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Vi agarrada-lhe a boca.

Puxaram-lhe o cabelo.

Voltei para trás e estava ainda o Vítor Batista comigo no balneário. Eu disse: "Não, eu daqui não saio". Porque os árbitros também estavam a pedir uma carrinha militar. E quando a carrinha entra dentro do campo, eu, o Vítor e a equipa de arbitragem metemo-nos dentro da carrinha e eu só dizia: "Sabe pelo que a gente está aqui a passar? Eu quero ver se isso ficará tudo escrito". Porque tive medo, porque aquelas carrinhas fracas da tropa empurravam para um lado e para o outro, até que nós saímos e safamo-nos, porque o autocarro do Benfica estava à nossa espera.

Olá, bem-vindos ao programa "A Vida em Revolução". Eu sou o Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.

Neste episódio temos uma figura bastante conhecida, Tony, treinador de futebol, velha glória do Benfica, que foi campeão precisamente nessa época de 1974, 1975.

E eu acho que pode ser um aspeto surpreendente para muita gente, mas continuou a jogar-se futebol, continuou a sair ao estádio e continuava a haver campeonato enquanto havia uma revolução no país. E também havia, e o Tony vai nos contar isso, uma revolução no futebol. E é disso que ele nos vai dar conta. O que é que mudou na relação entre os futebolistas e os clubes? O que é que mudou na relação entre quem estava em campo e quem estava nas bancadas a assistir? Mudou muita coisa e vai nos dar conta disso.

Das histórias que ele conta, alguma mais surpreendente?

Há aquela espantosa daquele jogo do Benfica no Algarve, que acabamos com a equipa a sair escoltada pelo exército.

Não é uma história que qualquer futebolista possa contar. Vamos então ouvir Tony na primeira pessoa.

O jogo ficou na memória histórica por aquela ovação a Marcelo Caetano, que apareceu lá. Assistiu a isso, claro, estava lá.

Sim. Em primeiro lugar, obrigado pelo convite. São palavras comuns que normalmente se dizem, mas é realmente um prazer desfrutar este tempo convosco e com aqueles que nos vão ouvir.

Honra é nossa.

Ou que nos estão a ouvir, ou que estarão a ouvir. Nós estamos em 31 de março de 74. Tinha havido, não direi uma escaramuça, mas algo que poderia indiciar alguma coisa já a 15 de março, através de um movimento das Escadas da Rainha. Mas o jogo, o dérbi, com a presença de Marcelo Caetano. Ali em 31 de março, o Marcelo Caetano presente, ovacionado e se andava algo no ar, que o dia 15 de março tinha dito. Sabe que o jogo desperta sentimentos e emoções, que aquilo se mistura e naquele dia não há outra coisa.

Não se pensava noutra coisa.

Portanto, penso que três semanas depois acontece o 25 de Abril, mas nesse dia foi mais um dérbi e cada dérbi tem sempre a sua história. Eles repetem-se no tempo, mas nunca são iguais. Vivi outras finais de Taça, como era sempre normal. Fiz umas cinco ou seis finais de Taça de Portugal com a fotografia tirada, na altura, com o Américo Tomás, que era o que marcava. A final da Taça é a festa do povo. Mas não andava no ar o 25 de Abril. Ou por outra, o que andava no ar já há muitos anos, frutos de gente que lutou pela liberdade, isso sim. Há gente que pagou caro com a vida, famílias que foram destroçadas. Não nos esquecemos daquilo que houve. Os Terrafais e de Peniche e dos Aljubes em Lisboa, enfim, de todos aqueles que foram perseguidos pela PIDE. A liberdade foi conquistada à custa de muitas vidas e de muitas lutas.

E que memórias é que tem do dia? Como é que os jogadores souberam da revolução?

Vou-lhe dizer que estava um dia cinzento. Lembro-me desse dia. Lembro-me de que começaram a sair os diversos comunicados daqui, movimento das Forças Armadas, para que o povo não entrasse em pânico e com a Grândola Vila Morena. E lembro-me também, já agora, a talho de foice, que neste dia os restaurantes fechados, até que a um amigo, eu partilhava um apartamento com o Berto, e disse: "Para onde é que vamos beber?" Então ele tinha um restaurante chamado O Bigode do meu Tio. No bigode do meu tio, que nesse dia foi o nosso almoço que, para fugir à regra, foi um bacalhau assado no forno. Depois, viver as incidências que eram próprias daquilo, de algo que estava a acontecer e que iria transformar profundamente.

