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Olá, sejam todos muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura, desde já bom ano. Em Viseu, Alberto Correia, este historiador e investigador que nos traz as suas memórias, as suas crónicas, os seus contos, as suas histórias que hoje passam por cantos, pelos populares cantos que vão do Natal até ao Dia de Reis. Estamos exatamente nesse período. Alberto, agora é consigo. Bem-vindo.

A carismática celebração do Natal e desse tempo que se estende até ao Dia de Reis, integra como festa componentes diferenciadas que vão da assistência aos atos religiosos, onde a missa da meia-noite do dia de Natal é dita missa do galo, do beijar do Menino, da execução de um presépio, da típica fogueira de Natal em praça da aldeia ou da queima de um tronco simbólico nas lareiras familiares, aos cânticos típicos da época. De entre estes, destacamos os cerimoniais cantares da liturgia natalícia, como o "Adeste Fidelis", vindo já do século XVII, o emblemático canto que conhecemos como "Noite Feliz", "Silent Night", de 1818, hoje Património Cultural da Humanidade, o "Jingle Bells", que foi criado em 1859 para celebrar o Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos e depois se tornou o canto de Natal. E lembramos esse bonito canto de Zeca Afonso, "Vamos Cantar as Janeiras", que, com outros ritmos da sua obra, "Natal do Simples", se mantém como cântico clássico e não folclórico. Os cantos que habitualmente designamos cantos de janeiras ou cantos de reis ou reisadas, de um folclore que vem de longínqua origem, pelo menos do século XVI, fazem parte de uma genuína tradição popular, de tal modo cimentada nos costumes da gente simples do povo, que os ritmos da vida moderna, o abandono das aldeias e uma prática económica diferenciada não fizeram apagar. E hoje os temos, os cantadores de janeiras, os cantadores do reis ou reizeiros, integrados, no geral, nos agrupamentos folclóricos que, nesta mais alargada época do Natal, promovem espetáculos que às vezes integram vários grupos concertados para o efeito, aproveitando, no geral, como antes acontecia, o tempo noturno para o efeito. Já não requerem, cantando os frutos da terra, como antes acontecia, quando muito requerem esses recursos do erário municipal para desenvolverem e manterem essas tradições culturais e cívicas de que fazem o seu propósito. Voltando à tradição, evoco esses grupos familiares ou de garotos de rua que, nas aldeias, ao cair da noite que antecedia a festa de 1 de janeiro, celebratória da circuncisão do Menino, rito da cultura judaica, ou a festa da véspera do Dia de Reis. Percorriam as ruas das aldeias, sustendo-se junto dos portais das casas mais abonadas, requerendo, em troca do canto, esses dons da economia local de matriz agrária. Como testemunho, trago da lição que o beirão Aquilino Ribeiro nos deixou no seu encantador livrinho, "O Livro do Menino Deus", dos meados do século anterior, um breve texto desses cantares. Assim: "Senhora que está lá dentro, linda rosa encarnada, manda a moça à salgadeira dar-nos esmola avantajada, uma chouriça para mim, outra pro meu camarada. Dê-nos figos do sequeiro ou bola do tabuleiro, uma peça de fumeiro ou burra do dinheiro, se lhe custar dar-nos isso, as castanhas do caniço. Ó minha rica senhora, cumpra a sua obrigação, meta a mão à salgadeira, busque cá um salpicão." Às vezes, não eram atendidos e então cantavam ao jeito da Idade Média um cântico de escárnio e maldizer. "Esta casa é pintada, é pintada de amarelo, os donos que moram nela são uns barbas de farelo." E seguiam para outra morada. Quanto a nós, voltaremos num qualquer dia de um amanhã pouco distante.

Que bonita esta evocação dos cantos e dos contos desta altura de Natal e sempre, claro, com aquela linha de humor do Aquilino Ribeiro. Extraordinário, a apimentar esta crônica tão bonita sobre os cânticos de Natal, entre o Natal e o Dia de Reis, passando pelos reizeiros que cantavam as janeiras. Muito bem. Alberto, estamos assim conversados por hoje e marcamos o encontro amanhã. Bem-haja e, desde já, bom ano a todos.

Até amanhã.