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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Rishi Sunak, o milionário primeiro-ministro.
"I'd like to pay tribute to Liz Truss for her dedicated public service to the country. She has led with dignity and grace through a time of great change and under exceptionally difficult circumstances, both at home and abroad."
Primeiro agradece a Liz Truss, depois promete enfrentar com todo o empenho os desafios políticos e económicos que se avizinham. Na primeira declaração, enquanto líder do Partido Conservador, Rishi Sunak diz que tem agora o maior privilégio da vida: servir o partido e o país ao qual tudo deve.
"I pledge that I will serve you with integrity and humility, and I will work day in, day out to deliver for the British people."
Praticamente num fim de semana, o Partido Conservador arrumou, de novo, a questão da liderança. Aos 42 anos, Rishi Sunak assume a chefia do partido e vai ser primeiro-ministro. É o quinto primeiro-ministro desde 2016 no Reino Unido. Quem é este homem e o que representa? Vou conversar com a jornalista Cátia Bruno, especialista internacional e que há muito acompanha a política britânica. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia.
Olá, Ricardo.
I did expect a bit more in terms of content and length, but we've got what we've got. What did you make of it, Liz?
Exactly the same. Slightly caught me a bit off guard. I wasn't expecting it to be that short, but to be honest, that's exactly what we were talking about.
Cátia, na Sky News, depois de 85 segundos de discurso de Rishi Sunak, tentava-se uma primeira leitura do que disse o próximo primeiro-ministro. Liz Truss despediu-se com um discurso de 89 segundos. Sunak entra com um discurso de 85 segundos. Quem pouco fala, mais acerta, Cátia Bruno?
Veremos. Não sei se os candidatos a primeiro-ministro do Stories estão aqui numa competição pra ver quem fala menos, mas claramente estão com medo de tropeçar e mantêm tudo o que dizem muito controlado.
Isto porque há muito em jogo nesta altura, não só a nível político, mas também económico, com todos os olhos postos em Londres. Este é o terceiro episódio da História do Dia que em menos de uma semana dedicamos à política no Reino Unido. Na sexta-feira, antecipava-se a possibilidade de tudo ficar resolvido na segunda-feira, e já está.
Good afternoon. As Returning Officer in the leadership election, I can confirm that we have received one valid nomination . Rishi Sunak is therefore elected as leader of the Conservative Party.
Este senhor que ouvíamos entre as palmadas nas mesas dos deputados conservadores é Graham Brady, o presidente do Comitê 1922, aquele órgão da bancada parlamentar conservadora que resolve problemas. Sunak derrotou a concorrência, mas, Cátia Bruno, só à segunda.
Só à segunda e desta vez sem competição, ou seja, sem haver, de facto, campanha.
Exatamente, não houve uma espécie de primárias.
Não houve, porque o facto de o governo de Liz Truss ter durado tão pouco tempo pôs o Partido Conservador nervoso e, portanto, foi decidido que esta corrida seria rápida, não haveria grande campanha. Sobretudo, era importante haver poucos candidatos e por isso criou-se o sistema de que só poderia concorrer quem tivesse nomeações de 100 deputados da bancada. Ora, o que Sunak conseguiu fazer foi garantir que só ele tinha esses votos, embora Boris Johnson diga que os teve, mas que não achou por bem liderar um partido dividido.
Teve, mas não quis.
Portanto, se retirou.
E por que não venceu logo à primeira, no primeiro embate com Liz Truss?
A campanha do verão foi muito marcada pela discussão da política econômica que os dois candidatos tinham. E a mensagem de Liz Truss parecia mais agradável pra maior parte dos militantes do Partido Conservador, porque ela garantia que não ia aumentar impostos, garantia que ia manter uma política economicamente muito liberal e que isso ia trazer crescimento econômico ao país e depois, quando chegou ao poder, a reação dos mercados foi complicada. Rishi Sunak teve uma campanha muito mais prudente e isso parece não ter galvanizado as pessoas, mas agora a segunda já parece uma espécie de: "Eu avisei-vos e eu tinha razão".