Mas não houve treino nesse dia?

Não. Aliás, mas houve jogo dias depois e o campeonato não parou, até porque não coincidiu com o fim de semana. Lembro-me que foram até os dois jogos, salvo erro, acho que foram os dois jogos em casa, que o Benfica teve na altura.

E o ambiente no jogo a seguir ao 25 de Abril, o ambiente tinha mudado? Sentiu que tinha mudado?

Sinceramente, nós em 74 jogámos a final da Taça no Estádio Nacional, contra o Sporting. Quem presidiu a essa final, não sei se foi o General Spínola. E então, o que de anormal acontece? Não era bom sinal aquilo que estava a acontecer, porque as pessoas, os adeptos, estavam não só nas bancadas. Havia quase adeptos encostados às balizas.

À volta do campo.

Sim.

Mas isso era o quê? O policiamento não tinha funcionado.

Provavelmente, porque não era comum aquilo acontecer. Mas, claro, não houve incidentes nenhuns, e que teve até a vitória do Sporting, que nesse ano, no ano da revolução, ano de Campeonato do Mundo, na Alemanha, foi em 74, e que o Sporting ganhou o campeonato e ganhou a taça. Por isso, o sentir daquilo que acontecia no balneário do Benfica, claro que há o jogador, mas há o homem. E é perfeitamente natural que, tal como todos que estavam num país onde nasceu essa revolução e pôs fim a 40 anos de ditadura, que começassem a perceber também o que estava a acontecer no país. Porque nem todos os portugueses tinham uma bagagem política para perceber o que foi o Movimento das Forças Armadas, o que foi a chegada depois de Álvaro Cunhal, ou quem era Mário Soares. Eram figuras que apareciam nos jornais nessa altura. Apareciam. Portanto, eram figuras que a maioria não conhecia.

E havia muitos colegas seus, incluindo o Tony, a empenharem-se na política, a interessarem-se por política.

Eu tinha estado em Coimbra. Cheguei a Coimbra com 17 anos e passei quatro anos em Coimbra. Não estive em repúblicas, mas estive em casas de estudantes, que como eu, alguns jogavam futebol e outros que só estudavam. Mas que tínhamos casas de cinco, seis, sete. Estive em várias casas, ia mudando, até que numa delas tinha alguém que do ponto de vista político era um homem de esquerda. E então punha-me a ouvir a Rádio Voz de Argel, que era alegre e dizia-se que a polícia e as patrulhas que iam fazendo as rondas pela cidade e pondo um copo de água em cima do rádio, aquilo fazia com que não fosse detetado. Era este mito que existia e a gente lá fazia. E ouvíamos, muitas vezes, a Rádio Voz de Argel, como havia a Rádio Moscovo, mas a Rádio Voz de Argel nós ouvíamos muitas vezes. E também estávamos, estando em Coimbra, a par das lutas académicas que iam sendo desencadeadas ali no início da década de 60. Eu chego em meados da década de 60 a Coimbra, passei lá quatro anos. Sem que a política estivesse enraizada, mas havia um conhecimento daquilo que era, até porque a própria académica estava dentro da academia e todos nós sabíamos das lutas que eram desencadeadas pela massa estudantil, que era a nível da Queima das Fitas, onde até aí, através dos diferentes cartazes, se podia fazer a crítica que passava no tal lápis

E é um pouquinho por isso que depois, em 74, você vai envolver no sindicato dos jogadores.

O sindicato, sabe, hoje muitos jogadores não sabem sequer o que era o direito de opção.

Exatamente.

Claro, o direito de opção é eu assinar pro “O Observador” e depois aparecer o “Expresso” dizendo: “Olha, vem ganhar pra aqui o dobro daquilo que ganhas no ‘O Observador’ ou o triplo.” Tu diz: “Não, estás aqui, és do Observador até que a lei mude.”

Os jogadores não podiam escolher outro clube.

Até que a lei mude. Ao assinar por um clube, eras propriedade desse clube, acabou-se. Terminava o teu contrato e tu continuavas, não tinhas outra hipótese senão continuar dentro do mesmo.

Isso foi uma grande luta durante o 75.

