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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que os ataques da Rússia na Ucrânia são cada vez mais mortíferos?
"Russia has two times more ballistic missiles per month than they had before. This year, I'm asking American partners to sell me 5% of missiles, what they have in their stocks."
O apelo foi feito esta semana pelo presidente ucraniano. A Ucrânia precisa urgentemente de reforçar o estoque de mísseis de defesa antiaérea. Caso contrário, a situação pode tornar-se crítica para a Ucrânia. Os ataques russos a Kiev e outros pontos do país têm aumentado. E tem também aumentado o número de vítimas mortais, em especial de civis. Volodymyr Zelensky diz que apenas 5% do estoque americano dos mísseis Patriot seria suficiente para a Ucrânia sobreviver no inverno, mas esse apoio americano está tudo menos garantido. Vou falar hoje com o major-general João Vieira Borges sobre que hipóteses tem a Ucrânia de equilibrar este cenário e que riscos corre no futuro. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de sexta-feira, 14 de agosto. Bem-vindo, general João Vieira Borges.
Muito obrigado pelo convite.
Senhor general, nos últimos tempos têm sido intensificados os ataques da Rússia à Ucrânia, que são também cada vez mais mortíferos. Por que isso está acontecendo? O que explica isso? E começando, talvez, do lado da Rússia, porque segundo se percebe, além dos drones que têm sido usados, têm sido usados também mais mísseis balísticos nos últimos tempos. Que mísseis são estes que a Rússia está a usar na Ucrânia?
Esta guerra tem tido uma evolução em termos táticos e em termos estratégicos. Estratégicos em termos da decisão dos mísseis balísticos, tendo em conta a sua capacidade de destruição e sobretudo o fato de serem de difícil detecção e destruição por parte dos inimigos. Naturalmente, são os mais caros. Naturalmente também são aqueles que são de maior dificuldade de produção. Ora bem, a Rússia usou uma tática interessante, que a determinada altura resultou, que foi a utilização dos drones seguidos dos mísseis de cruzeiro, que são os que vão à baixa altitude com pequena velocidade, para dificultar todo o trabalho de detecção dos radares e depois também da interceção da parte antiaérea ucraniana. E só no final vinham os mísseis balísticos e assim naturalmente que tinham maior facilidade de ataque aos alvos. Por um lado, os sistemas de armas defensivos já são reduzidos, aqueles que têm capacidade de destruição de mísseis balísticos, que é o caso do Patriot. Por outro lado, a antiaérea, e neste caso os próprios radares, já estavam empastelados, como nós dizemos, é o termo técnico. Ora bem, a Rússia a determinada altura, apercebendo-se da incapacidade dos Estados Unidos e da Europa em fornecer os mísseis Patriot à Ucrânia, percebeu que era importante investir na produção desses mísseis, ao abrigo do acordo que fez com a Coreia do Norte, solicitar tanto mísseis balísticos NK-22, NK-23, fazendo adaptações depois para os seus mísseis. E, por outro lado, também usar aquilo que são seus mísseis antiaéreos S-400, que podem ser transformados em mísseis terra-terra. Transformam-se automaticamente num sistema míssil balístico. Ora bem, este conjunto de opções da parte da Rússia tem dificultado, da parte da Ucrânia, o abate desses novos mísseis balísticos em crescente quantidade. Eu posso dizer que dos 195 mísseis balísticos lançados pela Rússia no último mês, a Ucrânia só interceptou 29, ou seja, cerca de 15%.
Uma porcentagem muito reduzida, não é?
Comparado com a porcentagem de outros alvos aéreos, quer míssil de cruzeiro, quer drones, que andam à volta de 80% a porcentagem de sucesso.
Já tocou nessa questão central e muito importante dos Patriots. Ainda há dias o presidente ucraniano fez um pedido muito concreto aos Estados Unidos. Em entrevista à CNN, o Zelensky diz que só 5% das reservas de Patriot dos Estados Unidos serviriam para a Ucrânia, pelo menos sobreviver no inverno. Ora, estamos a falar de um sistema de míssil de defesa antiaérea. Para as pessoas perceberem de uma forma muito simples, que mísseis são estes, por que são tão decisivos para o equilíbrio de forças nesta guerra?
