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Esta é a história do dia da Rádio Observador: um ano depois do massacre, como está Israel? Há um ano, a 7 de outubro de 2023, o Hamas lançou um ataque surpresa a povoações israelitas. Atuou durante horas, praticamente sem oposição do exército israelita. Os operacionais do grupo terrorista mataram, feriram, violaram, pilharam, o que levou a uma brutal resposta de Tel Aviv. Há um ano, mais de 1300 pessoas foram assassinadas, 251 feitas reféns. Destes, 64 estão ainda em cativeiro e outros 33 terão morrido nas mãos do Hamas. A resposta israelita já terá provocado, por esta altura, mais de 41 mil mortos na Faixa de Gaza e mais de 95 mil feridos. Estes dados são referidos por várias fontes e dão-nos uma ideia do que foram estes 12 meses de morte e destruição, sem que as partes deem grandes sinais de querer atenuar as hostilidades. Um ano depois do massacre, José Manuel Fernandes, publisher do Observador, esteve em Israel e é com ele que vou conversar. Eu sou o Ricardo Conceição e este é um episódio especial da História do Dia, segunda-feira, 7 de outubro, 2024. Bem-vindo, Zé.

Viva, Ricardo.

Temos de começar essa História do Dia por recordar o 7 de outubro de 2023. Podemos dizer que foi um ataque que teve tanto de surpreendente como de mortífero.

Tanto surpreendente, como mortífero, como de traumático. Aliás, provavelmente o lado traumático é o mais importante de todos. O que é que aconteceu? Aconteceu que o Hamas, mas não só o Hamas, também a Jihad Islâmica, e depois muitos populares, digamos assim, aquilo que nós temos de populares-

Os civis.

Civis de Gaza abriram várias passagens na cerca de Gaza e atacaram um conjunto de kibutz. Os kibutz são pequenas povoações, inicialmente muito ligadas à produção agrícola, correspondem muito ao nascimento do Estado de Israel e até uma utopia quase comunista da comunidade do Estado de Israel, no seu início. E naquele dia em particular, atacaram um festival de música que estava a decorrer naquela zona. É um festival de música que até tem algum paralelo em Portugal, porque é o Boom, é uma espécie de Boom português, mas ali numa zona também isolada, numa zona do sul do país.

No sul de Israel.

No sul de Israel, exatamente. Portanto, junto à fronteira de Gaza. De qualquer um destes sítios, vê-se Gaza. Em Gaza ou Caniones, vê-se a separação, veem-se as casas de lado a lado. E o exército estava muito fragilizado, estávamos no fim de um período religioso, era sabat, portanto, tudo muito tranquilo. Portanto, foram apanhados completamente de surpresa e estas pessoas que entraram atacaram em todos estes locais e durante muito tempo, muitas horas, não houve quase socorro da parte do exército. Por que isto foi traumático? Foi traumático, primeiro, porque havia a perceção de quase invencibilidade do exército israelita e, de repente, aquilo foi um fracasso. E, por outro lado, há a perceção de que os judeus, os israelitas, a maioria da população é judia, podem de novo ser mortos sem nenhuma outra razão, senão o massacre. Foi o que aconteceu naquelas horas. Não eram militares que estavam a combater, não eram militares que, por assim dizer, eram um alvo legítimo. Eram pessoas que estavam nas suas casas ou jovens que estavam numa festa.

E Zé, regressaste de Israel há poucos dias. Estiveste precisamente num kibutz, onde conheceste uma senhora, Nir Oz. Quem é esta mulher?

Esta mulher era uma senhora que nasceu naquele kibutz. Os pais tinham sido um dos fundadores daquele kibutz.

São sonhos de comunidade em que todos colaboram. É uma coisa muito comunista, quase.

É uma espécie de aldeia onde as janelas ficam abertas, as portas estão abertas, os terrenos são comuns, são partilhados, mas hoje em dia as pessoas têm muitas outras atividades, como é o caso dela. Ela não trabalha na agricultura. É uma israelita um pouco original, porque converteu-se ao budismo.

É budista.

Sim, ela viveu nos Estados Unidos, viveu no Brasil, viveu na Índia e hoje é budista. Aliás, ela atribui ao seu budismo a tranquilidade que ela conseguiu ter durante estas horas.

E já vamos falar dessa história.

E é também alguém que politicamente se situa muito à esquerda em Israel, que tinha uma filha, vivia com uma filha. Aquilo era o local onde ela se sentia bem.

