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Olá, seja muito bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu sei que estava à nossa espera. Eu sou o João Paulo Secadora. Estava, no fundo, à espera do Jorge Adolfo Marques. Ele é que este historiador e professor, este arqueólogo, mestre arqueólogo, é que nos vai falar hoje da Batalha de Veiga de Trancoso. Uma batalha que aconteceu há 641 anos.
Há muito tempo.
Há muito tempo. E vamos então seguir o que diz este cronista, Fernão Lopes, desta batalha que envolvia Dom João I. Vamos a isso então.
É verdade.
Bem-vindo.
Olá, João. De facto, já que ontem estivemos a falar de azeite, nós vamos aqui hoje mudar um bocadinho de rumo e vamos até à Batalha de Trancoso. Temos falado, aliás, há alguns programas, no Castelo de Trancoso, nomeadamente, esse belíssimo Castelo de Trancoso, que também foi daquela condessa, que o doou ao Mosteiro de Guimarães, chamou Rodrigues, no ano de 1960. E nesse tempo, aliás, ainda subsiste a chamada Torre de Menagem. A Torre de Menagem é do tempo desse castelo mais antigo que existiu ali, naquilo que se chama a Fortaleza de Trancoso. E que estava lá, de pé, no dia 29 de maio de 1385. E esse dia é um dia muito importante na história de Portugal, porque ocorreu ali, na chamada Veiga de Trancoso, que é na periferia da atual cidade de Trancoso.
Sim.
Foi ali, naquele local, onde se ergue uma capelinha, Capela de São Marcos, que decorreu uma batalha, que é muito importante, no dia 29 de maio de 1385. Porque é uma batalha que vai ser muito importante para a batalha de 14 de agosto do mesmo ano, mas em Aljubarrota.
Aljubarrota, exato.
Ou seja, esta batalha aqui em Trancoso, ali nas imediações, em São Marcos, é uma batalha que anuncia ou é premonitória da grande vitória que os portugueses tiveram sobre os castelhanos. E ela decorreu então naquele mês de maio. E quem é que nos relata estes acontecimentos? É o Fernão Lopes, o grande cronista Fernão Lopes. Sem dúvida nenhuma, um dos nossos maiores autores de literatura portuguesa é Fernão Lopes. E na sua crônica de Dom João I, ele conta-nos que Dom Juan, o Dom Juan era o rei castelhano, o nosso era o Dom João.
Exato.
O Dom Juan, que era rei de Castela, estava em Córdoba e ele mandou a sua frota cercar Lisboa e ordenou que todos os fidalgos e homens de armas viessem ter consigo para invadir Portugal por Badajoz. Escreveu ao bispo de Toledo para que reunisse cavaleiros, seus vassalos, em Cidade Rodrigo. E invadissem Portugal. O arcebispo partiu para Salamanca. Estamos aqui a falar tudo em terras que são aqui muito próximas da Beira, aqui na nossa linha de fronteira. Partiu para Salamanca, o arcebispo, onde esperou os cavaleiros, nomeadamente João Ruiz de Castanheda, Pero Soares de Toledo, uma série de grandes nobres castelhanos e muitos homens. Eram cerca de 400 lanças e mais de 200 ginetes, para além dos homens a pé e os besteiros, os tais que iam com a besta. Os portugueses da comarca das Beiras estavam divididos, porque estamos aqui no contexto da crise de 1383, 85. Uns eram pelo mestre, outros eram por Dona Beatriz.
Exato.
E alguns castelhanos tentaram demover o tal João Ruiz de Castanheda, de invadir Portugal pela Beira, mas ele insistiu e invadiram. Entraram por Almeida, portanto entraram pela fronteira, por Almeida, que estava por Castela, isto é importante, eles entraram por um sítio que estava por eles.
Sim.