Certo. Houve, naturalmente, uma grande adesão por parte dos jogadores. Entretanto, há um homem muito importante para que o sindicato lance os seus estatutos, as suas bases, que foi o doutor Jorge Sampaio, com Simões, uma relação muito estreita que havia com Simões, que é um dos homens fundadores do sindicato. Doutor Jorge, não quero ferir susceptibilidades, e que se fez esse trabalho, esse caminho das pedras para que se virasse essa página, não só do direito à opção, mas o direito à opção foi a grande batalha que se travou para que o jogador... Mas veja, nós estamos num período ou numa década onde o circuito do dinheiro é curto, não havia agentes. Não havia agentes, por quê? Porque não havia transações, não havia dinheiro.

E em 74 também houve dificuldades financeiras nos clubes?

Houve.

Por exemplo, o Benfica teve dificuldades em 75.

Teve. Mas compreendo sempre. É natural que, nessa altura, os clubes grandes e os pequenos viviam daquilo que se pode dizer dos mecenas, de gente que vem bem na vida, com riqueza acumulada e que ajudaram. Veja, não é ainda do meu tempo, por exemplo, Maurice Vieira de Brito, naquele período de esplendor do Benfica europeu, e outros, muitos outros, e falo do Benfica, como pode transferir para o Sport e para o Porto. Depois fomos andando, e depois apareceram os períodos das bombas da gasolina, dos bingos, que eram fontes de rendimento dos clubes. Hoje raramente você encontra à frente de um clube o financiador.

Mas nessa altura ainda era assim, não é?

Claro, nessa altura e em outras alturas o futebol assentou muito nessa realidade.

E essas pessoas que viram-se em dificuldades em 74, 75 para continuar a apoiar os clubes, o que fizeram?

Sim, há ali o reajustar. Há só que reajustar algumas dificuldades próprias. Quem se teve que reajustar não foi só o futebol. Houve muitas outras áreas que tiveram que reajustar a um novo período.

Mas, por exemplo, em termos de rendimentos de um jogador de futebol profissional do Benfica, a situação depois de 74 e 75 melhorou, não melhorou, ficou na mesma, como é que diria?

Não houve muitas alterações em termos de melhorias de contratos. Os valores, naturalmente, aumentaram. Eu cheguei em 68.

O Toninho renovou precisamente em 74.

Até 81. Sim, mas quer saber uma coisa? Eu fiz o meu primeiro contrato de 68 a 71, e quando fui fazer o de 71 até 74, tiraram-me 25 contos em cada ano. Eu tinha pensado que tinha valorizado, e ainda me tiraram 25 contos em cada ano.

Mas depois, em 74?

Não, mas olha, se quer que diga, em 74, acho que nessa altura não me tiraram. Mas também não é um tempo bom para se poder renovar. Porque vivia-se essa situação. Honestamente, esta recordo-me, de 71 pra 74 Porque eu tinha entrado no serviço militar, vai fazer agora, no dia 6 de abril, 54 anos que entrei em Mafra. Isto em 70. Em 71 é quando eu renovo. O contrato estava no serviço militar, ainda com aquele espectro de ter que bater com a cabeça lá na guerra do Ultramar, mas que, como era oficial, como era tenente, não fui chamado porque tive uma boa classificação. Mas a seguir ao 25 de abril, estava para ser chamado para o curso de capitães. Quem não fosse nessa leva, iria depois, numa fase posterior, para o curso de capitães.

Mas acabou por não ir, não é? Acabou por não ser chamado.

Acabei por não ir, mas andei lá 39 meses.

Mas nessa altura era normal os futebolistas também serem chamados ao serviço militar, não é?

Era normal.

Tinham que cumprir e não havia nada a fazer.

Era.

Mesmo depois do 25 de Abril, há notícia de colegas seus de plantel que não podiam ir ao estágio por questões militares.

Sim, claro. Mas sabe que o pior é você estar numa guerra que ceifou tantas vidas, e que quando ela terminou, muitos daqueles que estavam a cumprir serviço militar, cumpriram-no, mas sem viverem com o espectro de ter que ir para uma guerra com a qual ninguém tinha nada a ver. O 25 de Abril, ao terminar, a guerra em Angola, connosco, e nos países de expressão portuguesa, todas as colónias, tudo isso terminou, e o serviço militar, os jogadores muitas vezes eram mobilizados, porque como sabe a grande maioria ou era soldado, ou cabo, ou sargento. O sargento foi ele, abriam-se as portas a que você encontrasse alguém que fosse no seu lugar. E então era paga uma determinada quantia, que era negociada com alguém que por X dinheiro ia no lugar.

