomes Sá.
Ou o duck rice, como dizia outro dia o teu entrevistador.
Um arroz de pato.
O grande salto neste teu negócio foi graças ao futebol. Aqui tem uma ajuda da Federação Portuguesa de Futebol, do Turismo de Portugal, deram-te a mão completamente.
O Time Out também.
E foi o Time Out, nessa altura, que percebeste que tinhas ganho. Fizeram aquilo do Portugal House, Portuguese House, não era?
Durante o mundial, a Portugal House.
Portugal House. E depois ganhaste um terraço no Time Out Market. Isto é aqui, ali em Brooklyn, tem uma vista fabulosa para todos os pontos, o skyline, tudo. É um sítio fabuloso. Mas eles também não brincam em serviço. Eles depois acho que fazem um estudo de mercado ao pormenor, quem é que gosta e por que gosta. Está tudo estudinho.
São.
E perceberam que podiam apostar em ti.
Foi uma oportunidade que surgiu, derivada da parceria que foi feita entre a Federação Portuguesa de Futebol, o Turismo de Portugal e o Time Out Market, no caso o de Nova Iorque, que abriu esta Portugal House durante o mundial, da qual havia um espaço dedicado à cozinha. E eu tive a oportunidade de assumir o controle desse espaço até ao final do mundial. E quando acabou o mundial, não havia ninguém para dar continuidade àquele espaço em particular.
Mas eles perceberam que havia procura, portanto, as pessoas tinham gostado e o feedback era bom. Tinhas lá uns jogadores famosos que estão no teu Insta.
Teve lá, tiveram lá uns quantos. Teve lá o Vozinha.
O Vozinha, extraordinário.
Ou seja, tiveram lá os legends que a federação levava para cada jogo, mas isso aí absolutamente são coisas que foram organizadas pela federação e muito bem organizadas, diga-se de passagem.
O Beto, o Bruno Alves.
O Beto, o Bruno Alves, o Jorge Andrade, que dentro de campo foram meus rivais e houve ali alguns momentos de picardias saudáveis, mas que objetivamente, enquanto estivemos ali, eles os três foram absolutamente fantásticos conosco. Isso foi muito giro. E foi lá também o Vozinha e durante o mundial no Texas teve o Nuno Gomes também, que era o meu ídolo de infância, também por isso é que eu tenho o cabelo assim, é por causa dele.
Os americanos de fato comentavam que era uma explosão de sabor, diziam eles: "Nunca provámos nada assim".
Os portugueses diziam que se havia a casa.
Isso para ele é o melhor elogio que pode receber. Sabe-me a casa.
Sabe a casa.
Mesmo aqueles mais empedernidos de Newark, tu vais e provam a tua bifana e dizem: "Ipa, isto é comida".
Isto está bom. Eles dizem: "Ipa, está bom, então se está bom, isso é o que eu preciso".
Tens que falar ao senhor Afonso.
E eles voltam lá, alguns até inclusivamente voltam.
Varas-se em mil e vem de longe, é incrível.
Não, temos pessoas já que planeiam festas de aniversário a considerar: "A minha filha fez anos, então decidimos vir aqui hoje passar o dia e comer as tuas bifanas".
Uma vez que até aí só tinhas os show cookings e os caterings e essas pop-ups, como vocês dizem, esses eventos. Mas a partir daí, agora tinhas um lugar fixo, tiveste que aumentar a ementa, agora já tens pastel de nata, tens bacalhau, uns compóis e umas coisas. Não, teve que ser.
Exatamente, teve que ser.
E até a Delta, tiveste até a visita do Rui Miguel Abreu.
Exatamente. O café Delta, antes da componente negócio, era uma componente de salvação pessoal, que eu precisava daquele café para sobreviver.
Isso eu compreendo.
Ter lá cafezinho bom para mim é inegociável, não há hipótese.
Vais ficar pela bifana? Tu és muito irrequieto. Qual é o negócio teu futuro? Já estás a germinar coisas? Ou agora dá-te jeito dizer isso?
