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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quão resistente deve ser um novo hospital a sismos?
O que a experiência demonstra é que com o isolamento de base consegue preservar a operacionalidade dos hospitais e sem o isolamento de base, normalmente não consegue.
Apenas um dos três edifícios do novo Hospital Lisboa Oriental, também conhecido como Hospital de Todos os Santos e que está a ser construído, vai ter isolamento sísmico de base. Esta decisão contraria uma recomendação do Tribunal de Contas e de vários especialistas. Ao Observador, a Administração Central do Sistema de Saúde confirmou que apenas o edifício A do novo hospital vai ser construído com isolamento sísmico de base. É neste edifício que ficarão instalados os principais serviços do hospital, como os blocos operatórios e todos os internamentos. De fora ficam o edifício B, onde se pretende instalar serviços como a medicina física e de reabilitação, a psiquiatria e a hemodiálise, e o edifício C, dedicado aos serviços administrativos de ensino e de investigação. O que é que significa esta decisão? Estamos a construir um hospital novo contrariando as regras antissísmicas? Estamos a pôr em risco a resposta de emergência em caso de catástrofe? Vou conversar com o engenheiro Mário Lopes, professor do Instituto Superior Técnico em Lisboa. Eu sou a Teresa Bacasis e esta é a história do dia de quarta-feira, 22 de abril. Bem-vindo, Mário Lopes.
Boa tarde.
Professor, para começar, pode explicar-nos o que é este isolamento sísmico de base que está a ser pensado apenas para um dos edifícios do novo Hospital de Todos os Santos?
O isolamento de base é uma técnica recente, mas recente quer dizer com algumas décadas, 30, 40 anos, que consiste, no fundo, em interpor entre a base do edifício e o solo ou as fundações, uma camada deformável, pode ser de borracha ou de metal, que impede que o sismo entre no edifício. Ao fazer isso, o que é que acontece? O chão move-se, mas o sismo que o edifício sente é muito mais pequeno. Quando se tiver um edifício, como quase todos os edifícios, de base fixa, em que o edifício está assente no chão, as acelerações do terreno aumentam para cima e com aquele sistema, em vez de aumentarem, diminuem. E, portanto, o efeito do sismo no edifício não desaparece, mas é reduzido a 10 vezes menos. Isto tem uma vantagem: protege o próprio edifício, mas também protege o interior do edifício, tudo o que está lá dentro, móveis, equipamentos, etc. Quando faz um edifício segundo as regras normais e cumprindo a legislação técnica em vigor, incluindo a legislação mais recente, que é o Eurocódigo 8, a legislação obriga a construir os edifícios para eles não caírem quando houver um sismo. Portanto, você não morre. Está lá dentro, não morre, mas tudo o que está dentro do edifício pode ficar destruído.
Porque pode abanar o edifício.
Porque abana, porque o edifício tem resistência às vibrações, mas as vibrações podem destruir o conteúdo. Quando põe o isolamento de base, o que está a fazer é impedir as vibrações de entrarem no edifício e, portanto, protege não só o edifício, como tudo o que você põe lá dentro. Portanto, a probabilidade de um armário lhe cair em cima é muito mais pequena. No caso de um hospital, os equipamentos todos que servem para tratar os doentes ficam protegidos. Se o edifício tiver ligado ao solo, não ficam. Podem ficar avariados, podem cair ou também podem aguentar se tiverem resistência suficiente para isso. Mas normalmente, o que a experiência demonstra é que com o isolamento de base consegue preservar a operacionalidade dos hospitais e sem o isolamento de base, normalmente não consegue.
Então, posso depreender que considera preocupante o facto deste isolamento de base não estar contemplado em todos os edifícios do novo hospital, porque o que a Administração Central diz é que todos os edifícios cumprem os requisitos obrigatórios para a construção em zonas sísmicas, ou seja, estamos a falar de uma proteção que vai para além do que exige a lei.