Chegaram a Pinhel. Pinhel estava por Portugal, isto é, por Dom João I. Por Dom João, na altura era pelo mestre dadivs. Daí foram à Veiga de Trancoso, portanto eles seguiram ali por Trancoso, pilharam, chegaram a Viseu, que quando os viseenses tiveram a notícia que vinham aí os castelhanos, fugiram. Alguns refugiaram-se na Sé, na Catedral, porque a cidade não tinha muralha. A cidade não tinha nem castelo, nem muralha defensiva. E então alguns refugiaram-se lá dentro das portas da Sé. Outros fugiram pelos montes e tal. Isto é tudo descrito pelo Fernão Lopes. Os castelhanos, como todas as tropas na época, por onde passavam, pilhavam, roubavam, muitas vezes só para se alimentar, porque não havia o apoio logístico que hoje os exércitos têm, eles tinham que comer, portanto roubavam os animais, roubavam os cereais, o vinho. Por quê? Porque lá está, o Fernão Lopes diz que a cidade não tem outra cerca Nem Fortaleza, para além da Sé. Portanto, por ali foi sempre a seguir caminho. O que é certo é que quem estava nestas Beiras, Beira Alta, era Gonçalo Vasques Coutinho, que era alcaide de Trancoso, Martim Vasques da Cunha e Gil Vasques, seu irmão, que era alcaide de Linhares, e João Fernandes Pacheco, que estava em Ferreira de Ave. Já falámos aqui nele.
Sim.
O João Fernandes Pacheco conseguiu convencer os dois irmãos, que estavam desavindos, a combater os castelhanos, porque eles andavam a roubar e a pilhar, tinham atravessado aqui a Beira. João Fernandes organizou um jantar, veja bem, um jantar de trabalho, presumo eu, onde estavam lá os irmãos para fazerem as pazes. Portanto, quer dizer, é interessante. Não há nada como à volta de uma mesa, as pessoas dialogarem e comerem umas coisas e beberem.
Mesa das negociações e da paz, tão importante.
Exatamente. Os fidalgos portugueses juraram ajudar-se mutuamente para atacar os castelhanos. Os portugueses enviaram o escudeiro Afonso Rois de Betesela dizer aos castelhanos que viessem ter com eles para lutar. Os portugueses eram em menor número, tinham apenas 300 lanças. Mas esperaram pelos castelhanos quando eles estavam a regressar também pela Veiga de Trancoso, pelo mesmo caminho.
Sim, mas eram muito mais, eram 700.
Os castelhanos eram muito mais. Portanto, o que quer dizer que mesmo aqui há este paralelismo com Aljubarrota.
Com Aljubarrota, exatamente.
Mas a questão do terreno em si, a configuração do terreno, a necessidade de passarem em fila indiana, ditou muito o desfecho da contenda. E também, depois, quem é que veio ajudar? Os lavradores, os camponeses desta região em torno de Trancoso. Os portugueses esperaram ali pelos castelhanos e pela carruagem, por aquelas carroças com os animais, tudo quanto lá havia.
Os carros de combate.
Exatamente, e que transportavam o saque.
Sim. E foi uma batalha sanguinária, morreu muita gente.
Morreu muita gente, os castelhanos foram muito massacrados e constitui uma grande vitória ali junto à Capela de São Marcos. Os castelhanos gritavam Castela, São Tiago, e os portugueses gritavam Portugal e São Jorge. E a batalha decorreu com grande violência, durante o dia todo, ali junto àquela capelinha. Hoje, no sítio de São Marcos, onde foram derrotados, permanece uma capela, que já não é o original, é uma capela já do século XVIII, mas trabalhos arqueológicos realizados em torno da capela, no terreiro em torno da capela, puseram a descoberto anteriores edifícios, precisamente do tempo da Batalha da Veiga de Trancoso. E esse lugar é hoje classificado como campo militar, portanto, com uma história, e é um lugar de memória muito importante, tal como é Aljubarrota e como há outros lugares congêneres no nosso país. Ou seja, é um lugar que hoje é muito visitado porque já tem, nesse sítio, junto à capelinha, um monumento para ser visto, explicação que existem painéis para as pessoas poderem ver, e liga-se então o episódio marcante da nossa história de Portugal e que se liga à Aljubarrota.
Aqui ainda conta que D. João estava em Guimarães quando recebeu esta boa notícia de terem ganho esta Veiga de Trancoso, esta batalha que decorreu então em 29 de maio de 1385, quase três meses antes da grande Batalha de Aljubarrota. Muito bem, Jorge, por nós estamos conversados, foi muito bom. Aprendi imenso toda esta semana, passeei muito contigo, foi muito bom e marcamos encontro então para a semana. Bem-hajas. Obrigado.
Grande abraço.