Não. A única coisa que me passa pela cabeça é garantir que o Time Out Market corre bem. Tudo o resto é absolutamente secundário.
Chamam-te mesmo Mr. Bifana lá?
Sim.
Os americanos lá a gozar: "Mr. Bifana".
Sim. Em Newark, quando vou a Newark: "Oh, Mr. Bifana, how are you?"
Estás a pensar expandir para outras cidades ou não? Mas tu começaste primeiro, ainda estava em Houston e estava em Miami, fizeste assim umas bancas nesses sítios.
Isso foi com a federação.
Sim, por causa dos jogos, exatamente.
No alinhamento com o mundial.
Começaste a trabalhar noutras cidades, mas agora estás em Nova Iorque fixo.
O foco agora é mesmo, eu já falei com alguns empreendedores, empresários, que tens que ter uma visão a longo prazo. Eu não tenho visão a longo prazo nenhum.
Está com a tua vida, se vê.
A minha visão está em geralmente garantir-
Mas tu agarras as coisas bem, o que é bom
...a minha visão é mesmo só garantir que a próxima semana corre bem no Time Out e a semana seguinte, e como é que eu vou fazer da próxima semana no Time Out Market melhor do que aquilo que eu estou esta semana. A única coisa que eu tenho na minha cabeça é garantir que o Time Out Market corre bem. A partir daí, quando isso já estiver à prova de bala, então podemos eventualmente, mas não faço ideia. Antes de abrir no Time Out, surgiu uma parceria muito boa com um bar em Nova Iorque, que é o 10 Degrees, que é em St. Mark's Place, que é basicamente uma das melhores ruas, para não dizer mesmo a melhor, a nível de espaços de diversão e mais emblemáticas de Nova Iorque para os locals de Nova Iorque. Portanto, conseguimos colocar as bifanas no menu deste bar e é também uma forma de posicionamento de marca muito bom. Mas portanto, isto foi antes do Time Out, entretanto surgiu o Time Out e conseguimos dar continuidade também ao 10 Degrees, portanto, o foco é só mesmo garantir que o Time Out está à prova de bala, que o 10 Degrees continua a servir as bifanas e garantir que continuamos no Time Out e só depois disso estar tudo absolutamente inserçado em pedra é que se pode pensar em dar outros passos.
Há outras coisas de sucesso, estou a pensar, por exemplo, o melhor bolo de chocolate do mundo esteve lá e depois entretanto já acharam que não está. Agora acho que estão em Miami, mas por exemplo, este The Fantastic World of Portuguese Sardines está em Times Square, em dois andares, uma loja brutal, com as conservas, também têm coisas em conserva.
Abriram agora ao lado também uma de filigranas.
Ah, ok, boa. Lojinha portuguesa.
A porta mesmo ao lado e eu até tive a oportunidade de conhecer os responsáveis pelo projeto, o António e o Tiago Coresma, que estão a fazer um trabalho absolutamente estratosférico.
Isto só prova que a pessoa querer investir o seu tempo e tendo uma boa ideia de negócio, é importante, e os meios, vale muito a pena, ainda continua a ser um sonho dos portugueses, e cumprir assim com esses meios todos.
E serem bons no que fazem. Eles são muito bons E tem os resultados por causa disso. Mas acaba por provar bem a popularidade de que Portugal goza neste momento nos Estados Unidos. Quando eu comecei a viajar, em 2014, na Nova Zelândia, e eu dizia a americanos que eu era português, eles perguntavam: "Isso é parte de Espanha? I've always wanted to go to South America. You guys speak Brazilian, right?" Eu ficava louco. Não, agora é o contrário.
"Ronaldo". Estão mesmo a ver.
Os americanos, nem tanto o Ronaldo, porque futebol para os americanos não, estão completamente indiferentes.
O soccer não é muito para eles.