Os clubes tratavam disso.

Mas alguns acabaram por ir. Estou-me a lembrar, por exemplo, do Céninho, que já morreu e que foi um grande jogador do Futebol do Porto. Muitas vezes pode não encontrar ninguém.

Os clubes ajudavam nisso?

Depende. Há dias estive com alguém que disse: "Eu paguei 25 e o clube pagou os outros 25." Mas outras vezes era o próprio jogador por si, ou o pai, que fazia isso. E até fora do futebol, fora de ser jogador de futebol, alguém com posses que poderia pagar para não ir o filho e ir alguém mais necessitado, que jogava a vida dele por dinheiro.

Vamos agora fazer uma pausa, voltamos depois do intervalo. Voltamos agora para a segunda parte da conversa com Tony. Toda a gente, em 74, 75, interessa-se pela política, pelos partidos. Achou que havia menos interesse pelo futebol nessa altura ou pensa que não?

Como sabe, Portugal era conhecido pelos três F, que era o futebol, fado e Fátima. Aliás, até se vivia um bocado aquela ideia de que o futebol que era o ópio do povo. Parecia que em Portugal só havia futebol e que o futebol é que era a causa maior do analfabetismo que havia.

Continuaram a ir aos estádios, as pessoas.

Naturalmente. Naquele tempo até era cinzento. Parfraseando alguém, nós vivíamos um Portugal a preto e branco.

Como a televisão.

Era cinzento, era um Portugal cinzento.

Na altura havia claques?

Não. No meu tempo não havia claques. E a média de jogos era 45 mil pessoas. Não havia claques, mas eles apoiavam, estavam lá sempre a apoiar. As claques devem ter começado com um sentido bom, de um amigo traz outro amigo, outra amiga. Mas só que depois aquilo começou a descambar para situações que hoje...

Por falar em violência, eu tinha aqui uma nota de um jogo do Benfica com o Olhanense, em que saiu

Saiu com a escolta militar, não foi? Como é que foi essa história?

É verdade. Eu lembro perfeitamente desse jogo em Alvalade. Árbitro Raul Nazaré, se for lá aos canhões está lá Raul Nazaré. E então nós ganhámos 1x0. Não é neste estádio, foi no Estádio Padinha. E então o balneário ficava a meio do campo e o autocarro não entrava, ficava à entrada do estádio. E então o jogo acabou e eu vinha com o Artur, o russo, o meu amigo russo que já cá não está. E o russo, o Artur, eu venho com ele e ele adianta-se um pouco e ele tinha assim um cabelo. Eu vi agarrado ele assim pelo cabelo.

Puxaram-lhe o cabelo.

E eu voltei para trás e estava ainda o Vítor Baptista comigo no balneário. Eu disse: "Não, pai, eu daqui não saio." Porque os árbitros também estavam a pedir uma carrinha militar.

Não era a polícia, era o exército.

Uma carrinha militar. E em Faro, eu como não saí, nem o Vítor, eles combinaram, então esperavam por nós em Faro. E quando a carrinha entra dentro do campo, eu, o Vítor e a equipa de arbitragem, metemo-nos dentro da carrinha e ao sair, aquilo faz ali um T, e quando faz esse T, começam a empurrar a carrinha, a abanar a carrinha e eu só dizia assim, num vernáculo, quer dizer, a dizer: "Olha, tu sabes o que a gente está aqui a passar? Eu quero ver se isso ficará tudo escrito." Porque tive medo, porque a carrinha, aquelas carrinhas fracas da tropa, e aquilo a empurrar para um lado e para o outro, até que nós saímos e safamo-nos porque o autocarro do Benfica estava à nossa espera.

Mas o que é que eles queriam?

Nem o Artur tinha feito nada. Sabe que o futebol tem também o sentimento da frustração. E tu podes sair frustrado do jogo e depois tens as reações, como esta, algumas vezes.

Uma das primeiras mudanças, precisamente no futebol, foi uma ameaça dos árbitros de fazerem greve se não houvesse entrada de elementos das Forças Armadas no campo para garantir a segurança e também se não vedassem os campos todos, também na sequência, aliás, daquilo que estava a dizer há bocadinho.

Quando você solta as suas amarras, porque a grande batalha dos jogadores foi o direito de opção. As salas onde nós fazíamos as reuniões, elas abarrotaram. Quando o direito de opção foi atingido, as reuniões da direção ficaram limitadas àqueles que faziam parte da direção.

