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A Nossa Cultura está de visita ao Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria, no distrito de Viseu, como sempre, desta vez em Carregal do Sal. Já passámos por várias salas deste museu, que conta não só a história desta região, mas permite-nos ir mais a fundo naquilo que eram os costumes das pessoas, como é que foi a vida nestes espaços. Estamos na terceira sala visitada, mas que poderia ser a primeira, porque é com esta sala que acaba por nascer o museu. Marco Lopes.

Exatamente. Terá sido o conjunto de 21 obras que aqui estão, que terão dado o grande impulso à criação do Museu Municipal. Estamos na sala do Luís Almeida Melo, que não nasceu aqui, mas veio para o Carregal trabalhar na década de 50. Ele foi uma pessoa influente aqui no nosso concelho. Trabalhou como conservador do registo civil e como notário e tinha uma dinâmica, se calhar, um bocadinho futurista e à frente do seu tempo. Colaborando com um grupo de amigos, criou o Círculo de Cultura de Carregal do Sal. E demarcou-se da sociedade esse círculo de cultura, porque promoviam atividades como conferências, teatro, concursos literários e projetaram também a criação de uma galeria de arte. O Luís de Almeida Melo contactou diversos artistas, que na altura se afirmavam no panorama das artes contemporâneas, para que estes oferecessem algumas obras e que futuramente pudessem ser incluídas numa galeria aqui de um museu. A generosidade desses artistas foi muito grande e deu origem à coleção de 21 obras que temos aqui. Na altura, e temos ali a carta, ele escreveu para Maria Helena Vieira da Silva, se calhar é o peso pesado, em termos de artistas, da nossa coleção de arte contemporânea. Ela estava, na altura, a viver em Paris. Escreveu-lhe uma carta e esta gostou tanto da ideia que lhe enviou duas serigrafias e que agora temos aqui em exposição. Ela tinha alguma influência e a ela associaram-se alguns pintores de um grupo que se autodenominava KWY, Cá Vamos Indo, e que faziam dele parte artistas como René Bertholo, Lourdes Castro e João Vieira. Eles mantinham esta proximidade com Vieira da Silva. Este grupo estava a viver em Paris porque queria manter-se longe do panorama nacional, que aqui vigorava no nosso país, o regime opressor e ditatorial de Salazar. Lá encontravam mais abertura, mais liberdade e podiam acompanhar de perto as transformações culturais daquele tempo. As obras têm diversas técnicas. A maior parte são de óleo sobre tela. Temos também guaches sobre papel, gravuras, serigrafia e mais algumas técnicas. Todos estes autores fazem parte de uma consagrada geração de pintores de grande importância a nível nacional, como Artur Boal, Nuno Siqueira, José Moga, Lourdes Castro, Albertina Mántua, João Ogã. Estamos a falar de uma geração de pintores nascidos na primeira metade do século XX e que se notabilizaram no contexto das tendências artísticas do neorrealismo, surrealismo e abstracionismo. Artistas que ousaram idealizar a arte, utilizando formas geométricas com sobriedade e equilíbrio para chegar à abstração. Daí que o abstracionismo seja o tema principal das obras que aqui estão patentes.

Como disse, estavam fora de Portugal para escapar aos tempos que aqui se viviam. Poderíamos dizer que estas obras acabam por ser o reflexo daquilo que foram beber dos outros países onde estiveram?

Exatamente, sem dúvida. Vivíamos aqui num regime autocrático, fechado, sem liberdade de expressão e, naturalmente, saindo daqui e, na altura, França e Paris seria uma cidade fervilhante e muito mais dinâmica, e facilmente contactando com a sociedade lá e a atualidade desse país, conseguiriam expressar-se com muito mais facilidade do que aqui no regime salazarista. Curiosamente, Salazar nascido aqui no nosso concelho vizinho de Santa Comba Dão.

Isso mesmo, e aqui nesta sala, até para contextualizar um bocadinho para quem nos ouve, são quadros a rodear toda a sala em que nos encontramos, um espaço aberto onde há quadros de vários tamanhos, também com bastantes cores, uns mais realistas, outros mais abstratos. Acho que é fácil perdermo-nos nesta sala a admirar todas estas obras. E é isso mesmo que a Nossa Cultura vai continuar a fazer aqui pelas várias salas do Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria, em Carregal do Sal.