Não é nada. Agora, quando eu digo que sou português, é: ou fui, ou vou, ou os meus pais compraram casa, ou os meus amigos casaram-se lá.
Fui a um casamento lá, exato. Típico.
O americano que não sabe o que é Portugal, neste momento, eu não sei, são muito, muito poucos.
Tens razão. Há 10, 15 anos, não faziam ideia. Da geografia geral.
Não faziam ideia o que era Portugal. E hoje em dia é o place to be. E eu acho que vai continuar, porque eles vêm para cá e este país é absolutamente fantástico. Tem muita coisa mesmo para oferecer e, portanto, naturalmente as pessoas chegam aqui e veem: "Isto é ótimo, isto é maravilhoso, eu quero ficar". E ficam. Na minha opinião, ainda bem que ficam. Quem quer vir para cá contribuir e ter uma vida boa aqui será sempre bem-vindo, venha de onde vier.
Outra coisa boa para ti, que é esta relação com a diáspora lá. Dás-te lindamente, és lindamente bem acolhido.
As pessoas são as melhores.
Isso é muito bom, até para pessoas que queiram montar lá negócios, saber que há esta comunidade grande diáspora em Newark, concretamente.
Mas não só em Newark. Eu comecei aí.
O Tuga em New York, há um também que anda, faz o Instagram.
Não, tens comunidades à volta dali daquela zona toda do Tri-State Area. Em Jersey tem várias, Newark, Elizabeth, Harrison também tem muitos portugueses. Depois, quando atravessas, tinhas uma comunidade portuguesa, mesmo em Nova Iorque, no SoHo, que já não existe ou que são muito poucos. Vais para Long Island, tens muitos em Farmingville, em Mineola. Começas a subir em Westchester, tens portugueses, em Yonkers tens portugueses, em Tarrytown tens portugueses. Começas a subir a costa, Connecticut, tens portugueses a dar. Em Bridgeport há uma comunidade enorme, em Hartford, em Danbury. Depois, quando se chega ao Massachusetts, vêm os açorianos todos, Fall River, New Bedford.
Newport.
Rhode Island tem muitos, em Cumberland, em East Providence.
Em Boston, aquela zona de Boston.
Em Boston, em Cambridge, tem uma porrada deles. Há também os da Flórida, que é uma comunidade diferente, e os da Califórnia, que são muito do grupo central das ilhas dos Açores.
Por acaso estava até a pensar, sim, os antigos baleeiros, eu tive uma conversa sobre isso. A minha segunda entrevista foi sobre isso.
Foram para lá.
E por que os Estados Unidos? Última pergunta rápida. Por que os Estados Unidos em concreto? E não abrir as bifanas em Paris?
Não, porque o objetivo aqui era mesmo, as variáveis da minha vida, após três anos no Tuk Tuk, estavam alinhadas para eu me atirar numa aventura, e eu achei que a aventura que era gira era ir para Nova Iorque. Apesar de que a minha ideia original até era ir para o Texas, mas depois comecei a fazer algumas contas e achei que fazia mais sentido estar em Nova Iorque, também pelos contactos que eu tinha a nível pessoal em Nova Iorque, e depois também Nova Iorque ser uma cidade que eu sempre adorei visitar.
É fantástico.
É incomparável mesmo. Então pensei: "Olha, vamos levar bifanas para os Estados Unidos. Acho que vai ser um grande projeto, vai ser uma grande aventura". E na minha cabeça foi: "Olha, vou fazer isto até ao mundial. Se der bem, continuo. Se não der bem, eu volto para Portugal, volto para o Tuk Tuk e fiz um gap year".
Mr. Bifana NYC, as pessoas podem te seguir no Instagram, TikTok, o Twitter, tem em todo lado. Muito bem, Fernando Vaz, obrigado pela tua disponibilidade em nome da FLAD, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, e da Rádio Observador. Muito obrigado e tudo de bom para o Mr. Bifana. Obrigado por teres vindo.
Obrigado.