E o que é que aconteceu nessa madrugada de 7 de outubro? Vamos aqui partir do caso particular de Nir Oz para Relembrar o que aconteceu nessa madrugada, porque início de manhã, eram 06:30 da manhã.

06:30 da manhã foi quando tudo começou. Ela e a filha tinham ido a uma casa de um familiar relativamente perto.

Era um período de festas, não é?

Era um período de festas, exatamente. No regresso, até tinham passado perto do festival Nova e tinham dito: "Coisa tão bonita que aqui está a acontecer."

"10:30 at night, we were driving back, passed by the Nova Festival, and we are talking: 'Wow, what a wonderful festival! So cool, what a great idea! It will bring so many tourists. Wow, wonderful!'"

Chegou a casa, a filha tinha ido falar com, enfim, era noite de sexta passada.

Ainda foi sair com os amigos.

Ainda foi sair com os amigos, terá regressado a casa às 3:00.

"6:30 in the morning, we heard the missiles a lot. We have 10 seconds to run into shelter. We have safe rooms in our houses."

E às 06:30 tocaram as sirenes. Isto são localidades que há muitos anos vivem perante a ameaça constante de caírem ali rockets, de caírem ali foguetes disparados a partir da Faixa de Gaza.

Daí terem as tais salas seguras.

Exatamente.

Uns bunkers, se quisermos.

Pequenos bunkers.

Uma sala de pânico.

Sim, uma coisa desse género, com uma porta de aço, mas nada de aço. Algumas com mantimentos lá dentro, outras sem nada, uma coisa muito básica, mas que permite aquele tipo de ataque, que não estamos a falar de armas muito poderosas, mas que causou pânico. Eles estavam habituados e sabiam que cada vez que toca a sirene, têm alguns segundos, porque aquilo é muito perto de Gaza, para fugir, refugiar-se nestes abrigos. E foi o que fizeram. E quando lá estavam, começaram a ouvir tiros.

"And then she says: 'Mom, I hear shooting.' I said to her: 'Ah, you're just imagining.' I didn't even finish saying that and we heard automatic weapon."

No primeiro momento, é o exército, mas depois perceberam que não era o exército e começaram a ouvir falar árabe. E começaram a ouvir explosões, que não eram já normais, não eram apenas tiros. Rapidamente perceberam que estavam a ser atacadas, até porque hoje os telemóveis permitem trocar mensagens e elas começaram a trocar mensagens, quer dentro do kibbutz, com outros vizinhos, quer com familiares, com amigos, noutros kibbutis daquela zona de fronteira. Isto estava a acontecer em todo lado e vieram as instruções: "Não saiam daí, tranquem-se dentro dessa sala", o que não é fácil, porque essas salas não estão preparadas pra serem trancadas.

"Because the doors of the safe rooms are planned for missiles, not for human invasion."

A porta de aço não dá pra trancar?

Não tinham fechaduras preparadas pra isso, então eles tiveram que improvisar.

"My brother, who lives five kilometers away from here, he sent me back a picture of how he locked his door with two broomsticks using a suitcase belt."

E procuraram estar completamente silenciosas, entre elas mesmo trocavam mensagens, mãe e filha, para que não houvesse ruído nenhum, sobretudo quando perceberam que os atacantes estavam dentro da própria casa.

"But after about 20 minutes, they reached our safe room walking and breaking and beating and shouting and shouting and bang, bang, bang, banging like this. During that time, we thought this was, that's it, this is our last minutes. So we just held hands and we said loving words to each other under the table, tried to be as low as possible. My daughter was saying how much she loves me. I told her how much I appreciate the 22 years that we had together, and that I've done everything I could to make her life good and just say goodbye."

Isso aconteceu com muitas pessoas. Algumas pessoas conseguiram sobreviver assim, outras não conseguiram, quer porque eles conseguiram entrar dentro destas divisões, quer porque conseguiram fazer sair as pessoas usando fumo.

Incendiando as casas.

Incendiando as casas, atiravam granadas pra dentro das casas e o tempo ia passando. E por que não chega a ajuda? Por que não chegam as Forças Armadas? Por que não vem o IDF? Estamos aqui uma hora, duas horas, três horas, quatro horas. Isto durou muito tempo.

Portanto, demorou horas mesmo.

