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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Qual a estratégia da China ao desafiar Donald Trump a entrar numa escalada da guerra comercial?

"Donald Trump, it's being reported, now threatening a further 50% tariff on China from April the 9th."

Ameaçou e cumpriu mesmo. Trump vai impor à China uma tarifa adicional de 50%, em vigor já a partir desta quarta-feira, o que eleva as taxas alfandegárias que os produtos chineses pagam para entrar nos Estados Unidos para um total de 104%. É a resposta dos Estados Unidos ao fato de a China ter retaliado a um primeiro aumento das tarifas anunciado por Donald Trump na semana passada. É uma guerra em que nenhum dos lados parece disposto a ceder. Mas qual será a estratégia chinesa neste braço de ferro? E estará a China a ver a guerra lançada por Trump também como uma oportunidade? Vou falar com Jorge Tavares da Silva, analista em assuntos chineses e professor da Universidade da Beira Interior. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 09 de abril. Bem-vindo, Jorge Tavares da Silva.

Olá, João. Obrigado pelo convite.

Vamos começar por tentar dar aqui também algum contexto. Esta questão da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China não é de agora, deste pacote de tarifas mais recente anunciado por Donald Trump. Já vem de trás, não é?

Já vem de trás, mas eu acho que a escalada que está a ganhar agora esta ofensiva de tarifas é incomparável. E vem de, alguma forma, se verificar que o primeiro pacote de tarifas que foram aplicadas no primeiro mandato Trump, e até mesmo no próprio mandato de Joe Biden, não teve o efeito pretendido. Inclusivamente criou aquilo que se chama o efeito de desvio de comércio, ou seja, um conjunto de tarifas que foram aplicadas pras exportações chinesas. Na realidade, o que provocou foi que algumas empresas chinesas aproveitaram e foram pra outros mercados, nomeadamente o Vietnã e outros países da Ásia, para depois exportarem pros Estados Unidos. Ora, estas tarifas em grande escala, apanhando tantos países ao mesmo tempo, visam precisamente afetar esse comércio um bocadinho diversificado pelo mundo e têm aqui uma dimensão e uma escala que não se compara.

Perante um primeiro anúncio de novas tarifas de mais 34% à China, Pequim retaliou da mesma forma, em vez de, por exemplo, tentar negociar como outros países, anunciou também outras medidas, como controles de exportação de minerais de terras raras e restrições comerciais a certas empresas americanas, o que levou agora os Estados Unidos e Trump a anunciarem esta nova subida de mais 50% nas tarifas. Mas da parte da China, o que é que nos indica esta posição de força por parte dos chineses?

É uma China mais confrontacional, se quisermos. Não é aquela China dos anos 90, que muitas vezes acabava por conceder algumas das reivindicações, nomeadamente quando era confrontada com questões de direitos humanos e outras, muitas vezes não afrontava o poder dos Estados Unidos. E agora é uma China com poder ganho do ponto de vista comercial e agora atreve-se, se quisermos, podemos dizer assim, atreve-se a confrontar os próprios Estados Unidos e também, é importante dizer, respondendo internamente pra sua população. Um partido comunista fraco, certamente que não será bem visto por parte da população e acaba por ser uma necessidade também de ser forte perante o seu povo.

Mas é um facto, de há muitos anos, que há um desequilíbrio na balança comercial e que a China vende muito mais para os Estados Unidos do que o contrário. Pequim estará, de certa forma, confiante no fato de os Estados Unidos poderem depender mais da China do que propriamente a China dos Estados Unidos.

Eu não diria exatamente assim. A verdade é que as duas economias são interdependentes. É verdade que do ponto de vista comercial, nós estamos a falar da principal potência comercial do mundo, é uma grande exportadora. E os Estados Unidos é o grande consumidor global. É muito interessante este paralelismo entre as duas potências. Elas, na verdade, são interdependentes uma e outra, e precisam, de alguma forma, de cooperar do ponto de vista comercial. Agora, se tivermos uma grande política de travar as exportações chinesas, eu acho que aí a China, até porque tem alguns indicadores econômicos internos, que são nomeadamente a falta de confiança e outros, pode vir a perder do ponto de vista comercial se essa barreira continuar elevadas como estão. Eu acho que acabam por perder os dois neste processo, sinceramente, acaba por ser assim. Agora, como eu já disse anteriormente, o que a China vai tentar fazer é encontrar alternativas, sobretudo no Sul global, para minimizar este efeito das tarifas americanas.

Já regressamos à conversa com Jorge Tavares da Silva, especialista em assuntos chineses. Na segunda parte vamos continuar a falar do que poderá ser a estratégia da China, mas também de onde podem ficar os europeus no meio desta guerra comercial. Estamos de regresso à conversa com Jorge Tavares da Silva. Professor, de facto, a China neste momento tem uma dimensão global mundial que não tinha há 20 anos. Há duas décadas os Estados Unidos eram ainda o principal parceiro comercial da maioria dos países do mundo. Neste momento o principal parceiro acaba por ser a China, numa perspetiva global. Acreditará Pequim numa espécie de nova era da globalização em que poderá substituir-se aos Estados Unidos e já estará a promover-se nesse sentido, não?

