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Olá e sejam muito bem-vindos. Já sabem, esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e eu aqui apenas apresento o Alberto Correia. Ele tem as suas memórias, as suas histórias para contar. Hoje ainda estamos, podemos dizer assim, em tempo de Natal e, portanto, quase a mudar de ano. E vamos saber, se calhar, uma história que muitos não saberão. A estranha história, aliás, de um dos Reis Magos, Baltazar. Alberto, bem-vindo. Vamos saber mais então sobre Baltazar.
"Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore." Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam: "Desse deus nada sabemos." Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Os Três Reis Magos". Singular de intensidade a história de Baltazar, um dos três reis do Oriente que numa inquieta noite sente mais viviamente o vazio dos dias que a fortuna do palácio não lhe preenchia. E eis que descobre ao amanhecer dessa noite de insônia e devaneio, ao assumar ao terraço do jardim, um homem ainda jovem que, recolhido na sua miséria, o olhava de rua sem rancor. "Tu quem és?" lhe perguntou o rei. "Tenho fome." Foi apenas a voz que ele ouviu. Fê-lo o rei entrar no palácio e quando se prontificava a servi-lo, eis que o pobre homem se escapa assustado. Manda o rei procurá-lo, dando aos guardas os sinais do homem jovem e magro, vestido de farrapos. Mas os guardas voltaram dizendo ao rei que eram sem conta os homens como aquele que o rei descrevia. E só então aquele rei desceu ao chão onde vivia o seu povo e viu a multidão de esfomeados. Entrou no templo e olhou devagar os seus altares. Um deles era dedicado ao deus dos poderosos, outro à deusa da terra fértil, outro ainda ao deus da sabedoria. E perguntou o rei aos sacerdotes que ali serviam: "Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore." Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam: "Desse deus nada sabemos." Na angustiada noite que se seguiu, Baltazar subiu ao terraço alto do palácio e fez do seu grito uma oração: "Como poderei, ó deus dos pobres e humilhados, sepultar o que vi se não te vir?" E foi então que uma estrela se ergueu e o guiou. Escrevo evocando uma velha noite de um Natal antigo, sempre relembrado com saudade. Era menino de aldeia. O rei Baltazar era apenas uma poética figurinha no presépio da igreja. Nesse tempo, como acontecera a Baltazar, não tinha dado ainda conta dos pés descalços, das roupas remendadas, do rosto magro de tanta gente que vivia ao pé de mim. Meio século se passou desde então. O rei Baltazar, que governa o meu país, os príncipes que ele chamou para conselheiros, os chefes dos guardas, os ministros todos que ele tem e os representantes que levou das províncias ou nelas deixou, não têm descido à rua, parece, e se descem, os seus carros passam de cortinas corridas e nenhum deles vê as desgraças que Baltazar viu quando desceu e peregrinou entre o seu povo. Estará uma noite límpida de lua cheia no dia de Natal que se avizinha ou há de vir, digo eu enquanto escrevo, antecipando um calendário. Ah, se aquela estranha e antiga estrela pudesse surgir de novo no céu. Se o rei Baltazar do nosso tempo e os seus ministros e os seus conselheiros e os seus guardas e demais criados tivessem um coração humilde.
Que bonito este voto, Alberto, e este desejo. Era bom que também os nossos governantes tivessem um bocadinho deste rei Baltazar, que olha pelos seus súbditos e que pode acorrer àqueles que mais precisam, numa altura em que a gente lembra de modo especial as pessoas que não têm o Natal que desejariam. Portanto, é muito bom este conto da Sophia de Mello Breyner que aqui nos trouxe e este seu desejo e este seu profundo ansiar por tempos melhores. Alberto, agradeço-lhe muito e marcamos encontro amanhã. Bem-haja, obrigado.
Até amanhã.