Demorou horas mesmo. O exército estava longe e no caminho para aquele kibbutz houve vários combates. As primeiras colunas, que eram colunas ligeiras, defrontaram-se com armas pesadas, aquelas metralhadoras levadas em cima de carrinhas, que o Hamas tinha transportado. E depois disto, houve ainda a percepção de que se estava sozinho, que não havia ali apoio, e portanto, foi um momento de enorme aflição.

"Nearly nine hours, not a single soldier set their foot in the kibbutz. I'm jokingly saying that we were in another country without leaving home."

Quando finalmente saem, começam a perceber que à volta ou as pessoas tinham desaparecido ou estavam mortas. Não todas, mas um terço das pessoas do kibbutz. Um em cada três, praticamente.

E elas próprias estiveram horas então mergulhadas nessa tensão de não saber se a porta ia resistir.

Exatamente. E percebendo outra coisa, que é que a seguir aos combatentes, aos terroristas do Hamas, aos que vinham com armas, vieram Pessoas pilhar, fazer pilhagens.

But the civilians, armed civilians. Some armed, some with a knife. Some just came to kidnap a person. Some just came to steal all our money, our televisions, our bicycles, our cars.

E as casas foram roubadas com coisas que até o princípio não se imaginava bem por quê tinham sido roubadas e houve muitas coisas que foram destruídas por destruir os automóveis, por exemplo, para ninguém poder fugir. Foram todos incendiados. Aqui, apesar de tudo, havia estas salas e dois terços ainda conseguiu sobreviver. Quando vamos um pouquinho mais a norte, mas a muito pouca distância à zona do festival, percebe-se que aí era um campo aberto. E foi mesmo uma razia.

Uma matança.

Uma matança muito grande. É muito impressionante esse local, porque é um local onde se percebe duas coisas. Primeiro, a saudade das famílias, que ali elas próprias fizeram um memorial com imagens e são imagens de gente muito nova.

E esse memorial é particularmente impressionante, porque são paus com fotografias.

Fotografias e pouco mais.

Praticamente é isso.

Às vezes um objeto mais pessoal.

E vemos as fotografias meio a ondular com o vento. E são demasiadas fotografias.

Exatamente. Eles estão agora também a plantar uma coisa que é tradicional em Israel e entre os judeus, que é por cada morto, uma árvore, por cada pessoa que ali faleceu, estão a plantar uma pequena floresta. Dar este nome, só este nome é forte. E ao mesmo tempo, há uma inscrição feita num dos locais onde aconteceu a zona do bar, onde houve uma espécie de combates. Há uma inscrição a contar o que ali se passou, portanto a contar o que se passou naquela zona exatamente, e depois a dizer que aquela gente sentiu-se defraudada pelo Estado, que foi construído para defender os judeus dos pogroms e do Holocausto. E aquilo faz lembrar os pogroms, que eram exatamente isto. Não teve as características do Holocausto, mas naturalmente as pessoas reviveram esse pesadelo.

Zé, explicaste há pouco que Nirose, esta senhora vivia perto da fronteira com a Faixa de Gaza, aliás, nasceu nesse kibbutz, tem uma filha já crescida, portanto, já terá alguma idade. Ela, no fundo, toda a vida se relacionou com a fronteira, se relacionou com a Faixa de Gaza. Como é que era a relação dela?

Exceto os períodos em que ela não viveu em Israel.

Com os palestinianos, exatamente.

Ela costumava dizer que a família era não apenas de esquerda, mas mesmo de extrema-esquerda, um termo que aqui em Portugal nós nem sequer usamos.

Mas ela assumia.

Mas ela assumia.

My mother used to say that I'm more left than the Palestinians themselves.

Como já te disse, budista, que é uma coisa também rara, e tinha uma perceção de que do lado lá daquela vedação, em Gaza, havia o Hamas, que eram os maus da fita, e havia uma população com pessoas como ela. Portanto, mães que queriam que os seus filhos estudassem e queriam que os seus filhos tivessem uma vida boa. E aí é que foi a sua grande desilusão, a sua enorme desilusão, psicologicamente onde ela penso que também quebrou, é nesse momento, quando tem a consciência de que quem chega não são apenas os militares ou os terroristas do Hamas, a seguir vem a população, ela ouve vozes de adolescentes e sabe pelas imagens, porque as imagens foram retransmitidas pelos próprios terroristas.

E eram muitas pessoas?

