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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Paulo, tu tens mesmo ar de quem vai responder muito bem esta pergunta.
Então diz lá.
Que diferença pode fazer um acordo pontual entre a AD e o PS?
Ainda bem que fazes a pergunta. Pode fazer toda a diferença. Pode até ter implicações importantes, nomeadamente na aprovação ou na discussão do Orçamento de Estado, que já está quase aí à porta. Pelo menos aos olhos de Ferro Rodrigues, que em duas semanas já teve duas posições opostas sobre esta matéria. Há 15 dias, o ex-líder do PS defendeu que o PS anunciasse já o voto contra o próximo Orçamento do Estado, sem o ver, sequer, que é para ficar tudo claro. E por que é que Ferro Rodrigues na altura defendeu isso? Porque, dizia ele, há uma aproximação permanente, a expressão é do próprio, entre a AD e o Chega em matérias de regime. Isso foi há duas semanas e no final da semana passada, Ferro Rodrigues mudou de posição. Depois do PS, cá está o tal acordo pontual, depois do PS ter acordado com o governo e viabilizado a nova prestação social única, Ferro Rodrigues vem agora dizer que mudou o curso desta sessão legislativa e que o PS tem agora todas as condições para esperar pelo Orçamento de Estado e não precisa de se precipitar em denunciar já o seu voto. Ainda bem que não o fez antes, senão tinha-se precipitado. Portanto, trata-se basicamente aqui de andar um bocadinho ao sabor da espuma dos dias, para tomar decisões que têm fortes implicações, como será um eventual chumbo do Orçamento de Estado.
Bruno, e quem namora com o PSD?
O PS diz, o PS garante, o PS jura por tudo o que é sagrado, que é o Chega. José Luís Carneiro vê um acordo no meio de beijos e amuos, que é como quem diz, no meio de idílios e arrufos entre o governo e o Chega. O PS, quando negoceia com o governo ou quando aprova as propostas do governo, fá-lo com todo o sentido de decência e honradamente, sem dar as mãos, sem beijinhos furtivos. É fiável, mas não quer confiança nenhuma com o governo. Já André Ventura diz que há a ver um caso é entre o governo e o PS, porque o Chega votou contra a reforma laboral, porque foi o PS a estender a mão ao governo na PSU e porque tem sido o PS a garantir a aprovação dos orçamentos do PSD. O PS acusa o governo de namorar com o Chega, o Chega diz que o noivado é entre PSD e PS, que até vai lá a casa e que já foi apresentado aos pais. Eu acho que alguém ainda se vai magoar com este triângulo amoroso, de arestas muito aguçadas.
E pode ser mesmo o país a magoar-se.
Isso é mais provável.
Agora, Paulo, uma outra questão, que também é muito boa pra ti.
Está cheio de outras questões para mim, fantástico.
É, nós não dormimos a pensar nisto.
Nós passamos o fim de semana a pensar nestas coisas.
E já vir uma semana a começar assim é fantástico.
É. Então vamos lá perceber. Com o aumento da imigração, estamos mais ricos ou mais pobres?
Ora bem, como dirá um bom economista, depende. Não é?
Obrigada. Está bem. Bruno.
Podemos à próxima.
Os economistas têm sempre o: "Por um lado, qualquer coisa, mas por outro..." Bom, mas vamos lá. Provavelmente, em conjunto, quando olhar a floresta, se quisermos, estamos todos um bocadinho mais ricos. Mas depois cada um de nós pode estar mais pobre. Bom, confuso?
Nada.
Vamos lá por partes, então.
É bom começares a semana assim tão clarividente.
Obrigado. Sei que sempre posso contar convosco. Vamos lá por partes. Sabemos agora que a população do país é de 11,6 milhões e não os 10 milhões e qualquer coisa que nos habituamos a ter de cabeça como número de referência há muito tempo. Por um lado, esse aumento da população vai levar o INE a rever em alta os números do PIB, isto é, aquilo que é a produção do país vai ser revisto em alta seguramente nos últimos dois ou três anos, porque uma parte do cálculo da produção do país é feito precisamente por dedução dos dados como a população e o número de trabalhadores. Portanto, a pizza pode ficar maior, um bocadinho maior a este nível. Mas, por outro lado, cá está o economista com o outro lado, como somos agora muitos mais, há aqui um aumento substancial da população, a cada um vai caber uma fatia da pizza que é mais pequena. A pizza cresce um bocadinho, mas como é dividido por muitos mais, a fatia por cada um fica mais pequena.
A pizza não cresce tanto quanto o número de cabeças per capita.
Exatamente, é isso mesmo. E aqui estamos a falar, de facto, do PIB per capita, quando se divide a produção do país por cada um dos que cá vivem. Portanto, provavelmente, cá está, o aumento do PIB não vai compensar a subida dos 6,5% na população. Portanto, e resumindo isto, com toda a clarividência, como vocês dizem, com elevada probabilidade, o país está melhor, mas cada um de nós está estatisticamente pior. Mas atenção, só em março do próximo ano é que nós teremos esses dados oficiais, porque o INE está a refazer contas e estas contas não são fáceis.
Bruno, o Livre livrou-se de Rui Tavares?
Ou será que Rui Tavares, cansado de ser o porta-voz do partido, é que se livrou do Livre? De um ponto de vista objetivo, não se pode dizer que o partido seja um projeto unipessoal, ainda seja um projeto unipessoal, porque ao fim de 12 anos tem um grupo parlamentar e houve outras figuras além de Tavares que se destacaram, como Isabel Mendes Lopes ou Jorge Pinto. Já de um ponto de vista mais subjetivo, o Livre é e vai continuar a ser, quase com toda a certeza, o brinquedo do Rui Tavares, o projeto político que ele gizou e que se confunde com a sua personalidade política. É, a uma outra escala e no outro lado do espectro político, um partido tão unipessoal quanto o Chega. E da mesma forma que ninguém imagina o Chega sem Ventura, imaginar o Livre sem Rui Tavares na linha da frente é um exercício difícil, que requer muita imaginação. O futuro pós-Rui Tavares enquanto líder arrisca-se a ser difícil, mas talvez até por isso mesmo o adeus seja tão importante para o partido. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.