O Toni tinha um papel.

Aquilo que era o objetivo maior foi conquistado.

O Toni tinha um papel muito importante no sindicato nessa altura, era um dos vice-presidentes eleitos. Pelo menos aparece nesta fotografia.

Sabe que para dar corpo e para dar força, há nomes que dão força. Houve gente de menos expressão que foram muito mais importantes naquilo que foi o crescimento do sindicato.

Nessa altura, um jogador do Oriental, era o Quim, deu uma entrevista até ao jornal "A Bola" a dizer que ganhava 4 contos e 500 por mês, mais 20 contos de luvas por ano, mas que a maioria dos colegas do plantel dele até ganhavam três contos e nem conseguiam pagar a renda ao dia oito. Portanto, consegues descrever um bocadinho o ambiente dessa reunião de sindicato?

Estes abafos que cada um vai tendo ao longo da vida. Na altura, havia um supermercado que era o Paga Pouco, não sei se ainda há hoje. E eu às vezes ia, que era a sucursal, era um bocado a sucursal do Benfica na altura, porque nós dizíamos sempre: "Nós estamos a receber pouco." E esses montantes, com certeza que se os transferir para aquilo que era um empregado normal, era capaz de não ser metade desses valores que aí estavam. Portanto, temos que sempre relativizar este tipo e até às vezes o momento em que nós temos esse tipo de abafos.

Mas, por exemplo, dentro de um clube como o Benfica, tendo o Toni esse papel, essa formação mais politizada e sindicalizada, mudou a dinâmica de negociação de prémios e de salários, por exemplo, entre a equipa?

O que passou a ter foi o apoio jurídico, que era aquilo que não existia para que os contratos fossem feitos para ser cumpridos dentro da Penso que houve aí uma melhoria significativa.

Passou a haver cláusulas diferentes nos contratos, por exemplo?

O clausurado, por exemplo, que eu tinha. Depois nós temos que ter também a flexibilidade. Eu vou buscar o meu exemplo. Tinha um tio meu que era advogado e foi ele que fez, elaborou o meu contrato. E há uma palavra que eu nunca mais esqueci, que era assim: o montante que eu tinha que receber seria integral e por uma só vez. E este integral e por uma só vez não veio a acontecer, porque não era possível ter esse...

Disponibilidade financeira para isso.

Não era um balde grande. Na altura aquilo ficou lavrado, mas não foi cumprido, mas porque também da minha parte houve essa flexibilidade para perceber. Eu desde que cheguei ao Benfica me lembro já da crise que os clubes viviam. Quando hoje a gente elenca as dívidas que os clubes têm, nessa altura já tinham também. Só que eu como vinha da académica e pensava que aquilo era à vara larga. Não era.

O presidente do Benfica, na altura, deu uma entrevista a dizer que podia acabar a profissão de futebolista se fossem satisfeitas todas as reivindicações dos jogadores, precisamente por falta de dinheiro para lhes pagar. Isto logo a seguir, em 74. Mas começou aqui uma grande tensão entre os clubes e os jogadores, de forma organizada. Os clubes também se organizaram com a liga de clubes.

Exatamente. O que é que depois os clubes fizeram? Para combater o direito de opção, o que eles fizeram? O A não comprou o B, o B não comprou o C, o C não comprou o D. Portanto, o Benfica não comprou o Porto, o Porto não comprou o Sporting. Eles fizeram um direito de opção indireto.

Acabou por limitar os jogadores.

Depois havia os clubes mais pequenos, que não pagavam aquilo que se pagava. Mas eu sinto que para tudo, acho que depois se encontrou um ponto de equilíbrio. Nem tanto meter a faca nos clubes, e eles também perceberem que aquilo era algo que não estava correto. Aliás, tivemos duas situações que eu me lembro nessa altura, embora depois houve outros que tivessem saído, como foi o caso do Humberto, que foi para o Paris Saint-Germain, o Alves, salvo erro, o Jordão também. Mas Eusébio, por exemplo, e Simões. Simões teve um contrato para ir para o Boca Juniors, num jogo particular feito pelo Benfica, em Nova York. O Simões acabou com o jogo e teve uma proposta para ir para o Boca Juniors. Aliás, foi o doutor Jorge Sampaio que foi advogado dele, mas da mesma forma que o Eusébio podia ter feito, naquela altura, o contrato da vida dele para ir para o Inter, que era na altura um dos maiores talvez da Europa.