Eram bastantes pessoas. Foram milhares de pessoas que entraram naquele kibbutz exatamente, não sei quantas terão sido, mas terão sido mais de 100, de certeza. E depois também mulheres. Portanto, também vieram mulheres, algumas delas para o saco e outras poderão ter participado noutros atos. E ela era alguém que antes fazia parte de uma organização de voluntários que ia aos pontos de fronteira de Gaza, há vários pontos ao longo da fronteira, passagem, ia lá buscar pessoas doentes, cancros, necessidade de hemodiálise, pessoas que precisavam de tratamento diferenciado, crianças, nomeadamente, com sacrifício das suas horas de trabalho para os levar a hospitais israelitas mais diferenciados, mais sofisticados. E depois voltava a levá-los a Gaza. Portanto, tinha uma relação de que havia ali um problema no meio, que era o Hamas, mas era uma coisa temporária.

Ela olhava para os palestinianos e para os civis já praticamente como também vítimas eles próprios do Hamas.

Exatamente. E agora ela diz: "Não, eles não conheceram linhas vermelhas, porque aquilo que aconteceu não foi apenas matarem a sangue frio". Para matarem a sangue frio, foi esquartejarem, foi violarem e violarem pessoas de todas as idades, foi, nalguns casos, desmembrarem os corpos. São coisas horríveis. Houve uma opção, Israel fez uma opção, o governo, as autoridades, de não mostrar os vídeos. Eu vi uma parte dos vídeos, mas segundo sei, nem sequer vi os mais horríveis e a maior parte deles não circularam nos órgãos de informação, porque são, de facto, muito impressionantes. E essa opção, ela viu, naturalmente, viveu, conhece Pessoas das suas relações ali, pessoas idosas que quando foi feita a autópsia, porque eles tiveram o cuidado de fazer autópsias a todas as pessoas, percebeu-se que havia pessoas que eram sexagenárias e tinham sido violadas, por exemplo. Situações deste gênero naquele kibbutz, a pouca distância do quarto seguro onde ela estava.

Os vizinhos dela.

Os vizinhos, as pessoas com quem ela vivia todos os dias. Isto foi algo que fez com que ela tivesse a percepção de que eles, como ela dizia, não conhecem linhas vermelhas e, no fundo, o Hamas é tão governo deles como o nosso governo é nosso governo. Quer dizer, eu posso até nem concordar com o nosso governo, mas é o nosso governo. Ele tem essa legitimidade. E o Hamas, pelos vistos, também os representa.

"Why us? Why us? They know that we used to help them. They know that we are from the left side of them. They know that we used to go to every demonstration we could. So it's extremely disappointing."

Já voltamos à conversa com o José Manuel Fernandes. Como estará agora Israel e Gaza, um ano depois deste massacre? Estamos de regresso à conversa com o publisher do Observador, José Manuel Fernandes, que recentemente esteve em Israel. Zé, a reação do governo de Netanyahu foi responder em força. Visto daqui, temos quase que uma tentativa de aniquilação do Hamas, com consequências verdadeiramente terríveis, diria até, atrevo-me a dizer, criminosas para a população civil palestiniana. Isto é visto daqui. Como é que é vista a resposta dada pelo Estado de Israel pelos israelitas?

A intervenção em Gaza teve o apoio, não direi de 100% da população, mas um apoio massivo.

À resposta.

À resposta. E mesmo hoje, os objetivos que foram colocados pelo governo israelita, e que no início eram basicamente dois, libertar os reféns, destruir o Hamas, de uma forma genérica continuam a ser objetivos consensuais. Agora, um terceiro objetivo tem a ver com o norte do país e Hezbollah, mas que é outra questão. Aquilo que começou a desvir um bocadinho a opinião pública foi a prioridade. Até que ponto é que se devia ou não dar toda a prioridade à libertação dos reféns, mesmo com algum sacrifício do objetivo de destruir a estrutura militar, se quisermos. E aí há muitas manifestações em Israel, praticamente todos os dias há manifestações em Israel, uma parte delas de familiares, outra parte de ativistas, que aliás, já estavam a manifestar-se contra Netanyahu antes. São manifestações que decorrem sobretudo em Telavive, mas também noutras cidades. E há esta clivagem, que ganhou alguns contornos políticos. Mesmo assim, as sondagens, os estudos de opinião que conhecemos, continuam a suportar o esforço de guerra. E o grande dilema, para que ninguém tem boas respostas, eu falei com generais falcões e com generais pombas, como se costuma dizer, e generais na reserva, com especialistas em assuntos palestinianos, é que, ponto um, provavelmente não há nenhuma boa solução. E ponto dois, qualquer solução vai implicar algum sacrifício, também do lado de Israel. Sendo que nós olhando pro terreno, não se percebe sequer como é que se vai poder chegar ao cessar-fogo, tão longe estão as posições. Há muito um discurso que há propostas dos Estados Unidos, do Egito e tal, pra um cessar-fogo, mas depois quando se percebe os dilemas que estão no terreno, fica-se mais cético sobre a possibilidade de um cessar-fogo.

Porque como estavas a dizer, a questão central continua a ser a libertação destes reféns. Nem o Hamas liberta, nem Telavive consegue recuperar estas pessoas. Estamos a falar de mais de 60 pessoas, cerca de 60 pessoas que ainda estão em-

Eles falam de 101. 101 é o total de pessoas que falta recuperar. Eles sabem que destes já haverá pelo menos 30 que morreram, que estão mortos. Mas para os israelitas, para os judeus, para a cultura judaica, é quase tão importante recuperar o corpo, como trazer as pessoas vivas de volta. Portanto, eles correm às vezes grandes riscos apenas para recuperar o corpo.

Mas estamos a falar, só para termos uma dimensão, o refém mais novo será um bebê com nove meses?

Sim, agora já não tem, passou um ano.

Exatamente. Já terá cerca de dois anos. Esperemos que esta criança esteja viva.

E o mais idoso tem mais de 80 anos.

Mais de 80 anos. Estamos a falar do mais variado leque possível.

O mais variado leque.

Etário.

Há militares, há mulheres, há tudo, há ali um bocadinho de tudo. Eu também estive a falar com uma associação de familiares, a principal associação de familiares, e eles dizem que nós reconhecemos todas as prioridades do governo, mas há uma que achamos que é mais urgente que as outras. Eles não hierarquizam as prioridades, apenas hierarquizam a urgência. E do ponto de vista deles, a urgência são os reféns, é a libertação dos reféns. E para isso, se for preciso fazer cedências, ao ponto de trocar 100 reféns, que podem ser só 60 pessoas vivas, por 7 mil prisioneiros palestinianos, muitos deles condenados e com boas razões para estarem condenados, eles dizem: "Faça-se isso". O que é muito complicado para Israel.

Mas de resto, há um histórico, não é?

Há um histórico.

A história de um soldado trocado por milhares de palestinianos.

Por mil. Mil e qualquer coisa.

Exatamente. E já falámos disso aqui também na história do dia.

Até porque um dos libertados é o atual líder do Hamas.

Exatamente. Estava nesse lote.

Estava nesse lote e depois dos israelitas, de alguma forma, lhe terem salvo a vida quando ele estava prisioneiro, porque ele teve um tumor no cérebro e foi operado na prisão, enfim, salvou-se Isto são dilemas complexos que, quando se procura discutir, as pessoas dizem: "Esta hipótese, esta hipótese, esta é melhor, esta é pior", mas é muito difícil ver qual é a saída, até porque agora, neste momento, também temos outra frente claramente aberta a norte com o Hezbollah.

E do ponto de vista político e também deixando por aqui o lado moral no meio disto tudo, o primeiro-ministro israelita é hoje um homem isolado. Ele está agarrado ao poder, porque também precisa de se manter no poder para não enfrentar outros problemas.

São duas coisas diferentes. Que está agarrado ao poder, está. Que esteja isolado, duvido, porque as sondagens têm sido boas para ele. Ele é o primeiro-ministro que esteve mais tempo no poder em Israel. Israel tem um sistema político muito original e muito difícil de gerir. Por quê? Porque é um sistema em que não há círculos, é um sistema totalmente proporcional. Não há barreira de entrada, todos elegem. Temos um governo que depende sempre de coligações e numa coligação, muitas vezes, quem tem mais força é aquele que às vezes faz a diferença, um, dois deputados. E, por regra, são os extremistas. Ele está muito prisioneiro dos extremistas e desse ponto de vista, nestes últimos dias, falou-se de uma remodelação para ele alargar um pouquinho a coligação. Depois disso, o começo da guerra a norte não permitiu. E o grau de crítica nos órgãos de informação é permanente, mas tem muitos apoiantes e continua, como eu disse, na opinião pública, ele não está isolado.

E do outro lado do muro, do lado do Hamas, também não há grandes sinais de cedências.

