Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá e sejam todos muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secador e, como sempre, é Alberto Correia que nos conta as suas memórias, as suas curiosidades sobre esta região Centro. Hoje falamos da hospitalidade aldeã, muito característica da Beira Alta. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
Hoje inicio este programa pela leitura de uma bonita quadra popular, destas quadras cujo anónimo autor nunca conheceremos. "É bem modesto o meu lar, que não tem brasões antigos, mas abre de par em par as portas aos seus amigos." Traz o jeito das quadras populares, esta bonita e bem construída quadra, que celebra a fraternal amizade que é padrão das velhas comunidades da aldeia, lá onde as portas se abriam a vizinho que chamasse do portão ou da cancela, a pobre de pedir, que isso acontecia em tempo não há muito passado, a vendedor de panelas ou comprador de farrapos, de pelos de coelho, de pedras de minério. Há gente que se lembra ainda. Essa outra porta, a que mais de perto guardava a intimidade, essa abria-se a amigo que de longe viesse. Abria-se aos músicos da banda que um lavrador hospedava no dia da festa do Orago, abria-se para o matabicho dos cavadores da enchada, do médico que tão raro era chamado, de padre para a extrema-unção, se a tempo ainda houvesse, e sempre para o compasso em dia de Páscoa. E abria-se a uma família alargada na festiva quadra que vai do São Martinho ao Natal, quando, no pátio caseiro, se celebrava esse anual cerimonial, a matança do porco, essa festa ritual, como então se designava. Os homens tiravam o chapéu ao entrar e o dono da casa respeitosamente aconselhava: "Ponha o chapéu, que aqui não há santos". E sentavam-se ao redor de uma mesa na sala ou no elevado resguardo de uma cozinha antiga, se inverno fosse, e a dona da casa logo trazia a toalha de linho, uns copos lavados, salpicão ou presunto, azeitonas, queijo e a infusa de vinho. E o tempo se esquecia. À beira do lume, na lareira antiga, que nem sempre chaminé havia, desenrolavam-se essas infindáveis tarefas de mulher, de mães e raparigas, nessa velha obediência à tradição. E era ali que ferviam as panelas, era ali que no Inverno se fiava o linho e se fazia renda ou meia ao serão, era ali perto que se amassava o pão, era ali que se rezava ao tocar da ave-marias, era ali que se contavam essas histórias de espanto e de verdade que vinham já da tradição. Era ali que secavam os figos, as castanhas, o fumeiro. Era ali que as crianças, no Natal, jogavam o par e o pernão. Era ali que se escutavam os cantadores de janeiras e do Reis, que nunca se deixavam sem prendas levar. Já não temos destas lareiras nas aldeias da Beira, que a vida se transfigurou. Já quase ninguém por lá mora. A gente lá anda ainda por caminhos de imigração e os que ficaram já não se sentam à lareira e esqueceram-se os contos a ver televisão.
Boas memórias desta hospitalidade beirã, de facto. Alberto, só agora uma coisa: as crianças no Natal jogavam o par e o pernão. Isto eram jogos? Era o quê? Era do género o pião? Isto era o quê?
Par e pernão, numa mão apertada, metiam-se uns pinhões por princípio, que era uma coisa barata. Os pinhões que depois se podiam partir e comer. Se conhece. E então jogava-se perguntando ao companheiro: "É par ou é pernão?" E pronto, se ele acertasse com aquilo que estava na mão, ganhava, ou então tinha que retribuir se enganasse.
Muito bom. Queremos saber mais essa.
Com o número dos pinhões respetivos.
Boa. Bons jogos antigos, as tradições. Alberto, fiquei muito contente.
Já ninguém joga a isso.
Já não se usam esses jogos, como havia o prego na praia ou as pedrinhas, os saquinhos nas cotas da mão. Havia uns jogos tradicionais, o jogo do lenço. Eu lembro-me, umas coisas muito divertidas. Muito bem, Alberto. Marcamos encontro então amanhã. Bem-haja.
Até amanhã.