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Centro Interpretativo das Termas Romanas de São Pedro do Sul. Continuamos nesta visita guiada com Eduardo Nuno Oliveira e vamos agora passar para uma capela da Nossa Senhora da Saúde. Mas, antes disso, os visitantes, Eduardo, podem encontrar aqui uma epígrafe, que nos dá uma introdução aos deuses que os romanos quiseram adotar pra este espaço.
Dentro desse contexto das águas sagradas, a arqueologia, nos anos 50, encontrou aqui uma inscrição romana que nos faz essa relação entre as águas sagradas e as águas que curam. Trata-se de um cípo votivo, que nos fala de uma família, mais concretamente, um pai e uma mãe, que formulam um voto em honra de um filho. Certamente um filho que se tratou, que se recuperou, que usou, pelo menos, estas águas. E consagram esse voto, cá está o sagrado, aos deuses Mercúrio Aquaeo dos Augustos. Mas esta inscrição tem aqui duas curiosidades que merecem referência. A primeira relaciona-se com a onomástica dos dedicantes. O que isso significa? É o nome das pessoas que mandaram proceder à gravação, onde há uma mistura de nomes do fundo étnico romano, latino, com o fundo étnico lusitano, principalmente o nome do pai. Ele chamava-se Magios Reburros. Magios é um nome tipicamente romano. Reburros já é o nome do fundo étnico lusitano. Depois, a mãe e o filho já têm nomes latinos. Ela era a Victoria Victorilla e o filho, o Magios Saturninos. Mas isto leva-nos a tirar uma conclusão: estaríamos aqui perante uma família de estrato social indígena, mas em avançado estado de romanização. O que se percebe por essa mistura de nomes, pela própria fórmula da dedicatória, que é tipicamente romana, e depois pelo segundo aspecto de interesse, que é o nome dos deuses que ali estão representados. Nós temos um deus, Mercúrio, que é um dos principais deuses do Panteão Romano. Mas este Mercúrio tem um epíteto, tem uma função protetora, é o Mercúrio Aquaeus. E quem seria o Aquaeus? Provavelmente, o grande espírito aquático destas águas, ou até mesmo a própria divinização do elemento líquido. Seria aquele deus antigo lusitano, cultuado lá em cima no sítio da nascente e responsável por proteger aquele fenômeno, aquele manancial todo das águas quentes.
Ou seja, aqui, não vou dizer um conflito, mas uma mistura de várias origens para dar origem a este nome Mercúrio Aquaeo.
Isso é precisamente chamado um sincretismo religioso. É uma mistura de religiões. Da religião romana com a religião que veio, romana, integrada na religião que já cá estava, digamos, lusitana, entre aspas.
Vamos agora entrar na capela de Nossa Senhora da Saúde, mas é uma parte do edifício que apenas foi criado após a ampliação em 1684 e foi consagrado, neste caso, a Nossa Senhora da Saúde. Também um elemento que importância tem a marca que a Nossa Senhora da Saúde deixa neste tipo de tratamentos na água termal aqui de São Pedro?
Isto vem precisamente nesse contexto sagrado. Houve uma evolução. Dá-se um processo de cristianização e durante esse processo de cristianização, tudo o que é deus antigo pagão, neste lugar, é deposto e substituído por santos cristãos. Primeiro, nós temos aqui, dentro da área arqueológica, mas no exterior, uma capela dedicada a São Martinho do Banho. E aqui dentro, próximo das águas e dos tratamentos, uma capela de Nossa Senhora da Saúde. E agora reparem aqui este fenômeno. Neste processo de cristianização, muda o nome dos deuses e dos santos, mas todos eles protegem este lugar. O Mercúrio protegia as águas, o São Martinho protege o banho, porque banho era o nome antigo desta povoação, era a Vila do Banho, e aqui dentro a Nossa Senhora não podia ser outra, senão a da Saúde, porque estamos perante águas salutíferas, águas que curam. Concretamente, esta capela foi aqui instituída, provavelmente na transição do século XVII pro XVIII. Mas já antes disso, tínhamos o culto de Nossa Senhora, provavelmente no início do século XVI, mas a capela não estava neste sítio. Estava ali ao lado, por onde já passamos, na sala da piscina Dom Afonso Henriques. E é precisamente no finais do século XVIII, que resolvem transportar o oratório e a imagem mais antiga da sala dos tratamentos, aqui pra esta sala anexa, onde passou a funcionar precisamente a capela e funcionou até 1995.
Precisamente, por isso que eu estou a olhar para o altar. Há também vários panos com algumas frases. Vê com o seu jeito sempre antigo, os trilhos vindos, algumas inscrições. Estas inscrições que vêm, por exemplo, de Ricardo Reis, da obra "Odes", também de Vasco Graça Moura, da obra "Ekloga". Mas pergunto-lhe, até porque o altar tem sempre a sua figura, onde é que está a figura de Nossa Senhora da Saúde? Ou pelo menos, quais são os últimos vestígios da figura de Nossa Senhora da Saúde?
Optou-se por não ter aqui uma imagem sagrada, porque este espaço já não é sagrado. Foi dessacralizado no momento em que construíram uma igreja nova na povoação. Nesse momento, esta antiga capela, este chão, foi dessacralizado e a imagem que estava aqui, levada pra tal igreja nova, onde se encontra. Ficou apenas o oratório neste espaço, agora restaurado, como disse, uma sala do centro interpretativo. Essas palavras que referiu, algumas são frases extraídas de tratados clássicos sobre água, do médico grego Hipócrates e do arquiteto romano Vitrúvio, que nos remetem pra relação da água com o seu poder curativo, com o bem-estar, com a saúde. E ali também impressos esses poemas de autores portugueses, um de Vasco Graça Moura, outro de Ricardo Reis, um dos heterônimos Fernando Pessoa, que desta vez nos remetem pra relação da água com o sagrado. E agora, estas duas salas por onde passamos, estas palavras e a música ambiente deste espaço evocam sempre essa dupla relação da água com virtudes sagradas e com virtudes curativas.
E vamos descobrir mais sobre estas virtudes sagradas, curativas, medicinais destas águas de São Pedro do Sul, mais à frente, em próximos episódios