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A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta, essa.

E esta manhã falamos de dilemas pelo Seguro, o partido dos nulos, o mistério dos votos perdidos, mas começamos com lulas ou polvo, até pode ser um naco de carne, qualquer coisa sem espinhas.

Sem espinhas.

Sem espinhas. É o caso de Aguiar Branco e da eleição, não é? Correu bem.

Lindamente. Eu devo dizer que eu escrevi isto depois da eleição de Aguiar Branco, sem saber o que vinha aí.

Escreveste antes da eleição.

Antes. Não, depois da eleição, antes dos outros desenvolvimentos, mas já lá vamos.

Já lá vamos.

Uma coisa de cada vez.

Antes das reações. Depois da eleição e antes das reações.

Não, o que aconteceu depois vem dar razão àquilo que está aqui no final, porque depois da eleição de Aguiar Branco, até parece que vivíamos num país diferente. Os protagonistas eram em larga medida os mesmos do ano passado, embora com Pedro Nuno Santos agora numa condição de figurante. A coligação vencedora das eleições foi a mesma, o candidato até era o mesmo à presidência da Assembleia da República, mas muita coisa mudou com estas novas eleições. O Chega tornou-se a segunda força no Parlamento. As negociações decorreram sem golpes de teatro e José Pedro Aguiar Branco tinha agora como trunfo um ano de exercício da função. Não houve telenovela na eleição do Presidente da Assembleia da República, não houve reviravoltas dramáticas, adiamento para um segundo dia, combinações secretas e arranjos esquisitos de natureza salomónica para cada um mostrar a sua força. A eleição do Presidente da Assembleia da República, com 202 votos a favor, até poderia ser um bom prenúncio, um sinal de uma legislatura mais pacífica e duradoura, mas neste país tudo muda num instante. É aproveitar o consenso enquanto ele existe, porque amanhã não se sabe o que acontecerá. E não foi preciso chegar ao dia seguinte.

Com o fim do dia, não é?

De facto, nem tudo correu dessa forma. O chumbo pau para lugares parlamentares é um prato que se serve frio.

Para lugares parlamentares ou, como costuma dizer o próprio partido Chega, para tachos, neste caso, tachos parlamentares. Se José Pedro Aguiar Branco foi eleito, de facto, sem espinhas, como diz o Bruno, por larguíssima margem para presidente da Assembleia da República, quando olhamos para a bancada do lado, vemos que Diogo Pacheco Amorim falhou a eleição como vice da Assembleia da República e Filipe Melo falhou também para secretário da Mesa. São precisos 116 votos para ser eleito, metade mais um, se quisermos, maioria. E Pacheco Amorim teve uns caprichosos 115, portanto ficou um voto. E Filipe Melo, 113.

Isto até parece que foi planeado.

Parece que há aqui mão de engenheiro ou uma coisa qualquer com muita precisão. Filipe Melo ficou com 112.

Era o número de emergência, não sei.

Era o número de emergência. A maioria de António Guterres foi 115, quando o Parlamento esteve empatado. André Ventura, que teria tudo combinado com a AD, não gostou, obviamente. Veio logo falar de traição rasteira, de facada pelas costas, são expressões do próprio líder do Chega. Houve logo no Parlamento quem recordasse, claro, o que se passou há um ano, quando Aguiar Branco falhou a primeira eleição.

E a segunda e a terceira.

E a segunda e a terceira, claro. O Chega roeu a corda ali no conforto de voto secreto, e os seus deputados não votaram no deputado do PSD. Isso foi há um ano. Nunca saberemos agora quem recusou votar nos nomes do Chega, pode ter sido qualquer bancada, até sugere-se a própria bancada do partido, num gesto arriscado. Mas enfim, vamos ver, nestas coisas raramente há coincidências.

E antes que se mude de assunto, Bruno, será que vamos resolver o problema dos votos nulos nos círculos da imigração?

Maria João, sempre que temos eleições, não há nenhum partido que não se diga preocupado com o número de votos nulos que chegam da diáspora. Só nestas eleições foram 113 mil, e mesmo assim uma redução relativamente às eleições de 2024. E o grande problema é que estes votos são nulos, não porque os eleitores se ponham a rabiscar os boletins ou ponham duas ou três cruzinhas, mas por causa das regras logísticas que determinam que o boletim de voto seja introduzido num envelope verde, que por sua vez é introduzido num envelope branco, onde deverá estar uma fotocópia do documento de identificação do eleitor.

Mas fora do envelope verde.

Exatamente. Isto não é fácil. Isto que parece, de facto, uma matriosca, levanta algumas dificuldades e a culpa não é certamente dos eleitores, porque se temos 100 mil votos nulos, é melhor procurar as falhas no processo, porque é mais fácil corrigir aquilo que está mal neste processo do que mudar de eleitores. Esses vão ser os mesmos. Outro problema é que a preocupação manifestada logo após as eleições, enquanto ainda se procede à contagem e depois de conhecidos os resultados, dá rapidamente lugar a uma amnésia geral até às próximas eleições. Pode ser que desta vez, nesta legislatura, haja mesmo vontade de mudar.

Pode ser. Vamos ver. Mas ontem o dia foi mesmo estonteante. António José Seguro vai mesmo candidatar-se à Presidência da República, ficámos ontem a saber. Agora, Paulo, isto é mais um problema para o PS?

É um problema, pelo menos para uma parte do PS. Para a ala costista que liderou o partido nos últimos 10 anos e que basicamente, em bom português, não se porta seguro, nem como olho de tomate, como se costuma dizer. O que é certo é que o candidato vai mesmo avançar, deixa mais um problema à futura direção: apoiar ou não apoiar Seguro? Se o PS o fizer, não terá o apoio de uma parte do partido. Isso parece evidente. Se apoiar outro eventual candidato da área socialista, que pode ser, por exemplo, António Vitorino, não sabemos, está a dividir mais uma vez o eleitorado socialista, coisa que já aconteceu em eleições passadas. E se não apoiar ninguém, não indicar, os partidos não são obrigados, obviamente, a indicar o voto a ninguém, o PS volta também a faltar à chamada de uma eleição que não vence há 25 anos. Portanto, é um enorme dilema, sem uma solução que seja razoável. A vida do PS não anda nada fácil. A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta, essa.