E o Brexit teve alguma influência nesta história?
Tem alguma influência se olharmos para a percepção. É curioso porque Sunak apoiou o Brexit antes de Liz Truss, portanto, é um Brexiteer há mais tempo, mas ela ficou muito mais conotada com essa ala do partido. Sunak foi muito retratado como estando próximo de muitas pessoas anti-Brexit, como sendo parte de uma elite financeira que se dava bem com a Europa e, portanto, apesar de ele ser pró-Brexit, isso não se traduziu muito na campanha.
E aqui outro facto que pode ser interessante ou não, tu nos dirás, o facto de ele ser Muito rico e também de origem indiana. Isto poderá também ter alguma coisa a ver com a vitória de Liz Truss e do seu plano econômico ousado, que deu depois o resultado que deu?
Eu diria que a origem indiana nem tanto, porque embora, de facto, esta seja a primeira vez que o Reino Unido tem um primeiro-ministro que não é branco, os Tories têm tentado mostrar muito esta ideia de que são um partido diverso e que as pessoas podem ser bem-sucedidas independentemente das suas origens. O facto de Rishi Sunak ser muito rico, na verdade, trouxe-lhe mais problemas, porque ele ficou muito colado à imagem de um candidato muito distante das pessoas normais, um homem que se veste com fatos caríssimos e que, portanto, se calhar não é a pessoa mais indicada para depois lidar com os problemas do aumento do custo de vida e da inflação.
Isso porque ele é mais rico do que o rei da Inglaterra, o rei Carlos III?
Ele e a mulher, juntos, têm uma fortuna maior do que a do rei Carlos III e a rainha consorte Camila.
Sabemos quanto?
Sabemos que são mais de 800 milhões de euros.
E Cátia, Rishi Sunak é filho de imigrantes, vai ser o primeiro chefe de governo britânico de origem indiana, como explicaste há pouco, é hindu e quase tão inédito quanto a confissão religiosa, e aqui os dois factos até estão ligados, é abstêmio.
Rishi Sunak, quando se tornou ministro das Finanças do governo de Boris Johnson, quis deixar clara a sua crença e quis mostrar que era um hindu praticante e fez a tomada de posse jurando sobre um dos livros sagrados do hinduísmo, o Bhagavad Gita, espero ter dito isto bem, e não sobre a Bíblia. Portanto, ele é muito declarado na sua fé e não só é abstêmio, como não come carne, leva todos esses preceitos muito a sério.
O facto de ser abstêmio não o livrou do caso Partygate.
Não, Rishi Sunak foi multado, como Boris Johnson e outros membros do governo, por ter estado nas tais festas que o governo tentou vender como momentos de trabalho, reuniões, e que afinal seriam um pouco mais divertidas. Não sabemos se Sunak estava a beber ou não, mas provavelmente não.
Terá bebido um refrigerante. Já voltamos à conversa com a jornalista Cátia Bruno, para percebermos melhor quem é este homem, Rishi Sunak.
Sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica, mas é mais do que isso. Leva-nos mais longe do que imaginamos. Encontra no silêncio o ritmo perfeito. Faz-nos olhar duas vezes, se formos suficientemente rápidos. Por isso, sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica e entre outras coisas fantásticas, apoia esta história do dia. Audi, o futuro é uma atitude.
Voltamos à conversa com a Cátia Bruno, jornalista de internacional do Observador, que há muito acompanha a política britânica. Cátia, Sunak é filho de imigrantes, mas já nasce e estuda em Inglaterra.