Havia também alguns jogadores estrangeiros importantes cá. O Covilha, o Geraldo.

Sim. Nesse período, é um período onde o Benfica preservou até quase ao final dessa década de 70, preservou sempre o jogar com os jogadores portugueses, considerando, naturalmente, que nessa altura ainda só houve a independência de Angola e Moçambique em 75, salvo erro. E o Benfica tinha ali também o seu alforre. Não só o Benfica, mas tinha. E manteve sempre, foi fiel ao ter jogador português.

Nessa altura, o Benfica tinha um treinador jugoslavo, não era? O Pavic.

Sim, Milorad Pavic.

Eu tenho aqui uma nota de uma entrevista que ele terá dado em junho de 75, quando vai embora. Ele diz o seguinte: "Já passei por uma revolução terrível na Jugoslávia, não quero passar por outra em Portugal."

Pois, só que a dele foi pior. A nossa, não.

Mas lembra-se de falar com ele sobre isso?

O Pavic tinha uma filosofia de vida, sempre com o seu blazer, e ele já tinha estado a treinar o Atlético Bilbao. Ele punha música durante o treino, nos alto-falantes.

Que música era?

Sei que punha música. Por acaso no nosso não pôs. Mas isto para dizer que ele era um bon vivant. Sou para ver que era um bon vivant e naturalmente que viveu, deve ser aquele período do título. É que o nosso foram dados, nem sei se uma mão chega para os tiros que foram dados. Portanto, a Revolução dos Cravos e ali como teve poucos cravos.

Ali deve ter sido balas mesmo.

Por isso é que ele teve essa frase.

Mas ele estava com medo.

Não, ele vai-se embora com o diálogo. Ele chega.

Chega em 74, no verão. Vai para a Serra da Estrela convosco?

Sim, vai para a Serra. Nós fizemos com que os treinos não começassem sempre no mesmo sítio, e fomos para a Serra da Estrela.

Isso foi uma opção dos jogadores, de alguma maneira?

Não, não é opção. Aliás, viste que mais tarde, estás a falar em 70, mais tarde vê onde é que as equipas passaram a fazer os treinos.

Eram as traseiras.

Muito bem. Nós não fomos para as traseiras, mas fomos fazer um trabalho de altitude naquela altura. Nós treinávamos no Santos Pinto, cá embaixo, de manhã, que era plano, e depois lá em cima, na parte da tarde, fazíamos rampas, que aquilo era de 400 metros, que aquilo era a tortura do processo.

Este Benfica de 74, 75 tinha nomes popularíssimos, além do próprio Tony, Humberto Coelho, Eusébio ainda, Vítor Batista, Jordão. Havia alguma séria dos partidos políticos para tentar conquistar o apoio destas figuras mais populares e conhecidas?

Houve uma figura que inclusive chegou a ser deputado, foi o Simões, mas foi deputado pelo CDS, na assembleia, penso que representando o círculo fora da Europa. E claro, nessa altura ser CDS era conotação fortíssima. Vivia-se o tempo ou se era aquilo que se convenciona chamar a esquerda. O balneário é uma microsociedade, meus amigos, e nela tem tudo aquilo que existe cá fora, amizade, inveja, solidariedade. Aquilo não é um convento, não é só tudo virtude, mas há coisas que diz-se que o que se passa em Vegas, fica em Vegas. E aquilo que se passa dentro de um balneário, fica ali, mas é ali que se cria laços muito fortes para o jogo e alguns até para a vida. Nunca fizemos comícios nenhuns dentro. Agora, o que por acaso fizemos, e foi fruto dessa leva que passou, não quero dizer moda, que foi eleições. Eleições para o capitão de equipa.

Foi uma novidade.

É verdade. Fizemos isso por duas vezes.

Logo em 74 e em 75?

Não, agora já não posso dizer se aquilo era feito anualmente, mas sei que a primeira vez fui eu o eleito.

E não fez campanha.

Eleito democrática e sem campanha, é verdade.

Não havia discussões políticas dentro do balneário. Mas ter um colega de balneário, candidato a deputado, muda um bocadinho isso, ou não? Não se meteram com ele ou ele não se tentou explicar o que é que ia fazer?