Estes são mísseis que atingem uma altitude de cerca de 10, 12 km, batem altos a 40, 50 km, detectam altos a 150 km, mas têm uma velocidade, isso é que os diferencia. Têm uma velocidade supersônica, têm impacto direto no caso do PAC 3. Normalmente as pessoas já estão habituadas desde há muito tempo a ouvir o Patriot PAC 3 e o PAC 2. O que estamos a falar é do PAC 3, porque o PAC 2 é para outro tipo de altos, não é para este tipo de alto. Tem espoleta de aproximação, não é este o caso. Portanto, o PAC 3, que é o que estamos a falar, tem impacto direto. Normalmente são lançados dois para abater um míssil balístico. O próprio míssil dispõe de um radar É também mais ligeiro e cada lançador leva 16 mísseis, ao contrário dos outros PAC-2, que leva só quatro, que é mais pesado, depende muito do radar em terra, vai sendo guiado. Mas estamos a falar do PAC-3. O PAC-3 custa cerca de €4 milhões cada um destes mísseis. A produção da Lockheed Martin são cerca de 600 a 650 por ano. O problema que está aqui, ainda bem que falou na questão dos 5%, eu julgo que já deve estar arrependido depois de receber os indicadores. Zelensky pensava que havia muitos mais, certamente. Os Estados Unidos punham, segundo dados do Centro Estratégico de Estudos Internacionais, 2200 mísseis Patriot e neste momento só dispõe de 800. Isto é gravíssimo. Aliás, isto tem levado a chamadas de atenção dos democratas aos republicanos: onde é que andam a gastar o dinheiro?
Portanto, são um risco para os próprios Estados Unidos, ter o estoque.
Exatamente. É um risco para os próprios Estados Unidos, não só por este sistema, mas também o outro, que é o sistema THAAD, que é um sistema importantíssimo nos Estados Unidos. Esse sim, só os Estados Unidos, a bem dizer, na prática dispõe, ainda é de maior capacidade, mas está também integrado com o Patriot, o Patriot é que nós estamos a falar relativamente à Ucrânia e relativamente ao Golfo. A situação é muito crítica, portanto, quer para a Ucrânia, e a Rússia está a aproveitar-se disso, sobretudo importando cada vez mais mísseis balísticos da Coreia, porque eles também não têm capacidade de produção de mísseis balísticos superior a 60 por mês, mas isso é uma enormidade em termos de utilização de mísseis balísticos que no início da guerra eram lançados por mês cinco, 10. Neste momento, são capazes de ser lançados 160 por mês e a capacidade de produção da Rússia são só 60. O mesmo problema aconteceu com os Estados Unidos, na sequência da sua questão, relativamente aos países do Golfo. Os países do Golfo utilizaram mísseis Patriot em grande quantidade e o próprio Estados Unidos também. Neste momento, a situação é muito crítica a este nível e quem dispõe de muitos mísseis balísticos, o caso da Rússia, da Coreia do Norte e o caso também do Irã, obviamente, tem umas cartas a mais para jogar, tem uns ases importantes em termos militares no teatro de operação.
Portanto, obviamente, estamos aqui a falar do cruzamento das guerras ou, pelo menos, de como uma pode influenciar as outras, porque isto é um tabuleiro global. Mas nesta questão dos Patriots, todos nos lembramos de quando na Cimeira da NATO o Trump chegou a dizer que iria autorizar, sem problema, a Ucrânia a fabricar mísseis Patriot. Mais tarde voltou atrás, um bocadinho sempre à Trump, a dizer que era preciso ter cautela com isso. Por que esta mudança de posição? Isto é, de facto, uma questão muito sensível, obviamente, também ao nível da tecnologia e da indústria de produção deste tipo de armamento.
A intenção política foi positiva, na minha perspectiva, da parte do Trump, das poucas vezes em que ele teve uma afirmação muito positiva, mas depois os conselheiros vieram ter com ele e dizer: "Olhe, isto é uma situação muito crítica. Nós não temos nem para nós, quanto mais para dar". Neste caso, para dar em termos de formação, para dar em termos de conhecimento, para dar em termos de localização das fábricas na Ucrânia que podem ser abatidas no dia seguinte. Ou pode haver fugas de informação. E foi isso que, na minha perspectiva, condicionou uma decisão posterior. Era muito mais importante que houvesse fábricas de produção de sistemas Patriot na Roménia, na Polónia do que propriamente no interior do território ucraniano. Mas também é preciso termos a noção de que isso demora mais do que um ano e meio, dois anos a ter pessoal formado, a ter a fábrica a produzir, se não for bombardeada. Há muitos equipamentos, isto tem chips muito caros que vêm de Taiwan, são chips únicos, que nem a China consegue produzir, por isso também um conflito internacional entre os Estados Unidos, Taiwan e a China. A intenção política foi boa, mas na prática não estou a ver a concretizar-se essa intenção política.
Há pouco falava dessa capacidade muito superior de, neste momento, a Rússia produzir mísseis balísticos e falava na questão norte-coreana. Quer dizer aqui que a entrada em jogo da Coreia do Norte acabou também por ser importante para mudar um pouquinho o equilíbrio de forças nesta guerra?
Exatamente, é muito importante. Muito mais que a questão dos homens, dos 30 mil ou 50 mil. Até porque já tiveram 14 mil no teatro de operações e 6 mil já foram mortos ou feridos, e isso não teve grande influência. Aqui, sim, aqui tem uma influência enorme. Em primeiro lugar, começaram por exportar munições de artilharia. Quando a guerra, no início, tinha 80% das baixas em função das armas de artilharia, designadamente os sistemas 15.2, os canhões pro nosso público em geral. Depois, mais tarde, para além dessas munições, passaram a vir os sistemas KN22, que são com cerca de 500 km de alcance, que eram readaptados, uma espécie de míssil balístico. Eu digo uma espécie porque precisa de muitas transformações da parte da Rússia para ter eficácia.
Sim.
Apesar de eles não se preocuparem muito com isso. Mas depois outros como o KN23, a adaptação já com alcance de 5 mil km, que foram testados no mar do Japão, como nós sabemos. Nos últimos tempos a produção aumentou consideravelmente. Nos últimos 10 anos, a produção de mísseis balísticos de grande alcance aumentou consideravelmente na Coreia do Norte, o que leva o conflito para outra dimensão.
Exato.
Ou seja, a questão da Coreia do Sul e a questão do Japão, que obviamente, em função da utilização destes mísseis, da melhoria destes mísseis, em termos de eficácia por parte dos russos, que obviamente têm contrapartidas também para a Coreia do Norte, depois também a experiência na guerra, que torna a ter algum desequilíbrio na relação com a Coreia do Sul. E daí Zelensky pedir mísseis, eles têm mísseis diferentes, uma espécie de Patriot, a Coreia do Sul e o próprio Japão, mas sobretudo a Coreia do Sul. Vamos ver se há resposta ou se também duvido que haja resposta positiva, porque eles também precisam desses mesmos sistemas. E como nós sabemos, e sobretudo quem já visitou a Coreia do Sul, sabe que eles estão permanentemente em guerra, em estado de guerra. Não tanto o Japão, apesar de hoje também ter sido um dia complicado para o Japão por causa da visita de Putin nas ilhas Kurila, mas sobretudo a Coreia do Sul. Está evidente que tem mísseis, mas não os vai ceder, não os vai ceder, certamente, à Ucrânia.
Muito obrigado, senhor general João Vieira Borges.
Muito obrigado eu pelo convite.
João Vieira Borges é major general do Exército e presidente da Comissão Portuguesa de História Militar. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é de Rafael Pego. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Bom fim de semana.