Eu acho que a China em muitos sentidos já vem a preparar alternativa à ordem, à economia em muitas dimensões, esta ordem dominada pelos Estados Unidos e portanto toda esta ligação que tem com o sul global, o facto, e como referiu muito bem, eu não sei se são 120, 130 países à volta disso, em que a China é o principal parceiro comercial, isto é muito significativo e significa muito porquê? Porque também é um ganho político. São parceiros comerciais, mas simultaneamente são países que ficam muito dependentes e muitas vezes sob uma influência forte da China e há ali um capital político. É esta alternativa, é encontrar neste mundo alternativo aos Estados Unidos, aquilo que vem-se muitas vezes a falar como sendo o sul global, o mundo em desenvolvimento e outros países, e são esses países que vão dar suporte também à China em muitos dos seus propósitos políticos. É este mundo alternativo que nós estamos aqui a assistir e essas relações económicas são verdadeiramente importantes. E vamos acrescentar, por que não, a própria Nova Rota da Seda e outros projetos de abertura comercial e de infraestruturas e outros, que são importantes para capitalizar do ponto de vista internacional estas relações. Eu acho que sim, tudo aquilo que for criando dificuldades por parte dos Estados Unidos, e é muito estranho, e aqui confesso que é o ponto que eu acho mais vulnerável dos Estados Unidos, é estarem a prejudicar as suas relações tradicionais. Há muitos países que estavam alinhados com os Estados Unidos no sentido de enfrentar a própria União Europeia, enfrentarem a política externa chinesa e até a projeção económica chinesa no mundo, encontraram alternativas para o fazer e tinham esta articulação com os Estados Unidos. Essa articulação deixou de existir e há aqui uma traição até em muitos sentidos, essa relação tradicional. Estes países ficam agora expostos a uma investida política por parte de Pequim.

E como é que a Europa poderá ficar no meio desta guerra comercial entre os Estados Unidos e a China? É certo que a União Europeia tem também as suas próprias tarifas em relação à China, nomeadamente na questão dos carros elétricos chineses, mas poderão ou não existir também aqui oportunidades para a Europa no meio desta guerra comercial lançada pelos Estados Unidos?

A Europa ou a União Europeia no seu conjunto ainda não se revelou muito. Eu acho que ainda está em estado de choque perante todo este contexto das tarifas. Estão alguns atores individualmente, alguns países individualmente, a tentar uma reaproximação com a China. Eu estou a lembrar-me da própria Espanha, que tem feito alguns contactos importantes nesse sentido, mas não é unânime. Repare como alguns países não têm propriamente ou não se articulam propriamente, por um lado nesta contrariedade em relação a Pequim, por outro lado, em relação aos próprios Estados Unidos. Estou-me a lembrar da própria Hungria e a Polónia, que com os Estados Unidos têm uma postura um bocadinho mais branda. Há falta de unidade política, esta é uma fragilidade, e a Europa ainda não se revelando suficientemente, está um pouco em expectativa. Eu acho que o caminho vai ser de encontrar a sua própria autonomia. Acho que há uma grande lição para a Europa, não só com a guerra na Ucrânia, com as questões geopolíticas e agora com as questões comerciais. A Europa tem que procurar o seu caminho, se calhar começando a desligar-se um pouco da sua relação mais tradicional que tinha com os Estados Unidos e preocupar-se com os seus próprios interesses. Agora, não me admito nada, e respondendo objetivamente à pergunta, que no meio de tudo isto haja uma nova janela de oportunidade para reabrir um pouco as relações com Pequim sem criar novas dependências no futuro. Não é sair de uma dependência e de uma relação que não lhe está a ser muito favorável para depois se ligar a outra que também lhe pode ser verdadeiramente prejudicial e tendo questões tão importantes como os carros elétricos e outras também do ponto de vista comercial. O défice está aí, o défice comercial, e a Europa também tem que se preocupar com essa questão.

O professor já falou aqui da aposta no chamado Sul Global. O presidente chinês Xi Jinping vai visitar em breve três países importantes do Sudeste Asiático, a Malásia, o Vietname e o Camboja. Com o intensificar desta guerra comercial, de facto as atenções da China viram-se ainda mais para estes mercados, não é?

Claramente. Falo até sobretudo da questão do Vietname, onde o Joe Biden fez uma importante viagem ao Vietname, onde a população tem uma admiração grande pelos Estados Unidos, apesar de todo o histórico de conflito entre os dois países. É muito curioso. A China nem gosta muito dessa relação às vezes tão sentimental entre o Vietname e os Estados Unidos, e agora, fruto desta política externa americana tão agressiva, vai certamente dar aqui um espaço importantíssimo para a China poder capitalizar esta relação com o Vietname e trazê-lo um bocadinho mais para junto de si. São ganhos efetivos, sobretudo no espaço asiático, que a China não vai deixar de os tentar.

Obrigado, Jorge Tavares da Silva.

Obrigado, foi um gosto.

Jorge Tavares da Silva é especialista em assuntos chineses e professor da Universidade da Beira Interior. A fechar, três notas ainda a ter em conta esta quarta-feira. Começa hoje em Lisboa o julgamento do processo Saco Azul, um processo que envolve, entre outros, a SAD do Benfica e o ex-presidente Luís Filipe Vieira. Vieira é acusado de três crimes de fraude fiscal qualificada e 19 de falsificação de documentos. A guerra entre Elon Musk e Jeff Bezos faz-se cada vez mais no espaço. A Amazon vai pôr em órbita hoje os primeiros 27 satélites do projeto Kuiper. O objetivo é montar uma constelação capaz de fornecer serviços globais de internet e competir com a Starlink da SpaceX, que é detida por Musk. E a terminar, uma sugestão. Se gosta de cinema, começa hoje a Festa do Cinema Italiano. Decorre em vários cinemas de Lisboa até 17 de abril, mas depois disso a programação vai estender-se também a mais de 20 cidades do país. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é de Pedro Oliveira. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Tuarte. Até amanhã!