Os trabalhadores da Lusa aprovaram esta segunda-feira, em plenário, um voto de repúdio contra a Administração, a quem acusam de sucessivos atos de “má gestão e desrespeito”, e exigiram que o Governo clarifique se mantém a confiança nos administradores.

“[…] Os trabalhadores da Lusa aprovam um voto de repúdio contra o Conselho de Administração [CA] pelos atos praticados contra a Lusa e os seus trabalhadores, exigindo uma clarificação ao Governo sobre se mantém a confiança no atual CA”, lê-se na resolução do plenário, que contou com cerca de 150 pessoas, presencialmente e por meios telemáticos.

No documento, que recebeu apenas uma abstenção, os trabalhadores acusaram a Administração, composta por Joaquim Carreira, Ana Alves e Luís Ferreira Lopes, de praticar uma “sucessão de atos de má gestão e desrespeito pelas normas de independência”, que está a resultar numa instabilidade permanente.

Em causa, segundo a mesma resolução, está a denúncia hostil do Acordo de Empresa, a ausência de negociações sobre os aumentos de 2026, que fazem parte do caderno reivindicativo, a ingerência editorial na definição de novos contratos com chefes de delegações e no processo de escolha de um novo jornalista para a delegação de Bruxelas, decisão da responsabilidade da Direção de Informação.

A diretora de informação da Lusa, Luísa Meireles, anunciou, na semana passada, ter aceitado uma proposta feita pela Administração para a sua saída, depois de “ao longo do tempo” a situação se ter tornado insustentável.

Luísa Meireles deixa direção de informação da agência Lusa

Luísa Meireles, que termina esta segunda-feira as suas funções como diretora, considerou ter assistido a um “despedimento em direto”, quando, no parlamento, o presidente do CA, Joaquim Carreira, disse que esta “atingirá o limite legal para estar nestas funções”, além de ter relatado uma “possível situação de conflito de interesses em relação a ser presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ)”.

Os diretores adjuntos, Maria de Deus Rodrigues e Nuno Simas, assumem, a pedido do CA e a título interno, a continuidade da direção editorial até ao final do mês.

Na resolução do plenário desta segunda-feira, os trabalhadores da Lusa apontam que as “repetidas tentativas de interferência na esfera editorial representam um cruzamento de uma fronteira inegociável e levantam fundadas preocupações de que uma próxima Direção de Informação, que será nomeada pelo atual Conselho de Administração, seja permeável a interferências”.

Por outro lado, lamentam a contínua desvalorização pela Administração das reivindicações deliberadas em plenário e alertaram para a fragilização institucional na agência, após o CA ter desvalorizado, também no parlamento, a deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que identificou irregularidades nos estatutos da Lusa.

Os estatutos da Lusa vão ser apreciados, na terça-feira, na Assembleia da República. Os trabalhadores da agência de notícias apelaram, neste sentido, aos partidos políticos para que aprovem uma revisão coerente.

“É urgente repor a legalidade de que os atuais estatutos carecem e garantir que os futuros respeitam o direito nacional e europeu em matéria de liberdade de informação e de preservação dos direitos dos jornalistas”, vincaram.

Os trabalhadores exigem ainda saber qual é o plano estratégico para a empresa, para além de estranharem não terem sido auscultados no processo.