Sim, ele nasce em Southampton em 1980, é o mais velho de três filhos. Os pais são ambos imigrantes de origem indiana que nasceram no Quênia e na Tanzânia, mas frutos de outras vagas migratórias dos avós de Rishi Sunak, e tem uma infância muito típica de classe média, porque embora os pais fossem imigrantes, o pai era médico, a mãe tinha uma farmácia, e ele teve todo um percurso de jovem, por um lado, com algum esforço, tinha que trabalhar no restaurante durante o verão, tinha que tentar ajudar os pais de alguma forma, mas por outro, conseguiu estudar nalgumas das escolas mais caras do Reino Unido e também mais prestigiadas, graças ao esforço econômico de seus pais.
E como é que chega à política?
Chega à política muito tarde. Ele primeiro tem toda uma carreira no mundo das finanças, trabalha na Goldman Sachs, trabalha depois em vários fundos de investimento. Pelo meio, tira um MBA em Stanford, que é precisamente lá que conhece a mulher.
Na Califórnia.
Na Califórnia, exatamente. São os dois alunos daquele MBA e conhecem-se lá. E só muito mais tarde, quando regressa depois ao Reino Unido, é que decide juntar-se à política. Em 2014, concorre pela primeira vez para um lugar no Parlamento, o círculo eleitoral de Richmond, que pertencia a um histórico do Partido Conservador, William Hague, mas que também era um círculo confortável, porque os conservadores ganham sempre nesse local e, portanto, era uma eleição fácil. Mas ao que dizem os relatos da época, ele impressionou com a sua capacidade de convencer eleitores que normalmente olhariam para ele como: "Quem é este jovem bem vestido e adinheirado que vem aqui tentar ensinar-nos umas coisas?" E parece que Sunak passou esse teste com distinção.
E é já no consulado de Boris Johnson que entra para o governo?
Sim, já tinha estado no governo de Theresa May, mas num cargo de muito menos destaque, como secretária de Estado, e Boris Johnson é o primeiro a dar-lhe um cargo de relevo no meio, nada mais, nada menos do que ministro das Finanças, recompensando-o assim pelo apoio que ele tinha dado muito claramente na corrida para a liderança.
E pelo meio há uma complicação com impostos?
Sim, Rishi Sunak tinha se destacado muito como Ministro das Finanças por causa dos pacotes de apoio durante a Covid-19 e tornou-se uma figura muito popular, porque fez todos os programas de apoio econômico do governo, tanto na área da restauração, como de todos os apoios a desempregados ou pelo menos para as pessoas em lay-off, e tinha se tornado essa figura muito popular. E no meio disso, os jornais britânicos dizem que o próprio primeiro-ministro Boris Johnson não terá gostado que ele lhe fizesse tanta sombra e teria posto estas notícias cá fora.
Porque ele comunicava muito bem com as pessoas, através das redes sociais até.
Sim, ele tem uma equipa de comunicação muito profissional e que ele mantém com ele e que usa as redes sociais, curiosamente, às vezes, para promover medidas do governo, mas que vinham só identificadas como sendo medidas de Rishi.
Vamos então ao problema nos impostos.
O problema nos impostos surgiu com a mulher de Rishi Sunak, que estava sob um regime fiscal em que não pagava impostos no Reino Unido porque lhe era mais conveniente pagá-los nos Estados Unidos, onde tinha vivido durante muitos anos. Embora isso fosse legal, criou esta percepção de que Rishi Sunak era ministro das Finanças, mas para ele e para a sua família aplicavam-se aqui princípios diferentes dos das outras pessoas. E, portanto, a mulher de Rishi Sunak, depois deste escândalo, alterou rapidamente o seu domicílio fiscal, voltou a pô-lo no Reino Unido e a pagar impostos que são muito mais altos do que aqueles que pagaria na Califórnia.
O outro escândalo que saiu mais ou menos à mesma altura cá para fora e que é semelhante, não envolve impostos, mas envolve esta ideia de dois pesos e duas medidas, é que Rishi Sunak mantinha o seu green card, que lhe permitia trabalhar nos Estados Unidos, muito embora já fosse ministro das Finanças britânico, a viver no Reino Unido e, portanto, em teoria, já não teria direito a ele. O pacote econômico derrotou Liz Truss. Rishi Sunak tem outra via? Como é que podemos explicar ou traduzir aquilo que será o pensamento político e econômico de Sunak?