Do lado do Hamas, não há grandes sinais de cedência e é preciso perceber o seguinte: o Hamas não é a OLP. A OLP foi o primeiro adversário histórico de Israel, mas com o qual foi possível, em um determinado momento, fazer um acordo. Mas a OLP era laica. A OLP é um nacionalista clássico. Não era uma guerra santa, uma guerra com características religiosas santas. E isto nota-se em pormenores como estes: quando foi a primeira guerra Israel-Líbano e quando o exército israelita se dirigiu a Beirute, Arafat estava em Beirute e saiu de lá. Sinwar não sairá. Já lhe foi oferecido de tudo para ele sair da Faixa de Gaza, caminhos seguros, um santuário, qualquer ponto onde ele fosse, ele não sai, ele prefere morrer. Prefere ele e prefere os seus seguidores. Isto é por quê? Porque para a visão religiosa, isto é uma decisão de Deus.

São os sunitas.

Neste caso, são sunitas, o Hezbollah é xiita, mas quer um, quer outro, entendem que a decisão de reocupar a Palestina é uma decisão de Deus, não é deles. Desse ponto de vista, não lhes resta outra coisa senão, no limite, sacrificarem-se.

Tanto que na Cisjordânia, quem vai mantendo o poder é a Autoridade Palestiniana.

Fraquíssima.

Civil.

Civil, fraquíssima.

Liderança da Fatah.

Da Fatah, que era o partido do Arafat. O sucessor devia ter havido eleições, nunca mais há eleições. Estamos a falar de 20 anos sem eleições, o que diz muito. Há o receio que se houvesse eleições, talvez o Hamas ganhasse. E muito corruptos. Toda a gente também converge neste diagnóstico.

E aqui chegados, José Manuel Fernandes, um ano depois, em que parte desta história é que estamos? Fica a sensação que estamos no dia seguinte ao da matança, em que as posições continuam extremadas, quiçá até piores agora com a guerra para norte.

Eu penso que psicologicamente continuamos no dia seguinte ao da matança. Aquilo mudou a forma de pensar da maioria da população israelita. Há 10, 12 anos, mais de dois terços dos israelitas eram a favor da solução dos dois Estados, hoje é menos de um terço. Há uma alteração muito profunda, não foi só por causa disto, mas foi também por causa do que aconteceu e da percepção de que a esperança de viver em paz com o nosso vizinho do lado, de alguma forma desvaneceu-se. Porque uma das razões era que com algum crescimento económico, com alguma relação, havia trabalhadores que vinham de Gaza trabalhar em Israel, que isso teria tornado o Hamas uma força mais civilista. Aquilo que nós às vezes dizemos, o dinheiro é que manda a vida.

Que o Hamas se tinha moderado.

Se tinha moderado e seria possível viver com eles como vizinhos. Eles iam mandando uns rockets porque tinham que afirmar as suas posições, mas era só isso. E agora a percepção é que não é assim, e que será uma guerra a que não se vê fim. E que Israel poderá ter que combater toda a sua existência, digamos assim, pelo menos nas décadas mais próximas. E o que é extraordinário é que eu estou a dizer isto e quem passeia em Tel Aviv, quem vai à rua, quem vai jantar à noite a um restaurante, quem sai de manhã, como eu saí num dos dias para andar pela marginal de Tel Aviv, que é uma marginal bonita, junto ao Mediterrâneo, com a praia, vê uma cidade que em muitos aspectos é mais viva que Lisboa, parece mais moderna, com gente mais nova, com mais animação do que Lisboa, como se não tivesse a acontecer nada. Entretanto, já há mísseis dirigidos a Tel Aviv, que não caíram lá, e eles vivem assim. Vivem assim porque passaram pelo que passaram durante muitos anos. Têm uma história e uma memória. Os israelitas costumam dizer que os judeus caminham às recuas, porque estão sempre a olhar para trás, para o que é a sua experiência e a sua memória.

Obrigado, José Manuel.

Obrigado.

José Manuel Fernandes é publisher do Observador e há muito que acompanha a atualidade nacional e internacional. Esteve muito recentemente em Israel. Já esteve também em vários cenários de conflito ao longo de muitos anos de jornalismo. É o autor e anfitrião do podcast "Contra-Corrente", que todos os dias vai para o ar das 10h ao 12h na Rádio Observador. Esta foi a História do Dia. Ouvimos neste episódio música original de Mariana Sousa Aguiar e sons retirados das redes sociais, além dos depoimentos de Nir Oz gravados por José Manuel Fernandes em Israel. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música e do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.