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Olá, sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadoras, já sabe. E também já sabe que Alberto Correia está em Viseu, como sempre, com as suas memórias e as suas histórias. Hoje voltamos a falar de um patrimônio tão querido, que eu por acaso conheço e gosto tanto. Vamos viajar novamente à Senhora da Lapa, em Sernancelhe, e falar deste chafariz que está lá, o chamado Chafariz dos Clérigos. Alberto, bem-vindo.
Chama-se Senhora da Lapa, essa minúscula aldeia pousada nos alcantindes dessa serra de inóspito freguedo, essas lapas temerosas onde os ventos batiam no inverno, onde a neve se demorava dias sem fim, onde os lobos, não há muitos anos contados, se abrigavam ainda, onde o sol escaldava no verão, secando as ervagens, onde o gado miúdo de uma aldeia mais abrigada pastava. Há 500 anos, no dizer de um velho contar, a serra ficou tocada de mistério, com o céu a revelar-se a uma pequena pastora que dele, do mistério, quis ficar, por receio e porque muda que era, única detentora, e depois se tornou, por milagre, dele reveladora. Em breve, chegava gente de longe. Acharam que o lugar era santo e fizeram uma capela. Mais tarde, os padres jesuítas, senhores do espiritual naquelas terras, levantaram uma igreja e veio gente que montou casas de abrigo, hortas e quintais. Aproveitaram fontes. Os padres jesuítas, anos depois, levantaram o colégio onde os rapazes vindos da serra se aventuravam nessa caminhada de tornar-se padre ou doutor que os levaria ao Colégio de Coimbra. E foram eles, os padres, quem, aproveitando águas de nascente abonada, mandaram construir em 1734, com boa pedra lavrada, o chafariz de três bicas que despejava a água bastante para um tanque de elegante traçado. Ficou a chamar-se o Chafariz dos Clérigos desta fonte, e era aí que o aguadeiro do colégio ia recolher todos os dias, uma e outra vez, nos seis cântaros que carregavam o dorso de um burrico, a água que se consumia no colégio. Às vezes se dizia que era ali o berço do rio Vouga, que ali, de tão pequeno, lhe chamavam amorosamente de Vouguinha. Mas não era. O rio Vouga nascia noutra fonte, não muito distante, e para ele corriam as águas despejadas dia e noite desta fonte, que ainda lá está e onde eu a vi algumas vezes e bebo sempre. Era aí, a essa fonte, que iam as mulheres da Lapa, as dona de casa, mais as padeiras, cujo pão alvo se sabia bem logo ao sair do forno. No tempo das novenas, quase pinho do verão, os romeiros que se aboletavam nos quartéis, assim ditos os espaços de agasalho que se alugavam nos baixos do colégio ou no casario corrido que o bom do padre Cordeiro mandara construir para tal propósito, contra a face poente do colégio, desciam também até à fonte. Cântaros de barro carregados à cabeça para fazer o caldo, lavar os pés da poeira e as feridas feitas nos caminhos, esperando que essas águas de milagre curassem estas e outras mais fundas, as da alma. E ao fim dos nove dias, voltavam felizes a cantar pra sua terra, que às vezes ficava bem distante. Na Lapa, continua a haver romeiros, mas hoje já não precisam de ir àquela fonte. Há uma fonte no terreiro e há água nas moradas, nas pousadas. Na Lapa é hoje um tempo novo. O tanque de cantaria lavrada ainda lá está. As bicas ainda deitam água, ainda se ouve o seu murmúrio, esse poético jeito de cantar, e ainda há romeiros que gostam de lá ir para beber.
Muito bem, ficamos a conhecer esta história com quase mais de 200 anos, quase 300, deste chafariz de três bicas ali na Senhora da Lapa. Marcamos encontro então para amanhã. Não vamos fugir muito de uma novena que se fazia também ali naquele santuário da Lapa. Marcamos encontro então com Alberto Correia. Até amanhã, Alberto. Bem-haja.
Até amanhã.