O isolamento sísmico vai para além do que exige a lei. A lei não exige o isolamento sísmico. A regulamentação estabelece padrões mínimos de exigência quando se faz um projeto. E a regulamentação implica que o edifício não deve cair e as pessoas não devem morrer porque ele colapsa. Mas a legislação não é suficientemente exigente para garantir a operacionalidade dos hospitais depois de um sismo. Agora, qualquer dono de obra, neste caso o Estado, tem o direito ou pode fazê-lo, e neste caso, além do direito, tem o dever de ir para lá da legislação para garantir que estruturas importantes que devem funcionar depois de um sismo estejam em condições de funcionar depois de um sismoE o que o acórdão do Tribunal de Contas, que permitiu a construção do hospital, o visto para a construção do hospital exige, é que o hospital seja feito de acordo com a melhor tecnologia para garantir a sua operacionalidade depois de um sismo, para garantir que é possível socorrer as pessoas feridas, para não morrerem e continuar a tratar os que lá estão. Temos que entender uma coisa também, é que o hospital tem universidade, tem bibliotecas, tem salas de aula e certas partes do hospital, se não tiverem essa proteção, ficam nas mesmas circunstâncias que diversos outros edifícios do mesmo gênero em outras escolas no país inteiro. Isso é aceitável, mas o espírito do acórdão do tribunal é que tudo que é importante para tratar as pessoas depois de um sismo, tem que estar operacional. E eu não sei como é que isso pode fazer com um edifício só.
Já voltamos à conversa com Mário Lopes. Na segunda parte deste episódio falamos sobre o risco sísmico de Lisboa e a preparação das construções. Estamos de regresso à conversa com o engenheiro Mário Lopes, professor do Instituto Superior Técnico em Lisboa. Professor.
Certo.
Caso Lisboa volte a ser abalada por um grande sismo, os restantes hospitais da cidade estão preparados para resistir, isto também tendo em conta que o novo hospital pretende substituir sete outras unidades da zona central, que é suposto deixarem de existir.
Olha, isso varia, porque as regras de construção e o grau de exigência varia ao longo do tempo, portanto, depende da data de construção dos hospitais. Mas há um problema: é que independentemente da resistência dos hospitais, e mesmo que estejam bem construídos para não colapsar, o único que tem o sistema de isolamento de base, que é o único em que podemos ter uma expectativa elevada de continuar operacional depois de um sismo, é o Hospital da Luz, a primeira fase. Os outros todos não foram construídos para ficarem operacionais depois de um sismo e, portanto, provavelmente poderão ficar, mesmo que não colapsem, dependendo da resistência que têm, há uma grande probabilidade de com um sismo forte, não ficarem operacionais. Hospitais como o Santa Maria, como o São Francisco Xavier, a Igreja Misericórdia, etc. E a maior parte daqueles que vão ser substituídos, são hospitais que estão em edifícios antigos. E, portanto, o nível de segurança para todos os profissionais de saúde que lá trabalham, mais os doentes, vai provavelmente sair muito melhorado com a mudança para o novo hospital. Agora, o problema é que nós arriscamo-nos a que apenas este e a primeira fase do Hospital da Luz estejam a trabalhar em toda a região de Lisboa, se um dia tivermos aqui a repetição de um sismo bastante forte, por exemplo, uma repetição como a de 1755, ou pode nem ser preciso tanto para termos uma situação dessas. E mesmo assim temos um grande déficit na capacidade de tratar os nossos doentes.
Lisboa é, pela sua localização geográfica, uma cidade com elevado risco sísmico. Apesar da legislação antissísmica ser relativamente recente, há cuidados mais antigos que já foram postos em prática. Num debate público, há uns anos, o professor considerava que a cidade tinha sido a primeira do mundo a ser construída para resistir a sismos. Referia-se à Gaiola Pombalina. Pode explicar o que é que é isto?