É muito interessante porque Liz Truss tentava apresentar-se como a nova Margaret Thatcher, mas Sunak durante toda a campanha tentou quase que dizer lá atrás: "Não, não, a verdadeira Margaret Thatcher sou eu". E no fundo, eu acho que no Partido Conservador todos querem ser Margaret Thatcher. Todos invocam esse legado. Enquanto Liz Truss tinha uma política econômica de descida de impostos agressiva e de sustentabilidade das contas públicas mais assente num crescente de dívida pública, Rishi Sunak é muito mais cauteloso e muito mais preocupado com as contas certas. Ele repetiu várias vezes durante a campanha que a sua maior preocupação era a inflação e que por estar tão preocupado com a inflação, não havia margem para baixar impostos. Foi muito claro nisso e durante os tempos em que foi ministro das Finanças de Boris Johnson, aumentou impostos e sempre disse que não iria recuar agora. Portanto, em termos econômicos, temos aqui ministro das Finanças que é muito assertivo na questão, até um bocadinho numa lógica mais austeritária do que o Partido Conservador tem tido nos últimos anos. Mas é curioso, porque ao mesmo tempo foi este ministro das Finanças que deu os apoios sociais durante a Covid, que foram um dos maiores pacotes de apoio social dos últimos anos no Reino Unido e que representaram um custo enorme para as contas públicas britânicas. Aquilo que ele justifica para conciliar estas duas posições é dizendo que este era um momento extraordinário e que se define como um homem pragmático. O problema dos pragmáticos é que por vezes também são vistos como não tendo espinha. Portanto, vamos ver, no caso de Sunak, qual das duas situações é.
E nesta altura, sem eleições, não há eleições, ele tem algum tipo de apoio popular ou não? É possível medir isso?
Durante muito tempo, Sunak foi dos políticos mais populares do Reino Unido, mas a corrida com Liz Truss prejudicou-o, porque com a maior exposição também veio aquela imagem de privilegiado que não o ajudou. E neste momento o próprio Partido Conservador está tão mal nas sondagens que é quase irrelevante quem é o político que segue, no sentido em que as coisas não estão boas. Veremos nos próximos meses se a situação muda e se Sunak tem essa capacidade de mudar o destino do partido.
Vamos precisamente aí, porque o Partido Conservador tem uma maioria confortável no Parlamento, mas nas sondagens não está nada confortável. Sunak vai ser capaz de unir o partido e unir o país, como ele prometeu naquela curta declaração de 85 segundos?
É a grande incógnita. Eu diria que a primeira reação que mais preocupa neste momento o governo britânico, que é a dos mercados, vai ser de acalmia comparada com o governo de Truss, porque Sunak é perfeito para acalmar os mercados. É um homem que trabalhou na Goldman Sachs, estudou em Stanford, tem uma política fiscal conservadora.
Ele trata os mercados por tu.
Exatamente. Portanto, essa parte parece-me que vai ser estável, pelo menos para já. A grande dúvida é se isso chega para aguentar o próprio partido, que pelos vistos está sempre agitado e sempre nervoso com os seus líderes.
E resolve as coisas com grande facilidade.
Exatamente. E depois, por outro, para os próprios eleitores, porque de facto, com uma inflação crescente, temos que perceber quais são as propostas de Sunak para lidar com o aumento do custo de vida e como é que essas propostas vão ser recebidas pelos britânicos. E depois, claro, tentar perceber se isso é suficiente para chegar a 2024 e poder derrotar os trabalhistas, algo que neste momento as sondagens dizem ser praticamente impossível.
Obrigado, Cátia.
Obrigada eu, Ricardo.
Cátia Bruno é jornalista de internacional do Observador e há muito que acompanha a política britânica. Esta foi a História do Dia. Os sons que ouvimos neste episódio foram registados pela Sky News. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.
Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron