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Esta é a história do dia da Rádio Observador: calorias no dobro, carne a mais e frutas a menos, o que explica o desequilíbrio alimentar dos portugueses. Não é propriamente uma novidade, mas uma tendência que se volta mais uma vez a confirmar. Os portugueses consomem o dobro das calorias do que seria necessário. É o que vem revelar a mais recente balança alimentar do Instituto Nacional de Estatística, que traz dados sobre os últimos quatro anos e que faz um consumo estimado com base na oferta disponível. Dados conhecidos esta quinta-feira, no Dia Mundial da Alimentação. O que continuamos a fazer de errado e o que poderíamos e deveríamos fazer para equilibrar esta balança? Que alternativas temos, por exemplo, para reduzir o consumo excessivo de carne? Vou falar com Mariana Chaves, nutricionista e autora do podcast do Observador, Aprender a Comer. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de sexta-feira, 17 de outubro. Olá, Mariana, bem-vinda.

Olá, João. Obrigada.

Hoje aqui num registo um pouco diferente do Aprender a Comer, mas para falar dos mesmos temas. E antes de entrarmos na análise dos números, é importante também contextualizarmos um pouco este tema. Falando para já em termos gerais, que documento é este da balança alimentar portuguesa e também o que é que podemos entender por este conceito de disponibilidade alimentar?

Muito bem. Esta balança alimentar portuguesa é uma ferramenta indispensável para nós entendermos mesmo este conceito de disponibilidades alimentares, que se refere à quantidade de alimentos que vão estar disponíveis para o consumo da população, ou que estiveram nestes últimos quatro anos disponíveis. Com base em quê? Com base na produção nacional, nas importações e exportações, com base nas perdas. Ou seja, não se trata aqui do consumo real ou do consumo efetivo dos portugueses, mas é uma fotografia do consumo estimado, tendo em conta a oferta total de alimentos que os portugueses tiveram durante estes quatro anos. É um indicativo indireto, mas que parte do princípio que os alimentos estão disponíveis para o consumo, em teoria, para todos de forma igual, que serão distribuídos para todos de forma igual. Portanto, vai medir o consumo alimentar do ponto de vista da oferta. Agora, claro, que não capta perdas a nível doméstico, desperdício alimentar, nem escolhas individuais. Portanto, vai servir como referência útil para perceber as tendências alimentares da oferta e uma comparação com as recomendações nutricionais.

E esta balança alimentar portuguesa, agora publicada pelo INE, é referente ao período entre 2020 e 2024. Quer dizer que também apanha aqui a pandemia. Indica então uma disponibilidade alimentar durante este período de 4079 calorias diárias por pessoa. Este é um valor que está muito acima do recomendado?

Sem dúvida, este é o dobro do valor recomendado para um adulto saudável. Existe essa recomendação de 2000 quilocalorias para um adulto saudável, que não faz a distinção de homem e mulher, ou entre homem e mulher, mas que naturalmente nós sabemos que as mulheres, em regra, têm um objetivo calórico inferior. Mas é importante dizer que realmente, este período marcado do início da pandemia, que houve realmente essa quebra e que depois, no pós-pandemia, em 2021, nós chegamos a valores mais baixos de sempre num fator importante, que é no índice de adesão à dieta mediterrânica, que é medida também neste relatório. Que nos dizia que nessa altura era 1,1, que não se verificava isso desde 1990. Depois, em 2022, recuperámos, mas para um número também baixo de 1,13, que era um número que não tínhamos desde 2020, que já era baixo na altura. Ou seja, isto quer dizer que, para além do conteúdo calórico total, nós temos vindo cada vez a afastar mais do padrão de dieta mediterrânea.

Da dieta mediterrânea, sim.

Que é considerado o mais saudável, sem dúvida. Portanto, excesso calórico, claro que agrava o risco de excesso de peso, de obesidade, de doenças metabólicas. Com este desvio do tipo de alimentação, realmente agrava a situação. Apesar de que eu acho que é importante, João, referirmos aqui, este relatório não inclui uma avaliação explícita da presença de alimentos processados e ultraprocessados, o que vai limitar a compreensão do impacto destes padrões de consumo sobre a qualidade global da dieta. Especialmente porque quando nós sabemos por evidência científica, a ingestão elevada de alimentos ultraprocessados está associada ao maior risco de doenças crônicas e maior risco de obesidade. Portanto, esta ausência de análise desse grau de processamento dos alimentos disponíveis também nos impede uma avaliação mais precisa da qualidade da dieta. Mas sem dúvida que em termos globais de consumo calórico, é o dobro.

E para termos também uma ideia da evolução num período mais alargado ao longo dos últimos anos, em relação à balança alimentar anterior, que se referia ao período 2015 a 2019, houve alguma alteração significativa no total de calorias por pessoa?

Não houve. É exatamente igual ou muito parecida. Aqui era 4077, agora é 4079. Não é significativo, mas as estimativas para 2024 apontam para um aporte calórico que vai aumentar este 4167. Calorias por habitante, por dia. Estamos cada vez a escalar mais as calorias disponíveis e que têm que ser travadas.

Vamos então também tentar decompor aqui um bocadinho este total calórico. 36% das calorias que estaremos a consumir diariamente vêm de gorduras. Isto é mais do que aquilo que é recomendado?

Na verdade, é mais do que é recomendado, sem dúvida. O limite máximo recomendado para consumo, de acordo com a roda dos alimentos, que é com isso que compara esta ferramenta, o objetivo é de 30% de consumo de gordura total diário e aqui aparece um valor de 36%. Mas eu aqui gostava de ir um pouquinho mais além e falar de uma coisa muito importante, que é: não está definido que uma alimentação saudável é sem gordura. E, portanto, o tipo de gordura aqui vai fazer muita diferença. E eu acho que é importante pensarmos que esta questão de fugirmos ao padrão de dieta mediterrânica é realmente relevante e um fator negativo. Nós sabemos que há um estudo muito interessante que se chama PREDIMED, que foi feito com adultos de 55 a 80 anos com risco cardiovascular elevado, em que mais de 7 mil pessoas foram avaliadas e quando foi mudado o tipo de alimentação para um padrão alimentar de dieta mediterrânica e suplementado 30 gramas de noz por dia ou quatro colheres de sopa de azeite virgem extra por dia, conseguiu-se um risco de redução de cerca de 30% no que toca a AVC, risco de enfarte, morte cardiovascular, comparando com uma dieta pobre em gordura. Isto para dizer que as calorias em gordura aumentaram nesta disponibilidade, mas era interessante ver se a oferta de gordura saudável, que será protetora, realmente aumentou ou diminuiu, porque isso é que terá impactos na saúde geral da população.

Por outro lado, estaremos a ingerir menos hidratos de carbono do que o recomendado, quando às vezes a ideia que as pessoas têm é que gerem muitos hidratos de carbono. Isto pode dever-se a quê?

Essa eu acho que é uma análise real, uma ferramenta estatística. O que está disponível para consumo será menos quantitativo, não é? É assim que nós vemos esta análise. Eu acho que se deve ao facto de haver uma redução nos tubérculos, principalmente, e nas raízes. É isso que aparece no relatório, que são fontes energéticas de menor densidade calórica, mas são fontes de hidratos de carbono. Também parece haver uma redução dos cereais, mas importa rever se foram substituídos por alternativas menos saudáveis. Ou seja, custa-me a crer que haja uma redução no consumo de hidratos de carbono gerais da população, uma vez que o consumo de alimentos processados, ultraprocessados, muitas vezes são ricos em hidratos de carbono de absorção rápida e açúcares também.

Já regressamos à conversa com a Mariana Chaves, nutricionista e autora do podcast "Aprender a Comer" do Observador. Na segunda parte, vamos falar da velhinha roda dos alimentos, daquilo que estamos a comer a mais e do que estamos a comer a menos do que deveríamos e também de possíveis alternativas mais saudáveis. Estamos de regresso à conversa com Mariana Chaves. Quando olhamos para a roda dos alimentos, que todos nos lembramos da escola, e para esta balança alimentar, chegamos a uma conclusão que já não é propriamente uma novidade. Nós, portugueses, continuamos a consumir demasiada carne.

Sim, neste relatório aparece exatamente isso, o aumento geral da disponibilidade em mais de 2,9%, atinge-se aos 85,5 kg por habitante por ano e continua a exceder as recomendações, sobretudo se compararmos isto com as necessidades em vegetais e em leguminosas. Há o maior peso neste relatório em relação às carnes de aves. E isso será positivo, versus carnes vermelhas, carnes com mais gordura saturada. Mas realmente há essa descrição de um consumo demasiado exagerado de carne.

Será também uma questão social, cultural, mas as pessoas podem também perguntar se então, não sendo carne, quais serão as alternativas às quais podemos recorrer para diminuir este consumo tão excessivo?

Exatamente de acordo com o que eu falava há pouco da dieta mediterrânica, que nos dá a indicação de que devemos reduzir o consumo de carne e aumentar o consumo de proteína vegetal, como sendo as leguminosas, e aumentar o consumo de peixe. Eu acho que essa é a estratégia. No entanto, também é importante dizer que o facto de haver maior disponibilidade de carne, também está aqui o preço muito envolvido nesta decisão de consumo do português, daquilo que tem disponível. Mas realmente a solução eu acho que passaria por isso. Acho que o que vem neste relatório, vem uma redução da oferta de pescado, que é onde entra o peixe, marisco, produtos do mar, que é realmente uma fonte de proteína saudável e rica em ômega 3, e que seria, sem dúvida, o melhor padrão alimentar aumentarmos um pouquinho o consumo de peixe, nem que seja o nosso típico peixe português mais saudável do mundo, a sardinha, a cavala, em detrimento de carne. Isso implica alguma literacia alimentar e literacia na cozinha, que é muito importante, saber como cozinhar. E um aumento do consumo das leguminosas, grão, feijão, ervilhas, favas, lentilhas, grão-de-estrelosa também entra aqui como fonte de proteína útil, vegetal, mas muito útil.

E em relação às frutas e aos hortícolas, há sempre uma espécie de ideia que nós comemos menos do que deveríamos. O relatório confirma isso ou não?

Sim, nós consumimos menos do que seria expectável para as recomendações de acordo com a roda dos alimentos. Apesar de que aparece uma maior disponibilidade agora de frutas, com crescimento anual de 1,8%, que isso é um aporte, a fruta é um importante alimento como fonte de fibra, de vitaminas e de antioxidantes, mas ainda abaixo da recomendação da roda dos alimentos. Isto em relação às frutas. Às hortícolas ainda temos uma disponibilidade baixa e um consumo baixo em relação aos nossos objetivos de vegetais, que deveriam ser mais elevados.

E depois há também a questão do açúcar, de que ainda não falámos. Este relatório até aponta para uma redução ligeira, mas quando olhamos para o quadro geral, ainda assim é muito que continuamos a consumir por dia.

Exatamente. Uma redução ligeira, não significativa. Temos aqui um consumo médio de 81,3 gramas por habitante, por dia, neste período destes quatro anos. Importa refletirmos um pouco sobre isto, porque as recomendações da Organização Mundial de Saúde, de há muitos anos, é de que não devemos ultrapassar os 10% do valor energético total em açúcar. Idealmente, ficar abaixo dos 5%. Isto, no limite, quer dizer 50 gramas de açúcar por dia. Nós estamos a exceder em 31 gramas, o que equivale a cerca de seis colheres, mais ou menos, de chá. Quer dizer que esta diferença vai ter, com certeza, um impacto direto no risco de obesidade, no risco de diabetes tipo 2, no risco de doenças cardiovasculares. Faz todo sentido pensarmos que ainda bem que está a baixar, mas não é suficiente. Temos que continuar a baixar.

Há muitos dados interessantes, mais que poderíamos tirar sobre este estudo, mas gostava de salientar só mais um final, que é um aumento significativo do consumo aparente de álcool, com todas as consequências que tem para questões de saúde.

Sim. E que vamos contra a tendência mundial, o que é extraordinário, de redução do consumo de álcool. Este relatório fala em 121 litros por habitante por ano, que é um valor extremamente elevado. E que tem impacto, com certeza, em termos de saúde individual e saúde pública. Eu gostava de referir aqui também, que é muito importante e obviamente mais ligado à nutrição, à minha área, mas que é importante dizer que o aumento dos refrigerantes representa cerca de 28, quase 29% das bebidas não alcoólicas. Que é o consumo de açúcar líquido, de hidrato de carbono de absorção rápida líquido. Tem um impacto na saúde muito negativo e continua a ser uma preocupação por este elevado teor de açúcar. Quando falamos em bebidas, quando falamos numa bebida que é uma alternativa à água, é importante dizer isto, que não só o álcool estava definido como sendo realmente um consumo elevado, e os refrigerantes também. São dois pontos que esperamos que na próxima análise, no próximo balanço de quatro anos, estejam reduzidos.

Sim. Obrigado, Mariana.

Obrigada, João, pelo convite.

Mariana Chaves é nutricionista e autora do podcast "Aprender a Comer" d'O Observador. A terminar, três sugestões culturais, já a olhar também para o fim de semana. Começa hoje o festival Lisbon Revisited: Dias de Poesia. É uma oportunidade para conhecer e ouvir poetas de diferentes países que se juntam para partilhar histórias, conversar sobre a escrita e ler poemas. Decorre até ao próximo domingo na Casa Fernando Pessoa. Depois do Coliseu de Lisboa, Samuel Úria atua esta sexta-feira no Coliseu do Porto. O músico apresenta o seu novo álbum, "2000 AD", e revisita clássicos da carreira. Samuel Úria é também o autor da música original do novo podcast Plus d'O Observador, "A Eleição Mais Louca de Sempre". E em Braga, arranca esta sexta-feira o Pandemónios Jazz Fest 2025. É organizado pela Plataforma do Pandemónio, junta vozes do jazz nacional e internacional e pretende também valorizar músicos e grupos da região. Vai decorrer até domingo. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Bom fim de semana.