O Simões nessa altura, penso que está no fim. Penso que se me perguntares a mim, se eu me lembrava, na altura fiquei a saber, por exemplo, sabia do Artur Jorge, que era do MDP-CDE. E de Coimbra, eu não vinha politizado, mas trazia algumas luzes. Aliás, inclusive, até cheguei um dia. Já agora, para lhe dizer uma coisa. Há bocadinho não foi totalmente verdadeiro, para lhe dizer que um dia, isto não havia telemóveis, e recebo uma chamada na cabine, e então alguém do outro lado dizia: "Olhe, daqui é fulano", e esse fulano queria para fazer parte das listas para as autárquicas de Lisboa. Eu fui a uma reunião, e o meu nome vinha em 13º, salvo erro. A Hermínia Silva estava à minha frente. Eu estava fora da hipótese de poder ser.

Mas queriam que apostasse a sua popularidade.

Vou dizer Só uma vez, porque tinha uma admiração muito grande por ele, e foi meu professor de Direito Constitucional em Coimbra. Ali quem me falou foi o doutor Almeida Santos, que era de Coimbra, académico. Não sei se ele já era o presidente da Assembleia da República, com o qual eu e o capitão Mário Wilson tínhamos uma relação muito boa, de algumas vezes almoçarmos juntos. E aquele a quem eu, mas fora das instalações do estádio, pelo respeito e pela admiração que eu tinha por ele, foi o doutor Lucas Pires. Foi meu professor de Direito Constitucional em Coimbra, que eu ainda carreguei os livros de Direito na Universidade de Coimbra, frequentei todo o primeiro ano de Direito, e para o Parlamento Europeu. Fui a alguns comícios, mais tarde, de pessoas de quem eu gostava. O meu ídolo era o doutor Mário Soares. No início.

Deixou aqui duas datas que tínhamos aqui uma nota para terminar a conversa. Uma tinha a ver com o 28 de setembro de 74. Houve um Sporting-Guimarães e parece que o Tony assinou um comunicado do Sindicato dos Jogadores, por ter havido manifestantes que vieram nos autocarros dos adeptos para Lisboa e que ao invés de virem para o jogo, foram para se juntar à manifestação da maioria silenciosa. Isto era na altura precisamente do Spinola. Tem ideia disto? Lembra-se?

E o que é que eu fiz?

Assinou um comunicado, no fundo, contra esta infiltração de manifestantes nos autocarros de adeptos.

Se foi assim, acho que não estou arrependido.

Mas não tem memória disto? Foram coisas do tempo.

Da mesma forma que, honestamente, há uma fase, que é quando nós estamos a falar de unicidade sindical, aí é que eu meti a pata na poça. Fiz aquilo que não devia ter feito, que foi entrar com cartazes no campo.

Num jogo com o Farense, não é?

Não sei contra quem foi.

Mas arrepende-se disso? O que é que aconteceu?

Acho que nessa altura devia ter pensado mais, mas acabou-se. Estas coisas, falar nisto, nem aquece, nem arrefece. Foi feito. Há fotografias, há documentos de entrar em campo. Lá está.

Mas quem é que lhe falou disso? Quem é que lhe falou dessa ideia? Como é que isso surgiu? Lembra-se, não?

Não. Não posso precisar, mas sei que há fotografias e que de vez em quando sai, não sei quantos.

E depois chamaram-lhe à atenção?

Não. Lá está, há bocadinho quando eu disse que a política não entrou dentro do balneário, afinal há aqui algumas coisas que aparecem. Afinal, você esteve aqui a dizer que a política não entrou dentro do balneário, depois você entrou em campo com os panfletos e depois andou a fazer campanha pelo professor Lucas Pires, e depois fez parte das listas às autárquicas. Sabe que o futebol e a política, os caminhos são paralelos, mas depois eles misturam-se. Mas mistura-se mais a política com o futebol e o futebol com a política. Os dois. Pronto.

Muito bem. Tony, foi um gosto tê-lo neste podcast.

Então jogámos rápido para acabar depressa, não foi?

Muito obrigado.

Foi um gosto ter feito este percurso e lembrar aqui alguns momentos que marcam a história do país, alguns que marcam também a fase da evolução que o futebol teve nestes 50 anos.

O gosto é nosso e seguramente dos ouvintes também. Um abraço.

Muito obrigado. Chegamos assim ao fim deste episódio do programa "A Vida em Revolução". Voltamos na próxima semana.

Até para a semana.