A Gaiola Pombalina foi o sistema que foi usado na reconstrução de Lisboa depois do sismo de 1755 e consiste numa estrutura triangulada de madeira que está metida dentro das paredes da alvenaria. Estava nos edifícios da Baixa. Muitos já estão estragados, mas originalmente, a construção original do século XVIII tinha esta estrutura que depois era tapada com a alvenaria. Consiste num conjunto de barras de madeira verticais, horizontais e diagonais, formando triângulos. E o triângulo é a única figura geométrica que não se pode formar sem variar o comprimento dos lados. Portanto, qualquer força horizontal, como as forças que os sismos provocam, que atua naquelas estruturas, elas estavam preparadas para resistir. Os edifícios pombalinos bem feitos, foram edifícios do século XVIII com a resistência que era exigida na anterior regulamentação portuguesa, portanto, com níveis do século XX. Está a ver? O que é extraordinário. Obviamente que hoje nós sabemos fazer melhor do que isso. A regulamentação exige, com os coeficientes de segurança, que se vá para lá disso. Mas eram edifícios muito bons, tendo em conta a época em que foram feitos. E, portanto, isso é a Gaiola Pombalina. Qual é o problema? Isso foi feito de forma generalizada no século XVIII, só que quando a geração que viveu o sismo desapareceu por morte natural, as pessoas todas morrem, a geração seguinte começou um pouco a abandalhar as regras que vinham do tempo do Marquês de Pombal e do século XIX. Principalmente de 1840, 1850 a 1880, a construção pombalina foi adulterada de tal forma que quando chegamos a 1880, as características de resistência sísmica já tinham sido todas adulteradas. Portanto, houve uma degradação ao longo do século XIX e o que foi bem feito na antiguidade, foi na sua maioria estragado no século XX. Quer dizer, primeiro por uma desexigência no século XIX e no século XX por obras que se fizeram para pôr canalizações e por outras alterações que foram sendo feitas nos edifíciosPortanto, de certa forma, andámos para trás durante grande parte do século XIX e início do século XX. Depois, a introdução do betão armado vem trazer algumas melhorias na resistência sísmica dos edifícios e a partir de 1960 houve uma melhoria relevante que foi o cálculo sísmico tornar-se obrigatório. Isso trouxe uma melhoria em média e depois, a partir de 1983, entrou em vigor outro regulamento mais exigente. Os níveis de conhecimento eram melhores, o que se ensinava nas universidades era mais avançado e isso marca um novo marco em termos de melhoria da resistência sísmica das nossas construções. Mais recentemente, tivemos a introdução dos eurocódigos em 2019. Também existe uma expectativa perfeitamente legítima e bem fundada de que traga outra melhoria na resistência sísmica. E a situação do nosso parque habitacional e de escritórios, resumidamente, é esta.
O professor é especialista na área da prevenção contra os sismos, em sismologia. Já visitou vários países. Que país ou cidade é um bom exemplo nesta matéria? Lembra-se de alguma medida em específico que também poderia ajudar e ser implementada cá em Portugal?
Olha, há vários países em que a situação da prevenção sísmica é muito melhor do que em Portugal. Na Califórnia, não é um país, é uma região dos Estados Unidos, na Islândia, na Itália, no Chile, na Nova Zelândia, no Japão. Talvez como termo de comparação com Portugal, a Itália seja mais adequada, porque é um país mais próximo, com uma cultura mais semelhante à nossa e com problemas no parque construído também equivalentes aos nossos. Também tem muitas construções antigas, construídas em épocas em que não havia regulamentos que obrigassem ao cálculo sísmico, portanto, também tem uma grande parte do seu parque construído numa situação de grande fragilidade perante a ocorrência dos sismos. Simplesmente, em Itália, houve uma mudança qualitativa muito grande em 2002. Porque houve um sismo pequeno que destruiu uma escola em que morreram muitas crianças. E houve uma coisa que comoveu a opinião pública, que foi ver os caixões pequenos das crianças nos funerais. E então o governo instituiu programas de redução do risco sísmico, com uma grande ênfase nas escolas. Nós também temos chamado a atenção que muitas das nossas escolas, onde estão as nossas crianças, estão em edifícios que não foram construídos para resistir a sismos. E é absolutamente inacreditável que o Estado encare esta situação com a indiferença com que encara e que não haja medidas concretas para reforçar as escolas, além de outros equipamentos importantes para a proteção civil, como é, por exemplo, o caso dos hospitais para atender os feridos, etc. Eu poria muita ênfase nas creches, nas escolas, onde estão os nossos jovens. Há muitas creches em Lisboa que estão instaladas em edifícios antigos, sem cálculo sísmico, com muito pouca resistência. E não se percebe como é que os governos podem ser indiferentes a esta situação. Temos aqui muito para fazer e se quiser reforçar os edifícios antigos nas zonas de maior risco sísmico do país, está a falar de um trabalho de décadas, um trabalho que demora muito tempo. O ponto da questão em Portugal não é quando é que isso vai acabar, é quando é que isso vai começar. Porque quanto mais tarde começarmos, mais pessoas vão morrer quando vier o próximo sismo. Devíamos estabelecer prioridades e ter alguns investimentos nos edifícios que considerássemos mais importantes. Eu diria aqueles que são economicamente importantes, os que são importantes para a proteção civil e as escolas.
Obrigada, professor Mário Lopes.
Foi um gosto, obrigado.
Mário Lopes é professor e investigador do Instituto Superior Técnico, doutorado em Engenharia Sísmica. Este episódio foi escrito com a contribuição do Tiago Caeiro, jornalista do Observador, que assina um especial sobre a construção do novo hospital no site do Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Ricardo Pelarigo. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacaxis. Até amanhã.