Até chegar ao final desta newsletter, várias pessoas vão cometer suicídio.
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Em abril de 2024 publicámos no Observador este artigo de opinião assinado por Christopher Sigur, Marisa Filipe e Inês Cerejo, à época peticionários para a criação de uma Linha de Apoio à Prevenção do Suicídio em Portugal. “O suicídio marca profundamente os familiares e os amigos de quem morre desta forma, unindo-nos numa dor indizível e inimaginável”, lia-se na crónica. “A perda de um irmão, apesar de já terem passado mais de trinta anos, e a perda de um amigo muito próximo, em 2023, abalou o nosso mundo que não retornará jamais ao que já foi. Os sentimentos de impotência, culpa e perplexidade continuam tão presentes ontem, como hoje.” |
Christopher, Marisa e Inês são sobreviventes de morte por suicídio, o nome que se dá a todos aqueles que perderam um familiar ou amigo próximo. São as pessoas que ficam e que sofrem depois da morte de alguém — já todos fomos esse alguém alguma vez na vida — mas com uma particularidade: essa morte foi provocada pela própria pessoa. |
Todos os dias há, em Portugal, três novos conjuntos de pessoas que passam a ser sobreviventes de morte por suicídio. Pelo menos. Três suicídios por dia no país é o número devolvido pelas estatísticas, embora se considere que possa pecar por defeito, uma vez que os registos nem sempre são bem feitos. E há outros dois números que impressionam. “Vários estudos indicam que o número de tentativas de suicídio é cerca de 25 vezes superior ao número de suicídios”, lê-se neste documento da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). E a cada 40 segundos há uma pessoa que se suicida no mundo. |
Os algarismos distantes dizem-nos que há oitocentos mil suicícios por ano no mundo inteiro. Os algarismos próximos dizem-nos que, desde que começou a ler este texto, duas pessoas tiraram a própria vida. Acredite, eu fiz as contas várias vezes e li estes quatro parágrafos a diferentes velocidades: mais segundo, menos segundo, demorou um minuto e vinte segundos a chegar aqui. O tempo para duas pessoas se terem suicidado. Talvez no Brasil, talvez nos EUA, talvez na China, talvez em Espanha. Talvez no seu prédio. |
A linha pública telefónica de prevenção do suicício foi entretanto criada, lançada a 10 de setembro de 2025 (Dia Mundial da Prevenção do Suicídio) e está desde então disponível através do número 1411. No espaço de um ano, garantem os responsáveis, foram atendidas cerca de 25 mil chamadas. |
Antes do artigo de Christopher, Marisa e Inês já tínhamos publicado, em fevereiro de 2024, esta crónica da médica intensivista Ana Isabel Pedroso, sobre a saúde mental dos profissionais de emergência depois de se depararem com casos de suicídio. No dia em que a linha foi lançada publicámos este artigo assinado por Alexandra Antunes, vice-presidente da OPP, que lembrava que “a evidência científica demonstra que a prevenção salva vidas e tem um elevado retorno social e económico”. Para a psicóloga, “investir em programas de prevenção universais, em escolas e comunidades, é prioritário.” |
Por outras palavras: o suicício é, em muitos casos, evitável. |
Nas vésperas do Dia Mundial Mundial de Saúde Mental, que se celebra no próximo sábado, 10 de outubro, esta é (mais) uma oportunidade para lembrar que uma das formas mais eficazes para lidar com o tema é falar. Sim, falar sobre o assunto. Embora seja carregado de estigma e o preconceito e a vergonha nos impeçam de dar passos importantes, falar de suicício com alguém pode ser uma forma de ajudar essa pessoa a dar um primeiro passo na procura de ajuda. O que a investigação científica assegura é que abordar o tema com alguém não constitui um risco de ideação suicida. Não é uma forma de “dar ideias” a alguém. Pelo contrário, o que os estudos indicam é que falar sobre o tema, oferecer ajuda, escutar, tentar encaminhar para um profissional de saúde é a forma mais eficaz de lidar com o assunto. |
Pode ser essa a forma mais importante de ajudar alguém. |
Entretanto, temos uma rubrica nova no Mental, a secção do Observdor totalmente dedicada à saúde mental. Chama-se “Manual de Instruções para Humanos” e é conduzida por Sara Antunes de Oliveira e Gustavo Jesus, a mesma dupla que, durante meses, nos trouxe a série de sucesso “O Médico dos Malucos e outros Mitos sobre Saúde Mental“. Agora, todas as semanas, a jornalista e o psiquiatra tentarão ajudar — através de conversas, trocas de ideias, sugestões e muitas dúvidas esclarecidas — numa tarefa ambiciosa mas muito desafiante: “Como podemos ter vidas menos ansiosas, menos deprimidas e mais felizes?” |
O primeiro episódio, sobre stress, foi ontem para o ar na Rádio Observador e ficou disponível no nosso site e nas plataformas habituais de podcast. Pode ouvir aqui em áudio ou ver aqui em vídeo. A menos que a atualidade nos lance noutro caminho, a próxima newsletter será justamente sobre o novo programa e o que podem os ouvintes, espectadores e leitores do Observador esperar sobre este “Manual de Instruções para Humanos“. |
Apoio emocional e prevenção do suicídio |
Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico (24/7)
Tel.: 1411 |
SOS Voz Amiga (entre as 16 e as 24h00)
Tel.: 21 354 45 45
Tel.: 91 280 26 69
Tel.: 96 352 46 60 |
Conversa Amiga (das 15h e às 22)
Tel.: 808 237 327
Tel.: 210 027 159 |
SOS Estudante (das 20h à 01h)
Tel.: 239 48 40 20 |
Linha LUA (das 21h à 01h)
Tel.: 800 208 448 |
Telefone da Esperança (das 20h às 23h)
Tel.: 22 208 07 07 |
Telefone da Amizade (das 20h às 23h)
Tel.: 22 832 35 35 |
Voz de Apoio (das 21h às 24h)
Tel.: 22 550 60 70 |
SOS Adolescente
Tel.: 800 237 327 |