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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

E por falar em antecipação, Bruno, para onde vai o Bloco?

Para onde vai? Vai para o fundo. Neste momento, o Bloco é um bloco de cimento a ir ao fundo. Mariana Mortágua traz suas responsabilidades, liderou o partido, mas seria um erro atribuir todos os problemas do partido a esta liderança. E sem eleições partidárias no horizonte, o próximo líder, seja ele quem for, terá de apostar num trabalho de base, porque não vai ter esse indicador, esse barômetro dos resultados eleitorais. Será um trabalho ingrato, de desgaste, para recorrer a um lugar comum. Será uma travessia no deserto, numa altura em que a esquerda, no seu todo, enfrenta uma crise, em que o único partido que ainda parece escapar é aquele que, em parte, ocupa o espaço eleitoral do Bloco, que é o Livre. A questão será apostar nos mesmos de sempre, manter a mesma linha ou apostar numa cara desconhecida dos portugueses, ir ainda mais para a esquerda na tentativa de captar movimentos inorgânicos ou apostar numa linha mais social-democrata. Não nos esqueçamos, Catarina Martins caracterizou assim o partido.

Foi aqui, numa entrevista aqui no 1+1.

Exatamente. São muitos os dilemas que o Bloco enfrenta e não tem muito tempo para os resolver.

Veremos como correrá essa travessia. E Bruno, vamos ter segunda volta nas presidenciais?

Nas presidenciais do benfiquistão, que é uma nação.

Uma pessoa já fica baralhada com tantas eleições.

Não sabemos se nas presidenciais vai haver segunda volta. Nas presidenciais do Benfica vai haver mesmo segunda volta.

E se as sondagens forem tão corretas nestas presidenciais como nas outras, ui.

Vamos ver. Se se surpreenderem mesmo, até podemos ter alguém a vencer à primeira volta. Não é uma surpresa haver uma segunda volta, mas surpreendente foi a vantagem alcançada por Rui Costa, atual presidente, quando se esperava uma eleição mais renhida entre o incumbente e Noronha Lopes. Rui Costa parte assim com uma vantagem, pelo menos psicológica, para esta segunda volta. Noronha Lopes pode ter aqui perdido algum do gás que vinha demonstrando na reta final das eleições. Mas atenção, a afluência dificilmente será da mesma ordem. Houve 85 mil benfiquistas a votar. Mesmo que haja uma afluência grande.

Não estás muito otimista.

Não é otimista. É difícil levar novamente 85 mil eleitores benfiquistas sócios às urnas. E isso pode alterar muito o jogo, e pode alterar a favor de qualquer um deles. Essa será a esperança de Noronha Lopes, porque olhando para a votação desta primeira volta, para ultrapassar Rui Costa, teria de ir buscar quase todos os votos das outras listas, que agora não estarão aí.

Mas também os apoiantes de Rui Costa tinham que ir todos votar outra vez.

Tinham que ir, mas a verdade é que nas eleições de 2021, nas anteriores, Rui Costa teve praticamente o mesmo número de votantes, não de votos. Foi 32 mil na altura e agora foi 33 mil, ao contrário. Portanto, significa que tem ali uma base muito fiel que vai votar, aparentemente, seja em que circunstâncias for. Mas estas eleições também vieram provar que é nas urnas, e não nas sondagens, que tudo se decide.

Continuando a falar de eleições, agora nos Estados Unidos, em 2028 vamos ter uma reedição das eleições do ano passado.

É, possivelmente. Foi esta a resposta de Kamala Harris, em resposta a uma pergunta da BBC, se poderá ser a primeira mulher a tornar-se presidente da América. Isto significa que a antiga vice-presidente de Joe Biden estará disponível para uma nova candidatura, depois daquele processo um pouco em cima do joelho, que a conduziu à derrota contra Donald Trump. Mas o que é mais importante, até do que esta possibilidade de Kamala Harris voltar a ser candidata, é a possibilidade de Trump ser novamente candidato, o que até agora não é permitido pela Constituição, que limita a dois mandatos presidenciais consecutivos ou não. O antigo estratega de Trump e da nova direita norte-americana e mundial, dir-se-ia, Steve Bannon, já veio dizer que Trump vai mesmo ser candidato. Diz que vão saber como, mas estará na calha para se candidatar. Ainda não sabemos como é que isso poderá acontecer, porque até o momento não é permitido, mas vivemos num tempo de acontecimentos estranhos e devíamos estar preparados.

O Dia da Marmota. Não é? Não é da marmota?

Da marmota. Vivemos tempos muito estranhos e ninguém ficaria surpreendido se Trump voltasse a ser candidato.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer